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A SUICIDA ATRAPAHADA…

4 04UTC junho 04UTC 2009

MONÓLOGO

“ A SUICIDA ATRAPALHADA “

AUTOR: SAMUEL R. KROSCHINSKI

DADOS BIOGRÁFICOS

Samuel R. Kroschinski é escritor, autor do livro “ BARRIGA: UM MUNDO FEMININO, o qual está a venda nas livrarias Curitiba.
Samuel R. Kroschinski já teve “ ESTÓRIAS EM QUADRINHOS “ e “ CONTOS INFANTIS “ publicados no jornal O Estado do Paraná.

Tel.: ( 041 ) 3286- 9285

End: Rua Dês. Antonio de Paula, 92
Boqueirão- Curitiba- Paraná
CEP: 81730- 380

CENÁRIO: Um apartamento onde aparece um cômodo com janela ( podendo ser painel ).

Sofá
Tapete
Escrivaninha ou mesa com gaveta
Revólver grande e pequeno ( brinquedo )
Facas cenográficas
Vidro de comprimidos
Corda
Geladeira e fogão
Meias, calcinhas, folhas de papel, jornal, pacote com algumas bolachas e caixa de leite, telefone, carteira de cigarros, cinzeiro, isqueiro, garrafa de álcool, saco plástico, barbante.

( Adriana entra em seu apartamento apressada )
Droga! Essa vida é miserável, já não agüento tanta pressão e olha que eu nem tenho pressão alta nem baixa ainda.
Esse fardo que Deus me deu está pesado demais pra carregá-lo. Estou precisando de um carregador. E ainda dizem que ele ( aponta o dedo para o alto ) distribui os fardos igualmente.
( Dá um soco na cabeça ).
Ai! Da próxima vez tenho que moderar nas minhas reações.
Mas tem algo errado, pois deve ter um monte de gente sem fardo nenhum. Eu só devo estar carregando por uns vinte pecadores e…
( abre os braços indicando tamanho ).
Com uns baita pecados, diga-se de passagem. Por falar nisso ele…
( fala mais baixo e apontando o dedo para cima novamente ).
Distribui fardos de quê? Bem, de coisa gostosa não deve ser por que sempre seria menor. Claro, a gente ia comer tudo.
( ri ).
Imagine você carregando um fardo de chocolate, garanto que não ia deixar por menos. Logo não existiria fardo nenhum para carregar.
( pensa um pouco ).
É, deve ser fardo de coisa ruim. E deve ter uns por aí que não foram avisados para pegar o seu fardo. Vivem no paraíso. Acontece que os meus fardos são entregues em domicílio e ainda registrados. Além de tudo tenho que assinar…
( faz movimento de assinatura no ar ).
Para garantir o recebimento. Claro! Pra eles terem a certeza que vou cumprir a minha sina. E se não cumprir? Será que serei cadastrada no serviço de proteção ao crédito?
Dizem que desgraça nunca vem sozinha.
( faz tom irônico ).
Essa tal da desgraça vive em bando, tem um monte de coleguinhas. No meu caso elas podem encher um campo de futebol em dia de clássico. Por falar em futebol, já torci por vários times e nunca nenhum ganhou título algum, mas era só deixar de torcer que eles ganhavam. Hoje sou mais esperta, deixo para torcer no final do campeonato, o time que vencer é do meu coração. Daí compro a camiseta do time e saio por aí só pra me sentir vencedora.
( senta no sofá e tira os sapatos ).
É, a minha vida não é um mar de rosas ( prende o nariz com os dedos da mão esquerda e com a outra joga os sapatos para longe ).
Disso tenho certeza. Confesso uma coisa, eu sempre tive o dom de perceber quando uma coisa não estava cheirando bem. Foi assim que eu percebi que podia ser mandada embora do trabalho. Perdi o emprego por um motivo banal. Fui pra rua por que não batia o ponto. Tem cabimento?
( deita no sofá e estica as pernas ).
Não fui trabalhar alguns dias e não seria tonta de ir ao escritório só pra bater o ponto e daí voltar. Como eles queriam que eu batesse o ponto se eu não estava lá?
( senta no sofá ).
Logo em seguida meu marido me largou, me trocou por uma mulher rica. Por coincidência, mas só por coincidência o amor acabou quando meu dinheiro acabou.
Fui trocada por uma mulher feia que dói. E deve doer mesmo, haja analgésico e viagra pra agüentar aquela feiosa.
Lembro até hoje o que ele me falou quando estava indo embora. Quem vê cara não vê carteira.
Pelo menos ( ri ) tem o lado bom, ele disse que sou bonita.
E se não bastasse ainda tem toda essa onda de azar. Afinal que toda onda é de azar pra mim. ( fala mais baixo ) Eu não sei nadar.
Pois é, meus pais morreram. Estavam correndo, não respeitaram o sinal e ao cruzarem a rua foram atropelados por um caminhão de lixo. ( ergue a voz ) Que jeito mais pobre de morrer e sem propósito. Claro, meus pais não podem ser reciclados. Adorava eles e não consigo esquecê-los por um instante sequer. Ficaram tantas saudades. Também, foi só o que eles me deixaram, saudades, por que em matéria de herança não me deixaram nada.
Lembro até hoje da cartinha deles, que chegava todo mês, sem falta. No começo aquele blá-blá-blá, como vai você, nós te amamos muito, espero que essa cartinha te encontre com saúde e felicidade e assim vai. Mas sempre trazia algo maravilhoso, um sentimento profundo, uma poesia eterna e pura, tudo traduzido numa única mensagem.
A sua mesada está no banco.
O dinheiro era mais que suficiente para passar o mês.
Agora estou perdida, confusa e sem rumo, cheia de dívidas e sem nenhuma perspectiva para o futuro.
A certeza que fica é a cadeia, caso não pague as contas. Mas isso eu não agüentaria. Será que juiz leva essa alegação em consideração? Senhor juiz eu não vou agüentar a cadeia, daí ele diz ( ergue a voz ) você é inocente.
Tenho que arrumar um jeito de escapar dessa confusão.
( conta nos dedos )
Uma volta ao mundo? Não.
Acertar na mega sena? Não.
Casar com um homem rico? Não.
Ah! Tudo isso é um sonho. Preciso tomar uma atitude mais realista, uma medida drástica que seja definitiva.
( dá um estalo com os dedos ).
Definitivo quer dizer por fim de uma vez. E isso é morte.

( declama )
A morte é doce,
Um verdadeiro licor,
Ida sem volta,
Para um lugar melhor.

Fuga dos problemas,
Distância das cobranças,
Viagem de turismo,
Na mala só lembranças.

Não deixaria saudades,
Levaria somente tristeza,
Presente em todas minhas idades.

Minha geração morreria,
Não teria filho nenhum,
E descendente alguma sofreria.

É isso, morrendo, não tenho nada a perder. Claro, morta vou perder o quê? Pelo contrário, só tenho a ganhar. Me livro de todas as preocupações. Uma vez morta estarei tranqüila, serena e em paz, tão em paz que será até chato. Dá pra por um radinho no caixão, pelo menos tem uma musiquinha. Creio que não terá uma viva alma pra acender uma vela ou me levar uma flor.
( faz cara de felicidade ).
Pronto! É uma idéia, tenho que levar adiante. Não posso deixar esfriar. Como é mesmo o nome de quem se mata?
( pensa um pouco )
Latrocínio, não, não, parece quem mata um cachorro. Latro deve vir de late. Será homicídio? Ah, homicídio deve ser quando se mata um homem, e quando se mata uma
mulher? Será mulhercídio. E quando se mata um que ainda não se decidiu pelo sexo?
Há, Lembrei, é suicídio. Então é isso, vou cometer um suicídio.
( anda de um lado para o outro resmungando ).
Na verdade queria morrer dormindo. Eu não queria me ver morrer. Eu não sentiria coisa alguma. Seria formidável sonhar, sonhar um belo sonho, que fome, ( se distrái mas volta ao assunto ) sonhar um belo sonho, que estava andando a cavalo no meu sítio, com carro importado na garagem e de repente acordar no paraíso. Acho que o termo certo não seria acordar. Bem, sempre adorei dormir, mas isso é pura imaginação. Ora, morrer dormindo? Como diz o ditado: quem sabe faz a hora. Mas como vou fazer o tal suicídio? Preciso de alguma coisa que mate.
Ei! Tem aqueles revólveres da escrivaninha.
( corre até a escrivaninha ).
Hum! Aqui estão eles. Um é de calibre 22 e o outro é de calibre 38. Bem que eu podia ter um 48, ah, mas esse é só de uso do exército. É proibido seu uso por pessoas como eu.
( admira um por um, apalpa e acaricia as armas ).
Dizem que o calibre 22 faz com que a pessoa demore a morrer. A bala vai correndo pelo corpo, batendo aqui e ali, num e outro osso. A morte vem por hemorragia interna.
( faz careta ).
Deve ser uma dor miserável. Já o calibre 38 nesse aspecto é melhor, mata mais rápido. Então tem que ser esse mesmo.
( guarda o calibre 22 e separa o 38 ).
Com você não vou sofrer.
( apanha as balas e começa a coloca-las no tambor ).
Uma, duas, três… De pensar que ( ergue uma bala ) isso logo estará dentro de mim. Chega a dar um calafrio.
Quantos tiros serão necessários para morrer? Não quero desperdiçar bala nenhuma.
( volta a contar as balas )
Quatro, cinco… Mas também, não preciso colocar tantas balas, pois só darei um tiro. Não me imagino dando o segundo, o terceiro, o quarto.
( aponta o revólver para si próprio e se comporta como quem estivesse levando os tiros, se arrasta, cai no chão e rola um pouco ).
Pum, pum, pum ( faz som de tiro ) e o quarto e o quinto tiro. Tenho receio que falte lugar para atirar ( ri ).
( levanta do chão ).
Por falar em lugar, qual o mais indicado do corpo pra morrer mais rápido?
( faz pose da famosa estátua do pensador ).
Que dúvida cruel. Onde vou mirar este trabuco?
( coloca o cano na testa ).
Aqui não!
( faz ar de desânimo ).
Nunca gostei de ter uma arma apontada pra mim, mesmo que de brincadeira. Quando era criança sempre fiquei fora das brincadeiras de bandido e polícia, justamente por não gostar de armas.
( faz silêncio e logo mira o ouvido ).
Há, Aqui é um bom lugar, mas e se a bala entrar por aqui e sair pelo outro ouvido? Sempre falaram que eu não ouvia direito. Vão achar que eu quis ouvir bem alguma coisa.
( coloca o cano do revólver dentro do nariz ).
Aqui deve ser fatal, mas ai! Não é bom enfiar tanto que dói. Também, se fosse o revólver pequeno não ia doer tanto assim.
Agora está bom, vamos lá, vai ser pra já.
Ah, não vai dar. Se eu atirar no meu nariz vou por água baixo toda a operação plástica. Ele era aquilino e sofri tanto para arrumar a grana da cirurgia de correção. Agora que está perfeito ( acaricia o nariz ) não vou estoura-lo, não sou doida.
O que diria meu cirurgião?
Tanto trabalho pra nada.
( anda um pouco com as mãos para trás ).
Já sei!
( coloca o cano na boca ).
Vai ser aqui mesmo.
Um, dois e… Não dá!
( corre até a escrivaninha e retira um papel ).
Esqueci que tinha hora marcada no dentista para amanhã. Se eu me matar com um tiro na boca vão pensar que foi por que não agüentei a dor de dente ou não tinha dinheiro para o tratamento. E agora eu me lembro… Minha mãe dizia que a primeira coisa que as pessoas olham são os dentes. Se eu dou o tiro na boca arrebento tudo e se alguém olhar meus dentes o que vai pensar? Aposto que vão dizer olhando para meu caixão. Ela não está rindo por vergonha de mostrar os dentes.
Não, na boca não!
( num gesto rápido aponta para a cabeça ).
Será aqui mesmo, não tem outro lugar melhor.
( engatilha a arma e faz suspense ).
Também não dá. Me lembro do tempo de escola que os colegas diziam que eu não tinha nada na cabeça. E se eu atirar na minha cabeça eles vão dizer que foi uma tentativa desesperada de colocar alguma coisa dentro dela. Há, eu não suporto a idéia de ser motivo de piada após minha morte. Agindo desse jeito vou assinar embaixo e reconhecer que não tinha nada na cabeça mesmo. Será uma forma de concordar com as piadas que faziam.
( larga a arma ).
Ah, não agüento essa incerteza. Pensei que cometer um suicídio fosse mais simples.
Se eu morasse em algum país árabe seria mais fácil cometer suicídio. Era bem fácil, era só eu me apresentar para ser mulher bomba. Daí eu receberia treinamento… Espera aí, por que treinamento? É só ir até um lugar com bombas pelo corpo e apertar um botão. Ah, mas tem um porém, eu não ia querer matar uma multidão de gente.
( pensa ).
Matar um vai lá. Eu chegaria perto de um homem bem bonito e diria: você é lindo de morrer e logo depois apertaria o botão. E Bum…
( faz Bum )
Tem que ser um homem que goste de barulho, daí a gente vai para o outro mundo juntinhos. Nunca gostei de andar sozinha. Acompanhada eu vou mais segura. E lá a gente pode formar uma dupla explosiva. Ah, e se a bomba falhar? Não dá para chamar alguém que está perto para ajudar. E nem dá também pra ir até uma loja que arruma material elétrico. Ei, mas se dá certo acontece uma coisa horrível com o corpo. A gente vira carne moída.
( faz careta )
Argh! Não quero que falem de mim como Adriana Ralada. Não isso não.
( apanha um livro qualquer sobre a escrivaninha ).
Deveria ter um manual , uma cartilha, apostila ou sei lá, escrito por alguém entendido na arte do suicídio. Serviria, para os leitores interessados, pouparem tempo e sofrimento. Ali, no livro, viria a receita tim-tim por tim-tim. Poderia ter a descrição de vários métodos com o grau de dificuldade estipulado por caveirinhas. Esse é fácil, uma caveirinha; esse é difícil, três caveirinhas; esse tem que comprar muito material, cinco caveirinhas.
É! Seria muito bom, mas espera aí… Não daria certo, não que eu seja pessimista, por não gosto de pessimismo, sempre vejo o lado bom das coisas, mas para o livro ter coerência e credibilidade, o autor precisaria ser um suicida sacramentado na arte e que nunca tivesse cometido um fracasso durante o suicídio. Agora vem o pensamento: se ele fosse bom na coisa, já estaria morto e consequentemente não escreveria o livro.
E não teria graça ler um livro escrito por um suicida fracassado, pelo menos para quem quer levar a sério o suicídio.
( coloca a mão na boca ).
Nossa! Que palavra forte. Morrer é esquisito. É melhor trocar por fazer a viagem, partir, passar desta para melhor para não ficar tão brutal.
( mira o coração, mas com dúvida de sua localização no peito ).
Estava esquecendo do coração. Aqui o tiro é certeiro, não aqui. Espera aí! O coração fica do lado esquerdo ( aponta o direito ) ou do lado direito ( aponta o esquerdo )? Droga! O coração não pode estar nos dois lados, vai que erro e fico por aí penando, sofrendo dores horríveis. Não, isso não, eu teria a maior vergonha de sair correndo do apartamento pedindo ajuda.
( começa a correr ).
Ei! Me ajuda, tentei me matar e errei o alvo.
Ei! Eu quis me matar, por favor me salve, me leva pra um hospital.
Depois de todo esse sofrimento ainda ia parar no hospital com a chance de pegar uma infecção hospitalar?
Ei! Se fosse um acidente, tudo bem, mas uma tentativa de suicídio e ainda mal sucedida.
O que os outros iriam falar?
( fala mais alto ).
Sem falar que pelas esquinas, cada pessoa teria sua receitinha certeira. Para se matar de verdade ela teria que se jogar num precipício com um lago repleto de piranhas ou se jogar na frente de um trem, e por aí vai.
Ainda tenho amor próprio, ficaria aqui me esvaindo em sangue até morrer, mas não pediria ajuda pra ninguém. Detesto ficar devendo favor para alguém. Se eu acertar em cheio meu coração pode acontecer algo terrível. As pessoas podem dizer que alguém machucou meu coração e eu decidi me matar. Acho abominável se matar por causa de homem ou mulher. Isso só enche a bola dele ou dela. É como se ele ou ela tivesse no currículo: Uma mulher ou homem se matou por minha casa. Eu não vou dar esse gosto para meu ex marido. Não mesmo.
Ah, tem mais uma coisa que estava me esquecendo. Se eu acertar o tiro e morrer e ainda por cima ninguém escutar o tiro?
( pega um giz e faz o desenho do seu corpo no chão ).
Quem vai me achar?
Depois de quantos dias?
Só de pensar que vou entrar em processo de decomposição já perco o apetite. Vou apodrecer e feder, será que um banho antes e bastante perfume ameniza o cheiro?
Quem vai achar meu corpo?
Claro! Por que o cheiro vai se espalhar pelo apartamento.
O vizinho da esquerda é difícil, pois é dono de uma peixaria.
Agora a vizinha da direita, também não levo fé.
( fala mais baixo )..
Ela vende perfume falsificado. Ela não vai notar nada de mais no cheiro, já está acostumada.
( anda e pensa ).
Ah! Só pode ser através de um cobrador. Ele sentirá demais a minha falta, deitará, vai chorar, gritar e espernear.
( Adriana deita, grita e esperneia ).
O cobrador não suportará tal fatalidade. Ficará completamente desolado por não receber o dinheiro que devo. Mas sabe de uma coisa, já me sinto feliz de fazer falta pra alguém. O motivo não importa, claro, depois de morta não preciso pagar mesmo.
( faz movimento de lavar as mãos ).
Por falar nisso muita gente vai sentir minha ausência. O Natanael, dono do apartamento, não vai arrumar outro trouxa tão fácil que pague tanto por esta espelunca. Tem o Pedro da farmácia, sou a cliente preferencial dele. Acabou uma doença já tenho três na sala de espera. Tem também o Manuel da padaria, para quem ele vai vender aqueles pães amanhecidos?
Nossa! Acho que no meu enterro vai ter bastante gente, nem que seja para rogar praga.
( faz vozes diferentes para cada praga )
Apodreça no inferno.
Tua alma não vai ter paz.
Na outra encarnação vai ser mendiga.
Espera aí! O assunto é outro, estou desviando do objetivo vital, a minha morte. Uma coisa tenho certeza, com o revólver vai ser difícil, acabei de lembrar que não tenho porte de arma. Isso quer dizer que essa arma é ilegal. Se eu me matar com este revólver estarei cometendo uma infração.
( larga a arma e apanha a carteira de cigarros, retira um cigarro e o acende, admira a fumaça que se esvai e senta no sofá ).
Dizem que o cigarro mata, seria até gostoso morrer fumando, mas demora muito, teria que esperar quantos anos?
Ei!
( apaga o cigarro no cinzeiro ).
E se eu mudar de método? Que tal cortar os pulsos?
( vai até a gaveta e retira algumas facas ).
É difícil escolher entre pequenas e grandes. Ah! Elas precisam estar afiadas, pois eu não vou ficar cortando os pulsos por várias vezes, igual quando a gente está ( faz mímica de estar cortando algo duro ) cortando um bife duro com uma faca cega. O certo é dar uma passada e pronto ( faz movimento rápido com a faca ).
Escolho grande ou pequena? Ei! Tamanho não é documento, todas cortam.
( pega várias facas ).
Esta aqui de cabo de madeira, é muito antiga. Ih! Ela não serve. Imaginem que está enferrujada. ( põe a mão na cabeça ) Deus me livre cortar os pulsos com ela, ainda arrisco pegar uma infecção, um tétano. Teria que tomar várias injeções antitetânicas, e tenho pavor de injeção.
Olha esta aqui, tem o cabo de plástico e é colorida, é a mais bonita.
( ela passa o dedo no fio da faca para verificar se está afiada ).
Ai! Me cortei.
( balança o dedo e leva á boca ).
Ai! Minha mãe sempre disse para não brincar com faca. É de uma irresponsabilidade o fabricante vender uma faca afiada desse jeito. Coloca em risco a saúde dos usuários. Onde já se viu?
Mas no meu caso ela deve servir, tá-tá-tá-ram, está chegando a hora de ir.
( encosta a faca no pulso ).
Adeus mundo ingrato! Logo mais estarei com minha mãe… ( se assusta ) Espera aí, eu disse mãe? Não, não, não. Se eu for para o mesmo lugar de minha mãe já estou vendo a bronca que ela vai me dar.
( engrossa a voz )
Por que se matou?
E daí a pegação no pé. Tem que acordar cedo minha filha. Você tem que ter cuidado com quem anda e aonde vai. Volte cedo, etc. Não vai adiantar eu dizer que estou morta. Minha mãe dizia, se você sair de casa está morta pra mim e eu sai.
( encosta de novo a faca no pulso ).
Adeus mundo, adeus…. Adeus, adeus cidade querida, adeus, adeus país amado, adeus, adeus… É melhor fazer rápido, pois não vai aparecer um príncipe encantado pra me salvar. Não adianta ganhar tempo.
Lá vai, é agora.
( faz uma pausa ).
Ei! Não posso cortar meus pulsos, vai sair muito sangue. O corpo humano tem mais ou menos cinco litros de sangue. Aonde vai tudo isso?
( dá um grito ).
Vai escorrer pelo chão e manchar o tapete. Enfim, vai emporcalhar todo o apartamento. E o que vão dizer? Que eu dei meu sangue por este apartamento. Eu sempre tive mania de limpeza. Sempre exigi que Júlio, meu marido, lavasse as roupas dele, lavasse a louça, limpasse o apartamento e agora vou sujar todo ele? Isso não, não mesmo. Não é agora que vou fazer um ato mundano desses. E tem mais, vai sair muito sangue de mim e eu vou ficar bem pálida, branca igual cera. Não, esse método não dá por que eu sempre peguei sol pra ficar com uma corzinha manera. Espera um pouco.
( corre e apanha um copo de água e bebe afoita ).
Hum! Estava com uma sede. Meu Deus, eu não pensei nisso, como não pensei? Eu posso morrer por afogamento.
Ei! Mas onde vou me afogar aqui dentro? Vou ter que sair. Essa é uma ótima idéia.
Calma ( faz calma com as mãos ), calma, estava esquecendo que não sei nadar. Nem boiar eu sei. Entrar nhá água sem saber nadar é completamente perigoso. E onde eu iria me afogar? Há, tem um rio aqui perto. É só eu ir até lá.
( se prepara para sair ).
Não, não adianta ir até lá, é um rio de esgoto, não tem um peixe vivo ma água. Imagine eu que só tomo água filtrada me afogar numa água de esgoto. Não me vejo tomando aquela água ( faz careta ) com urina, fezes, latas, garrafas, roupas, bichos mortos. Tomar água suja faz mal, dá um monte de doenças. Preciso arrumar outro meio. Espera aí! Acabo de me lembrar dos filmes de bang-bang. O meio mais comum era: Não era flecha. Onde eu iria arrumar um índio?
( faz mímica de atirar uma flecha ).
Seria interessante.
Mas estava falando da forca. Esse é um método simples, barato e limpo.
( corre até a gaveta e retira uma corda, mexe nela, estica, observa ).
Isso me traz recordações de quando era criança. Adorava brincar de pular corda.
( Ela pula corda, por alguns segundos cantarolando algo alegre ).
É bom parar com a brincadeira. O que preciso fazer é sério.
( tenta fazer o nó de forca ).
Esse nó de forca é mais difícil de fazer do que pensei.
( tenta fazer o nó, mas sempre dá errado, mostra desânimo ).
Sempre acreditei em rituais. Se a gente vai tomar vinho tem que apreciar a coloração, cheirar, sentir o vinho para depois tomar. É um ritual que aguça todos os sentidos para que seu sabor seja enaltecido. É isso que dá um toque especial para as coisas. Lembro que Júlio sempre se zangava quando eu fazia esse ritual ante de beber o vinho. Só por que eu comprava o vinho no boteco da esquina. Eu comprava vinho barato para economizar o dinheiro e gastar num salão de beleza ou roupas par mim. E lá tem diferença? É um vinho como qualquer outro. O nome é vinho, não é?
Mas ser enforcada com um nó fajuto é demais. Vão dizer que eu nem sabia dar o nó de forca. Por falar nisso eu sempre adorei fazer aquele joguinho de advinhar as palavras. É o jogo da forca. Sabia que eu tinha tirado de algum lugar essa idéia. E se eu faço um outro nó? Já imaginaram se me encontram enforcada com um nó de porco? Vão dizer pra levar o presunto pra geladeira. E com o nó direito? Vão dizer que essa morreu direitinho.
Além de tudo ficarei conhecida como a enforcada de primeira viagem.
( coloca a mão na cabeça ).
Isso é vergonhoso demais. Ei! Tem uma coisa que eu não pensei. Já vi fotos de pessoas enforcadas e elas ficam com uma aparência horrível.
( faz careta ).
Ficam com os olhos arregalados, a língua para fora e ainda aquele sinal medonho no pescoço.
( faz o sinal da cruz ).
Cruz credo! Não posso ficar com sinal nenhum no meu pescoço. Sempre brigava com o Júlio quando ele ameaçava dar um chupão ou mordida no meu pescoço. Pra esconder é difícil. E não quero ficar com a aparência que está escondendo alguma coisa. Agora seria muito triste ter que levar a marca da forca pela vida inteira… Ou melhor, pela morte inteira.
Não, não posso escolher a forca.
Preciso de um outro meio.
( anda pelo apartamento e se bate em algum objeto ).
É isso! Como não pensei antes, atropelamento. É, mas vou ter que sair de casa. Aqui dentro não passa nenhum carro, muito menos ônibus ou caminhão.
( fica alegre ).
Até que enfim uma luz no fim do túnel, mas ser atropelada por bicicleta não dá e nem por moto. Eu tenho que ser atropelada por um carro. É fácil, é só me jogar na frente quando o carro estiver passando. Minha mãe sempre disse pra eu me jogar quando tivesse uma oportunidade. É isso, vou seguir o conselho da mamãe. E quanto ao carro? De que carro eu me jogo na frente? Não, por que não pode ser um ferro velho. Precisa ser um carro moderno, estiloso. O que as pessoas vão falar se eu morrer atropelada por um calhambeque. Vão dizer que não sabem quem é a lata velha. Se eu vou morrer atropelada tem que ser um carrão.
( pensa ).
Tem que ser um carro de luxo ou esporte pra dizerem que eu tenho bom gosto.
Mas um carro desses não fica passando toda hora pelas ruas. Hi! Quer dizer que eu vou ter que ficar esperando um carrão passar pela rua. Isso é uma loteria. Sabe lá quantas horas ou até dias vai levar pra isso acontecer. E tem mais uma coisa, o carrão não pode estar devagar. Se eu me jogar na frente dele e ele estiver devagar dá tempo para frear e eu fico com a cara no chão.
( faz ar de cansada ).
Ufa! Vou ter que esperar vir um carrão em alta velocidade, e olha que isso é difícil. Dizem que homem cuida mais de carro do que de mulher. Eu acompanho noticiário e não é muito freqüente acidente de carro envolvendo carrão. É até compreensível. Os donos de carrão andam na ponta dos pés. Eles cuidam de seus carrões. Já a maioria dos acidentes acontece com carros velhos e populares onde o dono não tem nenhum amor por seu meio de locomoção. Quando teve que comprar comprou por que era o único que o dinheiro cabia. Já os donos de carrão compram por que é justamente o carro que eles gostam e sempre quiseram ter. Acidente é coisa de amor. Um ama o carro que tem e o outro, em muitos casos, odeia o carro que tem. Até a rua eu tenho que escolher, pois carrão não anda em qualquer uma. A rua ter que ser chique. Já o carro popular o dono enfia em qualquer lugar. É, parece fácil, mas não é. Ai, e a roupa? Com que roupa que eu vou?
( senta no chão ).
A roupa é muito importante. Traduz a personalidade da pessoa. Olhando a roupa a gente tem idéia de como a pessoa é. Por isso é importante a escolha da roupa que eu vou ser atropelada. Pode ser um agasalho esportivo? Não, se matar não é um esporte, é uma coisa séria. E um terninho? Não, se matar não é um trabalho. Um biquíni? Não, não, se matar não é praia nem piscina. Um vestido de noite? Não, se matar não é uma festa. Já sei, uma bermuda e um chinelinho? Não, também não, se matar não algo tão informal. Ah, e chinelinho é ruim de eu ir, pois ainda não fui no salão fazer os pés. E de salto alto? Também não dá, já sei que vão fazer muitas piadas a respeito. Com certeza vão dizer que eu cai do salto e fui atropelada. E se eu for só com uma capa e pelada por dentro? Sempre tive curiosidade de saber como é sair pelada numa revista e essa pode ser minha chance. Antes de me jogar na frente do carro eu tiro a capa e me jogo. Mas como eu não pensei nisso, eu não vou sair na coluna social e sim na policial.
( levanta ).
Confesso que perde a graça. Ei! Isso me faz pensar que carro é pequeno e se a batida não me matar? Não, não pode ser carro, eu já tive uma idéia, aliás, uma grande idéia. Vou me jogar na frente de um ônibus. Não, não, não dá, vai ter muita gente me olhando. Vão dizer que eu errei a porta para entrar no ônibus. E ainda tem gente que costuma dizer: vai pegar o ônibus? Nesse caso vão dizer que o ônibus me pegou mesmo. Não, eu tenho que ser atropelada por outra coisa. Mas o quê?
( senta, cruza as pernas e meditas um pouco ).
Já sei, como não pensei antes, um caminhão, uma carreta. E eles costumam correr. Claro, a maioria desses caminhões grandes não é de quem está dirigindo, mas de uma empresa. Espera aí.
( levanta ).
Não pensei nesse porém. A carga do caminhão que me atropelar é importante. Já pensou ser atropelada por um caminhão de banana? Vão dizer que eu era uma banana. E se for um caminhão de bebida? Vão dizer que a bebida me matou. De cigarro vai ser a mesma coisa, o cigarro matou ela. E se for um caminhão de televisão vão dizer que eu não saía da frente da televisão e que foi uma pegadinha. Se for de carne vão dizer que chegou carne fresca. Epa! Mas tem uma coisa, caminhão é muito grande e pesado. E se o caminhão me esmagar? Não, isso não pode acontecer. Eu não posso ser esmagada. Daí vão me por num caixão sem janelinha. E eu que sempre que entro num ônibus vou logo sentando na janela. Não é depois de morta que vou deixar de gostar da janelinha Sem falar que vou ficar irreconhecível. Pudera! Vão dizer que o caminhão esmagou meus sentimentos. E se alguns começarem a perguntar se eu era carne moída de primeira ou de segunda ou ainda raspa de serra? Não, eu não quero ser motivo de piadas por aí.
Preciso de um outro meio.
( faz um bocejo e se espreguiça ).
Ah, mas me sinto cansada. Ei, uma revista.
Deixa eu dar uma olhada.
( deita no sofá ).
Aqui tem uma piada, adoro piadas.
O menino está brincando, e por descuido, deixa cair uma caixa em cima do pé da irmã. Ela se vira para o irmão e diz:
Ai! Filho da puta.
O pai indignado entra e diz que é feio dizer palavrões e ainda mais mentirosos.
Disse o pai:
Pelo menos diga: neto da puta.
( dá belas gargalhadas ).
Há, há, há, há, há, há, essa é boa, vou morrer de rir se continuar rindo assim. Ei, é melhor aproveitar o embalo. Quem sabe eu morra de rir.
( ri e se joga no chão ).
Ué! Ainda estou viva?
( levanta desolada ).
Pensando bem seria uma piada morrer de rir.
( toca o telefone ).
TRIM, TRIM, TRIM.
Quem será?
Alô! Quem? Ah, é o Sr. Roberto do armazém.
Eu sei, estou devendo, mas olha, sem falta pago amanhã.
( olha para o público ).
Amanhã estarei num outro mundo mesmo.
Sr. Roberto! Amanhã eu pago, está bem assim? Fique tranqüilo, pra mim é uma questão de vida e de morte.
Ah! Está certo, até amanhã, adeus.
( coloca o telefone no gancho ).
Queria ser uma mosca pra ver a cara dele quando souber que não vai mais receber o seu dinheiro. Ih, mas e se eu estou lá e ele espalha inseticida?
( faz cara de receio ).
Xiiiii! Ele vai querer me matar.
Bem, mas daí não importa.
( balança os ombros ).
Deus, todo esse papo me deu fome eu não pretendo morrer de fome.
( vasculha as gavetas, abre portas ).
Pó! Estou mal de comida. Deixe ver aqui, nada, nada aqui também. Desse jeito vou morrer de fome mesmo.
Hum! Aqui tem uns restos de bolacha e um pão dormido.
Ah! Um pouco de leite, isso dá para enganar o estômago.
( come as poucas bolachas e bebe o leite ).
Hum! Até que estava gostoso.
( passa a mão na boca e lambe os dedos ).
É! Quando se está com fome não existe tempero, qualquer coisa fica gostosa.
Bem, tenho que voltar para o meu objetivo principal.
( mexe o corpo rapidamente ).
Ai! Senti uma picada no corpo.
Ei! Mas uma idéia. Picada lembra o quê? Pode ser agulha, já cansei de picar o dedo com agulha de costura. Outra coisa que picada lembra é injeção, sempre fugi de injeção. Tem mais? Picada lembra abelha, também já fui picada por abelha, acho que ela morreu atoa. Lembra também beliscão, o Júlio tinha a mania de me beliscar. Bem, mas picada lembra mesmo o que me interessa, cobra.
( treme ).
Sempre tive um medo enorme de cobra. Mas onde vou arrumar uma? É o método da Cleópatra. Essa sim era mulher, decidida, determinada, valente, inteligente. Escolheu um meio para se matar e nem titubeou, pegou a cobra e se deixou picar. A única coisa que mancha um pouco essa história é que a Cleópatra nem quis ver seu suicídio. Tinha uma cobra numa cesta tampada e Cleópatra colocou a mão lá dentro. Pois é, ela perdeu o momento que a cobra pica sua mão. E se ela precisasse falar como foi ser picada ela não ia saber dizer. Ora! Logo depois podiam aparecer alguns repórteres e fazer essa pergunta. Como você vê a picada? Daí a Cleópatra ia fazer uma cara de paisagem e não ia poder responder nada. Ela é um exemplo para quem quer cometer suicídio.
Mas onde vou arrumar uma? E tem mais eu não conheço se é cobra venenosa ou não. Procurar uma no mato eu tenho medo. É perigoso andar no mato por que tem muitos bichos. Sabe lá o que pode acontecer. E s eu roubar do zôo? Não, eu nunca roubei e não é agora que eu vou roubar.
( ri ).
Será que serve aquelas cobras dentro de vidro com água? É só pegar um vidro, abrir e pronto. Mas onde vou arrumar um vidro de cobra?
É, mas detesto a idéia de ser piada. Vão dizer que eu morri com meu próprio veneno e que eu era uma cobra. Ah, e tem mais, o condomínio não permite animais aqui nesse prédio. E eu não sou de desobedecer leis. Não, isso não dá.
( baixa a cabeça ).
Puxa! Estou deprimida.
Epa! Deprimido me lembra comprimido.
( vai até a gaveta e revira na esperança de encontrar um vidro de remédio ).
Esse não dá, acho que engolir supositório não adianta. E vão dizer que eu não sabia onde era minha boca. Ei, aqui tem mais um vidro, deixa eu ver, deixa eu ver, é de laxante. Não, não, vão dizer que eu fiz uma grande cagada. Ei, mais um vidro, e esse é, deixa eu ler, é de comprimido pra dor de cabeça. Ah, mas também não dá, vão dizer que eu consegui tirar a dor de cabeça. Claro, eu morri e não vou sentir nada. Ei, aqui tem mais um vidro.
( levanta o vidro de comprimidos e fica olhando por um tempo ).
É! Tomo o vidro inteiro e logo estou dormindo. Quando me der conta já estou no mundo de cima.
Ah! Mas tem um porém, acabei de comer, e se eu tiver uma indigestão? Também tem a hipótese de não morrer rápido e alguém, por ironia do destino, me encontrar e me levar até um hospital. Se for público tudo bem, morro de qualquer jeito, mas se for particular não tenho dinheiro, então morro do mesmo jeito.
Vai que algum médico queira me tratar. E a tal lavagem estomacal? Imaginem um cabo ( pega uma vassoura ) entrando pela retaguarda e mexendo e mexendo e mexendo.
Aaaai! É a dança da vassoura. Aaaai! É a dança da vassoura.
Me dá vontade de morrer de vergonha só de pensar no assunto. A vassoura tem uma esponja na ponta, mas não adianta por que dói na alma. E a quantidade de água que jogam lá dentro? Eu que modero na água pela boca vou liberar lá embaixo?
E a conta? Já estou devendo as saias, não suportaria mais uma dívida.
( anda de um lado para o outro ).
Deixa eu ver o que falta? Preciso encontrar um outro meio, nunca pensei que fosse tão desgastante escolher um meio para morrer. Até parece questão de vestibular. Qual a forma mais cômoda de cometer um suicídio? Ei! Isso me chamou a atenção. Um suicídio. Claro que tem que ser um suicídio. Já pensou falhar uma vez e ter que fazer outra vez? Não, esse método não se enquadrou comigo, por isso estou procurando um que tenha a ver com o meu jeito. E não é motivo de orgulho dizer: esse já é meu quinto suicídio. Mas eu tenho força e com fé em Deus vou até o fim. Não está em meus planos testar todas as maneiras de se matar.
Há! E a pergunta? Qual a forma mais fácil e cômoda de cometer um suicídio?

a) Tiro
b) Forca
c) Faca
d) Envenenamento
e) Atropelamento

Depois poderia vir embaixo.

1) Se a e c forem corretas
2) Se b e d forem corretas
3) Se d e e forem corretas
4) Se todas forem corretas
5) Se nenhuma das alternativas for correta

Até que iria ficar legal. A nota sairia no certificado de óbito.
Ei! Acabei de ter uma idéia fenomenal. Como não pensei antes?
( corre até o fogão e gira o botão sem acender a boca ).
Dizem que o cheiro do gás mata. Deixa eu ver se funciona.
( Tem um barulhinho de chiado ).
Puxa! Que cheirinho horrível, mas não existe sucesso sem sacrifício. Logo estarei entrando no reino do céu. Espera aí! Será que quem comete suicídio vai para o céu? Eles podiam interpretar que a pessoa gosta tanto do céu que antecipou sua morte. Depois do que passei aqui não me vejo no inferno. Prefiro morrer do que ir para o inferno.
( fecha o nariz com a mão ).
Mas é um fedor desgraçado, não estou agüentando.
( deita no sofá e fica se virando de um lado para o outro ).
Ah! Chega desse cheiro, não matei meu pai a soco.
( corre até a janela, mas para de repente ).
Ué! Eu quero morrer com o gás e vou abrir a janela? Isso está errado.
( volta para o sofá ).
O jeito é esperar que dentro de alguns minutos estarei dormindo. Por falar nisso estou sem meu pijama, nunca durmo sem ele.
( canta e tosse ).
Epa! Tem algo errado.
( cheira o ar ).
Ih! Parece que o cheiro está melhorando. Será que já me acostumei. Acho que não vai ser tão mal essa viagem. Agora vou dormir tranqüila e não mais acordarei. Adeus.
Ué! Mas está tão bom que é difícil de ser verdade.
( corre para o fogão e mexe no botão, cheira a boca, vai até o botijão, desses pequenos, e chacoalha várias vezes ).
Não pode ser verdade.
Por que foi acontecer justo comigo? O que eu fiz pra Deus?
Isso é hora de faltar gás?
Desse jeito não vou morrer nunca.
( toca o telefone ).
TRIM, TRIM, TRIM.
Outra vez esse telefone.
( atende com raiva ).
Alô! Quem fala? Ah! É o Damasceno, olha, eu não tenho o dinheiro para te pagar ainda.
O quê? Se eu não pagar você me mata?
( afasta o telefone e põe a mão no fone ).
Benza Deus, eu sabia que o Senhor não me abandonaria.
( volta a falar no fone ).
E quando vai ser Damasceno?
Como o quê?
Quando você vai me matar? Olha tem condição par você de ser hoje? Pra mim seria ótimo.
O quê?
Repete o que você falou que não estou acreditando. Era só força de expressão?
( vira para o público ).
Propaganda enganosa é crime, você sai por aí dizendo que quem não paga morre e na hora H desiste. O que é isso? Não se faz mais bandido como antigamente. Ah! Não me mata por que daí não recebe a grana?
( faz um silêncio ).
É! Por um lado ele tem razão.
E o que você faz?
O quê? Quebra braço por braço, perna por perna, chega! Não devia ter perguntado. Xiiiii! Desligou.
( coloca o fone no gancho ).
Estou completamente perdida, no mato sem cachorro.
( olha para um ponto qualquer ).
Agora tenho que fazer esse suicídio mais do que nunca.
( encara a janela ).
Como não pensei nisso antes?
( aproxima pé por pé ).
Eureca!
( acaricia as laterais da janela ).
Tinha esquecido desse método. Moro no décimo andar. É só me atirar e pronto. E ainda ganho de brinde saber qual é a sensação de voar. Claro! Por alguns segundos. Até bater no chão.
( faz careta ).
E que tal que eu saio voando por aí?
( corre com os braços abertos ).
Eu posso ser uma super mulher e não sei disso. Ah! Isso é bobagem, vamos voltar a realidade.
( chega com cuidado na janela, abre e coloca a àbeça pra fora ).
Puxa! Mas é alto mesmo.
Lembro que brigava com o Júlio toda vez que ele ficava na janela, tinha medo que ele passasse mal e caísse. Cansei de brigar com ele.
Se tivesse dinheiro sobrando teria mandado colocar uma grade nela, assim ninguém poderia se machucar.
É! Mas daí eu não poderia pular.
Caramba! Isso aqui é alto mesmo. Imaginem como eu vou ficar no chão depois de cair. Não quero ficar arrebentada, com o corpo todo quebrado. Quero ser uma morta inteira, bonita. Sabem quando as pessoas vão até um velório e dizem: Nossa! Aquela moça está tão bonita, parece um anjo. Por isso quero ficar bem depois de morta para não dizerem que fiquei um monstro.
( se balança na janela ).
Ai, me acudam. Estou com vertigem só de olhar pra baixo, já estou com tonturas.
( senta com dificuldade ao lado da janela ).
Quando era pequena nunca subi em árvore por medo de altura. Tinha um medo de cair que me pelava e tem mais uma coisa. Lá embaixo tem uma cerca de grade pontuda. Se eu cair vou parecer frango no espeto. Não, morrer está certo, mas com respeito, com moderação, mas enfiada numa estaca já é um abuso.
É, deve ter uma maneira mais fácil e morrer.
( levanta e corre, pula, faz polichinelo, abdominal ).
Estou tentando morrer de cansada, só mais um pouco e chego lá. Já estou esgotada.
( vai parando aos poucos, põe a mão nas costas e respira ofegante ).
Esse jeito é muito cansativo de morrer.
( deita no sofá e se abana ).
Lembro que costumava brigar muito com o Júlio por que ele fazia ginástica todos os dias. Brigava pela conta da academia. Sim, ele fazia cada sessão com uma roupa limpa. Era um desperdício. Bem que podia fazer a semana inteira com a mesma roupa. Quem sofria era eu para lavar. E o pior é que ele ficava bravo quando eu dizia isso.
( pega um jornal ).
Nossa! Tive sorte de pegar bem na foto de um morto.
Hum! Aqui diz que foi para o Instituto Médico Legal. Ei!
( dá um sobressalto ).
Outro detalhe que eu ia esquecendo.
( levanta do sofá ).
Depois de morta o que acontece? Pra onde eu vou? Ah! Vem aqueles caras da polícia e vão mexer em tudo, vão revirar as gavetas, vasculhar as fotos, penetrar na minha intimidade.
( fica com raiva ).
Detesto e sempre detestei que mexam nas minhas coisas, mesmo que não tenha muitas.
Lembro das intermináveis brigas com o Júlio. A gente brigava, mas eu o amava.
( fala com voz suava ).
As vezes a gente dá bronca para que a pessoa melhore. Lembro quando ele saía arrumando tudo, nos dias de faxina. Minhas coisas podem estar desarrumadas, mas eu sei exatamente o lugar de cada uma. E vinha o Júlio e guardava onde ele achava que devia guardar.
( aumenta a voz ).
Eu chegava em casa e precisava de um papel, adeus. Precisava revirar tudo pra achar o dito papel. Brigava com ele, mas todo dia era a mesma coisa… até….
( fica triste ).
Que ele foi embora, agora está como eu gosto,s ei onde estão meus papeis.
( mostra-os espalhados pela escrivaninha ).
Sei onde estão minhas meias.
( mostra-as dentro do fogão ).
Sei onde estão minhas calcinhas.
( mostra-as embaixo do sofá ).
Sei onde está tudo… Mas…
( grita com desespero ).
Não sei onde está meu Júlio.
( chora ).
Ai! Que vontade de morrer.
( assoa o nariz e esfrega os olhos ).
Deixa eu voltar para o assunto mais importante. Onde estava? Ah! Morta e estatelada no chão. Pois bem, aí viriam os repórteres e tirariam fotos de mim de todo jeito, para serem publicadas no jornal. Decerto seria um fotógrafo de natureza morta. Ah! Iriam querer saber alguma coisa de mim pra por no jornal. Ei! Eu tenho que deixar algo escrito.
( corre e pega uma caneta e papel ).
Toda garota que se suicida deixa uma cartinha, bem, bem, é que, é que não fica bem se matar se deixar uma cartinha. Nela a gente se despede dos parentes, dos amigos e manda os inimigos pra aquele lugar, não, isso não, quem vai para aquele lugar sou eu. É uma gentileza fazer uma cartinha, senão é a mesma coisa que ir viajar sem se despedir. É sempre aquela choradeira, daí a gente fala: Eu volto logo, ah! Nessa cartinha não dá pra dizer isso, eu não vou voltar, a não ser que eu apareça como fantasma ou no sonho dos meus amigos. Ei! Pode ser que esse papo de encarnação seja verdade daí eu posso reencarnar em alguma pessoa próxima de amigos.
( põe a mão na cabeça ).
Espera aí! Eu estou querendo me matar e já estou pensando em voltar como fantasma ou em sonho ou como reencarnação? Isso é demais. Eu tenho que ficar quieta no meu canto por um bom tempo depois de morta. Eu serei um túmulo. E a cartinha como tem que ser?
( anda de um lado para o outro ).
Colo bichinhos nela, faço desenhos, coloco letra de música, coloco poesias, coloco meu endereço de orkut, o papel tem que ser colorido, espalho perfume no papel, colo uma foto minha, a melhor. Eles sempre mostram fotos nos jornais, revistas e televisão. Mas tem uma coisa, eu não me lembro muito de notícias sobre suicídio, senão eu… Ia lembrar.
( pensa um pouco ).
Já sei, é lamentável que aconteça uma coisa dessa, lembro que uma vez eu ouvi dizer que os meios de comunicação não cobriam suicídio para não incentivar ou dar idéia para suicidas em potencial. Ora essa, vivemos numa democracia e temos direito a saber sobre suicídio. Temos direito a ter nossos ídolos. Os suicidas com sucesso ou que já morreram na primeira tentativa. Temos direito a saber quais são as histórias que devem terminar com um suicídio. Há! E temos direito também a ter fotos de nossos ídolos para colar na parede do quarto. Temos direito também a saber onde foram enterrados para levar flores e acender velas. Hum! Hum! Numa dessa pode surgir a santa dos suicidas ou santo. Eles estão negando informação. Bem, isso devia ser assunto para um político. Sim, ele devia fazer algo pelos suicidas.
( abaixa a cabeça ).
Não, um político não ia abraçar a causa dos suicidas. Claro que não. Eles ajudam o povo para receber o voto como recompensa. Morta eu ia votar como nele? É, é, é, mas tem um porém: a mídia mostra gente matando por que foi rejeitado pela companheira. Isso não é incentivar quem foi deixado pela namorada a matar ela? E os roubos e os abusos sexuais? Isso eu não entendo, juro que não entendo a diferença. Por que o suicida tem que pagar? Nós não estamos fazendo mal pra ninguém? Essa é pra não entender mesmo. Ah! A carta. Ei! Deve ser uma carta ou uma cartinha ou uma cartona? Bem, o que devo colocar nessa carta? Como começo? Espera aí! Que tal assim.
( senta no chão ).
Estou muito feliz… Não, estou muito feliz pra uma carta de quem vai morrer não soa bem. Poderia ser estou morrendo de felicidade. Vamos ver esse começo: quero que todos estejam bem… Não, também não, desejar que todos estejam bem, vindo de quem cometeu suicídio soa meio falso. Bem, na carta eu posso dizer que não quero ser cremada. Odeio fogo, tenho muito medo. Sempre me queimaram e agora vou dar razão pra toda essa gente sendo cremada? E a gente virar uma caixinha de cinzas? Não, minha vida não pode terminar em cinzas. Isso não. Guardar as cinzas ou jogar estou fora. Quem vai querer guardar minhas cinzas. Ninguém me queria por perto e jogar é como não dar valor a mim. É como dizer: vamos jogar ele fora. Se bem que eu sempre vivi jogada no mundo, mas ter minhas cinzas jogadas na água se misturando com lixo, cocô e pipi. Não, não mesmo. Ou ter minhas cinzas jogadas num campo onde todo mundo vai pisar em cima. Também não. Prefiria ficar guardadinha numa caixinha em algum lugar da casa pra estar bem viva na lembrança das pessoas.
Bem, eu estava esquecendo que assim que encontram a gente morta eles colocam algo em cima. Serve um lençol, um jornal ou um plástico geralmente aquele sem gosto. Estou falando do plástico preto. Podia ser um plástico colorido. E quanto ao jornal ninguém deve fazer uma seleção de que parte que vão por em cima do corpo. Eu particularmente gosto do caderno cultural, adoro quadrinhos e horóscopo e também o que vai passar na tv. Podiam me cobrir com esse caderno. É, eles cobrem até a cabeça, deve ser pra ninguém ficar babando e querer tirar uma lasca. Ora! Se um cara me vê morta, pode quer chegar perto e fingir que está em profunda comoção, pegar minha mão, passar a mão pelo meu rosto e eu não vou poder dizer.
( aumenta a voz ).
Tira essa mão boba daí.
Depois vai ver se não tem ninguém olhando e vai tentar me dar um beijo. E eu ali, sendo violentada sem poder dizer nada. É, por uma lado é bom cobrirem todo o corpo. Quando eu era bem pequena eu pensava que eles cobriam as pessoas mortas pra elas não sentirem frio. É, e tem algumas pessoas que acendem velas ao redor do corpo. Dizem que é pra iluminar o caminho de quem morreu. Mas eu nunca vi alguém pondo lanterna. Isso é curioso. O começo da carta é difícil, é melhor eu pular direto para a mensagem. O que vou deixar como mensagem? Há! Eu posso dizer nunca desistam de seus sonhos ou nunca percam a esperança ou tenham sempre fé em Deus. São belas mensagens. E pra terminar: amo vocês… Soa estranho também, amo tanto que vou me matar.
( levanta ).
Escrever uma carta não é fácil, mesmo que não precise gastar com correio.
Deixa pra lá, depois de pegarem meu corpo eles levam para o necrotério. E lá tem a câmaras frias.
( treme ).
Detesto frio, a gente fica com as partes do corpo congeladas, não tem vontade de fazer nada, se bem que eu nunca tive vontade de fazer nada.
Lembro do Júlio quando eu estava deitada bem quentinha e ele chegava com aquele pé gelado me encostando.
E eu gritava.
( grita ).
Tira esse pé daqui.
Pó! Ele não podia fazer uma escalda pé? Tinha que vir com pé de defunto?
Eu não exagerava, não é?
( medita ).
Mas acontece que o resto dele era tão quente. Hoje em dia até suportaria um pé gelado, mas no meu casso eu vou ficar inteira gelada.
Depois vão querer me colocar naquelas gavetas. Tenho horror a lugares fechados, frios e escuros.
Ah! E depois ainda vão me retalhar inteira para ver se eu estava sob efeito de droga ou álcool, se quebrou alguma coisa e que órgãos faleceram antes. É, vão querer saber a causa da morte. Eu já soube que tem caso que eles passam a serra no morto. É, eles ficam bem a vontade na mesa de cirurgia por que não tem medo de erro médico. Vão errar o que se eu estou morta? Então eles cortam a vontade.
Mas não acaba aí, eu posso ser enterrada como indigente, não tenho imóvel no cemitério ou ser levada para alguma faculdade onde permaneceria num tanque de formol. E ficaria ali peladona. Os estudantes iam me ver completamente nua sem eu receber nada por isso. Quem tira foto para revistas ganha uma grana, mas eu ali ia posar sem parar e não ganhar nada por isso. E assim ficarei sendo picada e repicada até não dar mais, daí confesso que não sei qual é a próxima etapa. Eu, eu… Eu não sei pra onde eles mandam o corpo. Será que se eu fazer uma boa maquiagem, arrumar o cabelo quem me levar me dispensa dos cortes e me enterram inteirinha? É, quem me ver pode me achar tão bonita que nem vai querer mexer. Vai ter dó de me cortar. Confesso que todos aqueles cortes e aquelas costuras não ficam bem no corpo.
( pensa ).
Uma maquiagem pesada ou leve? Uma maquiagem discreta é difícil de perceber. Eu posso colocar só um brilho nos lábios, mas é pouco. É, eu podia ter ido a um salão pra me arrumar, assim não ia fazer feio. Arrumava o cabelo, as unhas e fazia uma bela maquiagem. Dizia que era pra festa. Podia mandar encaracolar meus cabelos. É assim que as anjas aparecem, sempre de cabelos cacheados. Hum! Podia até fazer um aplique para meus cabelos ficarem bem compridos. É, assim eles podiam me enterrar com dignidade.
( abre os braços ).
E se alguém se apaixona por mim?
( ri ).
É, mas não vai dar romance não, eu estou morta e não vou poder corresponder. Ah! O pior é pensar que esse corpinho…
( passa a mão pelo corpo ).
Vai desaparecer aos poucos dentro do caixão, só ficam os ossos, mas é bom não falar nisso, deixa pra lá.
( faz silêncio ).
( toca a campainha ).
DIM, DOM, DIM, DOM.
Droga, Queria tanto morrer. Por um fim nas minhas obrigações. Estou cansada dessa vida paranóica.
( toca mais uma vez a campainha ).
DIM, DOM, DIM, DOM.
Já vou.
( sai de cena ).
Pois não.
( uma voz masculina ).
Me passa o dinheiro ou morre!
( faz uma pausa ).
Senhor ladrão… Por favor, por favor, não me mate…
( a voz repete ).
Me passa o dinheiro ou morre!
Tenho pouco dinheiro, mas pode levar tudo.
( passa um tempo e Adriana volta para a cena ).
Como pode isso, aonde vamos parar? Acabei de ser assaltada em meu próprio apartamento. Olha só o perigo que passei. E lá se foi o dinheiro que eu tinha. Mas minha mãe ia dizer que pelo menos eu estou viva… Ei, o quê?
O ladrão disse passa o dinheiro ou morre.
( põe a mão na cabeça ).
Acabei de desperdiçar a chance da minha vida… Ou melhor, a chance da minha morte. Era só eu ficar na minha e não passar nada pra ele ou até reagir, dar uns tapas nele. Podia também dar a maior gritaria. Isso ia provocar ele. É! Daí ele ia me dar um tiro. Espera aí. Ele pode estar por perto ainda.
( sai de cena gritando ).
Você aí, vem cá, me entregue tudo por que eu prefiro a morte.
( depois de um tempo volta ofegante com a mão no peito ).
Não adianta, ele foi embora, pelo menos devia deixar um cartão com telefone, e-mail, orkut, youtube. O que vai fazer quem precisa se comunicar com ele?
Ele perdeu uma grande chance de fazer propaganda de seu trabalho, olha que no nosso meio podia espalhar que ele suicidava as pessoas e não ia faltar cliente.
Agora não adianta chorar o leite derramado e o bandido desperdiçado.
Droga! Droga!
Ei! O que estou dizendo?
( pensa ).
O que eu falei mesmo?
Ah! Droga. É isso, eu não pensei em droga. Já ouvi muito dizer que este ou aquela morreu de over dose. O que é over dose? Não importa, eu sei que é da droga. É, mas eu nunca tomei ou comi ou cherei ou fumei ou enfiei no sangue isso. Sei lá como põe pra dentro essa tal de droga. Mas eu vou precisar sair. Claro, aqui dentro eu não vou encontrar droga nenhuma. Bem, não é tanto assim. Aqui dentro eu encontro droga, é a minha vida. A minha vida é uma d-r-o-g-a.
Bem, a roupa para procurar droga é diferente, eu tenho que ir com uma roupa escura com capuz, algo que ninguém note minha presença. Ah, e eu devo sair a noite, mas onde vou encontrar. Não posso ir perguntando pra todo mundo onde fica uma boca de fumo. Esse nome eu sei por que a gente ouve falar por aí. Deve ser propaganda boca a boca deles. Uns saem falando por aí pra gente ouvir. Nem sei de onde ouvi isso. Mas onde vou encontrar?
( pensa ).
Ir na casa de um não dá, eu não sei o endereço de nenhum traficante. O jeito é procurar numa rua. Mas que rua? Ah! Tem que ser uma rua mais ou menos escura e sem muito movimento. Ih! Isso me faz lembrar da mamãe. Ela dizia pra eu evitar sair de noite e se precisasse eu deveria dar preferência para andar em ruas bem iluminadas e com grande movimento de gente indo e vindo. Hum! Vou ter que desobedecer ela. É, mas não vou ficar de castigo e nem vou levar bronca. É, mas dá um medo de ser reconhecida por algum amigo ou amiga. Se pudesse ia com uma meia na cara, mas não dá, pois podem pensar que estou fazendo algo errado. Será que no GPS tem indicação de boca de fumo? Não, não deve ter. Ei! Eles devem dar algum sinal que vender droga. Deve ter gente fumando ali mesmo. O jeito é sair e procurar. Sempre que eu tenho dúvida de algum lugar que preciso ir eu pergunto logo para um guarda, mas nesse caso não dá. E como eu chego no traficante? Oi, tudo bem? Quanto tempo! A família vai bem? Você tem alvará da prefeitura para vender droga? Você dá nota fiscal? A droga é boa? Qual é a data de fabricação dela? E qual é o prazo de validade? É preciso receita ou não?
( pensa ).
Todas as cenas que vi pela TV de gente comprando droga notei que eles nem se falam, é só chegar o traficante dá a droga e o usuário, viciado, ligadão, doidão, sei lá o nome, dá o dinheiro. Tem uma coisa que sempre admirei nos traficantes. Eles são muito bonzinhos e fazem o que nenhuma empresa faz. Eles aceitam de tudo em troca da droga. Aceitam roupas, jóias, aparelhos elétricos da sua mãe. Aceitam o vídeo game, a televisão, o som do teu irmão. Aceitam as bonecas, o celular, o computador da sua irmã. Aceitam o carro, o barbeador elétrico, os ternos do seu pai. É, eles não são exigentes quanto ao pagamento. Cada um dá o que tem ou… Ou… Ou o que os outros tem. Isso mostra que eles pensam nos clientes. Que eles se preocupam com os clientes. Eles não querem decepcionar seus clientes. Que empresa faz isso? Ei! Será que eles trocam a droga se ela não é boa? O cliente chega e diz que aquela droga não fez ele viajar. Pois é, ele nem saiu da rodoviária ou do aeroporto. Ficou lá esperando embarcar e a droga não tirou ele do lugar. Outro cliente chega e diz que não ficou doidão.
( ri ).
Sorte dele, pois senão estaria num manicômio. Outro chega e diz que a droga que tomou não deixou ele ligadão. Hum! Será que ele quer por o dedo na tomada? É, mas e se eu fico viciada e quero mais, daí eu vou querer voltar lá e pra voltar lá eu não posso morrer. Não, achei um problema na droga. E que droga eu ia comprar? Eu chego lá e digo, me dê a melhor? Posso também dizer pra me dar a mais barata. Ei, você tem alguma droga em oferta? Leve três e pague duas. Eu sei de alguns nomes. Sei que tem Crak, maconha e cocaína. Sei também que a mais barata é o Crak. Será que é bom?
( pensa ).
De tomar ou aquela de aplicar injeção?
( faz careta ).
Sempre tive medo de injeção.
Não, isso não. Acabei de pensar uma coisa. E se eu estou lá numa boa e a polícia chega? É para se pensar. Eu nunca fui de muita sorte, pra falar a verdade nem de pouca sorte eu fui. É bem capaz de eu estar lá e aparecer os homens.
( aumenta a voz ).
Eu seria capaz de me matar de vergonha se isso acontecer.
Não, de droga eu não posso morrer. Garanto que fui a viciada mais rápida que já existiu. Viu! Eu consegui largar o vício. Isso é possível. Larguei antes de começar. Também não suporto a idéia de fazer algo errado. Tem um ponto positivo em droga. A mídia mostra quando alguém morre de consumir droga. É, a pessoa tem seus 15 minutos de fama. Mas não dá, isso não é pra mim.
( acende um cigarro ).
Ei!
( observa o fogo do isqueiro ).
Como não pensei nisso antes, tem o fogo. Eu posso morrer queimada. É uma morte comum. Muita gente já morreu assim. Na idade média queimavam as mulheres acusadas de bruxaria. Por isso que não tem mais bruxas. Devem ter queimado todas.
( pega a vassoura e sobe nela e corre como quem estivesse voando numa vassoura ).
Eu sempre gostei de estória de bruxa. Já tentei fazer algumas bruxarias, mas nunca deu certo. Deve ser fácil e eu tenho o principal.
( corre e pega a garrafa de álcool ).
É só jogar pelo corpo e por fogo. Preciso por a garrafa inteira. Ponho álcool onde?
( abre a garrafa e cheira , faz careta ).
Que cheiro forte.
Nos meus seios, não, não posso por o álcool nos meus seios. Eu sempre gostei deles. Sei lá, acho eles bonitos, não posso queimar eles. Não posso estragar uma parte de meu corpo que gosto. No seio não, então vou jogar álcool onde? Nas pernas? Espera aí, também não dá. Eu lembro que sempre ouvi que tinha pernas bonitas, não posso destruir elas. Na cara? Na cara… Na cara… Não, não dá, é pra onde a pessoas olham de primeira. E vou por fogo na cara? Justo no lugar que eu gastei tanto com cremes? Não, eu não posso me imaginar pegando fogo. E de pensar que é bonito olhar quando estão estourando fogos. Mas é bonito lá em cima e não na gente. Nunca gostei nem de ficar perto de fogão por causa daquele calorzinho.
( tampa a garrafa de álcool e põe no chão ).
Não, queimada não dá. E eu não ia gostar de virar carvão. Eu iria ficar muito feia. E as piadas. Muitos amigos gostam de dizer que eu me queimo a toa. Que eu perco a calma fácil. É, eles iam dizer que dessa vez eu me queimei mesmo. Preciso descartar o fogo.
( pensa ).
Será que tem mais métodos? Eu já pensei em tantos. E se terminou a lista? O que vou fazer? Vou ter que agüentar viver?
( anda de um lado para o outro ).
Acabei de encontrar outro meio. E esse eu já vi na televisão. Lembro de ver algumas vezes uns motoristas entrarem numa estrada na contra mão e ir embora, sem dar importância para o resto. É claro que são colegas. São colegas por pensamos na mesma coisa, o suicídio. É claro que eles querem morrer. Alguém acredita que uma pessoa pega o carro e entra na contra mão e vai indo até uma hora bater num caminhão por descuido? Sempre que eu vi uma reportagem dessa a batida foi num caminhão. É evidente que é mais uma maneira de fazer suicídio. Deve ser como jogar um vídeo game ou brincar naqueles carrinhos de parque de diversão que se batem.
( brinca de correr com os braços para a frente como quem está dirigindo um carro ).
BRUM, BRUM, BRUM, BRUUUUUMMMM!
( bate nos móveis, na parede e volta ).
BRUM, BRUM, BRUM, BRUUUUUMMMM!
Deve ser assim, bem simples como uma brincadeira. Tem que desviar dos carros pequenos até encontrar um caminhão. É uma morte divertida.
BRUM, BRUM, BRUM, BRUUUUUMMMM!
( bate nos móveis, na parede e volta ).
BRUM, BRUM, BRUM, BRUUUUUMMMM!
Mas tem uma coisa importante, eu não tenho carro.
( para de brincar ).
O que faço? Como vou conseguir um carro? Só existe um meio, roubar um. Pegar um táxi não dá. O motorista não ia aceitar esse destino. Já vejo o motorista perguntando qual o destino senhora? Eu diria que era o céu. Ele ia achar que era brincadeira. E se ele perguntasse qual o caminho eu diria que era uma estrada rápida na contra mão. É muito improvável que o motorista faça essa corrida pra mim. Só se… Se… Se… Se ele quiser cometer suicídio também, mas isso é como acertar na loteria. Eu nunca acertei um jogo se quer e não é agora, na hora da morte, que vou acertar. Encontrar um motorista suicida é muito difícil. Ei! Quando a gente pede táxi pelo telefone a moça faz algumas perguntas e se eu pedir um motorista suicida, será que vem? Eles deviam de ter, não, eles não devem ter motorista suicida por um motivo muito simples. Eles perderiam o carro e carro não é barato. E se eu comprar um carro? Não, não posso fazer isso, seria um desperdício comprar um carro para destruir ele numa batida. Nem carro novo nem usado. Eu sempre dei muito valor ao que comprei. E o que ia adiantar comprar um carro se eu não ia ter coragem de bater ele.
( pensa ).
Não é bem assim. Se fosse uma batidinha de leve, um arranhão, um risco, mas não, a batida tem que ser forte pra eu morrer. Assim vai destruir todo o carro. E o pior de tudo é que o carro não vai ter utilidade nenhuma. Vai acabar num ferro velho. E olha que quando eu compro alguma coisa, pode ser até objeto, eu pego amor. Não, eu não suportaria saber que meu carrinho foi parar num ferro velho, exposto ao frio, ao calor, a chuva. Lá ficaria ele, completamente abandonado. Eu não ia ter paz. E se eu roubar um? Mas como vou fazer isso? Eu nunca roubei nada, muito menos carro. Sei que tem ligação direta, mas nem sei o que é isso e nem como faz. Ninguém costuma deixar o carro aberto e com a chave. È uma falta de confiança na raça humana. É triste ver isso. E tem mais, roubar um carro não tá certo. Eu vou ser uma ladra. Se eu morrer vou manchar minha vida inteira. Ninguém vai achar que é o único carro que eu roubei. Vão dizer que sou a maior ladra do pedaço e que bati o carro quando fugia da polícia. Dá pra imaginar a história toda. Tudo que fiz na vida vai ser manchado. Meu nome vai pra lama. Todos vão querer esquecer de mim. Se sumiu alguma coisa na casa de um amigo meu vão dizer que fui eu. Eu vou levar a culpa e não poderei dizer nada. Nem vou poder me defender. Roubar, nunca roubei nada.
( põe a mão no coração ).
Pra ter uma idéia nunca roubei nem coração de homem. Acho que não, pois se roubei o coração de alguém ele não me falou nada. Ficou calado, nem pensou em dar parte ou registrar queixa pra mim. Não, mais uma tentativa que valeu, mas não dá. Tenho que pensar em outro meio, mas qual? Já estou um tempão concentrada num meio de morrer.
Me ocorreu um pensamento. Se eu vou morrer eu poderia aproveitar e fazer o bem para alguém. Exatamente! Eu posso fazer o bem. É uma maneira de morrer e deixar alguém feliz. Bem, gente pra ficar feliz com minha morte não vai faltar. Já briguei muito com muita gente. Eles vão dar graças a Deus. O que Deus tem a ver com isso? A não ser que eu nasci, eu não gostaria de ter nascido, maldito espermatozóide que ganhou a corrida e furou o óvulo de minha mãe. Foi a única vez que eu ganhei alguma coisa. Esse espermatozóide devia ter ficado na sua, lá atrás. Agora eu penso que posso ajudar alguém, eu sempre gostei de ajudar, nunca fui egoísta. Eu posso doar meus órgãos para alguém que precise de um transplante. É, daí uma parte minha vai ficar viva em alguém. Espera aí! Parece estranho eu querer me matar e ao mesmo tempo querer deixar uma parte viva minha. Não, é normal. Não tem nada de estranho nisso. Assim alguém vai lembrar bem de mim. Aposto que a pessoa que recebe órgão de alguém não fica difamando o doador.
( ri ).
Mesmo que o doador seja ruim. Ele não fala mal do doador por que daí vão dizer que ele tem uma parte ruim dentro do corpo. Pra isso eu preciso deixar uma cartinha que quero doar meus órgãos. Nunca servi pra nada, agora pode ser que eu sirva pra algo. Meus órgãos podem ser úteis para alguém. É melhor parar. Não dá. Eles não pegam órgão de quem morreu. É, eles pegam os órgãos de quem está morto no cérebro, mas o corpo continua vivo. Como eu vou conseguir cometer um suicídio que só mate meu cérebro. Bem, pra matar meu cérebro basta eu ficar de frente com algumas equações de primeiro e segundo grau de matemática. Essa matéria sempre matava meu cérebro. Odeio matemática. A única matemática que gosto é o dinheiro entrando na minha conta. Mas é bom dizer que sempre foi o contrário. Eu sempre vi o dinheiro saindo de minha conta. E se eu for no hospital? Não, eles não vão querer matar meu cérebro para pegar meus órgãos.
( anda de um lado para o outro ).
Tenho que pensar em outra coisa. Mas o quê. Será que todos esses métodos já foram testados? É duro não saber sobre suicídio. A gente fica perdida.
( conta nos dedos ).
Esse já foi, esse também, mais esse, já tentei, mais um…
Foram muitos métodos, até não imaginava que existiam tantos. Podemos dizer que tem um método de suicídio para cada gosto. Sem opções a pessoa não fica.
( estala os dedos ).
Tem mais um, jóia, minha cabeça ainda funciona. Tem a tal da intoxicação alimentar. E como vou conseguir isso? Como vou conseguir uma comida estragada? Não existe a oferta de comida estragada em nenhum supermercado. Eles têm de tudo menos comida estragada. Eu não cozinho, nunca fui de cozinhar, minha mãe tentava me ensinar. Ela dizia que a comida prendia um homem. E eu pensava, como pode o homem viver livre com tanto lugar que vende comida: Bares, lanchonetes, restaurantes? Se esse ditado fosse a verdade os homens não saíam desses lugares. Pois é, eu vejo os homens por aí, livres da silva. Bem, lembro que tentei cozinhar algumas vezes, mas o Júlio dizia que eu estragava a comida, então ele trazia da rua… Não da rua em si… Ele trazia de algum bar ou lanchonete ou restaurante. Tive uma idéia! Eu compro a comida e deixo ela bastante tempo até estragar e daí…
( faz careta ).
Como? Não, eu sempre fui tão enjoada com o que colocava na boca, não, comer comida estragada não dá mesmo. Se eu comer garanto que não vai descer. É, mas eu vou ter que esperar quanto tempo para ela estragar? Não dá nem pra ter uma idéia do tempo. Também dá um remorso na gente. Só de pensar que vou comprar comida e deixar estragar já me vira o estômago. Não posso imaginar uma comida estragando e tanta gente passando fome. É, eu não posso morrer assim por que vou de consciência pesada. E sabe lá o que vai acontecer. Vai que como a comida estragada e só me dá uma diarréia? E vai que vou pra um hospital? Vão dizer que eu não aprendi nem a comer, que eu não sei o que como, que eu como só porcaria. É, não vou escapar das piadas. E tem mais, eu não vou agüentar o cheiro de uma comida que eu goste sem comer ela. É, eu tinha que ser inteligente, eu tinha que comprar uma comida que não gosto, daí eu ia deixar ele estragar sem dar uma beliscada sequer. Não, definitivamente não, comer comida estragada e ainda que não gosto já é demais. Nem com minha mãe fazendo aviãozinho ou trenzinho eu comia quando não queria. Eu batia na colher e dizia: BATEU! Agora que em ocorreu como conseguir comida estragada. Basta ficar esperando sair num jornal um lugar que vendia produto estragado. Daí era só telefonar e pedir para o dono entregar em minha casa. É, parece mais fácil agora. E a espera? Quanto tempo vou ter que esperar por uma lugar que venda produto estragado? Não, não dá mesmo. E doença? Também é um jeito de morrer?
( pensa ).
Mas esse jeito é mais difícil. Onde eu vou conseguir uma doença? Teria que ser uma doença fatal. Eu… Eu poderia entrar num hospital e chegar perto de alguém com uma doença terminal.
( faz careta ).
É difícil encarar. Nunca quis chegar perto nem de gente com doença leve, imagine doença fatal. Não suporto ver alguém que está para morrer.
( ri ).
Então não vou olhar no espelho.
Não, isso é sério. Eu nunca suportei ficar perto nem de bichinho que estava para morrer. Eu tenho apego a vida. Ficar doente é difícil. Uma gripe, uma febre, uma dor de cabeça, uma diarréia a gente pega, mas doença pra matar é mais difícil. E eu tomei muitas vacinas, tem um montão de doenças que eu não pego. Estou i-m-u-n-i-z-a-d-a. Se eu entrar num hospital podem me pegar e perguntar o que estou fazendo lá. Não vai colar que eu estou lá para morrer. Ninguém procura um hospital para morrer. Eles não vão acreditar, mesmo. Ei! Tem outra chance. É só eu pegar o lixo hospitalar. Levo pra casa e coloco a mão nele, coloco na boca, passo pelo corpo… Não… Não… Chega… Eu não sou um lixo.
( aumenta a voz ).
Eu não sou um lixo.
( faz silêncio ).
Se bem que quando Júlio estava indo embora ele disse que eu era um lixo.
( faz sinal de pare com as mãos ).
Está certo, ele não falou que tipo de lixo eu era. Se era lixo pra jogar em aterro ou lixo reciclável. Lixo reciclável é bem melhor, é outra coisa. A gente se sente importante ao ouvir. É um baita elogio. Não, eu não posso terminar assim, revirando lixo. O que meus inimigos iriam dizer? Que eu terminei no lugar que merecia, no lixo.
( senta no sofá ).
Esqueça esse método, não dá, vou pular pra outro. Mas o quê? Não me vem nada na cabeça. Vamos lá, pensa um pouco, calma, respire, concentra, é só livrar a mente de tudo e deixar vir a nova idéia. Deve ter mais jeito de fazer suicídio. Não pode ter se esgotado todas as maneiras.
( bate palmas ).
Vamos lá, pensa, pensa, vamos lá, venha novo método, venha, eu estou esperando, estou aqui… Aqui… Sentada pra não cansar. Espera aí, acho que está vindo uma idéia, acho sim, mais uma, quem sabe é essa.
( ri ).
Já sei, uma bomba, é, como não pensei antes? É só apertar o botão e pronto, eu não vou sentir nada. É um meio bastante rápido. Ei! Mas as pessoas vizinhas podem ouvir o barulho. Tem que ser um barulhão, pois se for um barulhinho é uma bombinha de nada. Aonde vou comprar uma bomba? Espera aí, eu lembro que há algum tempo tinha por aí receita para fazer bomba. Será que ainda tem? É, estou cheia de esperança. Isso pode dar certo. Agora lembrei, eu sempre fui muito ruim para seguir receita. Lembro quando ia fazer uma comida. Olha que mesmo com a receita do lado e todos os ingredientes eu não acertava. Alguma coisa dava errado. O erro era pequeno, mas já era o suficiente pra comida ficar ruim. Bem, se eu não consigo seguir uma receita de comida vou conseguir fazer uma receita de bomba? Acho pouco provável. E onde vou comprar os ingredientes? Não deve ter em loja de festa. É, seria bom comprar uma bomba pronta para o uso. E acho que uma fábrica não ia vender pra mim. A primeira coisa que eles iam fazer é perguntar pra que eu queria a bomba. Eu podia responder… O quê?… Já sei… Pra acabar com um formigueiro. Não, aposto que não ia colar. Ei! Mas eu acabei de lembrar de uma coisa, bomba não dá, se for muito forte vai me deixar que nem carne moída e se for mais fraca pode arrancar uma parte de mim. Isso é horrível. Não posso nem imaginar meu corpo sem um pedaço. Não, vão dizer olha lá, ela esqueceu um pedaço dela. Pode ser uma mão, alguns dedos, o braço, sei lá. Vão dizer isso por que sou muito esquecida e todo mundo sabe disso. Não, isso é demais pra mim. Nunca gostei de perder nada e não é agora que vou perder um pedaço de meu corpo. Sempre que esquecia alguma coisa eu voltava e ia a todos os lugares que fui até encontrar o que esqueci. Definitivamente, bomba não dá. E agora o que faço, o que vai ser de minha vida?
( põe as mãos na cabeça ).
Ei! E eu não fui me confessar. Gente eu não me confessei. Eu não me livrei dos pecados. É muito importante tirar todos os pecados. Assim eu vou para o céu… Céu… Céu… Tem que ser o céu. Eu não acho que vá para o inferno. Assim eu vou para o céu sem pecado algum. Mas pra isso eu teria que esperar até amanhã pra daí ir até uma igreja.
( aponta com a mão ).
Tem uma igreja aqui perto. Até fiz a comunhão lá. Lembro que sempre rezava pedindo uma vida longa e feliz. É, eu pedia uma vida longa e feliz. Rezava bastante.
( se espreguiça ).
Acho que é o fim. Não deve ter mais meio pra se matar.
( coloca a mão na boca para tampar um bocejo ).
E não é que tem. Meu Deus! É isso, eu achei outro meio, sim, asfixia. É só não deixar entrar ar nos meus pulmões que em alguns minutos eu morro.
( corre para a escrivaninha ).
Aqui está.
( retira um saco plástico ).
Isso aqui é a minha salvação. É só por na cabeça até o pescoço e já está feito. Hum! Eu posso amarrar o plástico no pescoço pra morrer com mais segurança.
( veste o saco plástico ).
Estou parecendo uma astronauta… E olha que eu vou decolar para o céu.
( faz careta ).
Ai! Mas isso é desconfortável mesmo. Não aconselho ninguém fazer isso. Dá uma sensação ruim. Daí a gente vê como é importante a respiração. Não… Não… Não estou sentindo nada… Será que vou morrer logo? Parece que não é dolorido morrer assim, eu estou bem. Puxa! Até que enfim achei um método bom pra morrer. Viu, quem não desiste sempre consegue o que quer. Eu não desisti e encontrei um método para morrer da hora. Esse eu recomendo. Devia de ter pensado nele por primeiro. Assim eu já estaria morta.
( grita ).
Não!
Não pode ser. O ar está entrando, o que faço? O ar não pode entrar. Eu preciso ficar sem ar. Por falar em ficar sem ar eu fiquei desse jeito quando vi o Júlio pela primeira vez. Fiquei completamente sem ar.
( suspira ).
Completamente sem ar.
Hora de acordar! O que faço?
( corre até a escrivaninha e pega um barbante ).
Isso está bom. É só amarrar o saco no meu pescoço e pronto. Daí não entra ar e eu vou morrer.
( começa a amarrar o barbante no saco do pescoço ).
Ei! Tá começando a faltar ar. O que faço? Tá me dando um calorão, minha cara tá pinicando toda. É, esse método é dos bons.
( tosse ).
Ei! Mas que cheiro é esse? Hum! Que cheiro ruim. Não…
( tira o saco rapidamente ).
É um saco de carne que comprei. Meu Deus, eu ia me matar com um saco de carne? Já faz tempo que comprei essa carne. Estava tão distraída que nem percebi o cheiro… Ai… E… Olha aqui…
( chacoalha a mão ).
Ainda tem gordura do assado nele. Eu estou toda lambuzada de gordura. Essa não. É um dos motivos por que não cozinho. Eu detesto ficar com cheiro de gordura e a própria gordura no corpo, na roupa, no cabelo.
( espana o corpo ).
Sai gordura, sai.
( levanta o saco plástico ).
Como eu não vi antes? Olha, não tem marca nenhuma, é um saco qualquer. Como eu pude pensar em me matar com um saco assim?
( ri ).
Tem que ser uma sacola plástica de butique de grife. Tem que ser uma sacola que represente luxo. Eu não posso morrer com uma coisa tão brega.
( joga o saco no chão ).
Eu sempre dei valor pra marca e não é agora que vou entregar minha vida num saco anônimo. Não mesmo.
( vai até a escrivaninha ).
É! Não tem nenhuma sacola aqui, muito menos chique. Faz tempo que não faço compra. Nem é bom lembrar disso. É bom esquecer. Nem os folhetos de promoção as lojas que eu comprava me mandam mais. Parece que sentem o cheiro de quem está sem grana. Também, o que ia fazer com os folhetos? Mas é bom receber correspondência. É ruim ir lá na caixa do correio e não ter nada todo dia, um dia depois do outro. A gente se sente completamente abandonada. É ali na caixa do correio que a gente vê se alguém gosta de nós. Bem… E agora? Qual meu próximo passo?
( anda e tropeça ).
Fenomenal, acabei de pensar em outro método. Meu Deus! É melhor para de falar em Deus. É melhor falar com ele mesmo. Logo estarei com ele. Esse é fácil, é só eu me jogar na escada. Isso aparece bastante em filme. Não que seja suicídio. Nos filmes ou a pessoa cai por cair mesmo ou é empurrada. Ei! Eu não quero que pensem que alguém me empurrou. Espera aí! É só eu escrever uma carta dizendo que ninguém me empurrou. Não, não posso fazer isso. Daí eles vão saber que é suicídio. Se ficar como um acidente eu saio em noticiário de televisão, rádio, jornal e revista. Vão pensar que eu tropecei ou me desequilibrei ou fiquei tonta e perdi os sentidos na escada. Daí eu rolei abaixo e morri.
( levanta os braços ).
Morri de quê? Do que eu vou morrer? Parece que eu já ouvi que a morte mais comum quando se cai em uma escada é de pescoço quebrado.
( gira o pescoço ).
Quebrar o pescoço? Daí eu não vou conseguir mexer ele? Ele vai ficar mole, balançando de um lado para o outro?
( cai no chão, rola levanta e repete ).
Parece fácil, é só eu ir até a escada do prédio e me jogar escada abaixo. E logo estarei com o pescoço quebrado. Não, o que eu estou dizendo? Como eu posso saber se vou quebrar o pescoço? Eu posso quebrar o braço, a pena, a mão, o pé, pode até não acontecer nada e depois da queda eu sair andando. Bem, daí é só eu me jogar de novo até conseguir o que quero. É, mas se eu quebrar alguma coisa não vai dar nem pra me levantar. Daí vou ter que ir para um hospital e ser engessado.
( chacoalha a cabeça ).
Não, eu não posso acreditar que ficarei engessado por alguns meses. Dever ser horrível andar com gesso. A gente perde a liberdade de movimento. E pra tomar banho com aquele gesso? A única parte boa do gesso é que os amigos assinam nele e deixam mensagem. Mas no meu caso que vai escrever no meu gesso. Só se eu pedir para o médico que me engessar, para o porteiro do meu prédio, para o motorista do táxi que eu usar. Minha assinatura não vale. Eu podia encher de mensagens minhas. Não tem graça nenhuma. É! Me jogar em uma escada não está com nada.
( boceja ).
Confesso que estou cansada de tanto pensar.
( deita no sofá ).
( toca o telefone ).
TRIM, TRIM, TRIM.
Não pode ser. De novo?
TRIM, TRIM, TRIM.
Não vou atender.
( cruza os braços ).
TRIM, TRIM, TRIM.
Ei! Talvez seja o bandido querendo saber se eu estou bem ou se eu estou precisando de alguma coisa.
( atende o telefone ).
Alô! Marcelo. Quanto tempo.
O quê? Como estou indo? Ainda não consegui ir…
( aponta para cima ).
O que disse?
Tem uma notícia boa? E depois vem a ruim…
Há! Só boa? Não tem ruim, então diga…
Conseguiu um emprego pra mim?
Cara! Muito obrigada, do fundo do coração. Mas o que vou fazer? O emprego é de quê?
O quê? Vou animar festa infantil?
Mas nunca fiz isso. O que precisa?
Hum! Ter amor a vida pois vou lidar com crianças.
Cara! Veja uma coisa, amor a vida é o que mais tenho. Ora, eu tenho, não tenho?
Então esse emprego é meu, Marcelo? E quando começo?
Amanhã, sendo assim está ótimo. Então está certo, a gente se vê.
Tchau!
( desliga o telefone ).
Todo esse tempo que pensei na morte nada mais fiz que exaltar a vida. De um certo modo sempre estamos morrendo e nascendo. São as transformações da vida. Hoje morreu uma Adriana sem rumo e nasce outra Adriana repleta de esperança, tal qual morre a noite para nascer o dia.
Viva, eu consegui morrer.
( cai no chão ).
Viva!
( fica em posição fetal ).
Estou nascendo para uma outra vida.
( ri bastante, canta e dança ).
Lá, lá, lá, rá, rá, rá, Lá, lá, lá, rá, rá, rá…
( vai até a escrivaninha e pega o revólver ).
Bem, preciso arrumar toda essa bagunça, deixa eu começar pelo revólver…
( o revólver escapa de sua mão e cai no chão, produzindo um barulho, sai um tiro e acerta Adriana ).
Adriana cai morta.

FIM

MONÓLOGO

“ A SUICIDA ATRAPALHADA “

AUTOR: SAMUEL R. KROSCHINSKI

DADOS BIOGRÁFICOS

Samuel R. Kroschinski é escritor, autor do livro “ BARRIGA: UM MUNDO FEMININO, o qual está a venda nas livrarias Curitiba.
Samuel R. Kroschinski já teve “ ESTÓRIAS EM QUADRINHOS “ e “ CONTOS INFANTIS “ publicados no jornal O Estado do Paraná.

Tel.: ( 041 ) 3286- 9285

End: Rua Dês. Antonio de Paula, 92
Boqueirão- Curitiba- Paraná
CEP: 81730- 380

CENÁRIO: Um apartamento onde aparece um cômodo com janela ( podendo ser painel ).

Sofá
Tapete
Escrivaninha ou mesa com gaveta
Revólver grande e pequeno ( brinquedo )
Facas cenográficas
Vidro de comprimidos
Corda
Geladeira e fogão
Meias, calcinhas, folhas de papel, jornal, pacote com algumas bolachas e caixa de leite, telefone, carteira de cigarros, cinzeiro, isqueiro, garrafa de álcool, saco plástico, barbante.

( Adriana entra em seu apartamento apressada )
Droga! Essa vida é miserável, já não agüento tanta pressão e olha que eu nem tenho pressão alta nem baixa ainda.
Esse fardo que Deus me deu está pesado demais pra carregá-lo. Estou precisando de um carregador. E ainda dizem que ele ( aponta o dedo para o alto ) distribui os fardos igualmente.
( Dá um soco na cabeça ).
Ai! Da próxima vez tenho que moderar nas minhas reações.
Mas tem algo errado, pois deve ter um monte de gente sem fardo nenhum. Eu só devo estar carregando por uns vinte pecadores e…
( abre os braços indicando tamanho ).
Com uns baita pecados, diga-se de passagem. Por falar nisso ele…
( fala mais baixo e apontando o dedo para cima novamente ).
Distribui fardos de quê? Bem, de coisa gostosa não deve ser por que sempre seria menor. Claro, a gente ia comer tudo.
( ri ).
Imagine você carregando um fardo de chocolate, garanto que não ia deixar por menos. Logo não existiria fardo nenhum para carregar.
( pensa um pouco ).
É, deve ser fardo de coisa ruim. E deve ter uns por aí que não foram avisados para pegar o seu fardo. Vivem no paraíso. Acontece que os meus fardos são entregues em domicílio e ainda registrados. Além de tudo tenho que assinar…
( faz movimento de assinatura no ar ).
Para garantir o recebimento. Claro! Pra eles terem a certeza que vou cumprir a minha sina. E se não cumprir? Será que serei cadastrada no serviço de proteção ao crédito?
Dizem que desgraça nunca vem sozinha.
( faz tom irônico ).
Essa tal da desgraça vive em bando, tem um monte de coleguinhas. No meu caso elas podem encher um campo de futebol em dia de clássico. Por falar em futebol, já torci por vários times e nunca nenhum ganhou título algum, mas era só deixar de torcer que eles ganhavam. Hoje sou mais esperta, deixo para torcer no final do campeonato, o time que vencer é do meu coração. Daí compro a camiseta do time e saio por aí só pra me sentir vencedora.
( senta no sofá e tira os sapatos ).
É, a minha vida não é um mar de rosas ( prende o nariz com os dedos da mão esquerda e com a outra joga os sapatos para longe ).
Disso tenho certeza. Confesso uma coisa, eu sempre tive o dom de perceber quando uma coisa não estava cheirando bem. Foi assim que eu percebi que podia ser mandada embora do trabalho. Perdi o emprego por um motivo banal. Fui pra rua por que não batia o ponto. Tem cabimento?
( deita no sofá e estica as pernas ).
Não fui trabalhar alguns dias e não seria tonta de ir ao escritório só pra bater o ponto e daí voltar. Como eles queriam que eu batesse o ponto se eu não estava lá?
( senta no sofá ).
Logo em seguida meu marido me largou, me trocou por uma mulher rica. Por coincidência, mas só por coincidência o amor acabou quando meu dinheiro acabou.
Fui trocada por uma mulher feia que dói. E deve doer mesmo, haja analgésico e viagra pra agüentar aquela feiosa.
Lembro até hoje o que ele me falou quando estava indo embora. Quem vê cara não vê carteira.
Pelo menos ( ri ) tem o lado bom, ele disse que sou bonita.
E se não bastasse ainda tem toda essa onda de azar. Afinal que toda onda é de azar pra mim. ( fala mais baixo ) Eu não sei nadar.
Pois é, meus pais morreram. Estavam correndo, não respeitaram o sinal e ao cruzarem a rua foram atropelados por um caminhão de lixo. ( ergue a voz ) Que jeito mais pobre de morrer e sem propósito. Claro, meus pais não podem ser reciclados. Adorava eles e não consigo esquecê-los por um instante sequer. Ficaram tantas saudades. Também, foi só o que eles me deixaram, saudades, por que em matéria de herança não me deixaram nada.
Lembro até hoje da cartinha deles, que chegava todo mês, sem falta. No começo aquele blá-blá-blá, como vai você, nós te amamos muito, espero que essa cartinha te encontre com saúde e felicidade e assim vai. Mas sempre trazia algo maravilhoso, um sentimento profundo, uma poesia eterna e pura, tudo traduzido numa única mensagem.
A sua mesada está no banco.
O dinheiro era mais que suficiente para passar o mês.
Agora estou perdida, confusa e sem rumo, cheia de dívidas e sem nenhuma perspectiva para o futuro.
A certeza que fica é a cadeia, caso não pague as contas. Mas isso eu não agüentaria. Será que juiz leva essa alegação em consideração? Senhor juiz eu não vou agüentar a cadeia, daí ele diz ( ergue a voz ) você é inocente.
Tenho que arrumar um jeito de escapar dessa confusão.
( conta nos dedos )
Uma volta ao mundo? Não.
Acertar na mega sena? Não.
Casar com um homem rico? Não.
Ah! Tudo isso é um sonho. Preciso tomar uma atitude mais realista, uma medida drástica que seja definitiva.
( dá um estalo com os dedos ).
Definitivo quer dizer por fim de uma vez. E isso é morte.

( declama )
A morte é doce,
Um verdadeiro licor,
Ida sem volta,
Para um lugar melhor.

Fuga dos problemas,
Distância das cobranças,
Viagem de turismo,
Na mala só lembranças.

Não deixaria saudades,
Levaria somente tristeza,
Presente em todas minhas idades.

Minha geração morreria,
Não teria filho nenhum,
E descendente alguma sofreria.

É isso, morrendo, não tenho nada a perder. Claro, morta vou perder o quê? Pelo contrário, só tenho a ganhar. Me livro de todas as preocupações. Uma vez morta estarei tranqüila, serena e em paz, tão em paz que será até chato. Dá pra por um radinho no caixão, pelo menos tem uma musiquinha. Creio que não terá uma viva alma pra acender uma vela ou me levar uma flor.
( faz cara de felicidade ).
Pronto! É uma idéia, tenho que levar adiante. Não posso deixar esfriar. Como é mesmo o nome de quem se mata?
( pensa um pouco )
Latrocínio, não, não, parece quem mata um cachorro. Latro deve vir de late. Será homicídio? Ah, homicídio deve ser quando se mata um homem, e quando se mata uma
mulher? Será mulhercídio. E quando se mata um que ainda não se decidiu pelo sexo?
Há, Lembrei, é suicídio. Então é isso, vou cometer um suicídio.
( anda de um lado para o outro resmungando ).
Na verdade queria morrer dormindo. Eu não queria me ver morrer. Eu não sentiria coisa alguma. Seria formidável sonhar, sonhar um belo sonho, que fome, ( se distrái mas volta ao assunto ) sonhar um belo sonho, que estava andando a cavalo no meu sítio, com carro importado na garagem e de repente acordar no paraíso. Acho que o termo certo não seria acordar. Bem, sempre adorei dormir, mas isso é pura imaginação. Ora, morrer dormindo? Como diz o ditado: quem sabe faz a hora. Mas como vou fazer o tal suicídio? Preciso de alguma coisa que mate.
Ei! Tem aqueles revólveres da escrivaninha.
( corre até a escrivaninha ).
Hum! Aqui estão eles. Um é de calibre 22 e o outro é de calibre 38. Bem que eu podia ter um 48, ah, mas esse é só de uso do exército. É proibido seu uso por pessoas como eu.
( admira um por um, apalpa e acaricia as armas ).
Dizem que o calibre 22 faz com que a pessoa demore a morrer. A bala vai correndo pelo corpo, batendo aqui e ali, num e outro osso. A morte vem por hemorragia interna.
( faz careta ).
Deve ser uma dor miserável. Já o calibre 38 nesse aspecto é melhor, mata mais rápido. Então tem que ser esse mesmo.
( guarda o calibre 22 e separa o 38 ).
Com você não vou sofrer.
( apanha as balas e começa a coloca-las no tambor ).
Uma, duas, três… De pensar que ( ergue uma bala ) isso logo estará dentro de mim. Chega a dar um calafrio.
Quantos tiros serão necessários para morrer? Não quero desperdiçar bala nenhuma.
( volta a contar as balas )
Quatro, cinco… Mas também, não preciso colocar tantas balas, pois só darei um tiro. Não me imagino dando o segundo, o terceiro, o quarto.
( aponta o revólver para si próprio e se comporta como quem estivesse levando os tiros, se arrasta, cai no chão e rola um pouco ).
Pum, pum, pum ( faz som de tiro ) e o quarto e o quinto tiro. Tenho receio que falte lugar para atirar ( ri ).
( levanta do chão ).
Por falar em lugar, qual o mais indicado do corpo pra morrer mais rápido?
( faz pose da famosa estátua do pensador ).
Que dúvida cruel. Onde vou mirar este trabuco?
( coloca o cano na testa ).
Aqui não!
( faz ar de desânimo ).
Nunca gostei de ter uma arma apontada pra mim, mesmo que de brincadeira. Quando era criança sempre fiquei fora das brincadeiras de bandido e polícia, justamente por não gostar de armas.
( faz silêncio e logo mira o ouvido ).
Há, Aqui é um bom lugar, mas e se a bala entrar por aqui e sair pelo outro ouvido? Sempre falaram que eu não ouvia direito. Vão achar que eu quis ouvir bem alguma coisa.
( coloca o cano do revólver dentro do nariz ).
Aqui deve ser fatal, mas ai! Não é bom enfiar tanto que dói. Também, se fosse o revólver pequeno não ia doer tanto assim.
Agora está bom, vamos lá, vai ser pra já.
Ah, não vai dar. Se eu atirar no meu nariz vou por água baixo toda a operação plástica. Ele era aquilino e sofri tanto para arrumar a grana da cirurgia de correção. Agora que está perfeito ( acaricia o nariz ) não vou estoura-lo, não sou doida.
O que diria meu cirurgião?
Tanto trabalho pra nada.
( anda um pouco com as mãos para trás ).
Já sei!
( coloca o cano na boca ).
Vai ser aqui mesmo.
Um, dois e… Não dá!
( corre até a escrivaninha e retira um papel ).
Esqueci que tinha hora marcada no dentista para amanhã. Se eu me matar com um tiro na boca vão pensar que foi por que não agüentei a dor de dente ou não tinha dinheiro para o tratamento. E agora eu me lembro… Minha mãe dizia que a primeira coisa que as pessoas olham são os dentes. Se eu dou o tiro na boca arrebento tudo e se alguém olhar meus dentes o que vai pensar? Aposto que vão dizer olhando para meu caixão. Ela não está rindo por vergonha de mostrar os dentes.
Não, na boca não!
( num gesto rápido aponta para a cabeça ).
Será aqui mesmo, não tem outro lugar melhor.
( engatilha a arma e faz suspense ).
Também não dá. Me lembro do tempo de escola que os colegas diziam que eu não tinha nada na cabeça. E se eu atirar na minha cabeça eles vão dizer que foi uma tentativa desesperada de colocar alguma coisa dentro dela. Há, eu não suporto a idéia de ser motivo de piada após minha morte. Agindo desse jeito vou assinar embaixo e reconhecer que não tinha nada na cabeça mesmo. Será uma forma de concordar com as piadas que faziam.
( larga a arma ).
Ah, não agüento essa incerteza. Pensei que cometer um suicídio fosse mais simples.
Se eu morasse em algum país árabe seria mais fácil cometer suicídio. Era bem fácil, era só eu me apresentar para ser mulher bomba. Daí eu receberia treinamento… Espera aí, por que treinamento? É só ir até um lugar com bombas pelo corpo e apertar um botão. Ah, mas tem um porém, eu não ia querer matar uma multidão de gente.
( pensa ).
Matar um vai lá. Eu chegaria perto de um homem bem bonito e diria: você é lindo de morrer e logo depois apertaria o botão. E Bum…
( faz Bum )
Tem que ser um homem que goste de barulho, daí a gente vai para o outro mundo juntinhos. Nunca gostei de andar sozinha. Acompanhada eu vou mais segura. E lá a gente pode formar uma dupla explosiva. Ah, e se a bomba falhar? Não dá para chamar alguém que está perto para ajudar. E nem dá também pra ir até uma loja que arruma material elétrico. Ei, mas se dá certo acontece uma coisa horrível com o corpo. A gente vira carne moída.
( faz careta )
Argh! Não quero que falem de mim como Adriana Ralada. Não isso não.
( apanha um livro qualquer sobre a escrivaninha ).
Deveria ter um manual , uma cartilha, apostila ou sei lá, escrito por alguém entendido na arte do suicídio. Serviria, para os leitores interessados, pouparem tempo e sofrimento. Ali, no livro, viria a receita tim-tim por tim-tim. Poderia ter a descrição de vários métodos com o grau de dificuldade estipulado por caveirinhas. Esse é fácil, uma caveirinha; esse é difícil, três caveirinhas; esse tem que comprar muito material, cinco caveirinhas.
É! Seria muito bom, mas espera aí… Não daria certo, não que eu seja pessimista, por não gosto de pessimismo, sempre vejo o lado bom das coisas, mas para o livro ter coerência e credibilidade, o autor precisaria ser um suicida sacramentado na arte e que nunca tivesse cometido um fracasso durante o suicídio. Agora vem o pensamento: se ele fosse bom na coisa, já estaria morto e consequentemente não escreveria o livro.
E não teria graça ler um livro escrito por um suicida fracassado, pelo menos para quem quer levar a sério o suicídio.
( coloca a mão na boca ).
Nossa! Que palavra forte. Morrer é esquisito. É melhor trocar por fazer a viagem, partir, passar desta para melhor para não ficar tão brutal.
( mira o coração, mas com dúvida de sua localização no peito ).
Estava esquecendo do coração. Aqui o tiro é certeiro, não aqui. Espera aí! O coração fica do lado esquerdo ( aponta o direito ) ou do lado direito ( aponta o esquerdo )? Droga! O coração não pode estar nos dois lados, vai que erro e fico por aí penando, sofrendo dores horríveis. Não, isso não, eu teria a maior vergonha de sair correndo do apartamento pedindo ajuda.
( começa a correr ).
Ei! Me ajuda, tentei me matar e errei o alvo.
Ei! Eu quis me matar, por favor me salve, me leva pra um hospital.
Depois de todo esse sofrimento ainda ia parar no hospital com a chance de pegar uma infecção hospitalar?
Ei! Se fosse um acidente, tudo bem, mas uma tentativa de suicídio e ainda mal sucedida.
O que os outros iriam falar?
( fala mais alto ).
Sem falar que pelas esquinas, cada pessoa teria sua receitinha certeira. Para se matar de verdade ela teria que se jogar num precipício com um lago repleto de piranhas ou se jogar na frente de um trem, e por aí vai.
Ainda tenho amor próprio, ficaria aqui me esvaindo em sangue até morrer, mas não pediria ajuda pra ninguém. Detesto ficar devendo favor para alguém. Se eu acertar em cheio meu coração pode acontecer algo terrível. As pessoas podem dizer que alguém machucou meu coração e eu decidi me matar. Acho abominável se matar por causa de homem ou mulher. Isso só enche a bola dele ou dela. É como se ele ou ela tivesse no currículo: Uma mulher ou homem se matou por minha casa. Eu não vou dar esse gosto para meu ex marido. Não mesmo.
Ah, tem mais uma coisa que estava me esquecendo. Se eu acertar o tiro e morrer e ainda por cima ninguém escutar o tiro?
( pega um giz e faz o desenho do seu corpo no chão ).
Quem vai me achar?
Depois de quantos dias?
Só de pensar que vou entrar em processo de decomposição já perco o apetite. Vou apodrecer e feder, será que um banho antes e bastante perfume ameniza o cheiro?
Quem vai achar meu corpo?
Claro! Por que o cheiro vai se espalhar pelo apartamento.
O vizinho da esquerda é difícil, pois é dono de uma peixaria.
Agora a vizinha da direita, também não levo fé.
( fala mais baixo )..
Ela vende perfume falsificado. Ela não vai notar nada de mais no cheiro, já está acostumada.
( anda e pensa ).
Ah! Só pode ser através de um cobrador. Ele sentirá demais a minha falta, deitará, vai chorar, gritar e espernear.
( Adriana deita, grita e esperneia ).
O cobrador não suportará tal fatalidade. Ficará completamente desolado por não receber o dinheiro que devo. Mas sabe de uma coisa, já me sinto feliz de fazer falta pra alguém. O motivo não importa, claro, depois de morta não preciso pagar mesmo.
( faz movimento de lavar as mãos ).
Por falar nisso muita gente vai sentir minha ausência. O Natanael, dono do apartamento, não vai arrumar outro trouxa tão fácil que pague tanto por esta espelunca. Tem o Pedro da farmácia, sou a cliente preferencial dele. Acabou uma doença já tenho três na sala de espera. Tem também o Manuel da padaria, para quem ele vai vender aqueles pães amanhecidos?
Nossa! Acho que no meu enterro vai ter bastante gente, nem que seja para rogar praga.
( faz vozes diferentes para cada praga )
Apodreça no inferno.
Tua alma não vai ter paz.
Na outra encarnação vai ser mendiga.
Espera aí! O assunto é outro, estou desviando do objetivo vital, a minha morte. Uma coisa tenho certeza, com o revólver vai ser difícil, acabei de lembrar que não tenho porte de arma. Isso quer dizer que essa arma é ilegal. Se eu me matar com este revólver estarei cometendo uma infração.
( larga a arma e apanha a carteira de cigarros, retira um cigarro e o acende, admira a fumaça que se esvai e senta no sofá ).
Dizem que o cigarro mata, seria até gostoso morrer fumando, mas demora muito, teria que esperar quantos anos?
Ei!
( apaga o cigarro no cinzeiro ).
E se eu mudar de método? Que tal cortar os pulsos?
( vai até a gaveta e retira algumas facas ).
É difícil escolher entre pequenas e grandes. Ah! Elas precisam estar afiadas, pois eu não vou ficar cortando os pulsos por várias vezes, igual quando a gente está ( faz mímica de estar cortando algo duro ) cortando um bife duro com uma faca cega. O certo é dar uma passada e pronto ( faz movimento rápido com a faca ).
Escolho grande ou pequena? Ei! Tamanho não é documento, todas cortam.
( pega várias facas ).
Esta aqui de cabo de madeira, é muito antiga. Ih! Ela não serve. Imaginem que está enferrujada. ( põe a mão na cabeça ) Deus me livre cortar os pulsos com ela, ainda arrisco pegar uma infecção, um tétano. Teria que tomar várias injeções antitetânicas, e tenho pavor de injeção.
Olha esta aqui, tem o cabo de plástico e é colorida, é a mais bonita.
( ela passa o dedo no fio da faca para verificar se está afiada ).
Ai! Me cortei.
( balança o dedo e leva á boca ).
Ai! Minha mãe sempre disse para não brincar com faca. É de uma irresponsabilidade o fabricante vender uma faca afiada desse jeito. Coloca em risco a saúde dos usuários. Onde já se viu?
Mas no meu caso ela deve servir, tá-tá-tá-ram, está chegando a hora de ir.
( encosta a faca no pulso ).
Adeus mundo ingrato! Logo mais estarei com minha mãe… ( se assusta ) Espera aí, eu disse mãe? Não, não, não. Se eu for para o mesmo lugar de minha mãe já estou vendo a bronca que ela vai me dar.
( engrossa a voz )
Por que se matou?
E daí a pegação no pé. Tem que acordar cedo minha filha. Você tem que ter cuidado com quem anda e aonde vai. Volte cedo, etc. Não vai adiantar eu dizer que estou morta. Minha mãe dizia, se você sair de casa está morta pra mim e eu sai.
( encosta de novo a faca no pulso ).
Adeus mundo, adeus…. Adeus, adeus cidade querida, adeus, adeus país amado, adeus, adeus… É melhor fazer rápido, pois não vai aparecer um príncipe encantado pra me salvar. Não adianta ganhar tempo.
Lá vai, é agora.
( faz uma pausa ).
Ei! Não posso cortar meus pulsos, vai sair muito sangue. O corpo humano tem mais ou menos cinco litros de sangue. Aonde vai tudo isso?
( dá um grito ).
Vai escorrer pelo chão e manchar o tapete. Enfim, vai emporcalhar todo o apartamento. E o que vão dizer? Que eu dei meu sangue por este apartamento. Eu sempre tive mania de limpeza. Sempre exigi que Júlio, meu marido, lavasse as roupas dele, lavasse a louça, limpasse o apartamento e agora vou sujar todo ele? Isso não, não mesmo. Não é agora que vou fazer um ato mundano desses. E tem mais, vai sair muito sangue de mim e eu vou ficar bem pálida, branca igual cera. Não, esse método não dá por que eu sempre peguei sol pra ficar com uma corzinha manera. Espera um pouco.
( corre e apanha um copo de água e bebe afoita ).
Hum! Estava com uma sede. Meu Deus, eu não pensei nisso, como não pensei? Eu posso morrer por afogamento.
Ei! Mas onde vou me afogar aqui dentro? Vou ter que sair. Essa é uma ótima idéia.
Calma ( faz calma com as mãos ), calma, estava esquecendo que não sei nadar. Nem boiar eu sei. Entrar nhá água sem saber nadar é completamente perigoso. E onde eu iria me afogar? Há, tem um rio aqui perto. É só eu ir até lá.
( se prepara para sair ).
Não, não adianta ir até lá, é um rio de esgoto, não tem um peixe vivo ma água. Imagine eu que só tomo água filtrada me afogar numa água de esgoto. Não me vejo tomando aquela água ( faz careta ) com urina, fezes, latas, garrafas, roupas, bichos mortos. Tomar água suja faz mal, dá um monte de doenças. Preciso arrumar outro meio. Espera aí! Acabo de me lembrar dos filmes de bang-bang. O meio mais comum era: Não era flecha. Onde eu iria arrumar um índio?
( faz mímica de atirar uma flecha ).
Seria interessante.
Mas estava falando da forca. Esse é um método simples, barato e limpo.
( corre até a gaveta e retira uma corda, mexe nela, estica, observa ).
Isso me traz recordações de quando era criança. Adorava brincar de pular corda.
( Ela pula corda, por alguns segundos cantarolando algo alegre ).
É bom parar com a brincadeira. O que preciso fazer é sério.
( tenta fazer o nó de forca ).
Esse nó de forca é mais difícil de fazer do que pensei.
( tenta fazer o nó, mas sempre dá errado, mostra desânimo ).
Sempre acreditei em rituais. Se a gente vai tomar vinho tem que apreciar a coloração, cheirar, sentir o vinho para depois tomar. É um ritual que aguça todos os sentidos para que seu sabor seja enaltecido. É isso que dá um toque especial para as coisas. Lembro que Júlio sempre se zangava quando eu fazia esse ritual ante de beber o vinho. Só por que eu comprava o vinho no boteco da esquina. Eu comprava vinho barato para economizar o dinheiro e gastar num salão de beleza ou roupas par mim. E lá tem diferença? É um vinho como qualquer outro. O nome é vinho, não é?
Mas ser enforcada com um nó fajuto é demais. Vão dizer que eu nem sabia dar o nó de forca. Por falar nisso eu sempre adorei fazer aquele joguinho de advinhar as palavras. É o jogo da forca. Sabia que eu tinha tirado de algum lugar essa idéia. E se eu faço um outro nó? Já imaginaram se me encontram enforcada com um nó de porco? Vão dizer pra levar o presunto pra geladeira. E com o nó direito? Vão dizer que essa morreu direitinho.
Além de tudo ficarei conhecida como a enforcada de primeira viagem.
( coloca a mão na cabeça ).
Isso é vergonhoso demais. Ei! Tem uma coisa que eu não pensei. Já vi fotos de pessoas enforcadas e elas ficam com uma aparência horrível.
( faz careta ).
Ficam com os olhos arregalados, a língua para fora e ainda aquele sinal medonho no pescoço.
( faz o sinal da cruz ).
Cruz credo! Não posso ficar com sinal nenhum no meu pescoço. Sempre brigava com o Júlio quando ele ameaçava dar um chupão ou mordida no meu pescoço. Pra esconder é difícil. E não quero ficar com a aparência que está escondendo alguma coisa. Agora seria muito triste ter que levar a marca da forca pela vida inteira… Ou melhor, pela morte inteira.
Não, não posso escolher a forca.
Preciso de um outro meio.
( anda pelo apartamento e se bate em algum objeto ).
É isso! Como não pensei antes, atropelamento. É, mas vou ter que sair de casa. Aqui dentro não passa nenhum carro, muito menos ônibus ou caminhão.
( fica alegre ).
Até que enfim uma luz no fim do túnel, mas ser atropelada por bicicleta não dá e nem por moto. Eu tenho que ser atropelada por um carro. É fácil, é só me jogar na frente quando o carro estiver passando. Minha mãe sempre disse pra eu me jogar quando tivesse uma oportunidade. É isso, vou seguir o conselho da mamãe. E quanto ao carro? De que carro eu me jogo na frente? Não, por que não pode ser um ferro velho. Precisa ser um carro moderno, estiloso. O que as pessoas vão falar se eu morrer atropelada por um calhambeque. Vão dizer que não sabem quem é a lata velha. Se eu vou morrer atropelada tem que ser um carrão.
( pensa ).
Tem que ser um carro de luxo ou esporte pra dizerem que eu tenho bom gosto.
Mas um carro desses não fica passando toda hora pelas ruas. Hi! Quer dizer que eu vou ter que ficar esperando um carrão passar pela rua. Isso é uma loteria. Sabe lá quantas horas ou até dias vai levar pra isso acontecer. E tem mais uma coisa, o carrão não pode estar devagar. Se eu me jogar na frente dele e ele estiver devagar dá tempo para frear e eu fico com a cara no chão.
( faz ar de cansada ).
Ufa! Vou ter que esperar vir um carrão em alta velocidade, e olha que isso é difícil. Dizem que homem cuida mais de carro do que de mulher. Eu acompanho noticiário e não é muito freqüente acidente de carro envolvendo carrão. É até compreensível. Os donos de carrão andam na ponta dos pés. Eles cuidam de seus carrões. Já a maioria dos acidentes acontece com carros velhos e populares onde o dono não tem nenhum amor por seu meio de locomoção. Quando teve que comprar comprou por que era o único que o dinheiro cabia. Já os donos de carrão compram por que é justamente o carro que eles gostam e sempre quiseram ter. Acidente é coisa de amor. Um ama o carro que tem e o outro, em muitos casos, odeia o carro que tem. Até a rua eu tenho que escolher, pois carrão não anda em qualquer uma. A rua ter que ser chique. Já o carro popular o dono enfia em qualquer lugar. É, parece fácil, mas não é. Ai, e a roupa? Com que roupa que eu vou?
( senta no chão ).
A roupa é muito importante. Traduz a personalidade da pessoa. Olhando a roupa a gente tem idéia de como a pessoa é. Por isso é importante a escolha da roupa que eu vou ser atropelada. Pode ser um agasalho esportivo? Não, se matar não é um esporte, é uma coisa séria. E um terninho? Não, se matar não é um trabalho. Um biquíni? Não, não, se matar não é praia nem piscina. Um vestido de noite? Não, se matar não é uma festa. Já sei, uma bermuda e um chinelinho? Não, também não, se matar não algo tão informal. Ah, e chinelinho é ruim de eu ir, pois ainda não fui no salão fazer os pés. E de salto alto? Também não dá, já sei que vão fazer muitas piadas a respeito. Com certeza vão dizer que eu cai do salto e fui atropelada. E se eu for só com uma capa e pelada por dentro? Sempre tive curiosidade de saber como é sair pelada numa revista e essa pode ser minha chance. Antes de me jogar na frente do carro eu tiro a capa e me jogo. Mas como eu não pensei nisso, eu não vou sair na coluna social e sim na policial.
( levanta ).
Confesso que perde a graça. Ei! Isso me faz pensar que carro é pequeno e se a batida não me matar? Não, não pode ser carro, eu já tive uma idéia, aliás, uma grande idéia. Vou me jogar na frente de um ônibus. Não, não, não dá, vai ter muita gente me olhando. Vão dizer que eu errei a porta para entrar no ônibus. E ainda tem gente que costuma dizer: vai pegar o ônibus? Nesse caso vão dizer que o ônibus me pegou mesmo. Não, eu tenho que ser atropelada por outra coisa. Mas o quê?
( senta, cruza as pernas e meditas um pouco ).
Já sei, como não pensei antes, um caminhão, uma carreta. E eles costumam correr. Claro, a maioria desses caminhões grandes não é de quem está dirigindo, mas de uma empresa. Espera aí.
( levanta ).
Não pensei nesse porém. A carga do caminhão que me atropelar é importante. Já pensou ser atropelada por um caminhão de banana? Vão dizer que eu era uma banana. E se for um caminhão de bebida? Vão dizer que a bebida me matou. De cigarro vai ser a mesma coisa, o cigarro matou ela. E se for um caminhão de televisão vão dizer que eu não saía da frente da televisão e que foi uma pegadinha. Se for de carne vão dizer que chegou carne fresca. Epa! Mas tem uma coisa, caminhão é muito grande e pesado. E se o caminhão me esmagar? Não, isso não pode acontecer. Eu não posso ser esmagada. Daí vão me por num caixão sem janelinha. E eu que sempre que entro num ônibus vou logo sentando na janela. Não é depois de morta que vou deixar de gostar da janelinha Sem falar que vou ficar irreconhecível. Pudera! Vão dizer que o caminhão esmagou meus sentimentos. E se alguns começarem a perguntar se eu era carne moída de primeira ou de segunda ou ainda raspa de serra? Não, eu não quero ser motivo de piadas por aí.
Preciso de um outro meio.
( faz um bocejo e se espreguiça ).
Ah, mas me sinto cansada. Ei, uma revista.
Deixa eu dar uma olhada.
( deita no sofá ).
Aqui tem uma piada, adoro piadas.
O menino está brincando, e por descuido, deixa cair uma caixa em cima do pé da irmã. Ela se vira para o irmão e diz:
Ai! Filho da puta.
O pai indignado entra e diz que é feio dizer palavrões e ainda mais mentirosos.
Disse o pai:
Pelo menos diga: neto da puta.
( dá belas gargalhadas ).
Há, há, há, há, há, há, essa é boa, vou morrer de rir se continuar rindo assim. Ei, é melhor aproveitar o embalo. Quem sabe eu morra de rir.
( ri e se joga no chão ).
Ué! Ainda estou viva?
( levanta desolada ).
Pensando bem seria uma piada morrer de rir.
( toca o telefone ).
TRIM, TRIM, TRIM.
Quem será?
Alô! Quem? Ah, é o Sr. Roberto do armazém.
Eu sei, estou devendo, mas olha, sem falta pago amanhã.
( olha para o público ).
Amanhã estarei num outro mundo mesmo.
Sr. Roberto! Amanhã eu pago, está bem assim? Fique tranqüilo, pra mim é uma questão de vida e de morte.
Ah! Está certo, até amanhã, adeus.
( coloca o telefone no gancho ).
Queria ser uma mosca pra ver a cara dele quando souber que não vai mais receber o seu dinheiro. Ih, mas e se eu estou lá e ele espalha inseticida?
( faz cara de receio ).
Xiiiii! Ele vai querer me matar.
Bem, mas daí não importa.
( balança os ombros ).
Deus, todo esse papo me deu fome eu não pretendo morrer de fome.
( vasculha as gavetas, abre portas ).
Pó! Estou mal de comida. Deixe ver aqui, nada, nada aqui também. Desse jeito vou morrer de fome mesmo.
Hum! Aqui tem uns restos de bolacha e um pão dormido.
Ah! Um pouco de leite, isso dá para enganar o estômago.
( come as poucas bolachas e bebe o leite ).
Hum! Até que estava gostoso.
( passa a mão na boca e lambe os dedos ).
É! Quando se está com fome não existe tempero, qualquer coisa fica gostosa.
Bem, tenho que voltar para o meu objetivo principal.
( mexe o corpo rapidamente ).
Ai! Senti uma picada no corpo.
Ei! Mas uma idéia. Picada lembra o quê? Pode ser agulha, já cansei de picar o dedo com agulha de costura. Outra coisa que picada lembra é injeção, sempre fugi de injeção. Tem mais? Picada lembra abelha, também já fui picada por abelha, acho que ela morreu atoa. Lembra também beliscão, o Júlio tinha a mania de me beliscar. Bem, mas picada lembra mesmo o que me interessa, cobra.
( treme ).
Sempre tive um medo enorme de cobra. Mas onde vou arrumar uma? É o método da Cleópatra. Essa sim era mulher, decidida, determinada, valente, inteligente. Escolheu um meio para se matar e nem titubeou, pegou a cobra e se deixou picar. A única coisa que mancha um pouco essa história é que a Cleópatra nem quis ver seu suicídio. Tinha uma cobra numa cesta tampada e Cleópatra colocou a mão lá dentro. Pois é, ela perdeu o momento que a cobra pica sua mão. E se ela precisasse falar como foi ser picada ela não ia saber dizer. Ora! Logo depois podiam aparecer alguns repórteres e fazer essa pergunta. Como você vê a picada? Daí a Cleópatra ia fazer uma cara de paisagem e não ia poder responder nada. Ela é um exemplo para quem quer cometer suicídio.
Mas onde vou arrumar uma? E tem mais eu não conheço se é cobra venenosa ou não. Procurar uma no mato eu tenho medo. É perigoso andar no mato por que tem muitos bichos. Sabe lá o que pode acontecer. E s eu roubar do zôo? Não, eu nunca roubei e não é agora que eu vou roubar.
( ri ).
Será que serve aquelas cobras dentro de vidro com água? É só pegar um vidro, abrir e pronto. Mas onde vou arrumar um vidro de cobra?
É, mas detesto a idéia de ser piada. Vão dizer que eu morri com meu próprio veneno e que eu era uma cobra. Ah, e tem mais, o condomínio não permite animais aqui nesse prédio. E eu não sou de desobedecer leis. Não, isso não dá.
( baixa a cabeça ).
Puxa! Estou deprimida.
Epa! Deprimido me lembra comprimido.
( vai até a gaveta e revira na esperança de encontrar um vidro de remédio ).
Esse não dá, acho que engolir supositório não adianta. E vão dizer que eu não sabia onde era minha boca. Ei, aqui tem mais um vidro, deixa eu ver, deixa eu ver, é de laxante. Não, não, vão dizer que eu fiz uma grande cagada. Ei, mais um vidro, e esse é, deixa eu ler, é de comprimido pra dor de cabeça. Ah, mas também não dá, vão dizer que eu consegui tirar a dor de cabeça. Claro, eu morri e não vou sentir nada. Ei, aqui tem mais um vidro.
( levanta o vidro de comprimidos e fica olhando por um tempo ).
É! Tomo o vidro inteiro e logo estou dormindo. Quando me der conta já estou no mundo de cima.
Ah! Mas tem um porém, acabei de comer, e se eu tiver uma indigestão? Também tem a hipótese de não morrer rápido e alguém, por ironia do destino, me encontrar e me levar até um hospital. Se for público tudo bem, morro de qualquer jeito, mas se for particular não tenho dinheiro, então morro do mesmo jeito.
Vai que algum médico queira me tratar. E a tal lavagem estomacal? Imaginem um cabo ( pega uma vassoura ) entrando pela retaguarda e mexendo e mexendo e mexendo.
Aaaai! É a dança da vassoura. Aaaai! É a dança da vassoura.
Me dá vontade de morrer de vergonha só de pensar no assunto. A vassoura tem uma esponja na ponta, mas não adianta por que dói na alma. E a quantidade de água que jogam lá dentro? Eu que modero na água pela boca vou liberar lá embaixo?
E a conta? Já estou devendo as saias, não suportaria mais uma dívida.
( anda de um lado para o outro ).
Deixa eu ver o que falta? Preciso encontrar um outro meio, nunca pensei que fosse tão desgastante escolher um meio para morrer. Até parece questão de vestibular. Qual a forma mais cômoda de cometer um suicídio? Ei! Isso me chamou a atenção. Um suicídio. Claro que tem que ser um suicídio. Já pensou falhar uma vez e ter que fazer outra vez? Não, esse método não se enquadrou comigo, por isso estou procurando um que tenha a ver com o meu jeito. E não é motivo de orgulho dizer: esse já é meu quinto suicídio. Mas eu tenho força e com fé em Deus vou até o fim. Não está em meus planos testar todas as maneiras de se matar.
Há! E a pergunta? Qual a forma mais fácil e cômoda de cometer um suicídio?

a) Tiro
b) Forca
c) Faca
d) Envenenamento
e) Atropelamento

Depois poderia vir embaixo.

1) Se a e c forem corretas
2) Se b e d forem corretas
3) Se d e e forem corretas
4) Se todas forem corretas
5) Se nenhuma das alternativas for correta

Até que iria ficar legal. A nota sairia no certificado de óbito.
Ei! Acabei de ter uma idéia fenomenal. Como não pensei antes?
( corre até o fogão e gira o botão sem acender a boca ).
Dizem que o cheiro do gás mata. Deixa eu ver se funciona.
( Tem um barulhinho de chiado ).
Puxa! Que cheirinho horrível, mas não existe sucesso sem sacrifício. Logo estarei entrando no reino do céu. Espera aí! Será que quem comete suicídio vai para o céu? Eles podiam interpretar que a pessoa gosta tanto do céu que antecipou sua morte. Depois do que passei aqui não me vejo no inferno. Prefiro morrer do que ir para o inferno.
( fecha o nariz com a mão ).
Mas é um fedor desgraçado, não estou agüentando.
( deita no sofá e fica se virando de um lado para o outro ).
Ah! Chega desse cheiro, não matei meu pai a soco.
( corre até a janela, mas para de repente ).
Ué! Eu quero morrer com o gás e vou abrir a janela? Isso está errado.
( volta para o sofá ).
O jeito é esperar que dentro de alguns minutos estarei dormindo. Por falar nisso estou sem meu pijama, nunca durmo sem ele.
( canta e tosse ).
Epa! Tem algo errado.
( cheira o ar ).
Ih! Parece que o cheiro está melhorando. Será que já me acostumei. Acho que não vai ser tão mal essa viagem. Agora vou dormir tranqüila e não mais acordarei. Adeus.
Ué! Mas está tão bom que é difícil de ser verdade.
( corre para o fogão e mexe no botão, cheira a boca, vai até o botijão, desses pequenos, e chacoalha várias vezes ).
Não pode ser verdade.
Por que foi acontecer justo comigo? O que eu fiz pra Deus?
Isso é hora de faltar gás?
Desse jeito não vou morrer nunca.
( toca o telefone ).
TRIM, TRIM, TRIM.
Outra vez esse telefone.
( atende com raiva ).
Alô! Quem fala? Ah! É o Damasceno, olha, eu não tenho o dinheiro para te pagar ainda.
O quê? Se eu não pagar você me mata?
( afasta o telefone e põe a mão no fone ).
Benza Deus, eu sabia que o Senhor não me abandonaria.
( volta a falar no fone ).
E quando vai ser Damasceno?
Como o quê?
Quando você vai me matar? Olha tem condição par você de ser hoje? Pra mim seria ótimo.
O quê?
Repete o que você falou que não estou acreditando. Era só força de expressão?
( vira para o público ).
Propaganda enganosa é crime, você sai por aí dizendo que quem não paga morre e na hora H desiste. O que é isso? Não se faz mais bandido como antigamente. Ah! Não me mata por que daí não recebe a grana?
( faz um silêncio ).
É! Por um lado ele tem razão.
E o que você faz?
O quê? Quebra braço por braço, perna por perna, chega! Não devia ter perguntado. Xiiiii! Desligou.
( coloca o fone no gancho ).
Estou completamente perdida, no mato sem cachorro.
( olha para um ponto qualquer ).
Agora tenho que fazer esse suicídio mais do que nunca.
( encara a janela ).
Como não pensei nisso antes?
( aproxima pé por pé ).
Eureca!
( acaricia as laterais da janela ).
Tinha esquecido desse método. Moro no décimo andar. É só me atirar e pronto. E ainda ganho de brinde saber qual é a sensação de voar. Claro! Por alguns segundos. Até bater no chão.
( faz careta ).
E que tal que eu saio voando por aí?
( corre com os braços abertos ).
Eu posso ser uma super mulher e não sei disso. Ah! Isso é bobagem, vamos voltar a realidade.
( chega com cuidado na janela, abre e coloca a àbeça pra fora ).
Puxa! Mas é alto mesmo.
Lembro que brigava com o Júlio toda vez que ele ficava na janela, tinha medo que ele passasse mal e caísse. Cansei de brigar com ele.
Se tivesse dinheiro sobrando teria mandado colocar uma grade nela, assim ninguém poderia se machucar.
É! Mas daí eu não poderia pular.
Caramba! Isso aqui é alto mesmo. Imaginem como eu vou ficar no chão depois de cair. Não quero ficar arrebentada, com o corpo todo quebrado. Quero ser uma morta inteira, bonita. Sabem quando as pessoas vão até um velório e dizem: Nossa! Aquela moça está tão bonita, parece um anjo. Por isso quero ficar bem depois de morta para não dizerem que fiquei um monstro.
( se balança na janela ).
Ai, me acudam. Estou com vertigem só de olhar pra baixo, já estou com tonturas.
( senta com dificuldade ao lado da janela ).
Quando era pequena nunca subi em árvore por medo de altura. Tinha um medo de cair que me pelava e tem mais uma coisa. Lá embaixo tem uma cerca de grade pontuda. Se eu cair vou parecer frango no espeto. Não, morrer está certo, mas com respeito, com moderação, mas enfiada numa estaca já é um abuso.
É, deve ter uma maneira mais fácil e morrer.
( levanta e corre, pula, faz polichinelo, abdominal ).
Estou tentando morrer de cansada, só mais um pouco e chego lá. Já estou esgotada.
( vai parando aos poucos, põe a mão nas costas e respira ofegante ).
Esse jeito é muito cansativo de morrer.
( deita no sofá e se abana ).
Lembro que costumava brigar muito com o Júlio por que ele fazia ginástica todos os dias. Brigava pela conta da academia. Sim, ele fazia cada sessão com uma roupa limpa. Era um desperdício. Bem que podia fazer a semana inteira com a mesma roupa. Quem sofria era eu para lavar. E o pior é que ele ficava bravo quando eu dizia isso.
( pega um jornal ).
Nossa! Tive sorte de pegar bem na foto de um morto.
Hum! Aqui diz que foi para o Instituto Médico Legal. Ei!
( dá um sobressalto ).
Outro detalhe que eu ia esquecendo.
( levanta do sofá ).
Depois de morta o que acontece? Pra onde eu vou? Ah! Vem aqueles caras da polícia e vão mexer em tudo, vão revirar as gavetas, vasculhar as fotos, penetrar na minha intimidade.
( fica com raiva ).
Detesto e sempre detestei que mexam nas minhas coisas, mesmo que não tenha muitas.
Lembro das intermináveis brigas com o Júlio. A gente brigava, mas eu o amava.
( fala com voz suava ).
As vezes a gente dá bronca para que a pessoa melhore. Lembro quando ele saía arrumando tudo, nos dias de faxina. Minhas coisas podem estar desarrumadas, mas eu sei exatamente o lugar de cada uma. E vinha o Júlio e guardava onde ele achava que devia guardar.
( aumenta a voz ).
Eu chegava em casa e precisava de um papel, adeus. Precisava revirar tudo pra achar o dito papel. Brigava com ele, mas todo dia era a mesma coisa… até….
( fica triste ).
Que ele foi embora, agora está como eu gosto,s ei onde estão meus papeis.
( mostra-os espalhados pela escrivaninha ).
Sei onde estão minhas meias.
( mostra-as dentro do fogão ).
Sei onde estão minhas calcinhas.
( mostra-as embaixo do sofá ).
Sei onde está tudo… Mas…
( grita com desespero ).
Não sei onde está meu Júlio.
( chora ).
Ai! Que vontade de morrer.
( assoa o nariz e esfrega os olhos ).
Deixa eu voltar para o assunto mais importante. Onde estava? Ah! Morta e estatelada no chão. Pois bem, aí viriam os repórteres e tirariam fotos de mim de todo jeito, para serem publicadas no jornal. Decerto seria um fotógrafo de natureza morta. Ah! Iriam querer saber alguma coisa de mim pra por no jornal. Ei! Eu tenho que deixar algo escrito.
( corre e pega uma caneta e papel ).
Toda garota que se suicida deixa uma cartinha, bem, bem, é que, é que não fica bem se matar se deixar uma cartinha. Nela a gente se despede dos parentes, dos amigos e manda os inimigos pra aquele lugar, não, isso não, quem vai para aquele lugar sou eu. É uma gentileza fazer uma cartinha, senão é a mesma coisa que ir viajar sem se despedir. É sempre aquela choradeira, daí a gente fala: Eu volto logo, ah! Nessa cartinha não dá pra dizer isso, eu não vou voltar, a não ser que eu apareça como fantasma ou no sonho dos meus amigos. Ei! Pode ser que esse papo de encarnação seja verdade daí eu posso reencarnar em alguma pessoa próxima de amigos.
( põe a mão na cabeça ).
Espera aí! Eu estou querendo me matar e já estou pensando em voltar como fantasma ou em sonho ou como reencarnação? Isso é demais. Eu tenho que ficar quieta no meu canto por um bom tempo depois de morta. Eu serei um túmulo. E a cartinha como tem que ser?
( anda de um lado para o outro ).
Colo bichinhos nela, faço desenhos, coloco letra de música, coloco poesias, coloco meu endereço de orkut, o papel tem que ser colorido, espalho perfume no papel, colo uma foto minha, a melhor. Eles sempre mostram fotos nos jornais, revistas e televisão. Mas tem uma coisa, eu não me lembro muito de notícias sobre suicídio, senão eu… Ia lembrar.
( pensa um pouco ).
Já sei, é lamentável que aconteça uma coisa dessa, lembro que uma vez eu ouvi dizer que os meios de comunicação não cobriam suicídio para não incentivar ou dar idéia para suicidas em potencial. Ora essa, vivemos numa democracia e temos direito a saber sobre suicídio. Temos direito a ter nossos ídolos. Os suicidas com sucesso ou que já morreram na primeira tentativa. Temos direito a saber quais são as histórias que devem terminar com um suicídio. Há! E temos direito também a ter fotos de nossos ídolos para colar na parede do quarto. Temos direito também a saber onde foram enterrados para levar flores e acender velas. Hum! Hum! Numa dessa pode surgir a santa dos suicidas ou santo. Eles estão negando informação. Bem, isso devia ser assunto para um político. Sim, ele devia fazer algo pelos suicidas.
( abaixa a cabeça ).
Não, um político não ia abraçar a causa dos suicidas. Claro que não. Eles ajudam o povo para receber o voto como recompensa. Morta eu ia votar como nele? É, é, é, mas tem um porém: a mídia mostra gente matando por que foi rejeitado pela companheira. Isso não é incentivar quem foi deixado pela namorada a matar ela? E os roubos e os abusos sexuais? Isso eu não entendo, juro que não entendo a diferença. Por que o suicida tem que pagar? Nós não estamos fazendo mal pra ninguém? Essa é pra não entender mesmo. Ah! A carta. Ei! Deve ser uma carta ou uma cartinha ou uma cartona? Bem, o que devo colocar nessa carta? Como começo? Espera aí! Que tal assim.
( senta no chão ).
Estou muito feliz… Não, estou muito feliz pra uma carta de quem vai morrer não soa bem. Poderia ser estou morrendo de felicidade. Vamos ver esse começo: quero que todos estejam bem… Não, também não, desejar que todos estejam bem, vindo de quem cometeu suicídio soa meio falso. Bem, na carta eu posso dizer que não quero ser cremada. Odeio fogo, tenho muito medo. Sempre me queimaram e agora vou dar razão pra toda essa gente sendo cremada? E a gente virar uma caixinha de cinzas? Não, minha vida não pode terminar em cinzas. Isso não. Guardar as cinzas ou jogar estou fora. Quem vai querer guardar minhas cinzas. Ninguém me queria por perto e jogar é como não dar valor a mim. É como dizer: vamos jogar ele fora. Se bem que eu sempre vivi jogada no mundo, mas ter minhas cinzas jogadas na água se misturando com lixo, cocô e pipi. Não, não mesmo. Ou ter minhas cinzas jogadas num campo onde todo mundo vai pisar em cima. Também não. Prefiria ficar guardadinha numa caixinha em algum lugar da casa pra estar bem viva na lembrança das pessoas.
Bem, eu estava esquecendo que assim que encontram a gente morta eles colocam algo em cima. Serve um lençol, um jornal ou um plástico geralmente aquele sem gosto. Estou falando do plástico preto. Podia ser um plástico colorido. E quanto ao jornal ninguém deve fazer uma seleção de que parte que vão por em cima do corpo. Eu particularmente gosto do caderno cultural, adoro quadrinhos e horóscopo e também o que vai passar na tv. Podiam me cobrir com esse caderno. É, eles cobrem até a cabeça, deve ser pra ninguém ficar babando e querer tirar uma lasca. Ora! Se um cara me vê morta, pode quer chegar perto e fingir que está em profunda comoção, pegar minha mão, passar a mão pelo meu rosto e eu não vou poder dizer.
( aumenta a voz ).
Tira essa mão boba daí.
Depois vai ver se não tem ninguém olhando e vai tentar me dar um beijo. E eu ali, sendo violentada sem poder dizer nada. É, por uma lado é bom cobrirem todo o corpo. Quando eu era bem pequena eu pensava que eles cobriam as pessoas mortas pra elas não sentirem frio. É, e tem algumas pessoas que acendem velas ao redor do corpo. Dizem que é pra iluminar o caminho de quem morreu. Mas eu nunca vi alguém pondo lanterna. Isso é curioso. O começo da carta é difícil, é melhor eu pular direto para a mensagem. O que vou deixar como mensagem? Há! Eu posso dizer nunca desistam de seus sonhos ou nunca percam a esperança ou tenham sempre fé em Deus. São belas mensagens. E pra terminar: amo vocês… Soa estranho também, amo tanto que vou me matar.
( levanta ).
Escrever uma carta não é fácil, mesmo que não precise gastar com correio.
Deixa pra lá, depois de pegarem meu corpo eles levam para o necrotério. E lá tem a câmaras frias.
( treme ).
Detesto frio, a gente fica com as partes do corpo congeladas, não tem vontade de fazer nada, se bem que eu nunca tive vontade de fazer nada.
Lembro do Júlio quando eu estava deitada bem quentinha e ele chegava com aquele pé gelado me encostando.
E eu gritava.
( grita ).
Tira esse pé daqui.
Pó! Ele não podia fazer uma escalda pé? Tinha que vir com pé de defunto?
Eu não exagerava, não é?
( medita ).
Mas acontece que o resto dele era tão quente. Hoje em dia até suportaria um pé gelado, mas no meu casso eu vou ficar inteira gelada.
Depois vão querer me colocar naquelas gavetas. Tenho horror a lugares fechados, frios e escuros.
Ah! E depois ainda vão me retalhar inteira para ver se eu estava sob efeito de droga ou álcool, se quebrou alguma coisa e que órgãos faleceram antes. É, vão querer saber a causa da morte. Eu já soube que tem caso que eles passam a serra no morto. É, eles ficam bem a vontade na mesa de cirurgia por que não tem medo de erro médico. Vão errar o que se eu estou morta? Então eles cortam a vontade.
Mas não acaba aí, eu posso ser enterrada como indigente, não tenho imóvel no cemitério ou ser levada para alguma faculdade onde permaneceria num tanque de formol. E ficaria ali peladona. Os estudantes iam me ver completamente nua sem eu receber nada por isso. Quem tira foto para revistas ganha uma grana, mas eu ali ia posar sem parar e não ganhar nada por isso. E assim ficarei sendo picada e repicada até não dar mais, daí confesso que não sei qual é a próxima etapa. Eu, eu… Eu não sei pra onde eles mandam o corpo. Será que se eu fazer uma boa maquiagem, arrumar o cabelo quem me levar me dispensa dos cortes e me enterram inteirinha? É, quem me ver pode me achar tão bonita que nem vai querer mexer. Vai ter dó de me cortar. Confesso que todos aqueles cortes e aquelas costuras não ficam bem no corpo.
( pensa ).
Uma maquiagem pesada ou leve? Uma maquiagem discreta é difícil de perceber. Eu posso colocar só um brilho nos lábios, mas é pouco. É, eu podia ter ido a um salão pra me arrumar, assim não ia fazer feio. Arrumava o cabelo, as unhas e fazia uma bela maquiagem. Dizia que era pra festa. Podia mandar encaracolar meus cabelos. É assim que as anjas aparecem, sempre de cabelos cacheados. Hum! Podia até fazer um aplique para meus cabelos ficarem bem compridos. É, assim eles podiam me enterrar com dignidade.
( abre os braços ).
E se alguém se apaixona por mim?
( ri ).
É, mas não vai dar romance não, eu estou morta e não vou poder corresponder. Ah! O pior é pensar que esse corpinho…
( passa a mão pelo corpo ).
Vai desaparecer aos poucos dentro do caixão, só ficam os ossos, mas é bom não falar nisso, deixa pra lá.
( faz silêncio ).
( toca a campainha ).
DIM, DOM, DIM, DOM.
Droga, Queria tanto morrer. Por um fim nas minhas obrigações. Estou cansada dessa vida paranóica.
( toca mais uma vez a campainha ).
DIM, DOM, DIM, DOM.
Já vou.
( sai de cena ).
Pois não.
( uma voz masculina ).
Me passa o dinheiro ou morre!
( faz uma pausa ).
Senhor ladrão… Por favor, por favor, não me mate…
( a voz repete ).
Me passa o dinheiro ou morre!
Tenho pouco dinheiro, mas pode levar tudo.
( passa um tempo e Adriana volta para a cena ).
Como pode isso, aonde vamos parar? Acabei de ser assaltada em meu próprio apartamento. Olha só o perigo que passei. E lá se foi o dinheiro que eu tinha. Mas minha mãe ia dizer que pelo menos eu estou viva… Ei, o quê?
O ladrão disse passa o dinheiro ou morre.
( põe a mão na cabeça ).
Acabei de desperdiçar a chance da minha vida… Ou melhor, a chance da minha morte. Era só eu ficar na minha e não passar nada pra ele ou até reagir, dar uns tapas nele. Podia também dar a maior gritaria. Isso ia provocar ele. É! Daí ele ia me dar um tiro. Espera aí. Ele pode estar por perto ainda.
( sai de cena gritando ).
Você aí, vem cá, me entregue tudo por que eu prefiro a morte.
( depois de um tempo volta ofegante com a mão no peito ).
Não adianta, ele foi embora, pelo menos devia deixar um cartão com telefone, e-mail, orkut, youtube. O que vai fazer quem precisa se comunicar com ele?
Ele perdeu uma grande chance de fazer propaganda de seu trabalho, olha que no nosso meio podia espalhar que ele suicidava as pessoas e não ia faltar cliente.
Agora não adianta chorar o leite derramado e o bandido desperdiçado.
Droga! Droga!
Ei! O que estou dizendo?
( pensa ).
O que eu falei mesmo?
Ah! Droga. É isso, eu não pensei em droga. Já ouvi muito dizer que este ou aquela morreu de over dose. O que é over dose? Não importa, eu sei que é da droga. É, mas eu nunca tomei ou comi ou cherei ou fumei ou enfiei no sangue isso. Sei lá como põe pra dentro essa tal de droga. Mas eu vou precisar sair. Claro, aqui dentro eu não vou encontrar droga nenhuma. Bem, não é tanto assim. Aqui dentro eu encontro droga, é a minha vida. A minha vida é uma d-r-o-g-a.
Bem, a roupa para procurar droga é diferente, eu tenho que ir com uma roupa escura com capuz, algo que ninguém note minha presença. Ah, e eu devo sair a noite, mas onde vou encontrar. Não posso ir perguntando pra todo mundo onde fica uma boca de fumo. Esse nome eu sei por que a gente ouve falar por aí. Deve ser propaganda boca a boca deles. Uns saem falando por aí pra gente ouvir. Nem sei de onde ouvi isso. Mas onde vou encontrar?
( pensa ).
Ir na casa de um não dá, eu não sei o endereço de nenhum traficante. O jeito é procurar numa rua. Mas que rua? Ah! Tem que ser uma rua mais ou menos escura e sem muito movimento. Ih! Isso me faz lembrar da mamãe. Ela dizia pra eu evitar sair de noite e se precisasse eu deveria dar preferência para andar em ruas bem iluminadas e com grande movimento de gente indo e vindo. Hum! Vou ter que desobedecer ela. É, mas não vou ficar de castigo e nem vou levar bronca. É, mas dá um medo de ser reconhecida por algum amigo ou amiga. Se pudesse ia com uma meia na cara, mas não dá, pois podem pensar que estou fazendo algo errado. Será que no GPS tem indicação de boca de fumo? Não, não deve ter. Ei! Eles devem dar algum sinal que vender droga. Deve ter gente fumando ali mesmo. O jeito é sair e procurar. Sempre que eu tenho dúvida de algum lugar que preciso ir eu pergunto logo para um guarda, mas nesse caso não dá. E como eu chego no traficante? Oi, tudo bem? Quanto tempo! A família vai bem? Você tem alvará da prefeitura para vender droga? Você dá nota fiscal? A droga é boa? Qual é a data de fabricação dela? E qual é o prazo de validade? É preciso receita ou não?
( pensa ).
Todas as cenas que vi pela TV de gente comprando droga notei que eles nem se falam, é só chegar o traficante dá a droga e o usuário, viciado, ligadão, doidão, sei lá o nome, dá o dinheiro. Tem uma coisa que sempre admirei nos traficantes. Eles são muito bonzinhos e fazem o que nenhuma empresa faz. Eles aceitam de tudo em troca da droga. Aceitam roupas, jóias, aparelhos elétricos da sua mãe. Aceitam o vídeo game, a televisão, o som do teu irmão. Aceitam as bonecas, o celular, o computador da sua irmã. Aceitam o carro, o barbeador elétrico, os ternos do seu pai. É, eles não são exigentes quanto ao pagamento. Cada um dá o que tem ou… Ou… Ou o que os outros tem. Isso mostra que eles pensam nos clientes. Que eles se preocupam com os clientes. Eles não querem decepcionar seus clientes. Que empresa faz isso? Ei! Será que eles trocam a droga se ela não é boa? O cliente chega e diz que aquela droga não fez ele viajar. Pois é, ele nem saiu da rodoviária ou do aeroporto. Ficou lá esperando embarcar e a droga não tirou ele do lugar. Outro cliente chega e diz que não ficou doidão.
( ri ).
Sorte dele, pois senão estaria num manicômio. Outro chega e diz que a droga que tomou não deixou ele ligadão. Hum! Será que ele quer por o dedo na tomada? É, mas e se eu fico viciada e quero mais, daí eu vou querer voltar lá e pra voltar lá eu não posso morrer. Não, achei um problema na droga. E que droga eu ia comprar? Eu chego lá e digo, me dê a melhor? Posso também dizer pra me dar a mais barata. Ei, você tem alguma droga em oferta? Leve três e pague duas. Eu sei de alguns nomes. Sei que tem Crak, maconha e cocaína. Sei também que a mais barata é o Crak. Será que é bom?
( pensa ).
De tomar ou aquela de aplicar injeção?
( faz careta ).
Sempre tive medo de injeção.
Não, isso não. Acabei de pensar uma coisa. E se eu estou lá numa boa e a polícia chega? É para se pensar. Eu nunca fui de muita sorte, pra falar a verdade nem de pouca sorte eu fui. É bem capaz de eu estar lá e aparecer os homens.
( aumenta a voz ).
Eu seria capaz de me matar de vergonha se isso acontecer.
Não, de droga eu não posso morrer. Garanto que fui a viciada mais rápida que já existiu. Viu! Eu consegui largar o vício. Isso é possível. Larguei antes de começar. Também não suporto a idéia de fazer algo errado. Tem um ponto positivo em droga. A mídia mostra quando alguém morre de consumir droga. É, a pessoa tem seus 15 minutos de fama. Mas não dá, isso não é pra mim.
( acende um cigarro ).
Ei!
( observa o fogo do isqueiro ).
Como não pensei nisso antes, tem o fogo. Eu posso morrer queimada. É uma morte comum. Muita gente já morreu assim. Na idade média queimavam as mulheres acusadas de bruxaria. Por isso que não tem mais bruxas. Devem ter queimado todas.
( pega a vassoura e sobe nela e corre como quem estivesse voando numa vassoura ).
Eu sempre gostei de estória de bruxa. Já tentei fazer algumas bruxarias, mas nunca deu certo. Deve ser fácil e eu tenho o principal.
( corre e pega a garrafa de álcool ).
É só jogar pelo corpo e por fogo. Preciso por a garrafa inteira. Ponho álcool onde?
( abre a garrafa e cheira , faz careta ).
Que cheiro forte.
Nos meus seios, não, não posso por o álcool nos meus seios. Eu sempre gostei deles. Sei lá, acho eles bonitos, não posso queimar eles. Não posso estragar uma parte de meu corpo que gosto. No seio não, então vou jogar álcool onde? Nas pernas? Espera aí, também não dá. Eu lembro que sempre ouvi que tinha pernas bonitas, não posso destruir elas. Na cara? Na cara… Na cara… Não, não dá, é pra onde a pessoas olham de primeira. E vou por fogo na cara? Justo no lugar que eu gastei tanto com cremes? Não, eu não posso me imaginar pegando fogo. E de pensar que é bonito olhar quando estão estourando fogos. Mas é bonito lá em cima e não na gente. Nunca gostei nem de ficar perto de fogão por causa daquele calorzinho.
( tampa a garrafa de álcool e põe no chão ).
Não, queimada não dá. E eu não ia gostar de virar carvão. Eu iria ficar muito feia. E as piadas. Muitos amigos gostam de dizer que eu me queimo a toa. Que eu perco a calma fácil. É, eles iam dizer que dessa vez eu me queimei mesmo. Preciso descartar o fogo.
( pensa ).
Será que tem mais métodos? Eu já pensei em tantos. E se terminou a lista? O que vou fazer? Vou ter que agüentar viver?
( anda de um lado para o outro ).
Acabei de encontrar outro meio. E esse eu já vi na televisão. Lembro de ver algumas vezes uns motoristas entrarem numa estrada na contra mão e ir embora, sem dar importância para o resto. É claro que são colegas. São colegas por pensamos na mesma coisa, o suicídio. É claro que eles querem morrer. Alguém acredita que uma pessoa pega o carro e entra na contra mão e vai indo até uma hora bater num caminhão por descuido? Sempre que eu vi uma reportagem dessa a batida foi num caminhão. É evidente que é mais uma maneira de fazer suicídio. Deve ser como jogar um vídeo game ou brincar naqueles carrinhos de parque de diversão que se batem.
( brinca de correr com os braços para a frente como quem está dirigindo um carro ).
BRUM, BRUM, BRUM, BRUUUUUMMMM!
( bate nos móveis, na parede e volta ).
BRUM, BRUM, BRUM, BRUUUUUMMMM!
Deve ser assim, bem simples como uma brincadeira. Tem que desviar dos carros pequenos até encontrar um caminhão. É uma morte divertida.
BRUM, BRUM, BRUM, BRUUUUUMMMM!
( bate nos móveis, na parede e volta ).
BRUM, BRUM, BRUM, BRUUUUUMMMM!
Mas tem uma coisa importante, eu não tenho carro.
( para de brincar ).
O que faço? Como vou conseguir um carro? Só existe um meio, roubar um. Pegar um táxi não dá. O motorista não ia aceitar esse destino. Já vejo o motorista perguntando qual o destino senhora? Eu diria que era o céu. Ele ia achar que era brincadeira. E se ele perguntasse qual o caminho eu diria que era uma estrada rápida na contra mão. É muito improvável que o motorista faça essa corrida pra mim. Só se… Se… Se… Se ele quiser cometer suicídio também, mas isso é como acertar na loteria. Eu nunca acertei um jogo se quer e não é agora, na hora da morte, que vou acertar. Encontrar um motorista suicida é muito difícil. Ei! Quando a gente pede táxi pelo telefone a moça faz algumas perguntas e se eu pedir um motorista suicida, será que vem? Eles deviam de ter, não, eles não devem ter motorista suicida por um motivo muito simples. Eles perderiam o carro e carro não é barato. E se eu comprar um carro? Não, não posso fazer isso, seria um desperdício comprar um carro para destruir ele numa batida. Nem carro novo nem usado. Eu sempre dei muito valor ao que comprei. E o que ia adiantar comprar um carro se eu não ia ter coragem de bater ele.
( pensa ).
Não é bem assim. Se fosse uma batidinha de leve, um arranhão, um risco, mas não, a batida tem que ser forte pra eu morrer. Assim vai destruir todo o carro. E o pior de tudo é que o carro não vai ter utilidade nenhuma. Vai acabar num ferro velho. E olha que quando eu compro alguma coisa, pode ser até objeto, eu pego amor. Não, eu não suportaria saber que meu carrinho foi parar num ferro velho, exposto ao frio, ao calor, a chuva. Lá ficaria ele, completamente abandonado. Eu não ia ter paz. E se eu roubar um? Mas como vou fazer isso? Eu nunca roubei nada, muito menos carro. Sei que tem ligação direta, mas nem sei o que é isso e nem como faz. Ninguém costuma deixar o carro aberto e com a chave. È uma falta de confiança na raça humana. É triste ver isso. E tem mais, roubar um carro não tá certo. Eu vou ser uma ladra. Se eu morrer vou manchar minha vida inteira. Ninguém vai achar que é o único carro que eu roubei. Vão dizer que sou a maior ladra do pedaço e que bati o carro quando fugia da polícia. Dá pra imaginar a história toda. Tudo que fiz na vida vai ser manchado. Meu nome vai pra lama. Todos vão querer esquecer de mim. Se sumiu alguma coisa na casa de um amigo meu vão dizer que fui eu. Eu vou levar a culpa e não poderei dizer nada. Nem vou poder me defender. Roubar, nunca roubei nada.
( põe a mão no coração ).
Pra ter uma idéia nunca roubei nem coração de homem. Acho que não, pois se roubei o coração de alguém ele não me falou nada. Ficou calado, nem pensou em dar parte ou registrar queixa pra mim. Não, mais uma tentativa que valeu, mas não dá. Tenho que pensar em outro meio, mas qual? Já estou um tempão concentrada num meio de morrer.
Me ocorreu um pensamento. Se eu vou morrer eu poderia aproveitar e fazer o bem para alguém. Exatamente! Eu posso fazer o bem. É uma maneira de morrer e deixar alguém feliz. Bem, gente pra ficar feliz com minha morte não vai faltar. Já briguei muito com muita gente. Eles vão dar graças a Deus. O que Deus tem a ver com isso? A não ser que eu nasci, eu não gostaria de ter nascido, maldito espermatozóide que ganhou a corrida e furou o óvulo de minha mãe. Foi a única vez que eu ganhei alguma coisa. Esse espermatozóide devia ter ficado na sua, lá atrás. Agora eu penso que posso ajudar alguém, eu sempre gostei de ajudar, nunca fui egoísta. Eu posso doar meus órgãos para alguém que precise de um transplante. É, daí uma parte minha vai ficar viva em alguém. Espera aí! Parece estranho eu querer me matar e ao mesmo tempo querer deixar uma parte viva minha. Não, é normal. Não tem nada de estranho nisso. Assim alguém vai lembrar bem de mim. Aposto que a pessoa que recebe órgão de alguém não fica difamando o doador.
( ri ).
Mesmo que o doador seja ruim. Ele não fala mal do doador por que daí vão dizer que ele tem uma parte ruim dentro do corpo. Pra isso eu preciso deixar uma cartinha que quero doar meus órgãos. Nunca servi pra nada, agora pode ser que eu sirva pra algo. Meus órgãos podem ser úteis para alguém. É melhor parar. Não dá. Eles não pegam órgão de quem morreu. É, eles pegam os órgãos de quem está morto no cérebro, mas o corpo continua vivo. Como eu vou conseguir cometer um suicídio que só mate meu cérebro. Bem, pra matar meu cérebro basta eu ficar de frente com algumas equações de primeiro e segundo grau de matemática. Essa matéria sempre matava meu cérebro. Odeio matemática. A única matemática que gosto é o dinheiro entrando na minha conta. Mas é bom dizer que sempre foi o contrário. Eu sempre vi o dinheiro saindo de minha conta. E se eu for no hospital? Não, eles não vão querer matar meu cérebro para pegar meus órgãos.
( anda de um lado para o outro ).
Tenho que pensar em outra coisa. Mas o quê. Será que todos esses métodos já foram testados? É duro não saber sobre suicídio. A gente fica perdida.
( conta nos dedos ).
Esse já foi, esse também, mais esse, já tentei, mais um…
Foram muitos métodos, até não imaginava que existiam tantos. Podemos dizer que tem um método de suicídio para cada gosto. Sem opções a pessoa não fica.
( estala os dedos ).
Tem mais um, jóia, minha cabeça ainda funciona. Tem a tal da intoxicação alimentar. E como vou conseguir isso? Como vou conseguir uma comida estragada? Não existe a oferta de comida estragada em nenhum supermercado. Eles têm de tudo menos comida estragada. Eu não cozinho, nunca fui de cozinhar, minha mãe tentava me ensinar. Ela dizia que a comida prendia um homem. E eu pensava, como pode o homem viver livre com tanto lugar que vende comida: Bares, lanchonetes, restaurantes? Se esse ditado fosse a verdade os homens não saíam desses lugares. Pois é, eu vejo os homens por aí, livres da silva. Bem, lembro que tentei cozinhar algumas vezes, mas o Júlio dizia que eu estragava a comida, então ele trazia da rua… Não da rua em si… Ele trazia de algum bar ou lanchonete ou restaurante. Tive uma idéia! Eu compro a comida e deixo ela bastante tempo até estragar e daí…
( faz careta ).
Como? Não, eu sempre fui tão enjoada com o que colocava na boca, não, comer comida estragada não dá mesmo. Se eu comer garanto que não vai descer. É, mas eu vou ter que esperar quanto tempo para ela estragar? Não dá nem pra ter uma idéia do tempo. Também dá um remorso na gente. Só de pensar que vou comprar comida e deixar estragar já me vira o estômago. Não posso imaginar uma comida estragando e tanta gente passando fome. É, eu não posso morrer assim por que vou de consciência pesada. E sabe lá o que vai acontecer. Vai que como a comida estragada e só me dá uma diarréia? E vai que vou pra um hospital? Vão dizer que eu não aprendi nem a comer, que eu não sei o que como, que eu como só porcaria. É, não vou escapar das piadas. E tem mais, eu não vou agüentar o cheiro de uma comida que eu goste sem comer ela. É, eu tinha que ser inteligente, eu tinha que comprar uma comida que não gosto, daí eu ia deixar ele estragar sem dar uma beliscada sequer. Não, definitivamente não, comer comida estragada e ainda que não gosto já é demais. Nem com minha mãe fazendo aviãozinho ou trenzinho eu comia quando não queria. Eu batia na colher e dizia: BATEU! Agora que em ocorreu como conseguir comida estragada. Basta ficar esperando sair num jornal um lugar que vendia produto estragado. Daí era só telefonar e pedir para o dono entregar em minha casa. É, parece mais fácil agora. E a espera? Quanto tempo vou ter que esperar por uma lugar que venda produto estragado? Não, não dá mesmo. E doença? Também é um jeito de morrer?
( pensa ).
Mas esse jeito é mais difícil. Onde eu vou conseguir uma doença? Teria que ser uma doença fatal. Eu… Eu poderia entrar num hospital e chegar perto de alguém com uma doença terminal.
( faz careta ).
É difícil encarar. Nunca quis chegar perto nem de gente com doença leve, imagine doença fatal. Não suporto ver alguém que está para morrer.
( ri ).
Então não vou olhar no espelho.
Não, isso é sério. Eu nunca suportei ficar perto nem de bichinho que estava para morrer. Eu tenho apego a vida. Ficar doente é difícil. Uma gripe, uma febre, uma dor de cabeça, uma diarréia a gente pega, mas doença pra matar é mais difícil. E eu tomei muitas vacinas, tem um montão de doenças que eu não pego. Estou i-m-u-n-i-z-a-d-a. Se eu entrar num hospital podem me pegar e perguntar o que estou fazendo lá. Não vai colar que eu estou lá para morrer. Ninguém procura um hospital para morrer. Eles não vão acreditar, mesmo. Ei! Tem outra chance. É só eu pegar o lixo hospitalar. Levo pra casa e coloco a mão nele, coloco na boca, passo pelo corpo… Não… Não… Chega… Eu não sou um lixo.
( aumenta a voz ).
Eu não sou um lixo.
( faz silêncio ).
Se bem que quando Júlio estava indo embora ele disse que eu era um lixo.
( faz sinal de pare com as mãos ).
Está certo, ele não falou que tipo de lixo eu era. Se era lixo pra jogar em aterro ou lixo reciclável. Lixo reciclável é bem melhor, é outra coisa. A gente se sente importante ao ouvir. É um baita elogio. Não, eu não posso terminar assim, revirando lixo. O que meus inimigos iriam dizer? Que eu terminei no lugar que merecia, no lixo.
( senta no sofá ).
Esqueça esse método, não dá, vou pular pra outro. Mas o quê? Não me vem nada na cabeça. Vamos lá, pensa um pouco, calma, respire, concentra, é só livrar a mente de tudo e deixar vir a nova idéia. Deve ter mais jeito de fazer suicídio. Não pode ter se esgotado todas as maneiras.
( bate palmas ).
Vamos lá, pensa, pensa, vamos lá, venha novo método, venha, eu estou esperando, estou aqui… Aqui… Sentada pra não cansar. Espera aí, acho que está vindo uma idéia, acho sim, mais uma, quem sabe é essa.
( ri ).
Já sei, uma bomba, é, como não pensei antes? É só apertar o botão e pronto, eu não vou sentir nada. É um meio bastante rápido. Ei! Mas as pessoas vizinhas podem ouvir o barulho. Tem que ser um barulhão, pois se for um barulhinho é uma bombinha de nada. Aonde vou comprar uma bomba? Espera aí, eu lembro que há algum tempo tinha por aí receita para fazer bomba. Será que ainda tem? É, estou cheia de esperança. Isso pode dar certo. Agora lembrei, eu sempre fui muito ruim para seguir receita. Lembro quando ia fazer uma comida. Olha que mesmo com a receita do lado e todos os ingredientes eu não acertava. Alguma coisa dava errado. O erro era pequeno, mas já era o suficiente pra comida ficar ruim. Bem, se eu não consigo seguir uma receita de comida vou conseguir fazer uma receita de bomba? Acho pouco provável. E onde vou comprar os ingredientes? Não deve ter em loja de festa. É, seria bom comprar uma bomba pronta para o uso. E acho que uma fábrica não ia vender pra mim. A primeira coisa que eles iam fazer é perguntar pra que eu queria a bomba. Eu podia responder… O quê?… Já sei… Pra acabar com um formigueiro. Não, aposto que não ia colar. Ei! Mas eu acabei de lembrar de uma coisa, bomba não dá, se for muito forte vai me deixar que nem carne moída e se for mais fraca pode arrancar uma parte de mim. Isso é horrível. Não posso nem imaginar meu corpo sem um pedaço. Não, vão dizer olha lá, ela esqueceu um pedaço dela. Pode ser uma mão, alguns dedos, o braço, sei lá. Vão dizer isso por que sou muito esquecida e todo mundo sabe disso. Não, isso é demais pra mim. Nunca gostei de perder nada e não é agora que vou perder um pedaço de meu corpo. Sempre que esquecia alguma coisa eu voltava e ia a todos os lugares que fui até encontrar o que esqueci. Definitivamente, bomba não dá. E agora o que faço, o que vai ser de minha vida?
( põe as mãos na cabeça ).
Ei! E eu não fui me confessar. Gente eu não me confessei. Eu não me livrei dos pecados. É muito importante tirar todos os pecados. Assim eu vou para o céu… Céu… Céu… Tem que ser o céu. Eu não acho que vá para o inferno. Assim eu vou para o céu sem pecado algum. Mas pra isso eu teria que esperar até amanhã pra daí ir até uma igreja.
( aponta com a mão ).
Tem uma igreja aqui perto. Até fiz a comunhão lá. Lembro que sempre rezava pedindo uma vida longa e feliz. É, eu pedia uma vida longa e feliz. Rezava bastante.
( se espreguiça ).
Acho que é o fim. Não deve ter mais meio pra se matar.
( coloca a mão na boca para tampar um bocejo ).
E não é que tem. Meu Deus! É isso, eu achei outro meio, sim, asfixia. É só não deixar entrar ar nos meus pulmões que em alguns minutos eu morro.
( corre para a escrivaninha ).
Aqui está.
( retira um saco plástico ).
Isso aqui é a minha salvação. É só por na cabeça até o pescoço e já está feito. Hum! Eu posso amarrar o plástico no pescoço pra morrer com mais segurança.
( veste o saco plástico ).
Estou parecendo uma astronauta… E olha que eu vou decolar para o céu.
( faz careta ).
Ai! Mas isso é desconfortável mesmo. Não aconselho ninguém fazer isso. Dá uma sensação ruim. Daí a gente vê como é importante a respiração. Não… Não… Não estou sentindo nada… Será que vou morrer logo? Parece que não é dolorido morrer assim, eu estou bem. Puxa! Até que enfim achei um método bom pra morrer. Viu, quem não desiste sempre consegue o que quer. Eu não desisti e encontrei um método para morrer da hora. Esse eu recomendo. Devia de ter pensado nele por primeiro. Assim eu já estaria morta.
( grita ).
Não!
Não pode ser. O ar está entrando, o que faço? O ar não pode entrar. Eu preciso ficar sem ar. Por falar em ficar sem ar eu fiquei desse jeito quando vi o Júlio pela primeira vez. Fiquei completamente sem ar.
( suspira ).
Completamente sem ar.
Hora de acordar! O que faço?
( corre até a escrivaninha e pega um barbante ).
Isso está bom. É só amarrar o saco no meu pescoço e pronto. Daí não entra ar e eu vou morrer.
( começa a amarrar o barbante no saco do pescoço ).
Ei! Tá começando a faltar ar. O que faço? Tá me dando um calorão, minha cara tá pinicando toda. É, esse método é dos bons.
( tosse ).
Ei! Mas que cheiro é esse? Hum! Que cheiro ruim. Não…
( tira o saco rapidamente ).
É um saco de carne que comprei. Meu Deus, eu ia me matar com um saco de carne? Já faz tempo que comprei essa carne. Estava tão distraída que nem percebi o cheiro… Ai… E… Olha aqui…
( chacoalha a mão ).
Ainda tem gordura do assado nele. Eu estou toda lambuzada de gordura. Essa não. É um dos motivos por que não cozinho. Eu detesto ficar com cheiro de gordura e a própria gordura no corpo, na roupa, no cabelo.
( espana o corpo ).
Sai gordura, sai.
( levanta o saco plástico ).
Como eu não vi antes? Olha, não tem marca nenhuma, é um saco qualquer. Como eu pude pensar em me matar com um saco assim?
( ri ).
Tem que ser uma sacola plástica de butique de grife. Tem que ser uma sacola que represente luxo. Eu não posso morrer com uma coisa tão brega.
( joga o saco no chão ).
Eu sempre dei valor pra marca e não é agora que vou entregar minha vida num saco anônimo. Não mesmo.
( vai até a escrivaninha ).
É! Não tem nenhuma sacola aqui, muito menos chique. Faz tempo que não faço compra. Nem é bom lembrar disso. É bom esquecer. Nem os folhetos de promoção as lojas que eu comprava me mandam mais. Parece que sentem o cheiro de quem está sem grana. Também, o que ia fazer com os folhetos? Mas é bom receber correspondência. É ruim ir lá na caixa do correio e não ter nada todo dia, um dia depois do outro. A gente se sente completamente abandonada. É ali na caixa do correio que a gente vê se alguém gosta de nós. Bem… E agora? Qual meu próximo passo?
( anda e tropeça ).
Fenomenal, acabei de pensar em outro método. Meu Deus! É melhor para de falar em Deus. É melhor falar com ele mesmo. Logo estarei com ele. Esse é fácil, é só eu me jogar na escada. Isso aparece bastante em filme. Não que seja suicídio. Nos filmes ou a pessoa cai por cair mesmo ou é empurrada. Ei! Eu não quero que pensem que alguém me empurrou. Espera aí! É só eu escrever uma carta dizendo que ninguém me empurrou. Não, não posso fazer isso. Daí eles vão saber que é suicídio. Se ficar como um acidente eu saio em noticiário de televisão, rádio, jornal e revista. Vão pensar que eu tropecei ou me desequilibrei ou fiquei tonta e perdi os sentidos na escada. Daí eu rolei abaixo e morri.
( levanta os braços ).
Morri de quê? Do que eu vou morrer? Parece que eu já ouvi que a morte mais comum quando se cai em uma escada é de pescoço quebrado.
( gira o pescoço ).
Quebrar o pescoço? Daí eu não vou conseguir mexer ele? Ele vai ficar mole, balançando de um lado para o outro?
( cai no chão, rola levanta e repete ).
Parece fácil, é só eu ir até a escada do prédio e me jogar escada abaixo. E logo estarei com o pescoço quebrado. Não, o que eu estou dizendo? Como eu posso saber se vou quebrar o pescoço? Eu posso quebrar o braço, a pena, a mão, o pé, pode até não acontecer nada e depois da queda eu sair andando. Bem, daí é só eu me jogar de novo até conseguir o que quero. É, mas se eu quebrar alguma coisa não vai dar nem pra me levantar. Daí vou ter que ir para um hospital e ser engessado.
( chacoalha a cabeça ).
Não, eu não posso acreditar que ficarei engessado por alguns meses. Dever ser horrível andar com gesso. A gente perde a liberdade de movimento. E pra tomar banho com aquele gesso? A única parte boa do gesso é que os amigos assinam nele e deixam mensagem. Mas no meu caso que vai escrever no meu gesso. Só se eu pedir para o médico que me engessar, para o porteiro do meu prédio, para o motorista do táxi que eu usar. Minha assinatura não vale. Eu podia encher de mensagens minhas. Não tem graça nenhuma. É! Me jogar em uma escada não está com nada.
( boceja ).
Confesso que estou cansada de tanto pensar.
( deita no sofá ).
( toca o telefone ).
TRIM, TRIM, TRIM.
Não pode ser. De novo?
TRIM, TRIM, TRIM.
Não vou atender.
( cruza os braços ).
TRIM, TRIM, TRIM.
Ei! Talvez seja o bandido querendo saber se eu estou bem ou se eu estou precisando de alguma coisa.
( atende o telefone ).
Alô! Marcelo. Quanto tempo.
O quê? Como estou indo? Ainda não consegui ir…
( aponta para cima ).
O que disse?
Tem uma notícia boa? E depois vem a ruim…
Há! Só boa? Não tem ruim, então diga…
Conseguiu um emprego pra mim?
Cara! Muito obrigada, do fundo do coração. Mas o que vou fazer? O emprego é de quê?
O quê? Vou animar festa infantil?
Mas nunca fiz isso. O que precisa?
Hum! Ter amor a vida pois vou lidar com crianças.
Cara! Veja uma coisa, amor a vida é o que mais tenho. Ora, eu tenho, não tenho?
Então esse emprego é meu, Marcelo? E quando começo?
Amanhã, sendo assim está ótimo. Então está certo, a gente se vê.
Tchau!
( desliga o telefone ).
Todo esse tempo que pensei na morte nada mais fiz que exaltar a vida. De um certo modo sempre estamos morrendo e nascendo. São as transformações da vida. Hoje morreu uma Adriana sem rumo e nasce outra Adriana repleta de esperança, tal qual morre a noite para nascer o dia.
Viva, eu consegui morrer.
( cai no chão ).
Viva!
( fica em posição fetal ).
Estou nascendo para uma outra vida.
( ri bastante, canta e dança ).
Lá, lá, lá, rá, rá, rá, Lá, lá, lá, rá, rá, rá…
( vai até a escrivaninha e pega o revólver ).
Bem, preciso arrumar toda essa bagunça, deixa eu começar pelo revólver…
( o revólver escapa de sua mão e cai no chão, produzindo um barulho, sai um tiro e acerta Adriana ).
Adriana cai morta.

FIM

A SUICIDA ATRAPALHADA 1