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deu, tudo bem…

4 04UTC junho 04UTC 2009

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

PEÇA TEATRAL

 

 

“ DEU, TUDO BEM “

 

 

AUTOR: SAMUEL R. KROSCHINSKI

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                      DADOS BIOGRÁFICOS

 

 

 

 

 

                          Samuel R. Kroschinski é escritor, autor do livro “ BARRIGA: UM MUNDO FEMININO, o qual está a venda nas livrarias Curitiba.

                          Samuel R. Kroschinski já teve “ ESTÓRIAS EM QUADRINHOS “ e “ CONTOS INFANTIS “ publicados no jornal O Estado do Paraná. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                      

 

 

 

Tel.: ( 041 )  3286- 9285

 

End: Rua Dês. Antonio de Paula, 92

Boqueirão- Curitiba- Paraná

CEP: 81730- 380

 

 

 

 

 

 

CENÁRIO: Um apartamento onde aparece um cômodo, a sala, com janela ( podendo ser painel ).

 

 

 

Sofá

Jornal

abridor de lata

lixa de unha

barra de chocolate

refrigerante

sanduíche

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

PERSONAGENS: JOÃO  ( PAI ) – JO

                              VALQUÍRIA ( mãe ) – VAL

                               TELMA ( filha ) – TEL

                               DADÁ ( namorado da filha ) – DAD

 

 

 

 

 

 

 

 

 

1 ATO

 

 

        ( Valquíria entra em cena esfregando a mão no avental ).

VAL- Não me amola João, você se preocupa demais, a sua filha sabe o….

JO- Pera aí, a Telma não só minha filha, ela também é sua. O que você quer insinuar? Dizem que quando o filho é bonito todo mundo quer. A Telma ta fazendo algo errado? Vai, me fala. Eu já estou até preparado, vai, me fala. Faz tempo que estou fazendo meditação só pra me preparar para uma notícia ruim.

        ( João tira um potinho de comprimidos e põe alguns na boca ).

VAL- João, se acalma, ela é filha minha também.

JO- Ainda bem que você reconhece, por que certeza que é filha sua eu não tenho.

VAL- Meu Deus. Como você diz uma coisa dessa?

        ( João balança o ombro ).

JO- Dizendo… Abrindo a boca e fechando ao emitir sons vocálicos.

VAL- Você não tem jeito mesmo.

JO- Eu tenho, tenho jeito de inteligente, perspicaz, sábio, intelectual, bem humorado…

VAL- Ta, você só tem jeito de coisa boa?

JO- Eu tenho auto estima.

VAL- Ta.

JO- Mas o que você ia dizendo, Valquíria?

VAL- Eu me perdi…

JO- Calma aí, bem. Você não se perdeu, não. Está bem na minha frente.

VAL- Você continua o mesmo.

JO- Exatamente, eu ainda não fiz nenhuma operação plástica. Continuo o mesmo. Vai, mas o que você ia falar?

        ( Valquíria tira do bolso do avental uma abridor de lata ).

JO- O que vai fazer com isso?

VAL- Não ta vendo que é um abridor de lata…

        ( Valquíria põe o abridor bem na frente da cara de João ).

VAL- Eu vou abrir sua cabeça.

JO- Minha cabeça?

VAL- É, vou abrir sua cabeça pra por alguma coisa de útil lá dentro.

JO- Mas não precisa abrir minha cabeça, me dá aqui o que você tem pra me dar que eu coloco no bolso.

        ( João mostra os bolsos da calça ).

VAL- Você não tem jeito mesmo… Eu ia falar que sua filha sabe o que faz.

        ( João anda um pouco ).

JO- Sabe não.

VAL- Como não? A Telma sabe muito bem o que faz.

JO- Sabe não.

VAL- Não me irrita, se eu estou falando que minha filha sabe o que faz é por que ela sabe.

JO- Sabe não.

VAL- Parece que o disco quebrou. Você só diz: sabe não.

JO- Agora é CD e DVD. Não tem mais disco. Disco é coisa do passado.

VAL- Mas vamos lá…

        ( João fica ansioso ).

JO- Pô! Vamos aonde? Vamos aonde? Vamos comer uma pizza? Um hambúrguer?  Vamos tomar um sorvete?

VAL- Não é isso. Eu quero saber por que você ta dizendo que a Telma não sabe o que faz.

JO- A nossa Telma sabe cozinhar?

        ( Valquíria abaixa bem os braços ).

VAL- Não.

JO- A nossa Telma sabe costurar?

VAL- Não.

JO- A nossa Telma sabe lavar e passar a roupa?

VAL- Não.

JO- A nossa Telma sabe trocar uma lâmpada?

VAL- Não.

JO- A nossa Telma sabe instalar um botijão de gás?

VAL- Não.

JO- A nossa Telma sabe pregar uma tábua?

VAL- Não. Mas pra quê ela precisa saber de tudo isso? Só se for pra se preparar quando tiver o azar de encontrar um homem igual a você.

JO- Azar?

VAL- Ta na cara que é azar, e é muito azar mesmo.

JO- Pelo menos eu te dei alguma coisa.

        ( Valquíria põe as mãos na cintura ).

VAL- Me deu alguma coisa, o quê?

JO- Você mesma me disse. Eu te dei azar. Teve tempo que você disse que eu nunca te daí nada. Veja só, eu te dei azar, já é alguma coisa. Viu, eu te dei alguma coisa.

VAL- Eu nem sei mais onde estava.

JO- Aqui mesmo, Valquíria, você nem saiu do lugar.

VAL- Eu sei. Lembrei. Eu disse que a Telma sabe o que faz.

JO- Eu já provei que ela não sabe. Você ta muito preocupada com a Telma.

VAL- Eu?

JO- É, você mesma.

VAL- Por acaso você lê pensamento? Não, isso não. Você é incapaz de ler pensamento. Sua escrita e leitura é muito ruim. E tem mais João, você acabou de dizer que filho feio ninguém quer ser o pai ou a mãe. Aí você comete um grave erro.

JO- Onde? Eu sei que errei muito nas provas da escola. Errei no vestibular…

VAL- Não é isso João, eu estou fanado que você comete um erro ao dizer que Telma é feia.

JO- Eu não disse isso. É até pelo contrário, eu não gosto que a nossa filha seja bonita como é. Pra mim esse ditado seria: toda filha feia eu queria ser pai.

VAL- Não diga uma coisa dessa. Onde já se viu.

JO- Eu falo sim. Eu preferia que a nossa Telma fosse feia, bem feia, muito feia, exageradamente feia.

VAL- Não fala assim.

 JO- O quê?

VAL- Eu disse pra você não falar assim.

JO- Quer que eu afine a voz par falar, ou quer que eu engrosse a voz para falar, ou quer que eu fale gaguejando, ou quer que eu fale comendo letras…

VAL- Para João. Não é isso, diacho. Eu quero que você pare de falar que a nossa Telminha tinha que ser feia.

JO- Mas é a mais pura verdade. A Telma devia ter umas pernas cheias, repletas, completamente tomadas de varizes, igual as pernas de sua mãe.

VAL- Mas por quê?

JO- Por assim ela não ia usar aqueles shorts mostrando suas pernas sem um defeito sequer…

VAL- Que horror!

JO- Hoje o filme que vamos assistir é de terror?

VAL- Estou falando de você querer que a nossa lindinha Telma tenha pernas feias.

JO- Eu não disse feias. Eu disse com varizes.

VAL- E não dá na mesma?

JO- Tem gente que pode gostar.

VAL- Me diga um que goste de varizes.

JO- Pô! Para quem gosta de tatuagem a varize é uma espécie de tatuagem na perna.

VAL- E ta mais horror ainda.

JO- E não é só isso, eu queria que ela tivesse pouco cabelo como meu pai tem. Assim não viveria jogando aquele cabelão de um lado pro outro espalhando perfume na cara de todo mundo.

VAL- Parou?

JO- Não, ainda tem mais. A nossa Telma também devia ter os dentões pra fora de sua avó. Assim ela não ia derreter os corações de todo mundo com seu sorriso propaganda de pasta dental.

VAL- Agora parou?

JO- Ainda não. Ela devia de ter as unhas bem encravadas como meu avô. Assim a nossa Telma não ia usar essas sandálias e rasteirinhas mostrando seus pezinhos tão bonitinhos.

VAL- Tem mais?

JO- Não me desconcentre…

VAL- Mas você nem tá na concentração de futebol…

JO- Fazendo piadinha, Valquíria?

VAL- Eu falei sério.

JO- Eu sei, você nem riu.

VAL- Para João, deixa de ser agourento.

        ( João senta no sofá ).

JO- Não é ser agourento Valquíria. Mas a nossa filha só puxou o lado bom de nossa família.

        ( Valquíria pega uma lixa de unhas do bolso do avental e começa a lixar as unhas ).

VAL- Por falar em puxar, a nossa Telma puxou mais eu que você…

JO- Pô! Ela puxou você? E puxou mesmo.

        ( Valquíria ergue as mãos ).

VAL- Ainda bem que você reconhece isso. Reconhece que nossa Telma puxou mais eu.

JO- Lógico, ela só dá bola pra qualquer um.

VAL- Repita se for homem.

JO- Você sabe que sou homem. Ninguém mais que você deve saber que eu sou homem. Você sabe. Você já viu minha identidade, meu CPF, minha carteira de trabalho, meu titulo de eleitor…

VAL- E o que tem isso a ver com a nossa conversa?

JO- Tem tudo. Nesses documentos tem escrito que eu sou homem. Do sexo masculino.

        ( Valquíria encosta a lixa de unha na cara de João ).

VAL- Você disse que a nossa filha dá bola pra qualquer um e me puxou? Então eu assino embaixo.

JO- Viu, agora você reconhece que estou certo…

        ( João fica muito feliz ).

VAL- Reconheço por que eu dei bola pra qualquer um.

JO- Viu, eu sempre tenho razão.

VAL- Eu dei bola pra qualquer um, eu dei bola pra você. Um qualquer um da vida.

        ( há um silêncio ).

JO- Mas não esqueça que tua bola já estava murcha.

VAL- Por que você diz isso?

JO- Muito jogador chutou ela antes de mim. Foi loucura de jogador principiante. Eu deixei de ter muitas bolas oficiais para ter uma bola fajuta.

        ( Valquíria chacoalha o bumbum ).

Valquíria- Bem que você ficava louco pra meter um gol, diacho. Vamos lá, admita.

        ( João fica orgulhoso ).

JO- Veja bem, até que eu era um atacante dos bons, não perdia uma pelada. Não esqueço de você pelada há alguns anos. Passe na área eras gol na certa.

VAL- Ta dizendo que não sou nova, mas com você acontece a mesma coisa. Agora aquele artilheiro está aposentado…

JO- Pô! Jogador não se aposenta. Ele para de jogar no campo, mas vira técnico ou comentarista de esporte para Rádio, TV, Revista ou Jornal.

VAL- Que vá. Até penal agora você perde. E olha que penal é difícil de errar.

JO- Eu perco os penais por que você se mexe antes de eu chutar.

VAL- Isso é desculpa.

JO- Não é não, eu não preciso pedir desculpa por não ter mais tanta intimidade com a bola. Só pra torcida, mas pra você não. Se vaza essa história meus amigos vão tirar onda de mim. São as preocupações que não me deixam lembrar de bater uma bola com você.

VAL- Dizem que embaixo do gol não nasce grama, mas o meu gol já está todo tampado, de tanto que o artilheiro não chega.

JO- Em primeiro lugar não é só o artilheiro que marca gol. Pode ser o meio de campo, o lateral direito, o lateral esquerdo, um zagueiro e até o goleiro. E em segundo lugar seu gol já está todo tampado mesmo. Deve ser por preguiça de se depilar. E eu gosto muito mais de depilada. Isso sim. Estou precisando de calma.

VAL- Se você se acalmar mais do que é eu vou ter que te levar para um seminário.

        ( João pega um jornal enrola e começa a bater sobre a mesa num movimento de sobe e desce ).

VAL- Hã!

        ( Valquíria presta atenção no movimento de João subindo e baixando a cabeça ).

VAL- Cuidado!

JO- Pô! Cuidado com o quê?

VAL- Logo você goza.

JO- Valquíria, me deixa em paz…

VAL- Não disse, você acabou de gozar e agora quer paz.

        ( João se senta no sofá com a cabeça baixa ).

VAL- Foi Bom?

        ( Valquíria vai até João ).

VAL- Eu só estava brincando.

JO- Brincando?

VAL- É, eu estava brincando com você…

JO- Eu não estou vendo nenhum brinquedo. Não tem patins nem skate nem bicicleta nem vídeo game…

VAL- Querendo te animar… Mas diga, o que te preocupa tanto, diacho?

JO- Eu penso muito na Telma.

VAL- É só isso?

JO- Você também pensa nela?

VAL- Desde que a Telma nasceu. Não dá pra esquecer dela. A gente vê ela todo dia. E eu ainda lavo e passo e costuro a roupa dela. Cozinho pra ela. Lavo a louça dela. Limpo e arrumo o quarto dela. Fazendo tudo isso não dá pra esquecer de nossa Telma.

JO- Eu estou preocupado com ela.

VAL- Mas o que ela tem?

        ( João anda de um lado para o outro ).

JO- Valquíria meu amor, deixa de tititi, a nossa Telma não tem nada. Tudo que ela usa é nosso. Ela nem começou a trabalhar ainda. Como é que você vem dizendo: o que ela tem? A Telma não pode ter nada. Tudo é nosso. E tem mais, eu sempre falei pra ela não aceitar nada de estranho. É por isso que você fez essa pergunta? O que ela tem?

VAL- Meu Deus do céu…

JO- Não sei por que você diz isso?

VAL- Digo o quê?

JO- Acabou de dizer.

VAL- Acabei de dizer o quê?

JO- Meu Deus do céu.

VAL- E o que tem dizer isso?

JO- Todo mundo sabe que Deus é do céu, não precisa dizer “ meu Deus do céu “.

VAL- Não desvia do assunto…

JO- Como não, Valquíria, se eu não desviar desses móveis eu bato neles.

VAL- Me dá vontade é de bater na tua cara. Por que você ta preocupado com ela?

JO- Ela está diferente, querida.

VAL- Pra mim ela continua a mesma coisa: o corte de cabelo é o mesmo, deixa eu ver, ela não engordou, ela come um prato de comida ainda, não arruma seu quarto, não faz a lição de casa… Pra mim a Tela continua a mesma.

JO- Não é isso.

VAL- Então o que é?

JO- Senta.

        ( Valquíria senta ).

JO- Acho que a nossa Telma ta…

        ( João faz sinal com a mão ).

VAL- Está o que, continue…

JO- Ta fazendo…

VAL- Fazendo o quê, diacho?

        ( João coça a cabeça ).

JO- Sexo.

VAL- O que você disse?

JO- Sexo.  

VAL- O que você disse?

JO- Sexo. 

VAL- O que você disse?

JO- Sexo.  

VAL- O que você disse?

JO- Sexo.  

VAL- O que você disse?

JO- Não dá mais, pára. Por que ta me perguntando tanto o que eu disse?

        ( Valquíria põe as mãos no bolso ).

VAL- Pra fazer sexo oral com você. É tão bom te ouvir falando em sexo.

JO- Pô! O assunto é sério, Valquíria. Sério mesmo. Eu disse que nossa Telma já se perdeu.

VAL- E como vamos achar ela? Será que é por isso que ela não chegou ainda? Será que devemos telefonar pra polícia?

JO- Minha Valquíria, entenda, eu acho que a nossa Telma está fazendo coisas.

VAL- Mas a minha Telma não sabe fazer nada. Eu nunca vi ela fazendo alguma coisa.

JO- Ó Santo, ele deve ta de beijo e abraço por aí.

        ( Valquíria se descontrai ).

VAL- A Telminha tem o costume de beijar e abraçar as amigas, não tem nada de mais.

JO- Não é amiga, é rapaz…

VAL- E isso é uma coisa normal. Acontece por todo canto. Veja que nas novelas isso é comum.

JO-  Disse bem, nas novelas. Lá eles e elas ganham pra isso. Beijar e abraçar faz parte da profissão e eles e elas têm até carteira registrada.

VAL- Você ta querendo dizer que nossa Telma devia cobrar?

JO- Não, não é isso. Eu não quero que ela seja prostituta.

VAL- Você quer que ela faça de graça?

JO- Não, não é isso. Eu prefiria que a nossa Telma não fizesse. 

VAL- Por isso você queria que nossa filha fosse feia, mor?

        ( João se senta ).

JO- É.

        ( João começa a chorar ).

JO- É difícil pra mim encarar essa situação. Quando era nova eu não pensava nessas coisas.  Era minha filha.

VAL- Nossa filha…

JO- Eu decerto, pensava que nossa filha nunca ia fazer certas coisas. Eu sei que é besteira. Me machuca…

        ( Valquíria se espanta ).

VAL- Deixa eu ver onde você se machucou. Eu aço um curativo…

JO- É o jeito de falar. Me machuca por dentro. Quando vejo a nossa Telma eu vejo ela tirando a roupa, as meias, uma música sensual de fundo, umas luzes piscando, bebida…

        ( Valquíria fica aterrorizada ).

  JO- A nossa Telma ainda tira os sapatos, faz caras e bocas, dança e fica só de biquíni de duas peças.

VAL- Pára, diacho!

JO- Pô! Parar por quê?

VAL- Cínico!

JO- Por quê?

        ( Valquíria fica de costas para João ).

VAL- Estou decepcionada.

JO- Mas por quê?

VAL- Ainda pergunta. Não tem vergonha?

JO- De quê?

VAL- Como eu pude ficar casada tanto tempo com um homem estranho?

JO- Você não me contou que tem um segundo casamento.

VAL- Segundo casamento?

JO- É óbvio, Você acabou de dizer que não sabe como ficou casada tanto tempo com um estranho. Eu não sou. Eu não sou estranho pra você. Então deve ter um outro na jogada.

VAL- Não diga besteira. Eu estou falando do jeito que você falou da nossa filha Telma. Você deseja ela.

JO- E eu desejo ela, mesmo.

        ( Valquíria grita ).

VAL- E ainda reconhece. Com tantos casos de amor obsceno que dão no rádio, na TV, nos jornais e revistas você vem dizendo que deseja nossa filha?

JO- E você não?

VAL- Não me ponha no meio. Eu não sou desvirtuada sexualmente. Eu não desejo minha filha. A bem do mais eu não sou lésbica.

JO- Olha pra mim.

        ( Valquíria continua de costas pro João e começa a chorar ).

VAL- E tem mais. Eu sempre me dei por feliz com você. Eu não precisei ter desejo por ninguém mais, muito menos por minha filha.

        ( João toca em Valquíria ).

VAL- Me larga.

        ( João faz Valquíria se virar de frente pra ele ).

JO- Você deseja sua filha é como você gostar dela, querer ela, estar contente dela ser nossa filha. Não a ver com sexo.

VAL- Mas você falou que imagina ela tirando a roupa. Isso é o quê?

JO- Você não me deixou terminar.

VAL- E tem mais ainda. Não tem vergonha na cara?

JO- Deixa eu terminar, por favor, fica caladinha, por favor…

        ( Valquíria enxuga as lágrimas com a mão ).

VAL- Está bem, diacho! Pode terminar.

JO- Eu também imagino aquele homem cafajeste tirando a roupa, sem camisa, seu peito nu, começando a abrir o zíper da calça e aos poucos…

VAL- Pára!

JO- O que foi dessa vez?

VAL- Pára!

        ( Valquíria põe a mão nos olhos ).

VAL- Eu não quero nem ver.

JO- O que você não quer ver.

VAL- E eu que fiquei casada com você todo esse tempo e nem percebi…

JO- Percebeu o quê?

VAL- Que você é gay.

        ( João dá um salto ).

JO- Eu gay? De onde você tirou essa idéia?

VAL- O que eu vou dizer pra amigas? E pra Telminha?

JO- Eu não sou gay.

VAL- E você agora mesmo acabou de falar que queria ver um homem tirando a roupa…

JO- Me deixa terminar…

VAL- Já sei onde vai parar. Vai terminar com orgias…

JO- Não é isso. Eu fico imaginando toda vez que nossa filha sai ela se amassando com algum rapaz. É isso, Viu, falei.

VAL- Mas fique tranqüilo João.

JO- Por que? Você ta sabendo de alguma coisa? A nossa Telma não tá fazendo nada de mais?

VAL- A Telma pelo que ouvi ela falando com as amigas não fica por baixo. Ela gosta de ficar por cima quando está com o homem dela. Portanto ela não fica amassada. Você disse que fica se amassando. Ela não se amassa. Nossa filha amassa o homem dela. Entendeu?

JO- E eu to com a cara amassada, agora. Você diz com a maior naturalidade?

VAL- Eu só ouvi, não tenho certeza de nada. A Telma não me conta nada. Tá mais calmo?

JO- Não sei mais de nada.

        ( Valquíria puxa João e se sentam no sofá ).

JO- Você acha que é loucura minha, mas eu estou percebendo tudo que está se passando aqui em casa.

VAL- Que ótimo João.

JO- Ótimo?

VAL- Lógico, você nunca percebeu quando eu trocava uma toalhinha de mesa, quando eu trocava as flores, quando eu colocava um perfume, quando eu cortava meu cabelo… Você nunca percebeu e agora vem dizendo que tá percebendo tudo aqui na nossa casa. Eu estou maravilhada.

JO- Menos, Valquíria!

        ( João coça a cabeça ).

JO- Valquíria, você percebeu uns saquinhos…

VAL- Deixa eu falar de cara. Eu percebi desde nossa primeira noite o saquinho, mas eu nunca reclamei do tamanho. Acho que tá de bom tamanho. Eu tinha um horror de me machucar…

JO- Deixa eu falar…

VAL- Fazer o quê? Pode falar…

JO- São esses saquinhos que dá pra usar uma única vez…

VAL- Como uma única vez. Eu usava toda noite. E nunca faltou. Não se lembra mais?

JO- Não é isso. Eu estou falando de saquinho de xampu.

        ( Valquíria ri ).

JO- Pô!  Eu vi no quarto dela.

VAL- Como pode? Isso é um sacrilégio?

JO- Viu, ainda bem que você concorda comigo, eu sabia que você ia ficar do meu lado.

VAL- Com que direito você invade o quarto da Telma? Isso é invasão de privacidade.

JO- A casa é minha. E o quarto faz parte da casa ainda.

VAL- Eu acho feio mexer nas coisas do filhos.

JO- Eu nunca mexi nas coisas de minha filha, seria incapaz disso. 

VAL- Santo Deus! Eu estou falando de mexer nos objetos dela.

JO- Não mude de conversa, Valquíria.

VAL- Vai, termina.

JO- Pois bem, esses xampus tem o nome de hotel.

VAL- Meu querido, tá aí. Tem nome de hotel e não de motel. Entendeu, não tem nome de motel. Esses xampus foram presentes do Dada.

JO- Santa Emengarda! Você tá dizendo que nossa filha tá dando?

VAL- Dando o quê? E nossa filha tem alguma coisa pra dar? Com o pai que ela teve. Ela vai tirar do corpo pra dar pra alguém?

JO- Eu estou falando de rola rola.

VAL- É isso, diacho? A Telma adora rola rola.

        ( João se levanta ).

JO- Meu Deus, o que eu fiz pra merecer isso? Eu devo ter pecado muito. Ouvir que minha filha adora um rola rola acaba comigo. Me diz Valquíria, como você sabe que nossa Telma adora um rola rola?

VAL- É que você não se interessa por ela. É só olhar no quarto dela.

JO- Eu custo a acreditar. Ela está fazendo rola rola no seu quarto? Em nossa casa?

VAL- E onde mais ela vai fazer?

JO- Ela não tem respeito nem pela casa dos pais.

VAL- Que drama, o que tem ficar rolando na cama pra lá e pra cá?

JO- E o homem dela?

VAL- Que homem?

JO- O namorado dela?

VAL- E eu vou saber.

JO- A Telma rola sozinha?

VAL- É evidente, João.

JO- Você acaba de tirar um peso da minha costa.

VAL- Eu acho que não tirei nada. Na sua costa não tinha nada. Nadinha. E a Telma gosta muito desses xampus.

JO- É um disparate. Todo mês eu compro xampus de um litro e ela não me fala nada. E você diz que a nossa Telma fica contente com um xampu de 30ml.  Pô! Confesso que não tem sentido.

VAL- Não seja gaga. Se fosse xampu de motel até aceiraria tua preocupação.

JO- Motel e Hotel é tudo a mesma coisa agora. As moças ficam com menos medo de ir a um Hotel. Deve ser medo.

VAL- Como você sabe que é medo.

JO- Motel começa com M… M de medo.

        ( Valquíria passa a mão na cabeça de João ).

VAL- Lembra que você transava comigo em meu quarto papai e mamãe iam pra missa?

JO- Se lembro, seus pais diziam pra você não sair de casa.

VAL- E eu obedecia eles.

JO-  Mas eu não gosto de lembrar desses assuntos de sexo. Me faz lembrar da nossa filha fazendo sexo, pô! E olha que tem mais. Eu vi também toalhinhas com o nome de outro hotel.

VAL- Isso é de preocupar.

JO- Eu sabia que você ia concordar comigo. Até que enfim. Viu como o que está acontecendo com nossa Telma é grave.

VAL- Por que será que o Dada não gostou do outro Hotel e teve que mudar?

        ( Valquíria fica reflexiva ).

JO- O que você ta dizendo?

VAL- Diacho, Se ela trouxe a tolha de outro Hotel é por que não foi bem atendida pelo primeiro. Será que não gostaram de nossa filha? Será que ela não pagou a conta? Será que ela fez muito barulho?

JO- E você percebeu que esses hotéis ficam aqui mesmo em Curitiba? Me diz uma coisa. Esse Dadá tem casa?

VAL- Parece que tem.

JO- Por que ele iria pra um Hotel se tem casa?

VAL- Talvez tenha um pai como você.

        ( João aponta pra si próprio ).

JO- Eu?

VAL- Você mesmo, sim senhor. Fica aí só procurando chifre na cabeça de cavalo.

JO- Eu não, eu sei que cavalo não tem chifre.

        ( João bate no peito e vai rapidamente buscar a toalha e o xampu, sai e entra ).

JO- Veja aqui, leia o que tá escrito nesse frasquinho.

VAL- Pra cabelos danificados, que maravilha, acho que vai ser bom pra mim. O que acha do meu cabelo? Tá meio ruim, não é?

JO- Pô! Será o Benedito? Não é nada disso que estou falando. Leia o endereço.

        ( João mostra com o dedo o lugar pra ler ).

VAL- Uma coisa tem a ver com a outra…

        ( João faz sinal pra ela continuar ).

VAL- Por que depois que a gente lava a cabeça com o xampu a gente também precisa usar o condicionador. Tá feliz?

JO- Eu não agüento.

VAL- Não era isso pra eu ler?

JO- veja o endereço, Veja bem, do xampuzinho o Hotel é bem mais longe. Agora o Hotel da toalha tem o endereço aqui perto. São umas quatro quadras. Eles estão fazendo isso embaixo da minha barba.

VAL- Que barba? Você nunca deixou a barba crescer.

JO- To falando que eles agora estão bem perto da gente.

VAL- Eu sempre digo pra Telma: pra sua segurança sempre fique perto de sua casa. Não vá pra longe.

        ( abre a porta principal ou um barulho de porta e a Telma entra com um pouco de pressa ).

VAL- Minha filha querida…

JO- Nossa…

VAL- Tá bem, nossa filha querida, nós estávamos falando de você. Você vai ter vida longa.

TEL- Bem que eu senti minha orelha quente.

        ( Telma aponta a orelha esquerda ).

JO- Só a orelha?

TEL- Em todo corpo papai, hoje tá um calorão, não é?

        ( Telma se aproxima da mãe e lhe dá um beijo no rosto e para o pai dá um aceno ).

TEL- Olá pai!

        ( Telma deixa a bolsa em cima da mesa ).

JO- Mas hoje tá fazendo 20 graus.

TEL- Vou trocar de roupa rapidinho, mãe.

VAL- Pra quê?

TEL- Vou sair com o Dadá.

VAL- Não vai comer com a gente?

TEL- O Dadá vai me levar pra comer.

        ( João põe a mão na cabeça ).

JO- Isso ele vai mesmo.

        ( Valquíria olha pra João com cara de reprovação ).

VAL- Diacho, que cabeça, esqueci uma panela no fogo.

        ( Valquíria corre pra cozinha, sai de cena e entra com a panela com o risoto todo preto ).

VAL- Veja João, você me perturbou tanto que acabei queimando o jantar. Vela esse arroz.

JO- Tá parecendo feijão. Agora isso quer dizer que não vamos comer.

TEL- Mas eu vou.

JO- Quem vai comer é o Dadá…

TEL- Lógico papai, o Dadá come muito mais que eu. Ele tem um apetite. Não pode ver uma carne.

        ( João disfarça sua raiva e ri ).

JO- Pô! Mas com esse filé quem que não iria querer comer?

VAL- Me passa um dinheiro, João, que eu vou comprar uns pães pra fazer sanduíche.

        ( João tira uns trocados do bolso e dá par Valquíria ).

VAL- Espera um pouco que eu já volto.

        ( Valquíria sai ).

JO- Mas que cheiro ruim desse cozido.

TEL- Vou tomar um banho.

        ( Telma sai de cena e volta com blusa, sapatos, e calça ).

JO- O que tá me olhando Pai?

JO- Nada filha.

TEL- O senhor tá me chamando de nada?

JO- Não, claro que não. Eu só quis dizer que estou olhando por olhar.

        ( Telma sai de cena ).

JO- Pô! Antes eu chegava a brigar com a Telma pra ela não ficar andando pela casa semi nua. Ela costumava…

        ( João enumera com os dedos ).

JO- 1- Ir até o quarto tirar a roupa e vir enrolada só com a toalha, até descalça ela vinha… 2- Passava pela sala… 3- Eu dizia que modos são esses de andar quase pelada pela casa? 4- A minha Telma respondia: eu nasci assim. Pensando bem, ela tem razão… 5- Ela saia enrolada na toalha e ia se trocar no quarto… 6- Eu dizia: não tem vergonha? 7- A minha Telma respondia: vergonha de que? Deus me fez assim. Pensando bem, ela tem razão… Mas se for analisar bem a resposta dela tem um erro. Deus não fez ela assim, não fez mesmo, pelo menos numa parte. Antes a Telma estava inteira. Agora nem tanto. Sabe aquela pele? A virgindade. E Deus me fez assim. Ela tem coragem de dizer isso. Deus fez ela com o hímem da virgindade e agora bau-bau. Cadê a virgindade dela? Será que não é o complexo de Eva? Eu me lembro direitinho da Estória de Adão e Eva. Deus fez Adão e Eva, o paraíso. Ambos andavam nus por que não conheciam o pecado. Depois veio a árvore proibida, a tal da macieira, a serpente, Eva comeu a maçã e deu pro Adão. Eva deu a maçã pro Adão. Ele foi guloso e comeu as duas. E daí eles que andavam peladões pelo paraíso tiveram que se cobrir com folhas. Naquele tempo não tinha Shopping. Será que não tá acontecendo a mesma coisa? A Telma fez o pecado e está com vergonha de mostrar seu corpo.

        ( Valquíria entra com um pacote de pão ).

VAL- Olha aqui, bem, eu trouxe o pão e patê pra gente comer ).

        ( Valquíria tira o patê e mostra para o João ).

VAL- Deve estar uma delícia, vamos comer?

JO- Não tenho fome, isso me faz lembrar algo.

        ( Valquíria prepara um sanduíche, faz um corte no pão de água, espreme o patê dentro do pão ).

VAL- O que você tem?

JO- É a nossa Telma. Você sabe que hoje ela não passou por aqui só com aquela toalha cobrindo o corpo? Foi e voltou do banho toda vestida.

VAL- Isso não é bom, é ótimo. Ela está te obedecendo. Lembra que você vivia dizendo pra ela passar por aqui vestida?

JO- É, mas ela demorou uns dez anos pra me obedecer.

VAL- Mas obedeceu. Isso é que importa.

JO- Mas depois de dez anos?

VAL- Você encrenca por besteira, diacho! Não adianta tentar argumentar. Você já tem opinião formada.

JO- Não é besteira, não. Você que não entende a gravidade…

        ( Valquíria dá um salto ).

VAL- O que você disse?

JO- Eu nem sei…

VAL- Você disse que a Telma está grávida…

JO- Eu disse que a nossa Telma tá grávida?

VAL- É, você disse.

JO- Eu falei que você não entende a gravidade…

        ( Valquíria grita ).

VAL- Como eu não entendo a gravidade? Eu já fiquei grávida. E foi justamente da Telma. Eu entendo e muito bem da gravidade sim. Fiquei barriguda, tinha desejos, tinha enjôos, vomitava, engordei muito, passava cremes pra não pegar estria, fazia uns movimentos pra exercitar o corpo, falava com o bebê na barriga…

JO- Eu disse que o assunto é delicado…

VAL- Quem é gay?

JO- Pô! Será o Benedito. O assunto é importante.

        ( Telma entra com o cabelo bem arrumado ).

TEL- Pai, mãe, estou indo.

VAL- A que horas volta?

TEL- Eu não sei, mas logo estou de volta.

VAL- Leve a chave.

TEL- Não mãe, a gente só tem essa chave.

JO- Mas a gente não vai sair.

TEL- Não, isso não.

JO- Mas por que não quer levar? 

TEL- Pai, pode acontecer muita coisa, fogo, explosão, desabamento, enchente e vocês vão ficar aí trancados só por que não têm a chave?

        ( Telma sai ).

JO- Tá vendo Valquíria?

        ( João fica imóvel, de olhos arregalados, boca aberta e mudo ).

VAL- Diacho! O que aconteceu querido?

        ( Valquíria passa a mão pela frente dos olhos de João, bate palmas, dá um beliscão nele, grita no seu ouvido e nada ).

VAL- TELMA!

        ( João recobre os sentidos ).

JO- Você viu?

VAL- Vi o quê?

JO- Você viu?

JO- Você viu?

VAL- Vi o quê?

JO- Você viu?

JO- Você viu?

VAL- Vi o quê?

JO- Você viu ela dizer que aqui pode pegar fogo, desmoronar, explodir e outras catástrofes.

VAL- É força de expressão.

JO- E haja força de expressão  A nossa Telma quer que a gente morra pra ela vir se instalar aqui com esse Dadá. Daí vai ser como no paraíso.

VAL- Você tá perdendo a razão.

JO- Nunca perdi essa tal de razão por que nunca tive ela. Você não prestou atenção no jeito dela. Ela está diferente.

VAL- E tem que estar João. A nossa Telma tem que estar mesmo diferente.

JO- Por que diz isso?

VAL- Ela mudou o corte de cabelo. Deve ser por isso que você está achando ela diferente. E ela me avisou que ia cortar o cabelo…

JO- Você ela avisa. Mas ela avisa tudo?

        ( Valquíria balança os ombros ).

VAL- Mais ou menos.

JO- A nossa Telma não te contou se tá ou não fazendo aquilo?

VAL- Se explique melhor. O que é fazendo aquilo?

JO- Ela não disse que está transando?

VAL- Não, acho que não.

JO- Como sabe?

VAL- Eu sei.

JO- Mas você tem certeza?

VAL- Que ela não está transando?

JO- É. Vamos, me diga como sabe que ela não ta transando.

VAL- É muito simples. Eu ainda não vi nenhum papel de ação da bolsa de valores. Eu nunca vi, mas assim que por os olhos em cima de uma ação eu sei que vou reconhecer.

JO- Pó! Não é isso, minha Valquíria. Eu quis dizer se ela não está  trepando.

VAL- Trepando?

JO- É, trepando. A nossa Telma está trepando?

VAL- Deixa eu ver, diacho.

JO- Vai, responda logo.

VAL- Não.

JO- Tem certeza?

VAL- Tenho.

JO- E como você tem essa certeza?

VAL- Aqui na nossa casa não tem árvore. Pelo menos aqui ela não trepa.

JO- Será o Benedito.

VAL- Mas não posso dizer da casa de suas amigas. Daí pode ser que nelas tenha árvores. Assim a Telma pode trepar na casa de uma amiga.

JO- É, eu merecia.

VAL- Hã!

JO- Eu quis dizer se a nossa Telma não ta fazendo coisa que não devia.

VAL- Ta sim.

JO- Até que enfim.

VAL- Eu mesma vi.

JO- Isso é o cúmulo! Ela ta fazendo na frente tua? E você deixa?

VAL- Eu vou fazer o quê?

JO- E como foi?

VAL- Esses dias ela abusou da comida, comeu uns três pratos e ainda comeu a sobremesa e repetiu várias vezes. Eu disse pra ela manerar. A Telma ta muito bonita então tem que cuidar do corpinho. Depois engorda e daí não adianta reclamar.

JO- De novo. O que eu faço? Eu quis dizer se a nossa Telma não ta pulando a cerca?

VAL- De jeito nenhum.

JO- Eu fico mais aliviado. Tem certeza?

VAL- Absoluta.

JO- Como tem essa certeza?

VAL- Eu nunca vi a nossa Telma pulando a cerca de nossa casa. Pra que ela ia fazer isso. Tem o portão. É tão fácil sair de nossa casa. É só sair pelo portão.

JO- Mais uma vez.

        ( João cochicha no ouvido de Valquíria ).

VAL- Por que não falou que era isso?

JO- Por quê?

VAL- Daí eu já tinha respondido muito antes.

JO- Então fala.

VAL- Um dia desses eu perguntei pra Telma se ela estava fazendo essas coisas.

JO- E o que ela respondeu?

VAL- Disse pra eu perguntar pro Dada.

        ( João coloca a mão na cabeça ).

JO- Não, isso não.

VAL- Eu fiquei feliz.

JO- Por quê, criatura?

VAL- Se ela não sabe é por não está fazendo.

JO- Mas por outro lado ela manda perguntar para o Dadá.

VAL- Talvez ela saiba de alguma coisa.

JO- Sua ingênua, se ela mandou perguntar para o Dadá é por que não teve coragem de admitir e nem coragem de mentir.

VAL- Desse jeito você vai me deixar preocupada.

JO- Já era pra estar preocupada há muito tempo.

VAL- Me deixa respirar um pouco, diacho. Eu estou muito confusa.

        ( João abana os braços na frente de Valquíria ).

JO- Está bom?

VAL- Ai!

JO- Quer respiração boca a boca?

VAL-  Respiração boca a boca?

JO- É.

VAL- Eu nem estou conseguindo respirar e você quer tampar minha boca? Isso é que não.

        ( João pega um jornal e abana mais ainda Valquíria ).

JO- Está bem agora?

VAL- Pra sua informação eu estou melhor.

JO- Nós precisamos ter um conversa séria com a Telma.

VAL- Isso não vai ser novidade.

JO- Por que tá dizendo isso?

VAL- A Telma nunca gostou e piada. Ainda não percebeu que nossa filha é séria?

JO- A gente precisa ter uma conversa sobre aquilo que eu cochichei no teu ouvido.

VAL- Mas você não pode se exaltar com ela.

JO- Não, eu só quero saber o que tá acontecendo com nossa Telma.

        ( Valquíria anda de um lado pro outro ).

VAL- E o que vai fazer?

JO- Nada, eu estou de férias. Quero só descansar.

VAL- Estou dizendo se ela está mesmo fazendo aquelas coisas que você me cochichou.

JO- Não sei não, eu saio de mim.

VAL- Meu Deus, você vai sair do corpo? Se você sai do corpo é um encosto. Você não é o meu João. É um espírito maldito que tomou o corpo dele. Sai daí.

        ( Valquíria dá tapas nas costas de João ).

VAL- Sai espírito maldito. Saia!

JO- Não é nada disso, Valquíria. Foi um jeito de falar.

VAL- Eu pensei que fosse um espírito. Você disse que ia sair do corpo. Queria que eu pensasse o quê?

JO- Você reparou que a nossa Telma tá dando risadinha pelos cantos?

VAL- Não.

JO- Não?

VAL- Não.

JO- Como não, ela passa toda hora dando risadinha pelos cantos.

VAL- A Telma não dá só risadinha pelos cantos da casa. Ela dá também risadinha no centro dos cômodos, nas portas, nas janelas.

JO- Ela também está andando com um olho meio aberto e o outro meio fechado…

VAL- Espera aí. Isso eu sei.

JO- Então fala logo.

VAL- Ela esses dias estava com uma irritação nos olhos.

JO- Será o Benedito?

VAL- Estava sim.

JO- A Telma tá com jeito de quem bebeu.

VAL- Mas isso tá mesmo.

JO- Explica.

VAL- A gente tem que beber bastante líquido todo dia. Deve ser por isso que ela estava com acara de quem bebeu.

JO- Ela anda como quem está pisando nas nuvens.

VAL- Isso eu já acho impossível.

JO- Impossível por quê?

VAL- Ela nunca entrou num avião. Como é que ela ia andar nas nuvens?

JO- Eu estou vendo a Telma, afinal eu vejo ela a todo momento…

        ( Valquíria põe uma mão acima dos olhos e fica procurando algo ).

VAL- Você tá vendo a Telma?

JO- Claro!

VAL- Mas como, se ela nem está aqui?

JO- Valquíria, pelo amor de Deus, eu estou notando o comportamento da Telma.

VAL- Anotando? Isso é bom. É bom anotar que a gente nunca esquece. Já tá tudo anotado.

        ( João cochicha no ouvido da Valquíria ).

VAL- Eu pensei que você tivesse vendo ela e eu não. Agora entendi.

        ( um tempo de silêncio ).

VAL- Ontem a Telma me pediu pra eu fazer um bolo par ela levar pro Dadá comer.

        ( João estala os dedos ).

JO- Está vendo?

VAL- Vendo o quê?

JO- O quê?

VAL- A Telma chegou?

JO- Não, o bolo é uma desculpa.

VAL- Desculpa?

JO- É, desculpa. O bolo é uma desculpa.

VAL- Tadinho do bolo. O que ele ia fazer de errado. Eu nunca vi um bolo sequer fazendo algo errado.

JO- Não é isso minha Valquíria. Deixa pra lá, estou ata cansado de tentar explicar as coisas pra você.

VAL- A Telma disse que o Dadá adora doce.

JO- É?

VAL- Foi ela que falou.

JO- Eu tinha uma filha que não conhecia.

VAL- Mentira tua.

JO- Por que acha que estou mentindo.

VAL- Como você vai dizer que tinha uma filha que não conhecia?

JO- E eu não conhecia mesmo.

VAL- Você viu o parto dela. Você conhece a Telma desde que nasceu.

JO- Deixa, esquece. Mas você disse o quê do Dadá?

VAL- Que ele adora comer doce.

JO- Maldita hora que eu comecei a chamar a nossa Telma de docinho. Essas coisas devem ter começado nesse tempo. Eu dizia: vem cá docinho, você é o docinho predileto do papai…

VAL- Tinha que ser mesmo.

JO- Não entendi.

VAL- A Telma é nossa única filha. Daí você tem que achar que ela é a predileta mesmo. Não tem outro.

JO- Onde foi que errei?

VAL- Primeiro quando veio falar comigo.

JO- É assim?

VAL- Se você não tivesse vindo falar comigo eu poderia estar casada com um homem rico hoje.

        ( João fala mais baixo só pra ele ).

JO- Eu também chamava a Telma de doce de chocolate…

VAL- O que você disse?

JO- O quê?

VAL- Você disse em doce de quê?

JO- De chocolate.

VAL- Como sabe o sabor do bolo?

        ( Valquíria tira uma barra de chocolate, desembrulha e começa a comer ).

VAL- Quer?

JO- Não, obrigado.

VAL- Telma me disse que o Dadá adora um bolo de chocolate.

JO- Ainda mais quando come dobrado.

        ( João medita um pouco ).

JO- Vamos ficar esperando por ela. Chegue a hora que for nós estaremos esperando ela aqui pra clarear os fatos.

VAL- Não precisa esperar ela.

JO- Do que está falando?

VAL- Que você não precisa esperar por ela.

        ( João fica contente ).

JO- Está sabendo de alguma coisa? Vai, me conta.

VAL- Eu só estou dizendo que não precisa esperar a Telma pra clarear. Eu mesma posso acender mais luz. Daí já fica tudo mais claro pra você.

JO- Será o Benedito?

        ( João braça Valquíria e vai saindo de cena ).

JO- Não é nada disso, esclarecer é resolver essa questão da Telma.

VAL- O que deu em você?

JO- Você nunca resolveu questão nenhuma quando a Telma trazia tarefa pra casa? Por que agora quer resolver?

        (  ambos saem de cena ).

JO- Desisto.

 

 

 

 

 

2 ATO

 

      

        ( entra João olhando várias vezes para seu relógio ).

JO- Isso me dá uma angústia. Faz um tempão que a Telma saiu.

        ( Valquíria entre em cena ).

VAL- Você se preocupa a toa.

JO- Mas a nossa Telma já devia ter chegado.

VAL- Só faz uma hora que ela saiu.

JO- E já é muito tempo pra ela ficar longe de casa.  E também já é tempo suficiente par fazer aquilo.

VAL- Aquilo que você me cochichou no ouvido?

JO- Tá esperta, agora.

VAL- Você exagera, a Telma só foi dar uma voltinha.

JO- E você diz com a maior naturalidade?

VAL- O que tem demais em dar uma voltinha?

JO- Veja bem, nossa filha foi dar uma voltinha no corpo do Dadá.

VAL- Você tá impossível. Cada vez pior.

        ( ambos sentam no sofá ).

JO- Ela tá muito diferente.

VAL- Isso tá.

JO- Agora me dá razão?

VAL- Como eu não poderia te dar razão. A Telma tá bem diferente.

JO- Isso é um alívio pra mim.

VAL- A Telma cresceu, agora ela está com seios, bumbum grande, tá alta, tem voz de adulta.

JO- Não é isso que estou falando. É do comportamento dela.

        ( Valquíria ri ).

VAL- Em matéria de comportamento a Telma sempre ganhou os pontos. Ela nunca foi mal comportada na escola.

JO- Pó! Não pode.

VAL- No que a Telma tá diferente?

JO- Ela não pede mais a minha benção antes de dormir e logo de manhã.

VAL- Tem explicação.

JO- Tem?

VAL- Tem. Ela pede a benção direto pra Deus. Por que vai pedir benção pra um intermediário?

JO- Escuta aqui Valquíria, a nossa Telma não andou fazendo perguntas estranhas?

VAL- Nem me fale isso. Já basta as perguntas estranhas de escola e as mais estranhas ainda de vestibular. Eu odeio perguntas.

JO- Perguntas sobre aquilo que eu cochichei…

VAL- No meu ouvido?

JO- É.

VAL- Um dia desses ela me perguntou de camisinha.

JO- E daí?

VAL- A Telma me pediu para comprar umas camisinhas.

JO- Por quê camisinhas?

VAL- O número dela é pequeno.

JO- Decerto o Dadá tem aquilo pequeno.

VAL- Telma disse que tava atarefada demais pra comprar.

JO- E você foi? Onde está tua cabeça?

        ( Valquíria aponta pra sua cabeça ).

VAL- Aqui. Que pergunta mais boba.

JO- Você compra as camisinhas pra ela e fica assim?

VAL- Não fica assim, se alguma não servir dá pra trocar.

JO- Que alívio, eu estava pensando que era uma outra camisinha… Ai, estou mais aliviado. Saiu um peso de minhas costas. Que alívio, meu Deus. Deus é pai.

VAL- Mas…

JO- O quê?

VAL- Mas…

JO- Desembucha Valquíria.

VAL- Mas a Telma mandou eu comprar essa camisinha que você tem medo.

JO- Como?

VAL- Mas fique tranqüilo que é pra trabalho de escola.

JO- Ficar tranqüilo por que é trabalho de escola?

VAL- É.

JO- E você esquece que tem matéria sobre sexo em algumas escolas?

VAL- E o que tem isso?

JO- É simples, tem a teoria e a prática onde fica?

VAL- Até que tem uma ponta de verdade, diacho.

JO- Que mais.

VAL- Ela me perguntou sobre coisas… Como se coloca… Eu falei que a gente tem que deixar aquela folguinha pro líquido que engravida.

JO- E você foi ensinando ela?

VAL- Fui, disse até que camisinha é bom pra brincar de bexiga.

JO- Esquece. E daí?

VAL- Fiquei muito feliz quando perguntei se o trabalho deu certo?

JO- E deu?

VAL- Ela disse que deu.

JO- Não tinha outro jeito. Esse Dadá não ia faltar essa prova.

VAL- A telma tirou dez.

JO- E as camisinhas era boas?

VAL- Comprei da Mirian.

JO- Eu não acredito que você comprou as camisinhas da camelô Mirian.

VAL- Ela me garantiu que eram boas.

        ( João põe a mão na cabeça ).

JO- Estou confuso, se ela queria camisinha era pra transar, mesmo.

VAL- Que isso, era pra um trabalho de escola.

JO- Se é a escola que estou pensando daqui a nove meses vem o diploma.

VAL- Diploma?

JO- É, Valquíria. Uma criança.

VAL- Até que seria bom ver uma criança correndo por aqui. Você não ia gostar de um netinho?

JO- Deus me livre, já não bastam as preocupações do dia a dia? Agora você quer me arranjar outras?

VAL- Ia ser maravilhoso.

JO- Você quer ser avó?

        ( faz um tempo de silêncio ).

JO- Não esqueça que ser avó significa estar envelhecendo.

        ( Mais silêncio ).

VAL- Chega. Acho que é bom a Telma esperar um pouco.

JO- Esperar um pouco não. Se for um pouco nove meses serve e você sabe o que são nove meses. A nossa Telma tem que esperar muito.

        ( nesse instante entram Telma e Dadá ).

TEL- Mãe, olha quem eu trouxe.

        ( João dá um salto ).

JO- O quê, Telma?

TEL- Veja quem eu trouxe.

JO- Você devia dizer: veja o que eu trouxe. Você trouxe uma coisa pra casa. E eu sempre disse pra você não pegar coisa da rua.

DAD- O que seu pai ta dizendo, Telma?

TEL- Não liga, não!

JO- É óbvio que esse daí não pode ligar nada. Ele não é da casa. Não pode pegar um rádio, o DVD, a televisão, o micro-ondas e ligar. Não liga mesmo, Dadá.

TEL- Não inventa pai.

VAL- Mas Telminha, seu pai nunca inventou nada. Ele até costuma dizer que tudo que ele pensa em inventar já é inventado.

DAD- É mesmo?

VAL- É sim.

DAD- E o que ele já pensou pra inventar?

VAL- Telefone, carro, televisão, rádio, avião, computador e daí segue.

TEL- Dadá, não encana.

JO- Mais uma vez minha Telma tem razão. É bom você não encanar nada aqui. Pra encanar aqui tem que ser encanador profissional. Eu não vou correr o risco de ter cano estourado e depois vazamento.

        ( Dadá olha pra Telma ).

DAD- Seu pai tem humor.

TEL- Não, ele não tem humor nenhum. Todas as revistas de humor que ele tem é eu que emprestei pra ele. Ele não tem humor nenhum. É tudo emprestado.

DAD- Seu pai parece legal.

TEL- Mas ele é legal.

        ( Telma se aproxima de João, pega o seu braço e dá algumas batidas ).

TEL- Ele é verdadeiro, não é uma cópia. Meu pai é legal mesmo. Bem, vamos então nos cumprimentar?

        ( João nota que Dadá ta suado e comenta com Valquíria ).

JO- Não te disse? Veja como ele ta transpirando. Deve ter acabado de fazer aquilo. Eu não vou cumprimentar ele. Ainda mais sabendo que aquela mão andou pegando naquela parte dele e naquelas partes dela.

TEL- Essa é a minha mãe, Valquíria.

        ( Dadá cumprimenta Valquíria ).

DAD- Muito prazer.

        ( João afasta Dadá de Valquíria ).

JO- Nada disso.

TEL- Nada disso o quê, pai?

JO- Muito prazer com minha filha ainda com muito custo que vá. Mas muito prazer com minha mulher você não vai ter. Prazer com minha esposa não vai ter, não.

DAD- Não entendi.

TEL- É brincadeira do meu pai.

VAL- Ele é um pouco desequilibrado.

DAD- Desequilibrado?

        ( Telma fica num pé só e faz de conta que está sem equilíbrio ).

TEL- Desequilibrado. Entendeu?

VAL- Mas que dia lindo.

TEL- Mãe. Ta um frio danado lá fora. Não tem uma estrela. E o céu ta cheio de nuvens escuras.

VAL- Mas… Mas eu acho bonito dia assim.

DAD- É desses dias que não dá vontade de sair da cama.

        ( João faz círculos ).

JO- Viu Valquíria? E eu vou ter que ouvir detalhes sobre minha filha?

VAL- Diacho! Calma João.

JO- Pó! Eu não sou de ferro.

TEL- Ainda bem, por que se fosse garanto que já estava enferrujado.

JO- Por que diz isso?

TEL- O senhor não se cuida. Veja que quem faz tuas unhas, cabelo, banho, roupa, barba é tudo a mãe.

JO- E daí?

TEL- O senhor não faz nada pra si.

JO- Se eu fosse de ferro a Valquíria ia sempre por um óleo no meu corpo. Aposto que eu nunca ia enferrujar.

        ( João anda pesado como um homem de ferro ).

JO- Eu não ia enferrujar.

TEL- Bem, eu quero sentar.

        ( João levanta os braços ).

JO- Aqui não.

TEL- Aqui não o que pai?

JO- Você não vai sentar na minha casa. Isso não.

TEL- Mas o que tem demais?

JO- Vá fazer sexo em outro lugar. E muito menos nesse sofá.

TEL- O que tem esse sofá?

VAL- É que o gato fez caca no sofá.

DAD- Mas isso é normal.

TEL- Mãe! A gente não tem gato.

VAL- É uma gata.

TEL- Mas a gente também não tem uma gata.

VAL- É do vizinho.

        ( Valquíria bate com o pé na Telma ).

VAL- Entendeu?

TEL- Entendi.

        ( Valquíria dá uns tapas no sofá pra limpar ).

VAL- Pronto! É só sentar.

        ( Telma e Dadá se sentam, fazem mímica que estão falando ).

JO- Você já viu como é feio esse Dadá?

VAL- Você nunca foi de achar homem bonito.

        ( João faz pose de gay exagerado ).

JO- Saiba que eu não virei gay.

VAL- Não brinca.

JO- Eu não virei mesmo.

VAL- Vem alguma coisa aí. Continua.

JO- Eu nunca virei gay por que nunca fiquei rodando um gay. Gira pra esquerda, gira pra direita.

VAL- Engraçadinho.

JO- Não tem nada de engraçado. O que ela viu nele?

VAL- O que a Telma viu nele pode estar escondido.

JO- Lá vem você acabando com a brincadeira.

VAL- Telma gosta dele e isso é que importa.

JO- Mas e os nossos netos?

VAL- Nós não temos neto nenhum.

JO- Os que vão nascer.

VAL- O que tem eles? Se bem que eles não devem ter nada. Não nasceram ainda.

JO- Eles vão vir feios.

VAL- Vai que eles puxam a Telma. Daí eles vem bonitinhos.

JO- Mas ela arrumasse um cara mais bonito nossos netos podiam vir mais bonitos ainda.

VAL- Esse é o cara que ela gosta.

JO- E eu vou ter que engolir ele.

VAL- De jeito nenhum. E não vai dar pra engolir ele. Ele não passa na tua boca.

JO- Mas passa na porta de saída. Bem que ele devia sair daqui pra sempre.

VAL- Vamos até eles.

        ( Valquíria puxa João para ir até Telma e Dadà ).

JO- Está confortável, Dadá?

        ( Dadá tem um ligeiro mal estar no estômago e leva a mão até a sua barriga ).

DAD- Ai, está incomodando. Alguma coisa que eu comi me fez mal.

JO- O quê?

DAD- Alguma coisa que eu comi me fez mal.

        (  João se volta pra Valquíria ).

JO-  Pó! Ta vendo Valquíria? Viu o que ela disse?

        ( João fala mais alto ).

JO-  Que comeu algo que fez mal.

VAL- Calma João.

JO- Eu não consigo ter calma depois do que ele falou. Que comeu algo que fez mal.

TEL- O que o pai tem?

VAL- Nada minha filha. Ele só ta preocupado com o que o Dadá comeu.

TEL- Isso é bom. É sinal que o pai já gosta do Dadá.

        ( João fica batendo no peito ).

JO- Já não agüento segurar.

VAL- Segurar o quê? Você não ta segurando nada. Não to vendo nada nas tuas mãos.

JO- Ele ta dizendo que minha Telma fez mal pra ele.

DAD- Na certa o que comi estava estragado.

JO- Eu tenho vontade de bater nele.

        ( Valquíria segura João ).

VAL- Não vai fazer isso.

JO- Mas ele ta chamando agora nossa filha de estragada.

VAL- Não é a Telma, é o que ele comeu.

JO- É a Telma.

TEL- Mãe, por que o pai ta tão nervoso?

VAL- Ele tá preocupado com o seu Dadá.

DAD- Acho que comi algo com o prazo de validade vencido.

        ( João bate uma mão na outra ).

JO- Valquíria, essa Dadá está me irritando. Olha o que ele fala da nossa filha. Ele diz que nossa filha passou do prazo de validade. Como isso é possível. Nossa Telma só tem 16 anos. Ela é nova.

VAL- Você tá exagerando.

JO- Eu não estou suportando essa situação.

        ( João fica imóvel e fala atrapalhado ).

JO- Vê-já os do… Dois.

        ( Dadá belisca e passa a mão pelo braço, ombro, rosto, cabelo, costas  de Telma ).

JO- Veja só o que aquele desgraçado está fazendo.

VAL- Ele não tem nada de desgraçado.

JO- O quê?

VAL- Você acha uma desgraça namorar a Telma?

JO- Evidente que não. Ela é linda e…

VAL- E o que?

JO- E….

VAL- Vai diz. A Telma é linda e…

JO- E… E linda também.

VAL- Ele teve foi uma baita graça celestial para namorar a Telma.

JO- Observe que ele não tira a mão da Telma.

VAL- E o que tem isso?

JO- Tudo, pó! Você se lembra do que ela fazia só de eu encostar nela?

VAL- Faz tanto tempo que não vejo você fazendo carinho nela.

JO- Por que ela só me xingava. Teve vez que ela disse por que eu não ia agarrar minha avó. E eu podia agarrar minha avó. Ela já morreu há um tempão. Dizia também não amola. E olha que eu não tava com mola nenhuma. E daí ainda falava que queria paz. Queria paz me dizendo todas essas coisas? Eu ficava com uma vontade de mandar ela pra um país que tá guerreando. Agora ela tá ali feito um cordeirinho. O meu carinho não, mas o desse miserável.

VAL- Ele não é um miserável.

JO- Não?

VAL- Lógico que não. Ele tem a fortuna que é a Telma. A Telma é uma fortuna.

JO- Eu me lembro que já chacoalhei a nossa Telma e nunca caiu um dinheiro sequer. 

VAL- Prefere que eu diga que a Telma não vale nada?

JO- Não, não, não diga isso Valquíria.

VAL- Nada não.

VAL- Assim está melhor.

JO- Alguma coisa ela vale. Até lixo agora vale alguma coisa.

VAL- Diacho de língua que você tem.

JO- É só o jeito de falar.

VAL- Eu já penso o contrário.

JO- O quê?

VAL- Que você não tem jeito pra falar. Fica aí ofendendo as pessoas.

        ( João aponta o próprio peito ).

JO- Eu não estou ofendendo a nossa filha.

VAL- Como não?

JO- Eu não estou, disso tenha certeza.

VAL- Mas acabou de ofender.

JO- Eu já disse e repito que não to ofendendo a nossa filha.

VAL- Diacho. Vá entender, ta sim.

JO- Não to.

VAL- Ta sim.

JO- Não to.

VAL- Ta sim.

JO- Não to.

VAL- Ta sim.

JO- Não to.

VAL- Ta sim.

        ( Valquíria faz sinal de quem joga tênis ao responder e depois o João também responde ).

JO- Não to.

VAL- Ta sim.

JO- Não to.

VAL- Ta sim.

JO- Não to.

VAL- Ta sim.

TEL- Vocês vão fazer o favor de parar com essa cena. O que o meu Dada vai pensar?

JO- Que bom que o teu namorado pensa.

VAL- Vamos parar.

        ( João fala pra Valquíria ).

JO- Além de burro é feio.

VAL- Pare com isso. Ele é um bom rapaz pra nossa filha.

JO- Só pode ser bom e deve. É feio pra burro. Onde ele vai arrumar uma moça tão bonita como a Telma? E além de tudo zero quilômetro.

VAL- mas ela me contou que até ele é zero quilômetro.

JO- Pó! Piorou. Onde é que ele ia arrumar uma máquina dessa disponível pra alguém que não sabe dirigir?

        ( João brinca com uma chave ).

VAL- Sabe essa chave?

JO- O que tem ela?

VAL- Preste atenção.

JO- Estou prestando, foi a chave que a Telma me deu.

VAL- Foi não. Foi o Dada que mandou te dar. Veja, ele já te deu alguma coisa.

        ( João se exalta ).

JO- Essa chave? Você quer insinuar que eu estou devendo obrigação pra ele? Igual esta chave eu poderia fazer milhares. Dá impressão que você quer que eu me sinta obrigado a aceitar ele dentro de nossa casa.

DAD- Tô com sede?

TEL- Eu vou pegar um refrigerante pra você.

        ( Telma se levanta do sofá ).

TEL- Pensando bem, venha comigo Dada.

        ( Telma e Dada saem de cena ).

JO- Ta vendo? Ele nem ofereceu um refrigerante pra mim.

VAL- A Telma ta certa de não te oferecer refrigerante.

JO- Certa de me ignorar.

VAL- Não é isso.

JO- Certa de me afrontar.

VAL- Não é isso.

JO- Então o que é?

VAL- Ela sabe que você gosta só de cerveja.

JO- Mas podia ter oferecido.

VAL- Pra que? Se refrigerante você não toma.

JO- Pra eu me sentir importante.

VAL- João, você ta com ciúme de sua filha. É algo muito comum. Acontece em todas as famílias.

JO- É isso que você se engana. Não é ciúme. Eu fico muito constrangido dela nunca ter me dado tanta atenção e agora estar toda mansa com esse estrangeiro. Custa ser imparcial? Custa? Me diga, custa a nossa Telma ser imparcial? É difícil a gente aceitar que criamos uma filha com tanto carinho, desprendimento, dedicação, afeto pra depois que passar o tempo ver ela te tratando como um estranho. Isso não acontece nem com alguns animais. Tem bicho que sempre reconhece sua família ao longo de toda a vida.

VAL- João, ela cresceu e tem que seguir o caminho dela.

JO- Que caminho?

VAL- O caminho.

JO- Mas que caminho é esse?

VAL- É o caminho.

JO- E ele sabe escolher caminho?

VAL- Não sabe?

JO- Lembra que ele preferia quando agente tava no campo ir pela caminho da casa pra piscina? Pois é, esse ela fosse pelo meio do mato ela chegava meia hora antes.

VAL- Você queria que ela andasse no meio do mato?

JO- Mas era o melhor caminho. Ela ia economizar meia hora. 

VAL- Você não se emenda.

JO- Não venha dizendo que eu não emendo.

VAL- Por que, você emenda?

JO- Com uma fita isolante ou durepox não tem quem emende melhor que eu.

VAL- Estou falando de minha filha.

JO- Ela não dá pra emendar.

VAL- Emendar o quê?

JO- Eu aposto que ela vai quebrar a cara no caso com esse cara aí. E não vai dar pra emendar. A foto dá, mas a cara dela vai ficar quebrada.

VAL- Você não tem jeito, mesmo.

JO- Você viu o jeito desse Dada?

VAL- Que jeito?

JO- Ele tem uma entrada grande na testa. Ele vai ficar careca.

VAL- Bom sinal, você já viu mendigo careca? Não vai gastar com xampu. A gente não vai ficar pegando cabelo caído pela casa deles, dele pelo menos não. Ele vai usar menos tinta quando precisar pintar o cabelo. Viu, só tem vantagens em ser careca.

JO- Não dá pra falar sério com você.

VAL- Eu tenho que levar na brincadeira senão eu fico doida.

JO- O cara é esquelético, baixinho, usa óculos, tem dentes de coelho e ainda amarelados. Nossa filha bem que podia ter arranjado algo melhor. Isso podia… Sem falar no jeito arcado dele andar. Parece um homem daqueles primitivos, do tempo das cavernas. É, esse Dada não passou pela evolução das espécies. Ele deve ser um homem de Neandertal.

VAL- Ele tem problema de coluna. E é desde criança.

JO- Pra mim ele é um aprendiz do Corcunda de Notre Dame. Parece que ele ta carregando saco nas costas.

        ( Valquíria ri ).

VAL- Isso você sabe que não.

JO- Que não o que?

VAL- Que ele não ta carregando saco nas costas.

JO- Por que não? Ele anda arcado.

VAL- O saco dele ta na frente.

JO- Pó! A situação é séria e você vem com brincadeira?

VAL- É o único jeito pra eu não pirar, diacho.

JO- É só olhar pra ele que a gente pensa que ele perdeu alguma coisa e ta procurando no chão. Do jeito que ele é magro dá impressão que ta ventando muito e ele ta todo envergado.

        ( Telma entra com Dada trazendo refrigerante e um prato com sanduíche ).

TEL- Senta meu bem.

JO- Era isso mesmo que eu queria que acontecesse. Eu queria que esse Dada sentasse bem direitinho. Sentar na boneca eu não queria por que ia estragar a boneca. O que a boneca tem a ver com isso? Mas que eu queria que ele sentasse, eu queria.

VAL- Para de falar se noção.

JO- Ela nunca me tratou com tanto chamego. Me dá uma vontade de quebrar a cara desse monstro.

VAL- Ele não é monstro.

JO- É sim, ele destruiu nossa família. Ele é um monstro. Ele acabou com minha família. Ele é um monstro. Ele seqüestrou nossa Telma. Eu vou quebrar a cara desse cínico.

        ( João fecha as mãos e vai ao encontro do Dada, mas Valquíria o segura ).

VAL- Você não pode fazer isso.

TEL- O que o pai ia fazer?

VAL- Bem, bem, bem… Ele ia abraçar o Dada, mas é melhor deixar pra depois.

        ( João tenta avançar, mas Valquíria segura ele ).

VAL- Não faça isso, não bata no rapaz.

JO- Por quê?

VAL- Deixa eu ver…

JO- Por que não devo bater nele?

VAL- Deixa eu ver…

JO- Vamos, fala.

VAL- Tô pensando.

JO- Então pensa rápido.

VAL- Hã!

JO- Pensa rápido.

VAL- Já sei… Se você bater nele ele vai ficar mais feio, ainda. Então é melhor não bater.

JO- É, você tem razão.

TEL- Dadá, o sanduíche tá legal?

DAD- Tá sim.

TEL- Dadá, gostou da minha casa?

DAD- Gostei sim.

TEL- Dadá, gostou dos móveis?

DAD- Gostei sim.

TEL- Dadá, gostou da pintura?

        ( João fala pra Valquíria ).

JO- Isso ele vai falar que não. Onde já se viu homem gostar de uma pintura a não ser que seja desbotado.

VAL- Ela tá falando da tinta.

TEL- Gostou da minha roupa?

DAD- Gostei sim.

JO- Por que ela não põe umas alternativas embaixo da pergunta. Letras a, b, c, d, e?

VAL- Não atrapalha.

TEL- Dadá, gostou de meus pais.

DAD- Do seu pais e da sua mães também.

TEL- Tá ficando tarde.

DAD- É, tá ficando tarde.

TEL- Pensando bem não tão tarde.

DAD- Pensando bem não tão tarde

TEL- Não é meia noite ainda.

DAD- Não é meia noite ainda.

TEL- Então é cedo.

DAD- Então é cedo.

        ( João mostra indignação ).

JO- Tá vendo Valquíria, aqui tem eco. Ele repete tudo que a nossa Telma fala.

VAL- Cala a boca. Isso é bom. Ele vai seguir nossa filha o tempo todo.

JO- E isso é bom?

VAL- É sim.

JO- ter um homem que segue a mulher todo tempo é bom?

VAL- Eu já falei que é.

JO- E não vai dar pra dar um pulinho de cerca sequer. E isso é bom?

VAL- Você não existe.

JO- Quer que eu mostre minha certidão de nascimento?

VAL- Ele é uma boa pessoa.

JO- Esse Dadá só repete o que a Telma fala. Não tem vontade própria, não argumenta, como um relacionamento vai dar certo assim? Você acha certo isso?

VAL- Hã!

JO- Você acha certo ele só seguir a Telma?

VAL- É melhor o marido seguir a Telma que a polícia seguir ela.

JO- É, vendo por esse lado você tem toda razão.

        ( Telma e Dadá ensaiam pra dizer algo ).

TEL- Diz você.

DAD-  Diz você.

TEL- Diz você.

DAD- Diz você.

TEL- Diz você.

DAD- Diz você.

TEL- Diz você.

DAD- Diz você.

        ( João fica assustado e prevê o pior ).

JO- Por que não dizem dois juntos, afinal fizeram a besteira juntos.

        ( Dadá e Telma se falam ).

DAD- Fizemos besteira?

TEL- É o que o pai disse.

DAD- Mas o nome dela vai ser Valéria, não é? Eu acho feio dar o nome de Besteira pra uma menina.

TEL- O pai tá pirando.

VAL- Se acalma João.

        ( Telma dá um empurrão no Dadá ).

TEL- Fala Dadá.

DAD- Seu João, dona Valquíria…

JO- Por que eu sou seu e você é dona. Tinha que ser sua.

VAL- Deixa ele falar, diacho.

DAD- A gente tem uma coisa importante pra falar.

TEL- Eu não, é ele.

        ( Dadá engasga e se esconde atrás de Telma ).

TEL- Pai, mãe, a gente… Vou no embalo… A gente fez coisa errada.

VAL- Minha filha, não precisa de cerimônia. Todo mundo erra.

JO- Já estou vendo tudo. Errou ao andar e virou o pé, minha filha?

TEL- Não.

JO- Não tinha pão francês e comprou errado. Comprou pão de água?

TEL- Não.

JO- Você errou e atravessou a rua fora da faixa de pedestre?

TEL- Não.

JO- Você errou muitas questões de prova da escola?

TEL- Não.

JO- Você tá errando o caminho da nossa casa, por isso tá chegando mais tarde?

TEL- Não.

JO- Você errou na quantidade de pó de café e o café ficou forte demais?

TEL- Não.

        ( João rói as unhas ).

TEL- Tem a ver com minha barriga.

JO- Errou no regime e engordou um pouco?

TEL- Não.

JO- Errou na comida. Comeu porcaria e tá com dor de barriga?

TEL- Também não. A gente não usou camisinha.

JO- E pegaram uma gripe? É isso que dá. Não dá pra ficar sem camisinha nos dias que faz frio.

TEL- Não é essa camisinha.

        ( Valquíria se aproxima de João e fala no seu ouvido ).

JO- É aquilo que eu cochichei no seu ouvido?

        ( João fica tonto e começa a andar fazendo curvas ).

JO- Eu não agüento. Toda vez que eu acertei algo eu fiquei tonto. Mas agora é pior. Eu devia estar comemorando que acertei. Devia comemorar que estava certo. Por que não acerto assim na loteria?

        ( João cai no chão ).

JO- Tá faltando ar.

VAL- Telma, traga um copo de água.

JO- Prefiro cerveja.

DAD- Não é melhor tirar a roupa dele?

        ( João tenta levantar ).

JO- Comigo não. Não é por que minha filha tirou a roupa pra você que eu vou tirar também. Isso não é de família. Ela tirou a roupa. Foi ela e não tem nada a ver comigo.

VAL- Não ligue Dadá.

JO- Não vá ligar nada. Eu tenho paixão pelos meu aparelhos. Deixa a TV, o rádio, o DVD. Deixa que só eu posso ligar.

VAL- É pressão.

        ( Dadá senta no peito de João de penas abertas pra desabotoar a camisa ).

JO- É pressão mesmo. Manda esse Dadá sair de cima de mim.

        ( João se recobra do susto ).

JO- O que foi mesmo que você disse Telma?

        ( Telma fala apontando a barriga ).

TEL- Nós fizemos coisa errada. E essa coisa errada vai levar uns 9 meses par nascer. É isso.

DAD- É.

JO- E o que eu tenho a ver com isso?

VAL- Não seja grosso.

TEL- O Dadá quer casar comigo.

        ( Valquíria senta no sofá aos prantos ).

VAL- Eu não posso permitir, minha filha é tão nova. Como vou suportar a perda dela? Isso é uma coisa que tem de ser muito pensada par não haver engano.

        ( João levanta e anda de um lado pro outro meio tonto ).

JO- Nada disso Valquíria.

        ( João cochicha no ouvido de Valquíria ).

JO- Agora que sua filha já fez isso…

VAL- Agora é minha filha? Antes era sua ou nossa.

JO- Tá na hora de reconhecer que você também é mãe dela.

VAL- Continua…

JO- Se a Telma não casar vai ficar na boca do povo.

TEL- Na boca do povo não.

JO- Como não?

TEL- de jeito nenhum.

JO- Telma, depois que a moça engravida tão nova e ainda solteira ela para na boca do povo.

TEL- Não, de jeito nenhum. Eu só beijo o meu Dadá. Não beijo mais ninguém.

VAL- Parece que a herança dos genes paternos estão aparecendo agora.

JO- O que disse Valquíria?

VAL- Nada.

JO- Nós temos que aceitar que agora o único jeito é permitir o casamento deles e que cada um siga seu rumo.

VAL- Não, eles tem que seguir o mesmo rumo.

JO- Tá, foi só um jeito de falar. Eles vão morar longe daqui, vão cuidar e sustentar a coisa errada, vão trabalhar e nós…

        ( João abraça a Valquíria ).

JO- E nós vamos viver como solteiros de novo.

VAL- Essa é nova mesmo. Sabe, não é tão ruim a idéia de casamento.

JO- Nós concordamos com o casamento, mas me digam uma coisa, onde pretendem morar depois de casados?

        ( Dadá abraça a Telma ).

TEL- Aqui pai.

JO- Onde minha filha?

TEL- Aqui pai. Na sua casa.

        ( João cai no chão e todo ficam ao redor dele abanando com as mãos, Dadá tenta levantar João, Telma dá uns tapinhas na cara de João e Valquíria fica de joelhos rezando ).

 

 

 

 

 

FIM