Posts Tagged ‘a casa bem assombrada menina linda samuel r. kroschinskiSA’

CASA BEM ASSOMBRADA…

4 04UTC junho 04UTC 2009

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

PEÇA TEATRAL

 

 

                                  “ A CASA BEM ASSOMBRADA “

 

 

                              AUTOR: SAMUEL R. KROSCHINSKI

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                      DADOS BIOGRÁFICOS

 

 

 

 

 

                          Samuel R. Kroschinski é escritor, autor do livro “ BARRIGA: UM MUNDO FEMININO, o qual está a venda nas livrarias Curitiba.

                          Samuel R. Kroschinski já teve “ ESTÓRIAS EM QUADRINHOS “ e “ CONTOS INFANTIS “ publicados no jornal O Estado do Paraná. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                         Tel.: ( 041 )  3286- 9285

 

                                 End: Rua Dês. Antonio de Paula, 92

                                       Boqueirão- Curitiba- Paraná

                                               CEP: 81730- 380

 

 

CENÁRIO: Uma casa onde aparece um cômodo, a sala, com janela ( podendo ser painel ).

 

 

 

Sofá

Janela com cortina

bolinhas de tênis

rouge

batom

mosca cenográfica ( comida )

boneca com pescoço cortado e costurado com sangue ( cenográfico )

2 carrinhos amassados

dedo cenográfico

velas coloridas

isqueiro

portas velas

mesa

cordinha

martelo

canivete cenográfico

 

 

 

 

 

PERSONAGENS: PAULINA ( esposa ) – PA

                               ALBERTO ( esposo ) – AL

                               VOZ 1 e 2

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

PA- Grrrr! Arrrrg!

AL- Pudera! Caraca!

 

        ( entra Paulina em cena ).

PA- Essa casa não é mal assombrada de jeito nenhum. Não é mesmo. Não suporto em viver numa casa mal assombrada. Tenho até vergonha de morar em um lugar assim. Grrrr! Casa mal assombrada é a mãe. Essa casa é de respeito. Eu honro o lugar que moro. Como é que eu vou suportar que falem mal de minha própria casa. É a casa onde eu tenho paz. É aqui que eu durmo, é aqui que eu como, é aqui que eu me escondo da chuva e do frio. É aqui que eu vejo quem amo. É aqui que eu tomo banho, é aqui que eu respiro…

        ( entra Alberto ).

AL- Para aí! Isso já ta demais. Desde quando você respira?

PA- Eu não te contei ainda?

AL- Não, ainda não.

PA- Eu aprendi a fazer de conta que tô respirando. Veja.

        ( Paulina levanta a blusa e mostra sua barriga ).

PA- É fácil, é só esticar e encolher a barriga assim. Viu, estica e encolhe. Pronto. Quem ver vai achar que a gente ta respirando.

AL- Que maravilha. Nós respiramos agora. Adorei tua demonstração.

PA- Obrigada.

AL- Mas e se agente esquece de mexer a barriga?

PA- Eu pensei numa coisa. Dá pra gente ficar um pouquinho gordo. Daí a barriga já é grande mesma.

AL- Mas me diga uma coisa. Por que você estava tão brava?

PA- Nem me faça lembrar.

        ( Paulina anda até a janela, afasta a cortina bem pouco e espia ).

PA- Já foram embora.

AL- Quem?

PA- Uns desordeiros que estavam na frente de minha casa.

AL- E o que eles fizeram?

PA- Você imagina que eles tiveram a insensatez de dizer que nossa casa é mal assombrada?

AL- E não é?

PA- É não, essa casa eu amo. Ninguém vai dizer que é mal assombrada.

AL- Então o que ela é?

PA- Bem assombrada.

AL- Bem assombrada?

PA- Lógico. Nós somos o quê?

AL- Somos alguma coisa?

PA- Cadê aquela auto estima que você tinha tanto?

AL- Ficou no acidente.

PA- Eu falei pra você cuidar muito bem da sua auto estima. Deu no que deu. Esqueceu ela no acidente. Em outras palavras não cuidou e perdeu ela. Veja que eu cuido muito bem de minha auto estima.

AL- Pudera! Só o tempo que você gasta na frente do espelho.

PA- E cuido mesmo.

AL- Termina o que estava falando dos meninos da rua.

PA- Eles chamaram nossa casa de mal assombrada. E eu não engulo uma coisa dessa. Como uma casa pode ser mal assombrada se tem morando nela dois mortos?

AL- Como?

PA- Mal assombrada soa como se a assombração fosse mal feita. É uma casa mal assombrada. É uma casa onde tem pouca assombração. É uma casa onde todos que estão ali dentro são incompetentes. A casa ta cheia de gente sem noção. É uma casa que não vale nada. A gente que mora nela é tudo fantasma…

AL- Mas bem, nós somos fantasma agora.

PA- Não somos não. Pegue meu braço.

        ( Alberto só fica olhando Paulina ).

PA- Vamos, pegue meu braço.

        ( Paulina cruza os braços ).

PA- Vai ficar esperando muito tempo?

AL- Não dá pra pegar.

PA- Por que não, eu deixo.

AL- Ele ainda tá grudado no seu ombro.

PA- Grrrr! Só você mesmo pra brincar numa hora dessa.

AL- E agora, o que vai fazer?

PA- Vou acabar de pintar um quadro.

AL- O que tá pintando?

PA- Natureza morta.

AL- Calma aí! Não é isso que eu queria saber.

PA- Foi o quê me perguntou Alberto. Você queria que eu respondesse algo que não tinha a ver com a pergunta?

AL- Não!

        ( Alberto aperta a cabeça com as duas mãos por um instante ).

AL- Não é isso! Eu queria saber o quê você vai fazer com relação ao comentário sobre a nossa casa?

PA- Você não fez essa pergunta. Agora ela está tão grande. A primeira é: o que você vai fazer. A segunda pergunta é: o quê você vai fazer com relação ao comentário sobre a nossa casa?

AL- Foi o jeito.

PA- Você quis economizar nas palavras e se deu mal. Eu nem entendi a sua pergunta. Foi o que você fez antes do acidente. Quis economizar na manutenção do carro, não levou ele pra revisão, deu no que deu. Faltou freio e a gente morreu.

AL- Não é bem assim. Veja bem, a gente tá aqui. Não foi uma morte.

PA- Não é? E a gente respira? E a gente come? E a gente bebe?

AL- Não seja pessimista. A gente pode comer sim.

PA- Não. A gente não pode comer. O que a gente faz é colocar a comida na boca pra sentir o gosto, ficar com ela um pouquinho e depois tirar da boca. Com a bebida é a mesma coisa. Esqueceu que a única coisa que podemos tomar é sangue?

AL- sabe que eu até esqueci.

PA- esqueceu por que não suporta ver sangue.

AL- desde criança eu sou assim. É só eu ver sangue que desmaio.

PA- E veja só no que deu. Não suportava ver sangue e agora tem que beber sangue.

AL- Eu faço de conta que é suco de tomate.

PA- E como você consegue achar isso.

        ( Alberto fica empolgado ).

AL- Veja bem. É um espetáculo. Eu que descobri isso ontem e ia te contar mesmo. Você vai amar.

PA- Então me dia logo.

AL- Sabe o que faço?

        ( Alberto fica assobiando e assim passa o tempo ).

AL- Vamos, sabe o que faço?

PA- Grrrr! Vê se melhora da cabeça, você não me falou ainda, como eu vou saber o que você descobriu?

AL- Tá, eu descobri que o nosso corpo tolera um a pitadinha de alguma coisa qualquer. O que eu fiz? 

        ( Alberto fica assobiando mais uma vez e assim passa o tempo ).

PA- Grrrr! Que ódio. Eu já não agüento esse teu assobio. Fala logo.

AL- Eu coloquei uma pitada de catchup no sangue que eu ia tomar. E não aconteceu nenhuma revira-volta no meu estômago. Não é o máximo isso?

PA- Não.

        ( Alberto desmorona ).

AL- Por quê?

PA- Você acabou de dizer que é uma pitadinha. E depois vem dizendo que é o máximo. Não, a gente não pode exagerar numa coisa dessa. Temos que ficar na pitadinha. Nada de por o máximo. Quer morrer?

AL- Isso eu queria saber, a gente passa mal se comer ou beber algo que não seja sangue, mas e se a gente comer o máximo a gente vai morrer?

PA- Eu não vou procurar essa resposta.

AL- Não?

PA- Eu vou ficar na pitadinha de alguma coisa. Você não sabe como isso me alegrou. Agora basta por uma pitada de alguma coisa que a gente gosta e o sangue vai ter um gosto diferente a cada vez que a gente toma. Eu vou começar por chocolate. Vou tomar sangue sabor chocolate só pra tomar um sangue doce. Depois vou tomar sangue sabor de menta só pra ficar amarrada minha garganta. Depois vou tomar sangue com um pouquinho  de refrigerante só pra refrigerar meu corpo. Não vejo a hora disso começar.

AL- É só não olhar o relógio.

PA- O quê disse?

AL- Você disse que não queria ver as horas. Então é só não olhar o relógio.

PA- Grrrr! Mais uma piadinha sem graça pra minha coleção. Que bom, nós estamos evoluindo. Isso é evolução. Sabe lá onde vamos chegar.

AL- Paulina, onde você pensa ir?

PA- Eu?

AL- Você acabou de dizer que não sabe onde vai chegar.

PA- fala mais.

AL- E tem o pior que você nem sabe onde vai. Você disse que não sabe onde vai chegar. Não é aconselhável ir pra um lugar que não se sabe o que é.

PA- Eu estou falando da evolução. Primeiro é uma pitada de alimento no sangue, depois é mais um pouquinho, mais um pouquinho e logo a gente tá comendo uma colher…

AL- Sabe, eu nunca imaginei isso de você, Paulina.

PA- Imaginou o quê?

AL- Que você tem vontade de comer colher. Tem tanta comida por aí e você  vai ter vontade logo de comer uma colher?

PA- Grrrr! É uma colher da comida. Uma colher com a comida e cima. Agora deu pra entender?

AL- Pudera! Agora deu.

PA- Eu acho que morreu muitos neurônios teus. Por isso você demora a pegar as coisas.

        ( Alberto sai correndo pelo palco pegando bolinhas de tênis pelos cantos ).

AL- Viu como eu pego rápido?

PA- Eu merco.

AL- O que você merece?

PA- Uma outra vida. Pronto. Eu merco uma outra vida.

AL- Mas o que você vai fazer agora com relação aos comentários que nossa casa é mal assombrada.

PA- Ainda bem que me lembrou. Eu já tenho a solução.

AL- Já tem?

PA- Já.

AL- Então o que tá esperando? Fala logo qual é a solução.

        ( Paulina dá uma soluço alto ).

PA- Arrrrg!

AL- Tem razão, isso é um solução.

PA- A gente precisa fazer dessa casa uma casa bem assombrada.

AL- Explique isso.

PA- Nós temos que assombrar mesmo. Por responsa no nosso ofício. Temos que assustar as pessoas pra elas não difamarem nosso tão querido lar. E ninguém mais vai dizer que é uma casa mal assombrada, mas uma casa bem assombrada. Eu já me animei com o gosto de chocolate no sangue. Isso é o que chamo de transfusão na veia. Na veia não, na boca.

AL- Então nós vamos ser assombradores profissionais?

PA- Vai ser difícil a gente ser profissional.

AL- Por quê?

PA- Não tem essa profissão. E eles não vão dar carteira de trabalho com a profissão de assombrador.

AL- Então vamos viver na ilegalidade. É um negócio informal.

PA- Grrrr! Não fale essa palavra.

AL- Que palavra?

PA- Informal.

AL- Por quê?

PA- Ela me lembra formol.

AL- E o que tem isso?

PA- Como você tá desligado.

AL- Você tem razão, eu tô desligado mesmo.

PA- Ainda bem que me dá razão.

AL- Hoje eu não liguei a TV nem o rádio pra saber de notícias, ouvir música, ver uma novela, um filme…

PA- Pode!?

AL- Formol não é aquele líquido que preserva morto?

PA- Por que quer saber?

AL- Sei lá, nem imagino por que eu quero saber de formol. Por que será?

        ( Alberto chega bem perto de Paulina ).

AL- Será por que estamos mortos?

PA- O formol não é pro nosso caso. Lembra que a gente já testou? Pra gente é usar muito hidratante. É isso que mantém nossa pele melhor.

        ( Alberto desliza sua mão pelo braço de Paulina ).

AL- Sua pele fica tão macia.

PA- Acho que se não fosse o hidratante a gente tava tudo duro. É aquela história horrenda de Rigor Mortis.

        ( Alberto cheira o braço de Paulina ).

Al- Sua pele fica tão cheirosa.

PA- Acho que se não fosse o hidratante a gente tava cheirando igual corpo em decomposição.

        ( Alberto olha bem o braço de Paulina ).

AL- Sua pele fica tão brilhosa.

PA- Acho que se não fosse o hidratante a gente tava tudo branca e pálida.

AL- Amém hidratante, amém!

PA- Amém hidratante, amém!

        ( ambos fazem o sinal da cruz ).

Al- Então é por isso que você fica trancada no quarto de visitas?

PA- O quê?

AL- Que você se tranca no quarto de visitas?

PA- Do quê?

AL- Dos quadros que você está pintando.

PA- É isso? Eu me trancava por tanta coisa. Me lembro que costumava me trancar pra me depilar. Agora não nasce nenhum pelo mais. Parece que fiz depilação definitiva. Antes eu me trancava pra cortar as unhas. Agora elas não crescem mais. E agora eu estou me trancando pra pintar.

AL- Natureza morta.

PA- Exatamente.

AL- E o que você tá pintando?

PA- Tela.

AL- Como?

PA- Grrrr! Tela, elas vem branquinhas, sem nada, e daí eu pinto.

AL- Eu falo do motivo.

        ( Paulina anda de uma lado pro outro ).

PA- Motivo? Tem tantos. Pra me sentir bem, pra fazer alguma coisa, pra ser útil, par enfeitar nosso lar…

AL- Eu tô falando da imagem que você pinta.

PA- Eu pinto natureza morta. Eu tô pintando agora uma rosa morta. Ela está secando, suas pétalas estão caindo, seu caule tá escurecido, ela está curva…

AL- É diferente.

PA- Já pintei árvore morta, peixe morto, pássaro morto, até uma moça morta já pintei.

Al- E como ficou?

PA- A moça tá linda de morrer no meu quadro.

AL- Eu tenho que ver sua nova ocupação.

PA- Agora não. Deixa eu ganhar confiança.

AL- Confiança de quem?

PA- De ninguém. É minha confiança mesmo.

AL- Isso me deixa sem ter o que falar. Você não tem confiança nem por você mesma? E como quer que eu confie em você? Depois reclama.

PA- É adquirir mais experiência com a pintura. Eu tenho que treinar mais. Eu tenho que pintar mais.

AL- Agora entendi.

        ( Alberto olha bem fixo a Paulina ).

AL- Você tá com os lábios bem rosados.

        ( Paulina tira da bolsa um batom e mostra pra Alberto e depois devolve  ).

PA- Eu coloquei batom. Não gosto daquela cor branca feito cera.

AL- E tua bochecha tá vermelha.

         ( Paulina tira da bolsa um rouge e mostra pra Alberto e depois devolve  ).

PA- Eu coloquei rouge. Não quero ficar com uma cara sem vida.

        (  Alberto se aproxima e examina Paulina ).

AL- Você é a cara sem vida mais linda que eu já vi.

        ( Paulina ri ).

PA- Você já viu uma morta viva antes?

AL- Não.

PA- Então não dá muita alegria ouvir que sou a mais linda. Eu sou a única.

Al- Mas eu poderia não dizer nada.

PA- Arrrg! Tá bom.

Al- Ainda bem que existe essas empresas de cosméticos. O que seria de nós se não fossem elas.

PA- É são essas empresas que mantém a mulher mais viva.

AL- Mais viva?

PA- É força de expressão. Mas de um jeito é isso que acontece. Eu me sinto mais viva pondo um creme, uma maquiagem.

Al- Já pensou na propaganda: a maquiagem que te deixa viva.

PA- Ficou boa, gostei: a maquiagem que te deixa viva. Ficou super bonita a frase.

        ( Paulina fica pensativa ).

PA- Eu tô pensando em uma coisa.

AL- E você pensa?

PA- Mas que piadinha sem graça, hein?

Al- É pra não perder o costume.

PA- De fazer piada ruim?

AL- Mas pelo menos já é alguma coisa.

PA- Já sei dessa história. Antes uma piadinha meia boca que nada.

AL- É isso mesmo.

PA- Daí a gente dá uma risadinha sem graça pra não perder o amigo.

Al- Mas que falta de consideração Paulina.

PA- Por que?

AL- Você vem dizendo depois de todo esse tempo que a gente tá junto que eu sou um amigo seu?

PA- Grrrr! Não é isso, foi só jeito de falar. Se bem que…. Se bem….

AL- Fala. Apertou o gatilho atira.

PA- Tá dizendo isso só por que a gente não morre.

Al- É, mas a bala fica lá dentro.

PA- E o que tem isso de mal?

AL- Como o que tem de mal?

PA- A bala ficar lá dentro da gente.

AL- Tem tudo. Eu acho.

PA- Veja uma coisa. A gente não chupa bala. A bala vai pra dentro. Então o que é essa bala também ficar lá dentro?

Al- Caraca! Você tem cada uma.

PA- Mas eu tô pensando.

AL- Tá pensando em quê?

        ( Paulina toca a face de Alberto ).

PA- Nessa frieza sua.

AL- Eu frio?

PA- É.

AL- Paulina, eu nunca fui frio. Sempre me incomodei com animais, plantas. Gente e tudo mais.

PA- Eu não tô falando dessa frieza. Eu falo que a gente é frio.

        ( Paulina encosta a mão na face de Alberto ).

PA- É disso que eu tô falando. É fria né?

AL- Eu não acho.

PA- Isso é por que você também tá frio. Se você fosse quente ia sentir.

Al- Lá vem você de novo. Eu estou estranhando

PA- Estranhando o quê?

AL- Antes você fala que eu sou frio. Tá, já explicou. Mas agora vem dizendo que se eu fosse quente. Tá querendo dizer que eu não sou quente?

PA- E nós somos quentes?

AL- Não, mas isso em outras palavras quer dizer que o cara não é bom de cama.

PA- E posso te adiantar que você é muito bom de cama. 

AL- Obrigado minha querida.

PA- É sim, você arruma a cama como ninguém. Troca o lençol, põe fronha nova, coloca colcha. Faz uma arrumação nova a cada dia. Eu adoro tua arrumação da cama.

AL- Estou falando de ser bom de cama.

PA- Grrrr! Já sei, eu lembro…

AL- Não me arrasa.

PA- O quê foi querido?

AL- É tão pouco caso de eu ser bom de cama que você precisa fazer força pra se lembrar?

PA- Não me leve a mal.

AL- Te levar a mal?

PA- É.

AL- Eu não quero te levar pra lugar nenhum. Eu gosto de você. Quero que você fique aqui comigo.

PA- Mas eu me lembro de quando você arrumou a cama, sabe aquela vez que ela tava precisando de uma arrumação?

 Ficou tão boa.

AL- É, não dá pra dizer que eu não sou bom de cama.

PA- E tem mais.

AL- Vai, me arrasa.

PA- Eu também me lembro daquela vez que você lavou os trens…

        ( Alberto dá um pulo ).

AL- Lavou trens? Menina eu não sabia disso. Você nunca me contou. Deve ter sido muito duro pra você. Eu imagino ter que lavar trens…

        ( Paulina fica de cócoras olhando Alberto ).

AL- E não é pouco. Cada vagão é muito grande. Deve ser um trabalhão danado. Eu respeito você demais por isso.

        ( Paulina se levanta ).

PA- Já terminou?

AL- Eu adoro você, Paulina.

PA- Sinto te desapontar, mas eu nunca lavei trem. Eu ia dizer e você me cortou…

        ( Alberto dá um pulo ).

AL- Eu não te cortei Paulina. Eu raspei a unha em você? Por quê com faca eu não estou. Pudera! Eu tenho que cortar as unhas. Deve ser isso, eu passei a unha e te peguei. Me desculpa. Me mostra onde foi. Tá doendo muito?

        ( Alberto vai até Paulina e procura o ferimento ).

PA- Arrrg! Não é isso.

        ( Paulina bate em Alberto ).

PA- Vai, sai de perto.

AL- O que é então?

PA- Eu ia falar que você me interrompeu, entendeu?

AL- É isso, então continua…

PA- Eu lembro quando você lavou a roupa de cama. E ficou bem lavada. Eu amei.

AL- Mas que tititi. Eu pensei tudo errado, então.

        ( Paulina ri bastante ).

AL- de que está rindo?

PA- Estou me lembrando de uma coisa.

AL- E o que é?

PA- Eu lembro de mais uma prova que você é bom de cama.

AL- Que mico, eu nunca pensei que seria ruim ser bom de cama.

PA- Lembra quando você quebrou a cama?

Al- Aleluia, até que enfim. Você já me achou bom de cama de verdade. Até que enfim. Valeu esperar.

PA- Eu lembro demais que você tava pulando na cama e ela não agüentou e quebrou.

AL- É isso então?

PA- Queria mais o quê?

AL- Eu queria uma outra prova de que sou bom na cama. Mas se essas são as únicas que você tem, vou fazer o quê? Mas lá atrás…

PA- O que tem atrás? Você andou escondendo alguma coisa? É muito feio esconder, sabia?

AL- Eu tava falando do assunto sobre frio que você falava.

PA- Isso me faz lembra de uma coisa horrível.

AL- O que é?

PA- Eu nem gosto de falar.

AL- Não gosta de falar?

PA- Não, eu me sinto mal falando nisso.

AL- tem um jeito.

PA- Quê jeito?

AL- Escreva. É só escrever. Quer que eu pegue um papel e caneta?

PA- Arrrrg! Que piadinha de quinta.

AL- Não diga isso. Essa piadinha não é de quinta, não. Isso eu garanto.

PA- É de quinta sim.

AL- E eu digo que não é de quinta.

PA- Dizer que se eu não consigo falar então é melhor escrever é uma piadinha de quinta, mesmo.

AL- E eu garanto que não é, e provo pra você.

PA- Então prove que eu quero ver. Vai…

AL- Hoje é sábado. Essa piadinha é de sábado.

PA- Grrrr! Tá, essa tá meia boca.

AL- Mas o que é que você não gosta de falar?

PA- De morrer…

        ( Paulina fala mais baixo ).

PA- De morrer. Morte. Que morri…

AL- Tem um jeito.

PA- E qual é?

AL- É fácil. Diga então que você bateu as botas…

PA- Bati as botas? Você acha que eu sou louca de bater minhas botas. Elas custaram caro. Eu não vou bater nelas. Não vou estragar a pintura. Não vou deixar elas riscadas… Eu sempre uso. Fica lindo uma bota com um vestido.

AL- Minha querida, bater as botas as pessoas dizem pra quem morre. Ele ou ela bateu as botas.  Então eu vou dizer outra coisa que você pode usar pra na dizer que morreu.

PA- Vai, tô esperando.

AL- Que tal dizer que você abotoou o paletó?

        ( Paulina pensa um pouco ).

PA- É, eu já abotoei o paletó.

AL- Viu, eu sabia que você ia gostar.
PA- Eu lembro de ter abotoado teu paletó várias vezes. Você tem o costume de deixar ele aberto. Eu acho que fica mais chique abotoado e com gravata.

AL- Mas não é isso que eu falava. Abotoar o paletó se diz de quem morreu.

PA- É isso? Então eu posso dizer que abotoei o paletó.

AL- Mas não para aí, eu tenho mais opção pra você.

PA- Fala.

AL- Você pode dizer que foi desta pra melhor.

        ( Paulina ergue os braços ).

PA- Como isso?

AL- Como o quê?

PA- Você vem dizendo que eu fui desta pra melhor. Até agora não surgiu nada melhor que essa casa pra gente morar. Eu me apeguei a ela.

        ( Paulina acaricia as paredes ).

PA- Eu gosto tanto dessa casa. A gente passou tanta coisa aqui…

AL- Caraca! Quem passou foi você.

PA- Como você é mal agradecido.

AL- Veja que eu só estou dizendo que quem passou foi você. Eu não passei.

PA- Por que não?

AL- Você já me viu passando roupa?

PA- Arrrrg! Tá bem, quem passou fui eu. Eu passei muita coisa nesta casa. Ela me dá muitas lembranças.

AL- Pra mim não me deu nada.

PA- Mal agradecido. Como é que essa casa não te deu nenhuma lembrança?

AL- Eu nunca ganhei nada dela: uma carteira, um chaveiro, um cartão postal, um porta níquel, etc. Nunca ganhei uma lembrança dessa casa.

PA- Grrrr! Eu mereço. Essa casa me dá muitas lembranças. Eu recordo de muita coisa que passei nela.

AL- Não se lembra de ter morrido nela?

PA- A gente não… Abotoou o paletó nela. Foi na estrada. Agora eu me lembrei de algo que dá pra eu dizer. Eu posso dizer que fiz a viagem.

        ( Alberto dá um pulo ).

AL- Isso não, nunca que vou deixar você viajar. Nunca.

PA- Calma.

AL- O que vai ser de mim sem você. Eu vou morrer…

        ( Paulina põe a cabeça de Alberto em seu ombro ).

PA- Não vai não. Você não vai morrer não, fique calminho. Eu só tô dizendo uma coisa que essa gente fala por aí. Eles dizem que aquele que morre fez a viagem, que viajou…

AL- Você em deu um susto.

PA- Eu não quis isso.

AL- Quase que eu morro de susto.

PA- Será possível! Fique calminho que você não vai morrer de susto.

AL- Não!

PA- Tá mais fácil a gente matar de susto alguém do que morrer de susto.

        ( Alberto se afasta de Paulina ).

AL- E você tem alguma idéia pra ficar quente?

        ( Paulina ri ).

PA- Eu tenho.

AL- Vai, fala.

PA- Eu penso em ficar um pouco no sol.

AL- No sol?

PA- É, por que o espanto?

AL- A gente até pode ter algum poder e não sabemos disso, mas ir até o sol já é demais. E como a gente vai chegar lá? O sol é longe da Terra. E pra pousar nele? Ele é super quente. Você quer ficar quente, mas vai acabar torrando. Nós não estamos com essa bola toda.

PA- Mas quem está dizendo em ir pro sol? Eu falo de ficar deitado no nosso quintal. E é melhor eu terminar pra você entender. A gente fica deitado no cão e o sol bate na gente.

        ( Alberto dá um pulo ).

AL- Você falou bate?

PA- Falei.

AL- Eu não vou querer que alguém me bata. Já chega as surras que meu pai me deu.

PA- Não é nada disso. Grrrr! A luz do sol toca na gente.

AL- Ta com vontade de tocar alguma música?

PA- Arrrrg!  Não pode ser. É demais pra mim.

        ( Paulina pega Alberto pelo braço e leva ele até a janela, afasta a cortina e entra luz na cara dele ).

PA- Ta vendo, é isso.

        ( Paulina e Alberto ficam um tempo na janela ).

AL- Tô sentindo um calor no corpo. Isso é bom. Faz tempo que eu não sinto esse calor correndo pelo meu corpo.

PA- Grrrr! Também, faz um tempo que você não corre. Não vá abusar. Vá devagar. Veja que assim você pode ter uma distensão muscular. Daí vai ficar reclamando de dor… Se bem que morto não tem dor. Mas vá lá, não é bom abusar. E olha o risco de câncer de pele… Se bem… Se bem que morto não tem câncer de pele. E veja que você pode pegar uma insolação… Se bem que morto não tem insolação.

AL- Paulina, é mais fácil falar pra eu sair.

        ( Alberto sai da janela ).

AL- Já saí. Tem mais algum jeito de ficar quente?

PA- Tenho.

AL- E qual é?

PA- Tomar banho quente.

AL- Banho quente?

        ( Paulina sai da janela ).

PA- É, banho frio que não ia ser pra gente ficar quente.

AL- É uma boa idéia. A gente já tira as células mortas do corpo e ainda fica quentinho. É muito bom.

PA- De onde tirou essa de tirar as células mortas?

AL- Eu li por aí.

PA- Que horror!

AL- por quê?

PA- se a gente for tirar todas as nossas células mortas a gente tira tudo de nós. Não fica nada.

AL- Não pensei nisso.

PA- Agora pode pensar.

AL- te outro jeito de ficar quente?

PA- tenho.

AL- fala.

PA- É a gente tomar umas bebidas com álcool. Bebida esquenta a gente.

AL- A gente pode fazer os dois. Tomar uma bebida e ficar exposto ao sol ou tomar um banho.

PA- É isso mesmo.

AL- Daí a gente vai lembrar de quando éramos vivos.

PA- Não fala isso.

AL- Por que, querida?

PA- me lembra que a gente…

        ( Paulina aponta o céu ).

AL- Por que ta apontando pra cima?

PA- É por que a gente foi pro céu.

AL- A gente foi pro céu?

PA- É.

AL- Não é não.

PA- Por que não?

AL- Veja, a gente ta aqui, eu não estou lá em cima.
PA- Grrrr! Eu não gosto que me lembre que morri.

AL- Eu até acho que você tá melhor agora.

PA- Não diga.

AL- Digo sim, digo sim, digo sim…

PA- Não diga, não diga, não diga…

AL- Você esta melhor mesmo.

PA- No quê?

        ( Alberto anda de lá pra cá ).

AL- Antes você era tão quietinha.

PA- De que adianta dizer que eu era? Agora passou. O que passou, passou. E passou. Temos que aceitar a nossa condição.

AL- Mas eu falei eu você está melhor.

PA- Esqueci disso. Até que você tem razão em um ponto.

AL- Que ponto? Eu não vou a nenhum lugar.

PA- Grrrr! De novamente.

AL- Eu vou ficar aqui.

PA- de que ponto você acha que eu estou alando?

AL- Só pode ser ponto de ônibus ou de táxi.

PA- Não é isso. Eu acho que tem o lado bom.

AL- Lado bom?

PA- É?

AL- Agora música não tem dois lado. Não dá mais pra dizer lado bom e lado ruim. É tudo do mesmo lado no CD.

PA- Grrrr! Eu ia dizer que a gente não precisa mais se preocupar com aonde vamos e a que horas vamos voltar.

AL- Por que não?

PA- Não pode acontecer nada de pior pra gente além de morrer. Morto a gente já está mesmo. Então a gente pode sair tranqüilo e aproveitar o passeio. 

        ( Paulina anda com os braços abertos como planando ).

PA- Encontramos a paz eterna.

        ( Voz de mulher ).

VOZ 1- AAAAAiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!

        ( Paulina parou de imediato ).

VOZ 1- AAAAAiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!

PA- Que VOZ é essa?

AL- Deve ter gente no portão.

PA- Então vá ver.

        ( Alberto vai até a janela e espia ).

AL- Não tem ninguém.

PA- Viu, você demorou e quem tava aí foi embora.

VOZ 1- AAAAAiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!

AL- Não foi não.

PA- Deve ter voltado.

        (  Alberto foi de novo até a janela e espiou ).

AL- Não tem ninguém.

PA- É trote.

AL- Quer dizer que tão querendo assustar a gente?

PA- Grrrr! Pode?

VOZ 1- AAAAAiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!

AL- de novo.

PA- O que vamos fazer?

AL- É melhor olhar a casa.

PA- Pra olhar a casa a gente precisa sair dela e ir um pouco longe. Daí a gente tem uma visão de toda ela.

PA- Não é isso. Nós temos que procurar essa VOZ aqui dentro. Se não tá lá fora ela está aqui entro.

        ( Paulina e Alberto começam a procurar de onde vem a VOZ e saem por um instante de cena ).

VOZ 1- AAAAAiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!

        ( Paulina e Alberto voltam correndo para o palco ).

PA- Já procurei por tudo. Não tem ninguém.

AL- Eu também. Não vi ninguém.

VOZ 1- AAAAAiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!

        ( Ambos falam junto ).

AL e PA- Se não é de gente essa VOZ pode ser de…

VOZ 1- AAAAAiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!

AL e PA- Fantasma.

        ( Alberto e Paulina começam a correr, mas Paulina segura Alberto e eles param ).

PA- A gente vai correr de um fantasma?

AL- É o que todo mundo faz.

PA- Mas a gente é um fantasma.

Al- E o que tem isso?

PA- Temos que ver de quem é essa VOZ e o que ele ou ela quer?

AL- Será que não é um parente nosso que morreu e agora veio nos visitar?

PA- A gente tem que perguntar.

VOZ 1- AAAAAiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!

PA- Fala você com ela.

AL- Eu não. Fala você.

PA- O que eu vou falar?

AL- Caraca! Sei lá, antes eu achava que era loucura falar com morto em cemitério, mas agora…

PA- Grrrr! Ajudou muito.

AL- Vai lá…

        ( Paulina procura a VOZ  olhando bem o teto ).

PA- VOZ! Você da VOZ. O que quer?

AL- Isso.

PA- Fala pra mim.

VOZ 1- AAAAAiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!

PA- Eu falei pra falar, hããããããããããããã.

VOZ 1- AAAAAiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!

PA- Eu não disse pra gritar.

VOZ 1- AAAAAiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!

PA- Tadinha! Ela deve estar com dor, só pode ser isso.

        ( Paulina põe a mão na cabeça ).

PA- Pensa Paulina, pensa.

AL- O que você quer pensar?

PA- Já pensei numa coisa. VOZ! Quer um analgésico?

AL- Analgésico?

PA- É, se essa VOZ tá com dor é melhor dar um analgésico pra ela. Vai ver ela não fala por que tá com dor.

VOZ 1- AAAAAiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!

AL- Parece que ela não quer falar.

PA- E agora?

AL- deve ser uma alma penada.

PA- Então é por isso que ela está gritando.

AL- Por quê, Paulina?

PA- Veja o calor que tá fazendo. Essa alma deve tá com um calor miserável e ainda mais com pena no corpo.

AL- Caraca!  É só um jeito de falar, Paulina. É uma alma que sofre.

PA- Então ele é uma alma penada. Ela não para de gritar de dor.

AL- Desisto. O que você vai fazer com essa alma penada?

PA- Nem tô com ela,  vou fazer o quê?

AL- Pra ela falar.

PA- Fala comigo VOZ. Fala.

VOZ 1- AAAAAiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!

AL- Será que ela tá gritando de dor ou falando Aí. Tem alguma coisa que você quer mostrar pra nós? Você fica dizendo aí. O que tem aí? Fala o que você quer mostrar.

VOZ 1- AAAAAiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!

PA- Ela só quer… Quer… espera, veio mais uma idéia… Ela tá gemendo.

AL- Gemendo?

PA- Fala baixo ela pode estar fazendo sexo. Por isso tá gemendo.

VOZ 1- AAAAAiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!

AL- de onde você tirou isso?

PA- Eu não tirei nada.

        ( Paulina mostra as mãos ).

PA- Eu não tenho nada nas mãos.

AL- Por que você acha que ela não fala?

PA- Grrrr! Se ela tá fazendo sexo ela tá ocupada demais pra falar.

AL- Tem lógica.

        ( Paulina abaixa a voz ).

PA- Então é melhor não atrapalhar.

        ( Paulina e Alberto ficam parados e em silêncio por um tempo ).

PA- A VOZ sumiu. Acho que já fez sexo.

AL- Então podemos falar.

PA- Podemos.

AL- Outra coisa que veio com a nossa transformação.       

PA- O quê?

AL- Nós estamos ouvindo vozes.

PA- Isso não é nada.

AL- Como não? Nós estamos ouvindo vozes.

PA- E daí?

AL- Você acha isso normal?

PA- Acho, eu ouvia vozes desde pequena. Ouvia as voz de meu pai, minha mãe, tias, tios, avó , vovô e depois as vozes das outras pessoas.

AL- Pudera! Por que falei?

PA- Eu sempre ouvi vozes.

AL- Eu sei, eu sei.

        ( Paulina sai correndo e pega uns dardos e começa a atirar na direção de Alberto e ele vai se esquivando ).

AL- O que tá fazendo, Paulina?

PA- Não sabe ainda?

AL- Tá, eu sei.

PA- Então por que perguntou?

AL- Mas o que você está querendo?

PA- Preciso falar?

AL- Se estou perguntando.

PA- Eu quero te acertar.

        ( Paulina continuava mirando o Alberto e jogando os dardos e ele correndo pela sala se esquivando ).

PA- Eu vou te acertar.

AL- Não vai não.

PA- Você devia deixar eu te acertar.

AL- Por quê?

PA- Espera aí, fica quieto aí, agora você é um alvo fixo.

        ( Alberto corre ).

PA- Agora você é um alvo móvel.

Al- Por que eu devo deixar você me acertar?

        ( Paulina para e mostra os dardos ).

PA- Viu, não tem a ponta pra fincar.

        ( Alberto para ).

AL- Por que não me falou antes?

        ( Paulina joga mais dardo em Alberto e acerta de bem perto ).

AL- Também assim de bem perto, até eu.

PA- Acertei.

AL- Por que você tirou a ponta?

PA- Pra não machucar. Sabe aquelas mensagens que aparecem pra criança não fazer que pode se machucar. Pois é, eu fui mais longe… ( Alberto dá um pulo ).

AL- Onde você foi?

PA- Foi?

AL- É, onde você foi? Me diga.

PA- Foi jeito de falar. Eu não saí daqui.

        ( Paulina bate na cara de Alberto ).

PA- Eu estou aqui, tá me vendo?

AL- E como não ia ver você quase em cima de mim?

PA- Tirei as pontas, assim ninguém se machuca. É isso.

        ( Paulina e Alberto ficam em silêncio por um instante ).

PA- O quê é isso?

AL- O quê?

        ( Paulina começa a andar mirando algo no ar ).

PA- Não pode ser.

AL- Não pode ser o quê?

        ( Paulina começa a dar braçadas com os dois braços no ar ).

AL- Tá querendo nadar?

PA- Grrrr! Não me atrapalhe.

        ( Paulina dá braçadas com um só braço ).

AL- Se é pra nadar fica melhor com os dois braços.

PA- Arrrrg! Eu não posso falar.

AL- Eu sei disso.

PA- Sabe?

AL- Sei sim, se você falar entra água na tua garganta.

PA- Grrrr! Veja só, não é isso.

AL- Então por que não pode falar?

        ( Paulina não responde, mas continua com o movimento ).

AL- De braçadas com os dois braços.

PA- Silêncio!

AL- Movimenta a cabeça para o alto, senão você não respira.

        ( Paulina se abaixa atrás do sofá e fica por um momento, daí ela dá um tapa no chão – mosca – se ergue com a mosca na mão e fixa o olhar nela ).

AL- O que você tem?

        ( Paulina mostra pra Alberto ).

PA- Veja.

AL- O quê?

PA- Veja.

AL- O quê?

PA- Você tem que chegar mais perto.

        ( Alberto se aproxima bem de Paulina e se curva pra ver sua mão que ela estende ).

PA- Veja.

AL- Caraça! É uma mosca.

PA- Passarinho que não é.

AL- mas cheguei perto.

PA- Perto?

AL- Pássaro voa e mosca também voa. São bem parecidos.

PA- Hááááááááááá!

AL- Por que matou ela?

PA- É uma mosca.

AL- Antes ele estava viva.

PA- Antes, disse tudo.

AL- Justamente você, antes eu dizia pra todo mundo que você era incapaz de matar até uma mosca. Veja só a nova da hora. É o maior tititi mano. Agora não posso mais dizer isso. Você é capaz de matar uma mosca.

PA- Eu nem sei por que matei.

AL- parece réu no tribunal. Não sei por que fiz isso ou aquilo.

PA- Mas não sei mesmo.

AL- O que vai fazer com ele?

PA- Não sei.

AL- Não vai ficar aí olhando pra ela o tempo todo, vai?

        ( de repente Paulina põe a mosca na boca, mastiga e engole ).

AL- Não!

        ( Alberto dá um pulo ).

AL- Meu Deus!

        ( Paulina fica estática ).

AL- O que você fez? Vamos, responda.

        ( Paulina não responde nada ).

AL- Me responda.

        ( Alberto dá uns tapas na Paulina ).

AL- Acorda, vai. Em que planeta você tá?

        ( Alberto abana Paulina ).

AL- Deve ser o calor. Cozinhou o cérebro dela. Eu falei pra ela não tomar sol.

AL- Acorda.

        ( Alberto solta um grito ).

AL- ACORDA Paulina!

        ( Paulina balança a cabeça ).

PA- O que aconteceu?

AL- E você ainda pergunta?

PA- mas eu não sei o que aconteceu.

AL- Não sabe, uma vírgula. Sabe sim.

PA- Juro que não sei.

AL- tem que saber.

PA- Então me conta o que foi.

AL- Eu contar?

PA- É, me conta.

AL- Você comeu uma mosca.

PA- Arrrrg! Que nojo.

AL- Não veja por esse lado. Era uma mosca bem asseada. Era limpinha, devia de ter tomado banho antes.

PA- Mosca? Por que eu fiz isso?

AL- É só o que quero saber.

PA- mas eu não sei.

AL- E o que a gente faz agora?

PA- Eu tenho que comer algo bom pra memória.

AL- Más nós só podemos tomar a essência. Não podemos sair por aí comendo de tudo.

PA- Eu sei disso. Mas eu fui puxada até ele.

AL- Não!

        ( Alberto dá um pulo ).

AL- Você foi puxada?

PA- Já disse que fui.

AL- Deve ser a mosca que te puxou….

PA- É sério isso.

AL- E é pra ser. Onde já viu uma mosquinha te puxar.

PA- O quê?

AL- E eu não sei como ela te puxou. Aqui não tem corda nenhuma. Como ela fez isso?

PA- Grrrr! Para, eu tô  P. Tô de saco cheio.

AL- Isso é impossível.

PA- Por quê?

AL- Você não tem saco. Saco é pra homem.

PA- Isso é momento pra brincar?

        ( Alberto começa a pular num pé só ).

PA- O que faz?

        ( Alberto não responde e continua pulando ).

PA- Tá fazendo exercício?

        ( Alberto continua pulando ).

PA- Quer emagrecer? Mas você nem gordo tá.

        ( Paulina vai atrás de Alberto ).

PA- Se tá pulando amarelinha  não tem graça nenhuma. Veja só o chão. Não tem os quadradinhos pintados. Se quiser eu pinto par você pular.

        ( Alberto continua pulando ).

PA- Se tinha alguma poça de água no chão já secou, pode andar normal que não vai molhar o pé.

        ( Alberto continua pulando ).

PA- Arrrrg! Como não pensei nisso. Você machucou o pé. Por isso tá pulando. Não consegue encostar o pé machucado no chão. Tadinho. Quer que eu faça um curativo?

        ( Alberto continua pulando ).

PA- É melhor pular também com o outro pé. É pra exercitar as duas pernas. Não é legal pisar só numa perna. Depois você vai ter problema com uma delas.

        ( Alberto continua pulando numa única perna ).

PA- Já pulou bastante com essa, agora troque. Não esqueça de trocar as pernas, querido. Já pulou com a esquerda, agora experimente a direita.

        ( depois de um tempo Alberto para de pular ).

PA- Até enfim parou. Eu tava com medo que você tivesse um problema muscular. Eu nunca te vi fazendo exercício.

        ( Alberto chacoalha a cabeça ).

AL- Paulina, parece que tô  atordoado. O que eu fiz?

PA- Você não sabe?

AL- Sei o quê?

PA- O que estava fazendo?

AL- Não!

PA- Como pode não saber o que está fazendo?

AL- Do mesmo jeito que eu casei com você.

PA- Essa tem volta. Você estava pulando.

AL- Eu, pulando?

PA- É.

AL- Não me lembro de nada. O que será que está acontecendo?

PA- Não sei, mas tenho minha desconfiança.

        ( Alberto senta no sofá e põe a mão na cabeça ).

AL- Então fala logo.

PA- Eu acho que tem a ver com a nossa morte.

AL- Nós não estamos mortos…

PA- Eu sei, eu sei, eu sei, mas não é por aí.

AL- Eu não estou indo a lugar nenhum.

PA- Por que tá me dizendo isso?

AL- Você disse que não é por aí. Eu tô parado, não estou indo pra lugar nenhum. Não tem por aqui, por ali ou por lá.

PA- Eu quero dizer que essa morte não fez a gente deitar… A verdade é que a gente tá morta, mas esqueceu de deitar.

AL- Eu não esqueci. Deito assim que posso pra descansar.

PA- Não é isso.

AL- Então fala logo.

PA- Eu acho que algumas partes bem pequenininhas morreram dentro da nossa cabeça.

AL- Não diga.

PA- Eu já disse, agora é tarde, por que não me pediu pra não dizer antes de eu falar?

AL- Quer dizer que algumas partes morreram dentro de nós?

PA- É isso.

PA- Como essas minúsculas partes de nosso cérebro se perderam…

        ( Alberto fica procurando no chão ).

PA- O que está procurando?

AL- As partes de nosso cérebro.

PA- Não adianta procurar. Elas estão queimadas lá dentro.

        ( Paulina toca sua cabeça ).

AL- Mas eu não me lembro do carro ter pego fogo.

PA- O que tem isso?

AL- Você disse que nossa cabeça tá com parte queimada.

PA- É o jeito de falar. Tem algumas partes em nosso cérebro que não funcionam, ou melhor, estão com defeito.

AL- E o que a gente faz? Mandar para uma loja pra arrumar não dá. Comprar uma peça nova também não tem. O que a gente faz?

PA- Temos que aprender a lidar com isso. Temos que estar preparados quando isso acontecer. É isso, esse comportamento bizarro não vai nos pegar de surpresa. A gente tá mudando muito. Tá mudando mesmo.

AL- Estou com você Paulina.

PA- E eu que sempre gostei de festa surpresa.

AL- Eu também.

        ( Paulina caminha para sair de cena ).

AL- Onde vai?

PA- Vou ao quarto.

        ( passa um tempo e Paulina volta com uma boneca no colo com a cabeça cortada e costurada e com sangue ).

AL- Paulina, você disse que a gente tava mudando. Não é tanto assim. Veja você com a sua boneca mais querida.

AL- Vamos brincar de boneca?

PA- Não.

AL- Mas a gente sempre brincou junto. O que está acontecendo? Eu adoro brincar de boneca. Eu sou o pai e você é a mãe.

        ( Alberto se levanta e se aproxima de Paulina ).

AL- Vem com o papai, bonequinha linda.

        ( Alberto pega a boneca no colo ).

AL- AAAAAAAAAAAiiiii!

        ( Alberto sai correndo de cena e deixa a boneca cair ).

PA- Alberto, volta.

        ( Paulina apanha a boneca do chão ).

PA- Volta Alberto, não tem nada demais.

        ( Alberto responde fora de cena ).

AL- Eu não vi uma conta de matemática pra ter mais ou menos.

PA- Venha.

AL- Que boneca é essa?

PA- É a minha melhor amiga.

AL- Se é sua melhor amiga não quero ver uma inimiga sua.

PA- Venha.

AL- Estou muito assustado. Você estava dizendo que nossa casa é mal assombrada, por isso a gente precisava assustar pra fazer dela uma casa bem assombrada. Mas eu não pensei que você ia me assustar. Eu não.

PA- Não estou te assustando. Só quis te mostrar minha boneca.

AL- Já mostrou.

PA- Venha, querido. Se você não vir eu vou atrás de você.

AL- Está bem, eu vou. Mas não me assuste mais.

        ( Alberto entra devagar em cena ).

AL- Por que fez isso na boneca?

        ( Paulina mexe na cabeça da boneca ).

PA- Veja Alberto. Agora ela responde sim e não pras minhas perguntas. Antes ela ficava quietinha e não respondia nada.

        ( Paulina pega na cabeça da boneca e faz sim e não ).

PA- Não é um amor? Agora ela me responde. Reponde sim e não.

AL- Responde mesmo.

PA- Antes só eu perguntava e eu mesma respondia. Agora ela diz sim ou não. É uma maravilha. Até que enfim tenho uma companhia à minha altura.

AL- Eu tenho…

PA- O quê?

AL- Eu tenho…

PA- Alberto, você não tem nada, isso tudo aqui foi herdado de meus pais.

AL- Eu tenho que te avisar que eu te respondo Paulina. Não precisa fazer isso comigo. Eu faço companhia pra você.

PA- Eu nunca iria fazer algo assim com você.

AL- Ah! Isso me dá um alívio.

        ( Alberto sai de cena e volta um tempo depois com uns carrinhos amassados ).

PA- Onde ela foi?

        ( Alberto entra em cana ).

AL- Veja meus carrinhos.

PA- Eu já vi eles.

AL- Mas pega eles um pouquinho.

        ( Paulina se aproxima para pegar ).

PA- Está bem, que bonitinhos. AAAAAAAAAAAAAiiiiii!

        ( Paulina deixa os carrinhos caírem no chão e sai correndo para fora da cena ).

AL- O que foi Paulina?

PA- O que foi digo eu.

AL- Por que correu.

PA- Por não quis andar.

AL- Venha aqui.

PA- O que é isso dentro do carrinho?

AL- Caraca! Isso é só um dedo.

PA- Você diz só um dedo. É um horror.

AL- Não é não.

        ( Alberto tira o dedo e fica observando ).

PA- Como você teve coragem de cortar um dedo?

AL- A pessoa nem vai sentir sua falta.

PA- Já experimentou ficar sem um dedo.

AL- Eu já falei que o dono do dedo não vai sentir a falta dele.

PA- Como não?

AL- Eu cortei o dedo de um morto.

        ( demora um tempo e Paulina entra devagar ).

PA- Ele estava bem morto mesmo? Bem caído no chão? Não tava de olho aberto? Não abria a boca? Ele não se mexia?

AL- Estava bem morto. Até enterrado estava.

PA- Isso me dá um descanso. Se você fala que foi isso eu fico mais em paz.

AL- Eu não tenho certeza, mas acho que foi isso.

PA- Como?

AL- Eu não me lembro.

PA- Igual eu. Eu não me lembro de ter cortado e depois ter costurado o pescoço da boneca. Só me lembro que me dei por conta com ela já mudada no meu colo.

AL- Quando eu me lembro eu já estava com os carrinhos amassados e o dedo dentro. Mas até que não é tão terrível. Esse dedo deu uma veracidade ao acidente.

PA- É, mas pode ser o dedo de um mentiroso, daí não tem veracidade nenhuma.

        ( Paulina anda de uma lado para o outro ).

PA- Nós estamos fazendo coisa que não sabemos. Cada um de nós tem que ficar de olho no outro.

AL- Por que você acha que cortou o pescoço da boneca?

PA- Acho que pra ela ficar igual a mim.

AL- Igual a você?

PA- Justamente.

AL- Não me diga isso. Que pavor.

PA- O que é meu amor?

AL- Caraca! Quer dizer que você pretende cortar teu pescoço?

PA- Não.

AL- Mas você acabou de dizer que cortou o pescoço dela pra ficar igual a você. E você não tem pescoço cortado. Eu pensei que quisesse cortar o seu também.

PA- Grrrr! Evidente que não. Mas… E você?

AL- O que tem eu?

PA- Você diz que eu não pareço real quando me pinto?

AL- E não parece mesmo.

PA- Você não tá pensando em cortar um dedo meu pra eu ficar real, tá?

AL- Não, é lógico que não, abra sua cabeça.

PA- Não vem que não tem. Eu não vou abrir minha cabeça. Tenho horror a serra, martelo, furadeira, etc.

AL- De que está falando?

PA- Você não está querendo que eu abra minha cabeça pra curar os pedaços que estão danificados?

AL- Até que não é uma má idéia. Mas eu me refiro a pensar.

PA- Mas nós temos que um vigiar o outro.

Al- Eu tenho medo do que está por vir. Essas mudanças estão vindo rápidas demais.

PA- E eu não quero mudar.

AL- Nem eu.

PA- Eu gosto tanto dessa casa. Quero ficar aqui por muito tempo.

AL- Pudera! Agüente. Não é essa mudança Paulina. Estou falando de mudança interna.

PA- Está precisando de um transplante de órgãos e não me falou nada? Se for isso, eu posso ser o doador. Pra mim eles não tem nenhuma utilidade agora.

AL- Não fale besteira Paulina. Nós não sabemos direito como é viver sendo morto.

PA- É uma mortaria. Isso está me fazendo passar…

        ( Paulina fica tonta ).

AL- Deita no sofá, querida.

        ( Paulina deita ).

PA- Estou tendo um ataque.

        ( Alberto abana paulina com as mãos ).

PA- Estou com medo de morrer.

AL- Paulina, deixa disso. Você não pode ter ataque e muito menos morrer.

PA- Eu me esqueci disso.

        ( Alberto senta no chão ao lado de Paulina ).

AL- sabe, eu vou te falar uma coisa que eu tenho ficado meio intrigado nos últimos dias.

PA- O que foi, é mais horror?

AL- Calma, querida. Não é horror, não.

PA- Então pode falar.

AL- Eu tava vendo as nossas fotos.

PA- Eu não disse que era horror? Eu não gosto de ver nossas fotos. A gente era tão mais bonito antigamente.

AL- Obrigado por me chamar de feio, mas não é isso. Daí eu encontrei a nossa certidão de casamento.

PA- O que tem ela? Tá suja? Tá rasgada?

AL- Não, não e não, eu reparei numa coisa que está escrito nela.

PA- Fala homem.

AL- Está escrito que nós somos casados até que a morte nos separe.

        ( Paulina se levanta ).

PA- Caiu a ficha. Quer dizer que não somos mais casados?

AL- parece que não.

PA- Mamãe dizia que sem estar casados é pecado dormir junto. Então a gente vai ter que dormir separado? Acabou nosso casamento?

AL- Não pode ter acabado.

PA- Arrrg! E isso tá te deixando triste?

AL- Tá sim. Nós somos acima de tudo uma família normal.

PA- Vamos ter que casar de novo?

AL- E o problema não termina aí.

PA- Não.

AL- Eu sou viúvo de você e você é viúva de mim.

PA- Não tinha pensado nisso.

AL- Se pensar bem é.

PA- Prefiro pensar mal. Então eu tenho que usar duas alianças.

        ( Paulina mostra a aliança para Alberto ).

PA- Está vendo, eu preciso de mais uma. Me dá a sua.

AL- E como eu fico?

PA- Então a gente tem que comprar mais alianças.

AL- Esse assunto tem que ficar só entre nós. Você não pode falar pra ninguém. Tem que morrer aqui.

PA- Como que a gente morreu aqui? Não foi aqui. Esqueceu que a gente morreu na estrada?

AL- Estou dizendo que você não pode falar o que a gente conversa pra ninguém.

PA- Eu já falei.

AL- Pra quem?

PA- Pra Luzia.

AL- Meu Deus. E quem é essa Luzia?

PA- É minha boneca. Eu amo tanto ela.

AL- Por que deu o nome de Luzia pra ela?

PA- Toda vez que eu coloco ela na luz da lanterna ela tem muita luz, daí eu coloquei o nome dela de  Luzia.

AL- Mas só conte pra ela então.

        ( Paulina bate palmas ).

PA- Que bom, pra Luzia eu posso contar?

AL- Pode.

        ( Paulina fica brincando com a Luzia ).

PA- O quer você disse, Luzia?

        (  Paulina encosta o ouvido na boca da Luzia ).

PA- Veja só o que a Luzia disse a nosso respeito.

AL- O quê?

PA- Que nosso amor morreu.

AL- E a gente vai ter que enterrar ele?

PA- Onde vai ser o enterro? 

AL- Por aí.

PA- Eu penso em ir pro nosso casamento com uma coisa bastante nova em conceitos de moda.

AL- E o que é isso?

PA- Um vestido branco com véu e grinalda. Vou usar ainda flor de laranjeira.

AL- Querida! Eu prefiro um vestido preto. Ia cair bem em você.

PA- Tá querendo que o vestido caia?

AL- Não foi isso, é só o jeito de falar.

PA- De preto nós vamos parecer estar num velório.

AL- Não é de todo mau.

PA- Como não?

AL- Em velório a gente revê os amigos, põe a conversa em dia, se distrai,  e aínda tem o melhor que é quando servem a comida e a bebida.

PA- Nem sei o que falar para as amigas: vou encomendar a alma de um amigo ou meu namorado. E como fica o casamento?

AL- Tenho que pensar. É casamento,  logo depois separação, viuvez… É melhor prever tudo isso e já fazer um acordo matrimonial.

PA- Lembra Alberto que você tava achando falta de algo pra cima. Você achava tudo que nos cercava monótono. 

AL- E como vou esquecer? Agora não tá mais monótono, mas minha vida está mono. Eu queria uma vida stério ( escuta  por dois autos- falantes ). Agora é uma surpresa atrás da outra.

PA- E não é bom assim?

AL- Eu não acho.

PA- Pensa comigo. Agora não tem mais aquela de pedir a mão pra casar.

AL- Não?

PA- Isso é passado. Agora tem eu vou encomendar tua alma. Já pensou que romântico.

        (  Paulina começa a dançar pelo palco ).

PA- Eu vou encomendar tua alma.  Eu vou encomendar tua alma para sempre. Veja que lindo. Isso abriu minha cabeça.

        ( Paulina continua dançando e de repente apanha Alberto e ambos dançam ).

PA- Eu vou encomendar tua alma. Eu vou encomendar tua alma para sempre. Daí eu digo: minha alma tá encomendada, é sua meu amor.

        ( Ambos param de dançar e Alberto fica de joelhos diante de Paulina ).

AL- Eu encomendo tua alma Paulina!

PA- Eu aceito.

        ( ambos se abraçam ).

PA- E eu que pensava que depois de um tempo nosso casamento ia esfriar.

        ( ambos se soltam e ficam em silêncio ).

PA- No sentido figurado não esfriou. Tá cada vez mais quente.

        ( Um toca o outro ).

AL e PA- Entramos numa fria.

AL- Foi só acontecer essa mudança que acendeu uma chama…

PA- Meu Deus! Eu tinha esquecido disso.

AL- O que foi paulina?

PA- Eu esqueci de falar pra você comprar.

AL- O que você quer que eu compre?

PA- Velas…

AL- Velas?

PA- Um monte delas. Eu quero brancas, verdes, vermelhas, amarelas, pretas, azuis, rosas, marrons e o que tiver.

AL- Por que você quer vela?

PA- Eu quero velas por que todo mundo acende velas para os mortos. Então deve ser bom para a pessoa que acende e para o morto que recebe a vela acesa. Veja só o raciocínio, sendo assim vela vai fazer muito bem pra nós. A gente pode enfeitar nossa casa com velas coloridas acesas. Garanto que vai ficar cult.  Eu já comprei algumas, mas é bom a gente ter um verdadeiro estoque de velas.

AL- E eu… E… E eu não posso dizer nada. Você tem razão. Isso é um hábito antigo. Quase todo mundo acende vela pra morto. É só seguir a lógica. Claro! Se faz bem pra morto vai fazer bem pra nós.

PA- Espera um pouco.

        ( Paulina corre para fora de cena, apanha velas coloridas, isqueiro e porta velas, dá um tempo e volta para cena ).

AL- Paulina, onde você foi?

PA- Não está vendo?

AL- Estou vendo velas.

PA- Grrrr!  Eu fui buscar velas.

AL- Pra quê?

PA- Pra gente testar.

AL- Testar o quê? Você quer que eu coloque elas na testa.

        ( Alberto paga algumas velas e coloca na sua testa ).

PA- Não, é pra acender e ver o que acontece.

        ( Paulina arruma as velas sobre a mesa ).

AL- Se a gente não tomar conta delas pode pegar fogo em nossa casa.

PA- Não é isso, estou falando do plano espiritual.

AL- Se é assim, você que sabe.

PA- Eu não sei aínda, desconfio.

        ( Paulina vai acendendo uma por uma ).

AL- Está sentindo alguma coisa?

PA- Meu deus, parece que sim.

AL- O quê?

PA- É uma vibração que tá dando em todo o meu corpo.

AL- E como é essa vibração?

PA- Parece muito com a vibração que eu tive antes de ir com você na primeira vez.

AL- Eu tava pegando fogo naquele dia.

PA- E me encheu de cera quente.

AL- Não fala assim que eu me derreto.

PA- Mas que sensação gostosa.

AL- Espera aí, eu estou sentindo também.

PA- Não disse.

        ( ambos ficam brincando um com o outro, fazendo cócegas ou dando tapinhas ).

PA- Isso é muito bom. Não pode faltar velas em nossa casa.

AL- Isso você não pode contar pra ninguém.

PA- Pode deixar, minha boca é um túmulo.

        ( Um corre atrás do outro e daí trocam quem corre atrás ).

PA- E veja como fica com uma nova aparência nossa casa. Ela fica mais bonita.

AL- Eu também gostei.

        ( ambos param e ficam se requebrando ).

AL e PA- Isso é gostoso demais.

        ( ficam um tempo se remexendo demonstrando prazer ).

PA- Agora nós não temos adrenalina, temos vela. Eu pensei em outra coisa.

AL- Qual é o tititi?

PA- É só seguir o mesmo raciocínio. Se flores fazem bem pra morto também vão fazer pra gente. Da próxima vez que você sair traga um montão de flor também.

AL- Você não tem aí?

PA- Não, eu acabei de ter idéia.

AL- Pode deixar que eu compro.

PA- Então está bem. Você é vivo.

        ( ambos dão gargalhada ).

AL e PA- Nós somos vivos.

AL- Eu faço isso com a maior alegria.

PA- Aonde você vai?

        ( Alberto deixa a cena, apanha duas facas cenográficas ).

PA- O que ele foi fazer? Da um pânico quando ele não tá perto de mim. Da um frio na alma.

        ( Alberto entra em cena ).

PA- Até que enfim você voltou. Estava ansiosa.

        ( Alberto levanta e mostra duas facas em suas mãos ).

PA- Que horror! Vai cortar o quê? Aqui não tem nada pra cortar.

        ( Alberto se aproxima ).

PA- Essa sua cara não me é estranha.

        ( Alberto começa a golpear o ar com as facas e indo na direção de Paulina ).

PA- Arrrrg! Meu Deus. SOCOOOOORROOO!

        ( Paulina sai de cena correndo e aparece só a VOZ 1 dela ).

PA- Que casa bem assombrada é a nossa. Eu pensei que a gente ia assombrar os outros, mas somos nós mesmos nos assombrando. É um assombrando o outro. Isso não tem cabimento. Eu juro que não entendo.

        ( Paulina bota a cabeça em cena para espiar Alberto ).

PA- Será que ele quer matar mosca ou pernilongo?

        ( Alberto continua golpeando o ar com as facas ).

PA- Ou será que ele está com muito calor e está fazendo vento? O que eu faço, meu Deus?

        ( Paulina se aproxima de Alberto pé por pé ).

PA- O que você tem Alberto.

        ( Alberto aponta as duas facas pra Paulina ).

PA- Isso eu já sei, você tem duas facas. Eu quero saber o que você está sentindo.

        ( Alberto avança na Paulina tentando acertar ela ).

PA- Corta a cena, corta…  SOCOOOOORROOO!

        ( Paulina sai de cena correndo e aparece só a VOZ 1 dela ).

PA- Meu Deus! O que é isso? Ele ta querendo me matar. Mas não pode ser isso. A gente se ama. Será que ele quer se livrar de mim pra arrumar uma viva alma? Será que o nosso amor morreu? O que faço? Eu não vivo sem esse homem. Mas acho que ele vive sem mim. Como é horrível se sentir descartável.

        ( Paulina bota a cabeça em cena para espiar Alberto ).

PA- Alberto! Fica calmo, joga essas facas no chão. E se eu cantar uma música pra ele se acalmar? Tem uma que ele gosta muito. Lá vai. Atirei o pau no ga-to, to, mas o ga-to, to, não mor-reu, reu, reu…

        ( Alberto deixa as facas caírem no chão ).

PA- Arrrrg! Benza Deus, funcionou. Ele largou as facas. Veja só a força da psicologia. Isso abriu a mente dele. E não precisou de faca pra abrir.

        ( Paulina vai até Alberto ).

PA- Ta melhor?

        ( Alberto chacoalha a cabeça ).

AL- O que aconteceu?

PA- Não sabe de nada? Eu já desconfiava. É mais uma seqüela da nossa morte.

AL- O que aconteceu?

PA- Você acredita que estava querendo me matar?

AL- Eu?

PA- Você mesmo.

AL- Estou com medo de mim mesmo.

PA- Não é pra tanto. Isso tem solução.

AL- Eu disse que to com medo de mim mesmo e você diz que tem solução.

PA- Tem e é muito simples.

AL- Qual é?

PA- Basta você não olhar no espelho.

AL- Não é isso, eu não sei do que sou capaz de fazer.

PA- Isso eu ainda não sei. Eu pedia tanto pra ter novidade no nosso relacionamento, mas não achava que seria isso. 

AL- Eu estou sem saber o que falar. O que foi que me fez voltar ao normal?

PA- Normal, normal você nunca foi, mas eu cantei uma música do atirei o pau no gato.

AL- Eu sempre adorei quando você me chamava de gato. Faz tanto tempo que você não me chama assim.

PA- Eu cantei a música.

AL- Eu falei só pra dar uma animada. Então foi essa música que me acordou? Que bom.

PA- Eu cai dura quando te vi com as facas.

        ( Alberto dá um pulo ).

AL- Você morreu?

PA- Morri?

AL- Você disse que caiu dura. Nós não estamos duros.

        ( Alberto belisca Paulina ).

PA- AAAAAiiiiii!

AL- Você é mole.

PA- Veja só esses xingamentos. Não vem dizendo que eu sou mole. Eu sou do trabalho.

AL- Eu pensei que você estivesse dura.

PA- Não estou não.

AL- Ainda bem, ainda bem.

PA- Eu ainda tenho um dinheirinho guardado.

AL- Eu estava falando do corpo duro. Que bom que você não está.

PA- Também não diga assim que ofende uma mulher.

AL- Ofende o quê?

        ( Paulina faz pose ).

PA- Não se pode sair por aí dizendo que uma mulher não tem o corpo durinho.

AL- Por que não?

PA- Por que nenhuma mulher gosta de não ter um corpo duro.

AL- Ainda não entendi.

PA- Veja Alberto. Nenhuma mulher quer ter o corpo cheio de gordura, flácido, celulite e barriga de avental. Toda mulher quer ter o corpo durinho, sarado.

VOZ 1- Hahahahahahahahahahahaha!

PA- Ouviu isso?

AL- É uma risada.

PA- Deve estar rindo da nossa desgraça. Desgraça no fiofó dos outros é refresco.

AL- Não fale assim, é aquela voz que a gente ouviu há pouco.

PA- Agora ta rindo. Rindo de quê?

VOZ 1- Hahahahahahahahahahahaha!

PA- Eu não gosto que ninguém ria de mim.

AL- Ela só está feliz paulina.

PA- Feliz com nossa desgraça, não.

VOZ 1- Hahahahahahahahahahahaha!

PA- Eu não to dizendo piada. Se… Bem… Se bem que eu nunca contei piada e alguém riu. Essa voz1 estranha é a primeira a rir do que falo. Sabe o que o nariz falou pra boca?

        ( Faz-se silêncio ).

PA- Olá você aí embaixo.

VOZ 1- Hahahahahahahahahahahaha!

PA- Alberto, ela gostou da piada.

AL- Conta outra aproveita.

PA- Sabe o que o umbigo falou pra parte embaixo?

        ( Faz-se silêncio ).

PA- Eu sou uma rua sem saída.

VOZ 1- Hahahahahahahahahahahaha!

PA- Alberto, eu tenho alguém que gosta de minhas piadas.

AL- Ela deve estar rindo pra não perder a amiga.

PA- Não, e não. Voz, tenho outra piada pra te contar. Sabe o que os dedos falaram pra mão?

        ( Faz-se silêncio ).

PA- Você é cheia de dedos.

VOZ 1- Hahahahahahahahahahahaha!

PA- Eu tenho uma fã. Como é bom a gente contar uma piada e ter alguém pra rir.

AL- Chega de contar piada, não deve ser isso que essa voz está rindo, chega agora.

VOZ 1- Aaaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhhhh!

PA- Está vendo Alberto, essa voz gosta de minhas piadas. Ta bem, eu vou contar outra. O que os pés disseram pra mãos?

        ( Faz-se silêncio ).

PA- Nós metemos pos pés pelas mãos.

VOZ 1- Hahahahahahahahahahahaha!

PA- Diga seu nome. Apareça, vamos conversar.

        ( Faz-se silêncio ).

AL- Pelo jeito ela só quer saber de suas piadas.

PA- Sempre que eu puder eu conto umas piadinhas pra você. E se quiser pode ficar morando aqui.

AL- Por que ta dizendo isso?

PA- Isso o quê?

AL- Pra ela morar aqui.

PA- Eu não quero que ela seja uma alma perdida. Viu, você tem um lar pra morar. Se quiser pode morar aqui. Gostei de você.

AL- Só por que ela gosta de suas piadas.

PA- Já é o começo.

AL- Ela já foi embora.

PA- Também, se matou de dar risada. Deixa que me deu vontade de ir até…. Eu já volto…

        ( Paulina sai de cena, pega um martelo e volta logo depois ).

AL- Até que enfim paz… Caraca! O que é isso?

        ( Paulina entra dando marteladas no ar ).

AL- Ta querendo matar mosca ou pernilongo? Já sei, tá querendo comprimir o oxigênio. Vai pregar alguma parede solta.

        ( Paulina chega bem perto de Alberto ).

AL- AAAAAiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii! Deixa eu me mandar.

        ( Alberto sai de cena correndo ).

AL- Não entre em pânico! Eu odeio essa casa. Ela está bem assombrada demais. Minha mulher tá querendo me matar. O que faço? E eu que queria uma mulher que me matasse na cama. A Paulina quer me matar na sala. Não é bem esse tipo de matar que eu queria. Eu lembro que queria uma mulher que matasse meus desejos. Mas não que matasse eu. O que faço?

        ( Alberto bota a cabeça em cena para espiar Paulina ).

AL- Paulina, joga esse martelo no chão. O que eu posso fazer pra ela despertar?

        ( Paulina continua dando marteladas no ar ).

AL- E se eu cantar a música que a Paulina cantou pra mim? Vai lá. Atirei o pau no ga-to, to, mas o ga-to, to, não mor-reu, reu, reu…

        ( Paulina deixa o martelo cair no chão ).

AL- Funcionou! Agora eu posso ir até ela.

        ( Alberto chega perto de Paulina que chacoalha a cabeça ).

PA- O que foi?

AL- Você queria me matar.

PA- Eu?

AL- Sim, você mesma.

PA- Com o quê?

AL- Com esse martelo.

PA- Martelo? Deve ser por que eu sempre disse que você tem a cabeça dura.

AL- Eu preferia ter um outro lugar duro.

PA- Mas é a cabeça.

AL- O que vamos fazer agora que um tá querendo matar o outro?

PA- E eu é que sei?

        ( Voz de homem ).

VOZ 2- Boas almas!

PA- Ouviu isso?

AL- Não é com a gente.

PA- Como não? Ele falou Boas Almas.

AL- E nós estamos querendo um matar o outro.  Somos boas almas? Na verdade estamos bem longe de ser boas almas.

VOZ 2- Boas almas!

PA- Vamos entender que é com a gente. Vai ver esse daí não sabe que a gente tá querendo matar um o outro. É só a gente não contar.

AL- O que você acha que é?

PA- Pode ser um prêmio para almas.

AL- De bom comportamento que não é.

VOZ 2- Boas almas!

AL- Ele só sabe dizer isso. Boas almas!

VOZ 2- Boas almas! Eu vim buscar vocês.

AL e PA- Buscar a gente?

VOZ 2- Boas almas! Eu vim buscar vocês.

PA- Você já disse, mas vai levar a gente aonde?

VOZ 2- Para o céu.

PA- Eu tenho um medo de avião.

VOZ 2- Estão prontos?

PA- Eu nem arrumei as malas. Preciso de tempo.

AL- Onde nós vamos ficar?

VOZ 2- Vocês vão ficar em lugares diferentes por que já começaram a se desentender.

PA- Nós estamos nos desentendendo?

AL- Eu não sei disso.

VOZ 2- Vocês estão prontos?

        ( Paulina ergue um braço bem alto ).

PA- Eu não, eu não vou me separar do Alberto.

        ( Alberto ergue um braço bem alto ).

AL- Eu também não vou me separar da Paulina. 

VOZ 2- Então vocês vão ficar aqui na terra.

PA- Na terra não, a gente fica dentro da casa com assoalho, paredes, teto. Na terra ninguém merece.

VOZ 2- Então eu não vou levar vocês.

AL e PA- Queremos ficar juntos.

VOZ 2- Então eu só volto no outro ano. Até lá.

AL- O que fez você não querer ir com ele?

PA- Eu jurei pra mim mesma que não ia com homem nenhum que não fosse você.

AL- Obrigado, obrigado. Eu quero saber se você me ama tanto assim?

PA- Eu me lembro que naquele acidente que a gente morreu você pegou na minha mão enquanto a gente estava caído no meio do carro. Eu me senti tão viva.

        ( Alberto pega na mão de Paulina ).

AL- Te amo.

PA- Mas o que vamos fazer com o fato de um querer matar o outro?

AL- Temos que pensar em algo de imediato enquanto não encontramos a cura. Como vamos dormir?

        ( Paulina corre para fora da cena, apanha uma cordinha e volta ).

AL- O que tem aí?

PA- Uma cordinha.

AL- Pra quê?

PA- A gente amarra os braços e se um tentar se levantar o outro vai saber, pois a cordinha vai puxar.

AL- É melhor a gente dormir de um olho fechado e outro aberto.

PA- Vamos tentar pra ver se dá certo?

        ( ambos amarraram seus braços um no outro e deitaram lado a lado no sofá e ficaram cada um de um olho aberto e outro fechado, mas o tempo passou e eles acabaram fechando o outro olho. De repente Alberto arregala os olhos e apanha um canivete do bolso. Levanta o canivete e aproxima a arma no pescoço de Paulina. Ele faz mímica de passar o canivete algumas vezes pelo pescoço dela. Depois de um tempo ele encosta o canivete no pescoço de Paulina ).

VOZ 1- Atirei o pau no ga-to, to, mas o ga-to, to, não mor-reu, reu, reu… Dona chi-ca, ca…

        ( Paulina e Alberto se acordaram rapidamente e Paulina vê o canivete em seu pescoço ).

PA- Meu Deus! Você ia… E essa música? É a voz que acordou a gente. Mas você tinha um canivete.

AL- Esqueci meu amor.

PA- A gente tem que fazer revista par não deixar nada de perigoso por perto. Mas essa voz! Ela é nossa amiga, Alberto.

AL- É uma parte de amiga, não é uma amiga inteira, só aparece a voz, mas é uma amiga.

PA- Que amigona. Sabe o que os dedos falaram para o pé?

        ( Faz-se silêncio ).

PA- Pise com a sola.

VOZ 1- Hahahahahahahahahahahaha!

PA- Nós precisamos arranjar um nome par ela. Veja se esse você gosta? Ana Paula.

VOZ 1- Hahahahahahahahahahahaha!

AL e PA- Ela gostou.

        ( Alberto e Paulina deitam no sofá, procuram algum objeto, mas não encontram nada ).

PA- Boa noite Alberto.

AL- Boa note Paulina.

        ( Alberto e Paulina estão de um olho aberto e outro fechado, mas com o tempo eles fecham o outro olho e dizem meio com sono ).

AL e PA- Boa noite Ana Paula.

VOZ 1- Bo-a no-no-no-i-te…

 

 

 

 

FIM

Anúncios

A CASA BEM ASSOMBRADA…

4 04UTC junho 04UTC 2009

A CASA BEM ASSOMBRADA