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15 de janeiro de 2010- letra de musica CONFORME A MUSICA

15 15UTC janeiro 15UTC 2010

bem, ói… a… to colocando uma letra ed musica de minha autoria com o titulo de CONFORME A MUSICA. ta autenticada no Tabelionato Ferreira ed Curitiba Parana no dia 18 de Março de 2009… CANTE COMIGO! ta a disposição pra qualquer cantora bonita cantar, prefiro uma amiga ou seguidora… Rss! FELIZ CARNAVAL!eu sou compositor… by SAMUEL R. KROSCHINSKI apelido PIRULITO vulgo SAMI { all rigths } 169*”

CONFORME A MUSICA

eu quero é dançar… oôoô
eu quero é dançar… oôoô

movimento meu corpo,
conforme a musica toca.
( repete )

eu danço conforme a musica.
REFRÃO ( repete 6 vezes )

se é pro trabalho eu vou de terninho,
se é pra vernissage eu vou ed longo,
se é pro esporte eu vou de agasalho,
mas se é pra um rolê ( festa ) com os amigos ( as ),
eu vou de camiseta, short e chinelinho.
( repete )

se to no trabalho sigo o regulamento,
se to na vernissage vou ter ( conversar ) com o artista,
se to no esporte obedeço o tecnico,
mas se to com os amigos ( as ),
posso fazer o que quiser sem pagar mico.
( repete )

se toca samba não danço valsa,
se toca country não danço regae,
se toca forró não danço tango,
se toca tecno não danço frevo,
se toca rock não danço cigano.
( com os ritmos )

eu danço conforme a musica.
( REFRÃO )

10 de janeiro de 2010- letra de musica FAZER MUITA GENTE FELIZ

11 11UTC janeiro 11UTC 2010

bem, ói… a… to colocando uma letra ed musica de minha autoria com o titulo de FAZER MUITA GENTE FELIZ… ta autenticada no Tabelionato Ferreira ed Curitiba Parana no dia 18 de Março de 2009… CANTE COMIGO! ta a disposição pra qualquer cantora bonita cantar, prefiro uma amiga ou seguidora… Rss! FELIZ CARNAVAL! by SAMUEL R. KROSCHINSKI apelido ABISMO vulgo SAMI { all rigths } 169*”

FAZER MUITA GENTE FELIZ…

desde pequena eu sempre quis,
crescer, crescer,
bem rápido,
pra fazer muita gente feliz…
( refrão- repete 4 vesez )

levar meu canto pra todo canto,
acabar com a tristeza,
e só levar beleza…
( repete )

não quero ver gente triste,
pra isso sempre faço uma canção,
pra por alegria,
em todo coração…
( repete )

sempre quis ser cantora,
pra encher ed euforia,
essa gente manera…
( repete )

cresci, creci,cresci,
e agora sou cantora,
meu sonho se realizou,
levo felicidade pra essa gente manera…
( repete )

REFRÃO

REZANDO PRO SANTO APARECE O QUÊ?

4 04UTC junho 04UTC 2009

REZANDO PRO SANTO APARECE O QUÊ?

VALDEREZ- MOÇA- VA

CRUZ- SECRETÁRIO DO DIABO- CR

 

 

        ( entra Valderez usando um crucifixo, com uma vela na mão e vai até uma mesinha da sala, pega um isqueiro ou fósforo e acende a vela, fica em seguida de joelhos ).

VA- Nova Maria mãe de Deus, me valha sua graça, me ajuda por favor, pelo amor de Deus, eu estou aqui de joelhos. Está vendo? Eu estou de joelhos. E dói ficar de joelhos. A gente tem que ficar se mexendo por que o joelho fica estourando. Ai, uhuu, a gente tem que levantar.

        ( Valderez levanta um pouco e estica as pernas uma e depois a outra ).

VA- Ai, já descansei um pouco. Agora dá pra ficar de joelho de novo.

        ( Valderez fica de joelhos de novo ).

VA- Meu Deus, não podia ter inventado um outro jeito de rezar? Podia ser sentado e ainda numa poltrona bem macia. Um sofá daqueles que a gente senta e afunda nele. Daí seria uma graça rezar. Podia ser também na cama. Também bem macia. Cama de solteiro eu acho pequena. Devia ser em cama de casal. Já que tô pedindo não custa pedir do jeito certo. E tem mais, de joelho no chão a gente não agüenta rezar por muito tempo. Logo tem que parar por causa da dor. Veja só Deus, dói muito. Meu Deus eu te adoro. Eu sempre faço tua adoração. Todo dia eu rezo pro seu nome. Não esqueço do seu sobrenome meu Deus. Cara! Eu não sei seu sobrenome. Será que esqueci… Deixa eu ver… Esqueci mesmo… Não, eu nunca ouvi o sobrenome de Deus. Isso eu não ia esquecer. Deus eu te suplico pra iluminar meu caminho. Ele não fala o sobrenome dele pra gente não localizar ele. Deve de ser. Só pelo nome não dá pra pra achar ele. Deve ser muita gente que procura pra ter seus pedidos atendidos. Será que os pedidos são realizados por ordem de chegada? Eu não acredito que no reino de Deus tenha predileção por este ou aquele pedido. Ai, tá começando a doer de novo.

        ( Valderez se levanta e estica perna por perna, faz alongamento, se abana ).

VA- Dá um calorão ficar de joelho. Meu medo é ficar com alguma mancha no joelho. Mas vou ter que me ajoelhar de novo.

        ( Valderez se ajoelha ).

VA- Aqui estou meu Deus. De joelho novamente. Está vendo? Não por que eu queira falar alguma coisa. Mas é importante saber que o Senhor está me vendo. Está notando meu esforço, minha dedicação, meu sofrimento pra ficar de joelhos. Se o Senhor não estiver vendo é uma perda de tempo. Eu tô aqui de joelhos sem propósito nenhum. Meu Deus do céu o Senhor é a luz no meu firmamento. Amo o Senhor. Cara! Se o Senhor não tá vendo pelo menos tem um representante que vê? Daí ele conta pro Senhor. Tem? Ele tá por aqui? Ou o Senhor mesmo tá aqui? Acho que o Senhor tem muito compromisso então é provável que tenha representantes. Minha nova Santa Maria ilumina meu caminho. Eu tô desesperada. Eu acho que é melhor rezar pra Santo António também. Ele é casamenteiro. Mas espera aí. Como ele pode ser bom com casamento se não casou? Será que é por isso mesmo. Ele sabe tanto de casamento eu preferiu não se casar? Meu assunto é muito importante. É de vida e morte. Veja meu Deus, eu teria que ter preferência na fila dos pedidos. Sim, eu já fiz muita coisa na igreja. O Senhor de vê ter visto o que eu fiz na igreja. Foram tantas coisas. No meu ponto de vista eu gozo de bom conceito com o Senhor. Eu rezei, eu me confessei, eu comi a hóstia e nunca atrapalhei missa nenhuma. Fiz muita coisa pela igreja. Acho que mereço um reconhecimento. Acho que mereço que meu pedido seja atendido. Meu Santo António me atende o pedido. Ai, já não agüento mais…

        ( Valderez se levanta e novamente estica as pernas uma e outra, faz exercícios para relaxar ).

VA- É ótimo ficar de pé.

        ( Valderez ri ).

VA- Meu primeiro namorado dizia que quando ele não ficasse mais de pé ele não se importava em morrer. Eu achava uma loucura. Ficar de pé demais cansa as pernas, os pés ficam todos doidos e dormentes. É bom a gente sentar um pouco numa poltrona boa e macia. Até deitar é bom. Imagino deitar numa rede na varanda. Ficar de pé o tempo todo é loucura pra mim. Ele até dizia que bastava olhar pra mim que já ficava de pé. Mas eu achava essa conversa esquisita. Eu desconfiava do que ele falava. Pra falar a verdade eu não via com bons olhos ele ficar de pé quando me via. Ele tava inventando, se tava. Eu nunca disse pra ele ficar em pé. Como é que ele ficava em pé quando me via? Eu nunca pedi ou mandei ele ficar em pé.

        ( Valderez se ajoelha de novo ).

VA- Eu tô de novo ajoelhada meu Santo António. O Senhor tá vendo? Eu quero arrumar um namorado. Quero que o Senhor me arrume um moço. Digo isso por que sabe como tá. O Senhor pode entender que pode ser uma moça. Eu quero um moço. Entendeu. Tô cansada de viver só. Eu preciso de um moço. É um pedido simples que acho que o Senhor pode me resolver esse dilema. Quero que me tire essa angustia do peito…

        ( Valderez olha pra baixo no seu peito ).

VA- Pra falar a verdade eu tô com angústia em todo o corpo. Não é só no peito não. Tenho angústia nos braços, nas mãos, nos ombros, na barriga, nas pernas, nos pés, nos cabelos e é bom não esquecer da angústia que tô sentindo nos joelhos. Estão doendo demais. Eu tô cansada de viver só. Tô mesmo. Se bem que, deixa eu… O quê? É que me veio um pensamento. Tinha esquecido dele. Sabe, Deus diz que ele tá com a gente em qualquer lugar. Deve ser ele e os Santos, as Santas, os Anjos, as Anjas que ficam com a gente. Mas custa falar com a gente. Eu nunca dei um dedo de prosa com um deles. De que adianta ficar do nosso lado se a gente não vê nada. É como se não tivesse ninguém com a gente. Nova Maria mãe de Jesus. Bem que vocês deviam dar um sinal pelo menos. Podiam deixar um recado que estão comigo. Assim a gente ía ficar com mais segurança. Mas nem um pio.

deu, tudo bem…

4 04UTC junho 04UTC 2009

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

PEÇA TEATRAL

 

 

“ DEU, TUDO BEM “

 

 

AUTOR: SAMUEL R. KROSCHINSKI

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                      DADOS BIOGRÁFICOS

 

 

 

 

 

                          Samuel R. Kroschinski é escritor, autor do livro “ BARRIGA: UM MUNDO FEMININO, o qual está a venda nas livrarias Curitiba.

                          Samuel R. Kroschinski já teve “ ESTÓRIAS EM QUADRINHOS “ e “ CONTOS INFANTIS “ publicados no jornal O Estado do Paraná. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                      

 

 

 

Tel.: ( 041 )  3286- 9285

 

End: Rua Dês. Antonio de Paula, 92

Boqueirão- Curitiba- Paraná

CEP: 81730- 380

 

 

 

 

 

 

CENÁRIO: Um apartamento onde aparece um cômodo, a sala, com janela ( podendo ser painel ).

 

 

 

Sofá

Jornal

abridor de lata

lixa de unha

barra de chocolate

refrigerante

sanduíche

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

PERSONAGENS: JOÃO  ( PAI ) – JO

                              VALQUÍRIA ( mãe ) – VAL

                               TELMA ( filha ) – TEL

                               DADÁ ( namorado da filha ) – DAD

 

 

 

 

 

 

 

 

 

1 ATO

 

 

        ( Valquíria entra em cena esfregando a mão no avental ).

VAL- Não me amola João, você se preocupa demais, a sua filha sabe o….

JO- Pera aí, a Telma não só minha filha, ela também é sua. O que você quer insinuar? Dizem que quando o filho é bonito todo mundo quer. A Telma ta fazendo algo errado? Vai, me fala. Eu já estou até preparado, vai, me fala. Faz tempo que estou fazendo meditação só pra me preparar para uma notícia ruim.

        ( João tira um potinho de comprimidos e põe alguns na boca ).

VAL- João, se acalma, ela é filha minha também.

JO- Ainda bem que você reconhece, por que certeza que é filha sua eu não tenho.

VAL- Meu Deus. Como você diz uma coisa dessa?

        ( João balança o ombro ).

JO- Dizendo… Abrindo a boca e fechando ao emitir sons vocálicos.

VAL- Você não tem jeito mesmo.

JO- Eu tenho, tenho jeito de inteligente, perspicaz, sábio, intelectual, bem humorado…

VAL- Ta, você só tem jeito de coisa boa?

JO- Eu tenho auto estima.

VAL- Ta.

JO- Mas o que você ia dizendo, Valquíria?

VAL- Eu me perdi…

JO- Calma aí, bem. Você não se perdeu, não. Está bem na minha frente.

VAL- Você continua o mesmo.

JO- Exatamente, eu ainda não fiz nenhuma operação plástica. Continuo o mesmo. Vai, mas o que você ia falar?

        ( Valquíria tira do bolso do avental uma abridor de lata ).

JO- O que vai fazer com isso?

VAL- Não ta vendo que é um abridor de lata…

        ( Valquíria põe o abridor bem na frente da cara de João ).

VAL- Eu vou abrir sua cabeça.

JO- Minha cabeça?

VAL- É, vou abrir sua cabeça pra por alguma coisa de útil lá dentro.

JO- Mas não precisa abrir minha cabeça, me dá aqui o que você tem pra me dar que eu coloco no bolso.

        ( João mostra os bolsos da calça ).

VAL- Você não tem jeito mesmo… Eu ia falar que sua filha sabe o que faz.

        ( João anda um pouco ).

JO- Sabe não.

VAL- Como não? A Telma sabe muito bem o que faz.

JO- Sabe não.

VAL- Não me irrita, se eu estou falando que minha filha sabe o que faz é por que ela sabe.

JO- Sabe não.

VAL- Parece que o disco quebrou. Você só diz: sabe não.

JO- Agora é CD e DVD. Não tem mais disco. Disco é coisa do passado.

VAL- Mas vamos lá…

        ( João fica ansioso ).

JO- Pô! Vamos aonde? Vamos aonde? Vamos comer uma pizza? Um hambúrguer?  Vamos tomar um sorvete?

VAL- Não é isso. Eu quero saber por que você ta dizendo que a Telma não sabe o que faz.

JO- A nossa Telma sabe cozinhar?

        ( Valquíria abaixa bem os braços ).

VAL- Não.

JO- A nossa Telma sabe costurar?

VAL- Não.

JO- A nossa Telma sabe lavar e passar a roupa?

VAL- Não.

JO- A nossa Telma sabe trocar uma lâmpada?

VAL- Não.

JO- A nossa Telma sabe instalar um botijão de gás?

VAL- Não.

JO- A nossa Telma sabe pregar uma tábua?

VAL- Não. Mas pra quê ela precisa saber de tudo isso? Só se for pra se preparar quando tiver o azar de encontrar um homem igual a você.

JO- Azar?

VAL- Ta na cara que é azar, e é muito azar mesmo.

JO- Pelo menos eu te dei alguma coisa.

        ( Valquíria põe as mãos na cintura ).

VAL- Me deu alguma coisa, o quê?

JO- Você mesma me disse. Eu te dei azar. Teve tempo que você disse que eu nunca te daí nada. Veja só, eu te dei azar, já é alguma coisa. Viu, eu te dei alguma coisa.

VAL- Eu nem sei mais onde estava.

JO- Aqui mesmo, Valquíria, você nem saiu do lugar.

VAL- Eu sei. Lembrei. Eu disse que a Telma sabe o que faz.

JO- Eu já provei que ela não sabe. Você ta muito preocupada com a Telma.

VAL- Eu?

JO- É, você mesma.

VAL- Por acaso você lê pensamento? Não, isso não. Você é incapaz de ler pensamento. Sua escrita e leitura é muito ruim. E tem mais João, você acabou de dizer que filho feio ninguém quer ser o pai ou a mãe. Aí você comete um grave erro.

JO- Onde? Eu sei que errei muito nas provas da escola. Errei no vestibular…

VAL- Não é isso João, eu estou fanado que você comete um erro ao dizer que Telma é feia.

JO- Eu não disse isso. É até pelo contrário, eu não gosto que a nossa filha seja bonita como é. Pra mim esse ditado seria: toda filha feia eu queria ser pai.

VAL- Não diga uma coisa dessa. Onde já se viu.

JO- Eu falo sim. Eu preferia que a nossa Telma fosse feia, bem feia, muito feia, exageradamente feia.

VAL- Não fala assim.

 JO- O quê?

VAL- Eu disse pra você não falar assim.

JO- Quer que eu afine a voz par falar, ou quer que eu engrosse a voz para falar, ou quer que eu fale gaguejando, ou quer que eu fale comendo letras…

VAL- Para João. Não é isso, diacho. Eu quero que você pare de falar que a nossa Telminha tinha que ser feia.

JO- Mas é a mais pura verdade. A Telma devia ter umas pernas cheias, repletas, completamente tomadas de varizes, igual as pernas de sua mãe.

VAL- Mas por quê?

JO- Por assim ela não ia usar aqueles shorts mostrando suas pernas sem um defeito sequer…

VAL- Que horror!

JO- Hoje o filme que vamos assistir é de terror?

VAL- Estou falando de você querer que a nossa lindinha Telma tenha pernas feias.

JO- Eu não disse feias. Eu disse com varizes.

VAL- E não dá na mesma?

JO- Tem gente que pode gostar.

VAL- Me diga um que goste de varizes.

JO- Pô! Para quem gosta de tatuagem a varize é uma espécie de tatuagem na perna.

VAL- E ta mais horror ainda.

JO- E não é só isso, eu queria que ela tivesse pouco cabelo como meu pai tem. Assim não viveria jogando aquele cabelão de um lado pro outro espalhando perfume na cara de todo mundo.

VAL- Parou?

JO- Não, ainda tem mais. A nossa Telma também devia ter os dentões pra fora de sua avó. Assim ela não ia derreter os corações de todo mundo com seu sorriso propaganda de pasta dental.

VAL- Agora parou?

JO- Ainda não. Ela devia de ter as unhas bem encravadas como meu avô. Assim a nossa Telma não ia usar essas sandálias e rasteirinhas mostrando seus pezinhos tão bonitinhos.

VAL- Tem mais?

JO- Não me desconcentre…

VAL- Mas você nem tá na concentração de futebol…

JO- Fazendo piadinha, Valquíria?

VAL- Eu falei sério.

JO- Eu sei, você nem riu.

VAL- Para João, deixa de ser agourento.

        ( João senta no sofá ).

JO- Não é ser agourento Valquíria. Mas a nossa filha só puxou o lado bom de nossa família.

        ( Valquíria pega uma lixa de unhas do bolso do avental e começa a lixar as unhas ).

VAL- Por falar em puxar, a nossa Telma puxou mais eu que você…

JO- Pô! Ela puxou você? E puxou mesmo.

        ( Valquíria ergue as mãos ).

VAL- Ainda bem que você reconhece isso. Reconhece que nossa Telma puxou mais eu.

JO- Lógico, ela só dá bola pra qualquer um.

VAL- Repita se for homem.

JO- Você sabe que sou homem. Ninguém mais que você deve saber que eu sou homem. Você sabe. Você já viu minha identidade, meu CPF, minha carteira de trabalho, meu titulo de eleitor…

VAL- E o que tem isso a ver com a nossa conversa?

JO- Tem tudo. Nesses documentos tem escrito que eu sou homem. Do sexo masculino.

        ( Valquíria encosta a lixa de unha na cara de João ).

VAL- Você disse que a nossa filha dá bola pra qualquer um e me puxou? Então eu assino embaixo.

JO- Viu, agora você reconhece que estou certo…

        ( João fica muito feliz ).

VAL- Reconheço por que eu dei bola pra qualquer um.

JO- Viu, eu sempre tenho razão.

VAL- Eu dei bola pra qualquer um, eu dei bola pra você. Um qualquer um da vida.

        ( há um silêncio ).

JO- Mas não esqueça que tua bola já estava murcha.

VAL- Por que você diz isso?

JO- Muito jogador chutou ela antes de mim. Foi loucura de jogador principiante. Eu deixei de ter muitas bolas oficiais para ter uma bola fajuta.

        ( Valquíria chacoalha o bumbum ).

Valquíria- Bem que você ficava louco pra meter um gol, diacho. Vamos lá, admita.

        ( João fica orgulhoso ).

JO- Veja bem, até que eu era um atacante dos bons, não perdia uma pelada. Não esqueço de você pelada há alguns anos. Passe na área eras gol na certa.

VAL- Ta dizendo que não sou nova, mas com você acontece a mesma coisa. Agora aquele artilheiro está aposentado…

JO- Pô! Jogador não se aposenta. Ele para de jogar no campo, mas vira técnico ou comentarista de esporte para Rádio, TV, Revista ou Jornal.

VAL- Que vá. Até penal agora você perde. E olha que penal é difícil de errar.

JO- Eu perco os penais por que você se mexe antes de eu chutar.

VAL- Isso é desculpa.

JO- Não é não, eu não preciso pedir desculpa por não ter mais tanta intimidade com a bola. Só pra torcida, mas pra você não. Se vaza essa história meus amigos vão tirar onda de mim. São as preocupações que não me deixam lembrar de bater uma bola com você.

VAL- Dizem que embaixo do gol não nasce grama, mas o meu gol já está todo tampado, de tanto que o artilheiro não chega.

JO- Em primeiro lugar não é só o artilheiro que marca gol. Pode ser o meio de campo, o lateral direito, o lateral esquerdo, um zagueiro e até o goleiro. E em segundo lugar seu gol já está todo tampado mesmo. Deve ser por preguiça de se depilar. E eu gosto muito mais de depilada. Isso sim. Estou precisando de calma.

VAL- Se você se acalmar mais do que é eu vou ter que te levar para um seminário.

        ( João pega um jornal enrola e começa a bater sobre a mesa num movimento de sobe e desce ).

VAL- Hã!

        ( Valquíria presta atenção no movimento de João subindo e baixando a cabeça ).

VAL- Cuidado!

JO- Pô! Cuidado com o quê?

VAL- Logo você goza.

JO- Valquíria, me deixa em paz…

VAL- Não disse, você acabou de gozar e agora quer paz.

        ( João se senta no sofá com a cabeça baixa ).

VAL- Foi Bom?

        ( Valquíria vai até João ).

VAL- Eu só estava brincando.

JO- Brincando?

VAL- É, eu estava brincando com você…

JO- Eu não estou vendo nenhum brinquedo. Não tem patins nem skate nem bicicleta nem vídeo game…

VAL- Querendo te animar… Mas diga, o que te preocupa tanto, diacho?

JO- Eu penso muito na Telma.

VAL- É só isso?

JO- Você também pensa nela?

VAL- Desde que a Telma nasceu. Não dá pra esquecer dela. A gente vê ela todo dia. E eu ainda lavo e passo e costuro a roupa dela. Cozinho pra ela. Lavo a louça dela. Limpo e arrumo o quarto dela. Fazendo tudo isso não dá pra esquecer de nossa Telma.

JO- Eu estou preocupado com ela.

VAL- Mas o que ela tem?

        ( João anda de um lado para o outro ).

JO- Valquíria meu amor, deixa de tititi, a nossa Telma não tem nada. Tudo que ela usa é nosso. Ela nem começou a trabalhar ainda. Como é que você vem dizendo: o que ela tem? A Telma não pode ter nada. Tudo é nosso. E tem mais, eu sempre falei pra ela não aceitar nada de estranho. É por isso que você fez essa pergunta? O que ela tem?

VAL- Meu Deus do céu…

JO- Não sei por que você diz isso?

VAL- Digo o quê?

JO- Acabou de dizer.

VAL- Acabei de dizer o quê?

JO- Meu Deus do céu.

VAL- E o que tem dizer isso?

JO- Todo mundo sabe que Deus é do céu, não precisa dizer “ meu Deus do céu “.

VAL- Não desvia do assunto…

JO- Como não, Valquíria, se eu não desviar desses móveis eu bato neles.

VAL- Me dá vontade é de bater na tua cara. Por que você ta preocupado com ela?

JO- Ela está diferente, querida.

VAL- Pra mim ela continua a mesma coisa: o corte de cabelo é o mesmo, deixa eu ver, ela não engordou, ela come um prato de comida ainda, não arruma seu quarto, não faz a lição de casa… Pra mim a Tela continua a mesma.

JO- Não é isso.

VAL- Então o que é?

JO- Senta.

        ( Valquíria senta ).

JO- Acho que a nossa Telma ta…

        ( João faz sinal com a mão ).

VAL- Está o que, continue…

JO- Ta fazendo…

VAL- Fazendo o quê, diacho?

        ( João coça a cabeça ).

JO- Sexo.

VAL- O que você disse?

JO- Sexo.  

VAL- O que você disse?

JO- Sexo. 

VAL- O que você disse?

JO- Sexo.  

VAL- O que você disse?

JO- Sexo.  

VAL- O que você disse?

JO- Não dá mais, pára. Por que ta me perguntando tanto o que eu disse?

        ( Valquíria põe as mãos no bolso ).

VAL- Pra fazer sexo oral com você. É tão bom te ouvir falando em sexo.

JO- Pô! O assunto é sério, Valquíria. Sério mesmo. Eu disse que nossa Telma já se perdeu.

VAL- E como vamos achar ela? Será que é por isso que ela não chegou ainda? Será que devemos telefonar pra polícia?

JO- Minha Valquíria, entenda, eu acho que a nossa Telma está fazendo coisas.

VAL- Mas a minha Telma não sabe fazer nada. Eu nunca vi ela fazendo alguma coisa.

JO- Ó Santo, ele deve ta de beijo e abraço por aí.

        ( Valquíria se descontrai ).

VAL- A Telminha tem o costume de beijar e abraçar as amigas, não tem nada de mais.

JO- Não é amiga, é rapaz…

VAL- E isso é uma coisa normal. Acontece por todo canto. Veja que nas novelas isso é comum.

JO-  Disse bem, nas novelas. Lá eles e elas ganham pra isso. Beijar e abraçar faz parte da profissão e eles e elas têm até carteira registrada.

VAL- Você ta querendo dizer que nossa Telma devia cobrar?

JO- Não, não é isso. Eu não quero que ela seja prostituta.

VAL- Você quer que ela faça de graça?

JO- Não, não é isso. Eu prefiria que a nossa Telma não fizesse. 

VAL- Por isso você queria que nossa filha fosse feia, mor?

        ( João se senta ).

JO- É.

        ( João começa a chorar ).

JO- É difícil pra mim encarar essa situação. Quando era nova eu não pensava nessas coisas.  Era minha filha.

VAL- Nossa filha…

JO- Eu decerto, pensava que nossa filha nunca ia fazer certas coisas. Eu sei que é besteira. Me machuca…

        ( Valquíria se espanta ).

VAL- Deixa eu ver onde você se machucou. Eu aço um curativo…

JO- É o jeito de falar. Me machuca por dentro. Quando vejo a nossa Telma eu vejo ela tirando a roupa, as meias, uma música sensual de fundo, umas luzes piscando, bebida…

        ( Valquíria fica aterrorizada ).

  JO- A nossa Telma ainda tira os sapatos, faz caras e bocas, dança e fica só de biquíni de duas peças.

VAL- Pára, diacho!

JO- Pô! Parar por quê?

VAL- Cínico!

JO- Por quê?

        ( Valquíria fica de costas para João ).

VAL- Estou decepcionada.

JO- Mas por quê?

VAL- Ainda pergunta. Não tem vergonha?

JO- De quê?

VAL- Como eu pude ficar casada tanto tempo com um homem estranho?

JO- Você não me contou que tem um segundo casamento.

VAL- Segundo casamento?

JO- É óbvio, Você acabou de dizer que não sabe como ficou casada tanto tempo com um estranho. Eu não sou. Eu não sou estranho pra você. Então deve ter um outro na jogada.

VAL- Não diga besteira. Eu estou falando do jeito que você falou da nossa filha Telma. Você deseja ela.

JO- E eu desejo ela, mesmo.

        ( Valquíria grita ).

VAL- E ainda reconhece. Com tantos casos de amor obsceno que dão no rádio, na TV, nos jornais e revistas você vem dizendo que deseja nossa filha?

JO- E você não?

VAL- Não me ponha no meio. Eu não sou desvirtuada sexualmente. Eu não desejo minha filha. A bem do mais eu não sou lésbica.

JO- Olha pra mim.

        ( Valquíria continua de costas pro João e começa a chorar ).

VAL- E tem mais. Eu sempre me dei por feliz com você. Eu não precisei ter desejo por ninguém mais, muito menos por minha filha.

        ( João toca em Valquíria ).

VAL- Me larga.

        ( João faz Valquíria se virar de frente pra ele ).

JO- Você deseja sua filha é como você gostar dela, querer ela, estar contente dela ser nossa filha. Não a ver com sexo.

VAL- Mas você falou que imagina ela tirando a roupa. Isso é o quê?

JO- Você não me deixou terminar.

VAL- E tem mais ainda. Não tem vergonha na cara?

JO- Deixa eu terminar, por favor, fica caladinha, por favor…

        ( Valquíria enxuga as lágrimas com a mão ).

VAL- Está bem, diacho! Pode terminar.

JO- Eu também imagino aquele homem cafajeste tirando a roupa, sem camisa, seu peito nu, começando a abrir o zíper da calça e aos poucos…

VAL- Pára!

JO- O que foi dessa vez?

VAL- Pára!

        ( Valquíria põe a mão nos olhos ).

VAL- Eu não quero nem ver.

JO- O que você não quer ver.

VAL- E eu que fiquei casada com você todo esse tempo e nem percebi…

JO- Percebeu o quê?

VAL- Que você é gay.

        ( João dá um salto ).

JO- Eu gay? De onde você tirou essa idéia?

VAL- O que eu vou dizer pra amigas? E pra Telminha?

JO- Eu não sou gay.

VAL- E você agora mesmo acabou de falar que queria ver um homem tirando a roupa…

JO- Me deixa terminar…

VAL- Já sei onde vai parar. Vai terminar com orgias…

JO- Não é isso. Eu fico imaginando toda vez que nossa filha sai ela se amassando com algum rapaz. É isso, Viu, falei.

VAL- Mas fique tranqüilo João.

JO- Por que? Você ta sabendo de alguma coisa? A nossa Telma não tá fazendo nada de mais?

VAL- A Telma pelo que ouvi ela falando com as amigas não fica por baixo. Ela gosta de ficar por cima quando está com o homem dela. Portanto ela não fica amassada. Você disse que fica se amassando. Ela não se amassa. Nossa filha amassa o homem dela. Entendeu?

JO- E eu to com a cara amassada, agora. Você diz com a maior naturalidade?

VAL- Eu só ouvi, não tenho certeza de nada. A Telma não me conta nada. Tá mais calmo?

JO- Não sei mais de nada.

        ( Valquíria puxa João e se sentam no sofá ).

JO- Você acha que é loucura minha, mas eu estou percebendo tudo que está se passando aqui em casa.

VAL- Que ótimo João.

JO- Ótimo?

VAL- Lógico, você nunca percebeu quando eu trocava uma toalhinha de mesa, quando eu trocava as flores, quando eu colocava um perfume, quando eu cortava meu cabelo… Você nunca percebeu e agora vem dizendo que tá percebendo tudo aqui na nossa casa. Eu estou maravilhada.

JO- Menos, Valquíria!

        ( João coça a cabeça ).

JO- Valquíria, você percebeu uns saquinhos…

VAL- Deixa eu falar de cara. Eu percebi desde nossa primeira noite o saquinho, mas eu nunca reclamei do tamanho. Acho que tá de bom tamanho. Eu tinha um horror de me machucar…

JO- Deixa eu falar…

VAL- Fazer o quê? Pode falar…

JO- São esses saquinhos que dá pra usar uma única vez…

VAL- Como uma única vez. Eu usava toda noite. E nunca faltou. Não se lembra mais?

JO- Não é isso. Eu estou falando de saquinho de xampu.

        ( Valquíria ri ).

JO- Pô!  Eu vi no quarto dela.

VAL- Como pode? Isso é um sacrilégio?

JO- Viu, ainda bem que você concorda comigo, eu sabia que você ia ficar do meu lado.

VAL- Com que direito você invade o quarto da Telma? Isso é invasão de privacidade.

JO- A casa é minha. E o quarto faz parte da casa ainda.

VAL- Eu acho feio mexer nas coisas do filhos.

JO- Eu nunca mexi nas coisas de minha filha, seria incapaz disso. 

VAL- Santo Deus! Eu estou falando de mexer nos objetos dela.

JO- Não mude de conversa, Valquíria.

VAL- Vai, termina.

JO- Pois bem, esses xampus tem o nome de hotel.

VAL- Meu querido, tá aí. Tem nome de hotel e não de motel. Entendeu, não tem nome de motel. Esses xampus foram presentes do Dada.

JO- Santa Emengarda! Você tá dizendo que nossa filha tá dando?

VAL- Dando o quê? E nossa filha tem alguma coisa pra dar? Com o pai que ela teve. Ela vai tirar do corpo pra dar pra alguém?

JO- Eu estou falando de rola rola.

VAL- É isso, diacho? A Telma adora rola rola.

        ( João se levanta ).

JO- Meu Deus, o que eu fiz pra merecer isso? Eu devo ter pecado muito. Ouvir que minha filha adora um rola rola acaba comigo. Me diz Valquíria, como você sabe que nossa Telma adora um rola rola?

VAL- É que você não se interessa por ela. É só olhar no quarto dela.

JO- Eu custo a acreditar. Ela está fazendo rola rola no seu quarto? Em nossa casa?

VAL- E onde mais ela vai fazer?

JO- Ela não tem respeito nem pela casa dos pais.

VAL- Que drama, o que tem ficar rolando na cama pra lá e pra cá?

JO- E o homem dela?

VAL- Que homem?

JO- O namorado dela?

VAL- E eu vou saber.

JO- A Telma rola sozinha?

VAL- É evidente, João.

JO- Você acaba de tirar um peso da minha costa.

VAL- Eu acho que não tirei nada. Na sua costa não tinha nada. Nadinha. E a Telma gosta muito desses xampus.

JO- É um disparate. Todo mês eu compro xampus de um litro e ela não me fala nada. E você diz que a nossa Telma fica contente com um xampu de 30ml.  Pô! Confesso que não tem sentido.

VAL- Não seja gaga. Se fosse xampu de motel até aceiraria tua preocupação.

JO- Motel e Hotel é tudo a mesma coisa agora. As moças ficam com menos medo de ir a um Hotel. Deve ser medo.

VAL- Como você sabe que é medo.

JO- Motel começa com M… M de medo.

        ( Valquíria passa a mão na cabeça de João ).

VAL- Lembra que você transava comigo em meu quarto papai e mamãe iam pra missa?

JO- Se lembro, seus pais diziam pra você não sair de casa.

VAL- E eu obedecia eles.

JO-  Mas eu não gosto de lembrar desses assuntos de sexo. Me faz lembrar da nossa filha fazendo sexo, pô! E olha que tem mais. Eu vi também toalhinhas com o nome de outro hotel.

VAL- Isso é de preocupar.

JO- Eu sabia que você ia concordar comigo. Até que enfim. Viu como o que está acontecendo com nossa Telma é grave.

VAL- Por que será que o Dada não gostou do outro Hotel e teve que mudar?

        ( Valquíria fica reflexiva ).

JO- O que você ta dizendo?

VAL- Diacho, Se ela trouxe a tolha de outro Hotel é por que não foi bem atendida pelo primeiro. Será que não gostaram de nossa filha? Será que ela não pagou a conta? Será que ela fez muito barulho?

JO- E você percebeu que esses hotéis ficam aqui mesmo em Curitiba? Me diz uma coisa. Esse Dadá tem casa?

VAL- Parece que tem.

JO- Por que ele iria pra um Hotel se tem casa?

VAL- Talvez tenha um pai como você.

        ( João aponta pra si próprio ).

JO- Eu?

VAL- Você mesmo, sim senhor. Fica aí só procurando chifre na cabeça de cavalo.

JO- Eu não, eu sei que cavalo não tem chifre.

        ( João bate no peito e vai rapidamente buscar a toalha e o xampu, sai e entra ).

JO- Veja aqui, leia o que tá escrito nesse frasquinho.

VAL- Pra cabelos danificados, que maravilha, acho que vai ser bom pra mim. O que acha do meu cabelo? Tá meio ruim, não é?

JO- Pô! Será o Benedito? Não é nada disso que estou falando. Leia o endereço.

        ( João mostra com o dedo o lugar pra ler ).

VAL- Uma coisa tem a ver com a outra…

        ( João faz sinal pra ela continuar ).

VAL- Por que depois que a gente lava a cabeça com o xampu a gente também precisa usar o condicionador. Tá feliz?

JO- Eu não agüento.

VAL- Não era isso pra eu ler?

JO- veja o endereço, Veja bem, do xampuzinho o Hotel é bem mais longe. Agora o Hotel da toalha tem o endereço aqui perto. São umas quatro quadras. Eles estão fazendo isso embaixo da minha barba.

VAL- Que barba? Você nunca deixou a barba crescer.

JO- To falando que eles agora estão bem perto da gente.

VAL- Eu sempre digo pra Telma: pra sua segurança sempre fique perto de sua casa. Não vá pra longe.

        ( abre a porta principal ou um barulho de porta e a Telma entra com um pouco de pressa ).

VAL- Minha filha querida…

JO- Nossa…

VAL- Tá bem, nossa filha querida, nós estávamos falando de você. Você vai ter vida longa.

TEL- Bem que eu senti minha orelha quente.

        ( Telma aponta a orelha esquerda ).

JO- Só a orelha?

TEL- Em todo corpo papai, hoje tá um calorão, não é?

        ( Telma se aproxima da mãe e lhe dá um beijo no rosto e para o pai dá um aceno ).

TEL- Olá pai!

        ( Telma deixa a bolsa em cima da mesa ).

JO- Mas hoje tá fazendo 20 graus.

TEL- Vou trocar de roupa rapidinho, mãe.

VAL- Pra quê?

TEL- Vou sair com o Dadá.

VAL- Não vai comer com a gente?

TEL- O Dadá vai me levar pra comer.

        ( João põe a mão na cabeça ).

JO- Isso ele vai mesmo.

        ( Valquíria olha pra João com cara de reprovação ).

VAL- Diacho, que cabeça, esqueci uma panela no fogo.

        ( Valquíria corre pra cozinha, sai de cena e entra com a panela com o risoto todo preto ).

VAL- Veja João, você me perturbou tanto que acabei queimando o jantar. Vela esse arroz.

JO- Tá parecendo feijão. Agora isso quer dizer que não vamos comer.

TEL- Mas eu vou.

JO- Quem vai comer é o Dadá…

TEL- Lógico papai, o Dadá come muito mais que eu. Ele tem um apetite. Não pode ver uma carne.

        ( João disfarça sua raiva e ri ).

JO- Pô! Mas com esse filé quem que não iria querer comer?

VAL- Me passa um dinheiro, João, que eu vou comprar uns pães pra fazer sanduíche.

        ( João tira uns trocados do bolso e dá par Valquíria ).

VAL- Espera um pouco que eu já volto.

        ( Valquíria sai ).

JO- Mas que cheiro ruim desse cozido.

TEL- Vou tomar um banho.

        ( Telma sai de cena e volta com blusa, sapatos, e calça ).

JO- O que tá me olhando Pai?

JO- Nada filha.

TEL- O senhor tá me chamando de nada?

JO- Não, claro que não. Eu só quis dizer que estou olhando por olhar.

        ( Telma sai de cena ).

JO- Pô! Antes eu chegava a brigar com a Telma pra ela não ficar andando pela casa semi nua. Ela costumava…

        ( João enumera com os dedos ).

JO- 1- Ir até o quarto tirar a roupa e vir enrolada só com a toalha, até descalça ela vinha… 2- Passava pela sala… 3- Eu dizia que modos são esses de andar quase pelada pela casa? 4- A minha Telma respondia: eu nasci assim. Pensando bem, ela tem razão… 5- Ela saia enrolada na toalha e ia se trocar no quarto… 6- Eu dizia: não tem vergonha? 7- A minha Telma respondia: vergonha de que? Deus me fez assim. Pensando bem, ela tem razão… Mas se for analisar bem a resposta dela tem um erro. Deus não fez ela assim, não fez mesmo, pelo menos numa parte. Antes a Telma estava inteira. Agora nem tanto. Sabe aquela pele? A virgindade. E Deus me fez assim. Ela tem coragem de dizer isso. Deus fez ela com o hímem da virgindade e agora bau-bau. Cadê a virgindade dela? Será que não é o complexo de Eva? Eu me lembro direitinho da Estória de Adão e Eva. Deus fez Adão e Eva, o paraíso. Ambos andavam nus por que não conheciam o pecado. Depois veio a árvore proibida, a tal da macieira, a serpente, Eva comeu a maçã e deu pro Adão. Eva deu a maçã pro Adão. Ele foi guloso e comeu as duas. E daí eles que andavam peladões pelo paraíso tiveram que se cobrir com folhas. Naquele tempo não tinha Shopping. Será que não tá acontecendo a mesma coisa? A Telma fez o pecado e está com vergonha de mostrar seu corpo.

        ( Valquíria entra com um pacote de pão ).

VAL- Olha aqui, bem, eu trouxe o pão e patê pra gente comer ).

        ( Valquíria tira o patê e mostra para o João ).

VAL- Deve estar uma delícia, vamos comer?

JO- Não tenho fome, isso me faz lembrar algo.

        ( Valquíria prepara um sanduíche, faz um corte no pão de água, espreme o patê dentro do pão ).

VAL- O que você tem?

JO- É a nossa Telma. Você sabe que hoje ela não passou por aqui só com aquela toalha cobrindo o corpo? Foi e voltou do banho toda vestida.

VAL- Isso não é bom, é ótimo. Ela está te obedecendo. Lembra que você vivia dizendo pra ela passar por aqui vestida?

JO- É, mas ela demorou uns dez anos pra me obedecer.

VAL- Mas obedeceu. Isso é que importa.

JO- Mas depois de dez anos?

VAL- Você encrenca por besteira, diacho! Não adianta tentar argumentar. Você já tem opinião formada.

JO- Não é besteira, não. Você que não entende a gravidade…

        ( Valquíria dá um salto ).

VAL- O que você disse?

JO- Eu nem sei…

VAL- Você disse que a Telma está grávida…

JO- Eu disse que a nossa Telma tá grávida?

VAL- É, você disse.

JO- Eu falei que você não entende a gravidade…

        ( Valquíria grita ).

VAL- Como eu não entendo a gravidade? Eu já fiquei grávida. E foi justamente da Telma. Eu entendo e muito bem da gravidade sim. Fiquei barriguda, tinha desejos, tinha enjôos, vomitava, engordei muito, passava cremes pra não pegar estria, fazia uns movimentos pra exercitar o corpo, falava com o bebê na barriga…

JO- Eu disse que o assunto é delicado…

VAL- Quem é gay?

JO- Pô! Será o Benedito. O assunto é importante.

        ( Telma entra com o cabelo bem arrumado ).

TEL- Pai, mãe, estou indo.

VAL- A que horas volta?

TEL- Eu não sei, mas logo estou de volta.

VAL- Leve a chave.

TEL- Não mãe, a gente só tem essa chave.

JO- Mas a gente não vai sair.

TEL- Não, isso não.

JO- Mas por que não quer levar? 

TEL- Pai, pode acontecer muita coisa, fogo, explosão, desabamento, enchente e vocês vão ficar aí trancados só por que não têm a chave?

        ( Telma sai ).

JO- Tá vendo Valquíria?

        ( João fica imóvel, de olhos arregalados, boca aberta e mudo ).

VAL- Diacho! O que aconteceu querido?

        ( Valquíria passa a mão pela frente dos olhos de João, bate palmas, dá um beliscão nele, grita no seu ouvido e nada ).

VAL- TELMA!

        ( João recobre os sentidos ).

JO- Você viu?

VAL- Vi o quê?

JO- Você viu?

JO- Você viu?

VAL- Vi o quê?

JO- Você viu?

JO- Você viu?

VAL- Vi o quê?

JO- Você viu ela dizer que aqui pode pegar fogo, desmoronar, explodir e outras catástrofes.

VAL- É força de expressão.

JO- E haja força de expressão  A nossa Telma quer que a gente morra pra ela vir se instalar aqui com esse Dadá. Daí vai ser como no paraíso.

VAL- Você tá perdendo a razão.

JO- Nunca perdi essa tal de razão por que nunca tive ela. Você não prestou atenção no jeito dela. Ela está diferente.

VAL- E tem que estar João. A nossa Telma tem que estar mesmo diferente.

JO- Por que diz isso?

VAL- Ela mudou o corte de cabelo. Deve ser por isso que você está achando ela diferente. E ela me avisou que ia cortar o cabelo…

JO- Você ela avisa. Mas ela avisa tudo?

        ( Valquíria balança os ombros ).

VAL- Mais ou menos.

JO- A nossa Telma não te contou se tá ou não fazendo aquilo?

VAL- Se explique melhor. O que é fazendo aquilo?

JO- Ela não disse que está transando?

VAL- Não, acho que não.

JO- Como sabe?

VAL- Eu sei.

JO- Mas você tem certeza?

VAL- Que ela não está transando?

JO- É. Vamos, me diga como sabe que ela não ta transando.

VAL- É muito simples. Eu ainda não vi nenhum papel de ação da bolsa de valores. Eu nunca vi, mas assim que por os olhos em cima de uma ação eu sei que vou reconhecer.

JO- Pó! Não é isso, minha Valquíria. Eu quis dizer se ela não está  trepando.

VAL- Trepando?

JO- É, trepando. A nossa Telma está trepando?

VAL- Deixa eu ver, diacho.

JO- Vai, responda logo.

VAL- Não.

JO- Tem certeza?

VAL- Tenho.

JO- E como você tem essa certeza?

VAL- Aqui na nossa casa não tem árvore. Pelo menos aqui ela não trepa.

JO- Será o Benedito.

VAL- Mas não posso dizer da casa de suas amigas. Daí pode ser que nelas tenha árvores. Assim a Telma pode trepar na casa de uma amiga.

JO- É, eu merecia.

VAL- Hã!

JO- Eu quis dizer se a nossa Telma não ta fazendo coisa que não devia.

VAL- Ta sim.

JO- Até que enfim.

VAL- Eu mesma vi.

JO- Isso é o cúmulo! Ela ta fazendo na frente tua? E você deixa?

VAL- Eu vou fazer o quê?

JO- E como foi?

VAL- Esses dias ela abusou da comida, comeu uns três pratos e ainda comeu a sobremesa e repetiu várias vezes. Eu disse pra ela manerar. A Telma ta muito bonita então tem que cuidar do corpinho. Depois engorda e daí não adianta reclamar.

JO- De novo. O que eu faço? Eu quis dizer se a nossa Telma não ta pulando a cerca?

VAL- De jeito nenhum.

JO- Eu fico mais aliviado. Tem certeza?

VAL- Absoluta.

JO- Como tem essa certeza?

VAL- Eu nunca vi a nossa Telma pulando a cerca de nossa casa. Pra que ela ia fazer isso. Tem o portão. É tão fácil sair de nossa casa. É só sair pelo portão.

JO- Mais uma vez.

        ( João cochicha no ouvido de Valquíria ).

VAL- Por que não falou que era isso?

JO- Por quê?

VAL- Daí eu já tinha respondido muito antes.

JO- Então fala.

VAL- Um dia desses eu perguntei pra Telma se ela estava fazendo essas coisas.

JO- E o que ela respondeu?

VAL- Disse pra eu perguntar pro Dada.

        ( João coloca a mão na cabeça ).

JO- Não, isso não.

VAL- Eu fiquei feliz.

JO- Por quê, criatura?

VAL- Se ela não sabe é por não está fazendo.

JO- Mas por outro lado ela manda perguntar para o Dadá.

VAL- Talvez ela saiba de alguma coisa.

JO- Sua ingênua, se ela mandou perguntar para o Dadá é por que não teve coragem de admitir e nem coragem de mentir.

VAL- Desse jeito você vai me deixar preocupada.

JO- Já era pra estar preocupada há muito tempo.

VAL- Me deixa respirar um pouco, diacho. Eu estou muito confusa.

        ( João abana os braços na frente de Valquíria ).

JO- Está bom?

VAL- Ai!

JO- Quer respiração boca a boca?

VAL-  Respiração boca a boca?

JO- É.

VAL- Eu nem estou conseguindo respirar e você quer tampar minha boca? Isso é que não.

        ( João pega um jornal e abana mais ainda Valquíria ).

JO- Está bem agora?

VAL- Pra sua informação eu estou melhor.

JO- Nós precisamos ter um conversa séria com a Telma.

VAL- Isso não vai ser novidade.

JO- Por que tá dizendo isso?

VAL- A Telma nunca gostou e piada. Ainda não percebeu que nossa filha é séria?

JO- A gente precisa ter uma conversa sobre aquilo que eu cochichei no teu ouvido.

VAL- Mas você não pode se exaltar com ela.

JO- Não, eu só quero saber o que tá acontecendo com nossa Telma.

        ( Valquíria anda de um lado pro outro ).

VAL- E o que vai fazer?

JO- Nada, eu estou de férias. Quero só descansar.

VAL- Estou dizendo se ela está mesmo fazendo aquelas coisas que você me cochichou.

JO- Não sei não, eu saio de mim.

VAL- Meu Deus, você vai sair do corpo? Se você sai do corpo é um encosto. Você não é o meu João. É um espírito maldito que tomou o corpo dele. Sai daí.

        ( Valquíria dá tapas nas costas de João ).

VAL- Sai espírito maldito. Saia!

JO- Não é nada disso, Valquíria. Foi um jeito de falar.

VAL- Eu pensei que fosse um espírito. Você disse que ia sair do corpo. Queria que eu pensasse o quê?

JO- Você reparou que a nossa Telma tá dando risadinha pelos cantos?

VAL- Não.

JO- Não?

VAL- Não.

JO- Como não, ela passa toda hora dando risadinha pelos cantos.

VAL- A Telma não dá só risadinha pelos cantos da casa. Ela dá também risadinha no centro dos cômodos, nas portas, nas janelas.

JO- Ela também está andando com um olho meio aberto e o outro meio fechado…

VAL- Espera aí. Isso eu sei.

JO- Então fala logo.

VAL- Ela esses dias estava com uma irritação nos olhos.

JO- Será o Benedito?

VAL- Estava sim.

JO- A Telma tá com jeito de quem bebeu.

VAL- Mas isso tá mesmo.

JO- Explica.

VAL- A gente tem que beber bastante líquido todo dia. Deve ser por isso que ela estava com acara de quem bebeu.

JO- Ela anda como quem está pisando nas nuvens.

VAL- Isso eu já acho impossível.

JO- Impossível por quê?

VAL- Ela nunca entrou num avião. Como é que ela ia andar nas nuvens?

JO- Eu estou vendo a Telma, afinal eu vejo ela a todo momento…

        ( Valquíria põe uma mão acima dos olhos e fica procurando algo ).

VAL- Você tá vendo a Telma?

JO- Claro!

VAL- Mas como, se ela nem está aqui?

JO- Valquíria, pelo amor de Deus, eu estou notando o comportamento da Telma.

VAL- Anotando? Isso é bom. É bom anotar que a gente nunca esquece. Já tá tudo anotado.

        ( João cochicha no ouvido da Valquíria ).

VAL- Eu pensei que você tivesse vendo ela e eu não. Agora entendi.

        ( um tempo de silêncio ).

VAL- Ontem a Telma me pediu pra eu fazer um bolo par ela levar pro Dadá comer.

        ( João estala os dedos ).

JO- Está vendo?

VAL- Vendo o quê?

JO- O quê?

VAL- A Telma chegou?

JO- Não, o bolo é uma desculpa.

VAL- Desculpa?

JO- É, desculpa. O bolo é uma desculpa.

VAL- Tadinho do bolo. O que ele ia fazer de errado. Eu nunca vi um bolo sequer fazendo algo errado.

JO- Não é isso minha Valquíria. Deixa pra lá, estou ata cansado de tentar explicar as coisas pra você.

VAL- A Telma disse que o Dadá adora doce.

JO- É?

VAL- Foi ela que falou.

JO- Eu tinha uma filha que não conhecia.

VAL- Mentira tua.

JO- Por que acha que estou mentindo.

VAL- Como você vai dizer que tinha uma filha que não conhecia?

JO- E eu não conhecia mesmo.

VAL- Você viu o parto dela. Você conhece a Telma desde que nasceu.

JO- Deixa, esquece. Mas você disse o quê do Dadá?

VAL- Que ele adora comer doce.

JO- Maldita hora que eu comecei a chamar a nossa Telma de docinho. Essas coisas devem ter começado nesse tempo. Eu dizia: vem cá docinho, você é o docinho predileto do papai…

VAL- Tinha que ser mesmo.

JO- Não entendi.

VAL- A Telma é nossa única filha. Daí você tem que achar que ela é a predileta mesmo. Não tem outro.

JO- Onde foi que errei?

VAL- Primeiro quando veio falar comigo.

JO- É assim?

VAL- Se você não tivesse vindo falar comigo eu poderia estar casada com um homem rico hoje.

        ( João fala mais baixo só pra ele ).

JO- Eu também chamava a Telma de doce de chocolate…

VAL- O que você disse?

JO- O quê?

VAL- Você disse em doce de quê?

JO- De chocolate.

VAL- Como sabe o sabor do bolo?

        ( Valquíria tira uma barra de chocolate, desembrulha e começa a comer ).

VAL- Quer?

JO- Não, obrigado.

VAL- Telma me disse que o Dadá adora um bolo de chocolate.

JO- Ainda mais quando come dobrado.

        ( João medita um pouco ).

JO- Vamos ficar esperando por ela. Chegue a hora que for nós estaremos esperando ela aqui pra clarear os fatos.

VAL- Não precisa esperar ela.

JO- Do que está falando?

VAL- Que você não precisa esperar por ela.

        ( João fica contente ).

JO- Está sabendo de alguma coisa? Vai, me conta.

VAL- Eu só estou dizendo que não precisa esperar a Telma pra clarear. Eu mesma posso acender mais luz. Daí já fica tudo mais claro pra você.

JO- Será o Benedito?

        ( João braça Valquíria e vai saindo de cena ).

JO- Não é nada disso, esclarecer é resolver essa questão da Telma.

VAL- O que deu em você?

JO- Você nunca resolveu questão nenhuma quando a Telma trazia tarefa pra casa? Por que agora quer resolver?

        (  ambos saem de cena ).

JO- Desisto.

 

 

 

 

 

2 ATO

 

      

        ( entra João olhando várias vezes para seu relógio ).

JO- Isso me dá uma angústia. Faz um tempão que a Telma saiu.

        ( Valquíria entre em cena ).

VAL- Você se preocupa a toa.

JO- Mas a nossa Telma já devia ter chegado.

VAL- Só faz uma hora que ela saiu.

JO- E já é muito tempo pra ela ficar longe de casa.  E também já é tempo suficiente par fazer aquilo.

VAL- Aquilo que você me cochichou no ouvido?

JO- Tá esperta, agora.

VAL- Você exagera, a Telma só foi dar uma voltinha.

JO- E você diz com a maior naturalidade?

VAL- O que tem demais em dar uma voltinha?

JO- Veja bem, nossa filha foi dar uma voltinha no corpo do Dadá.

VAL- Você tá impossível. Cada vez pior.

        ( ambos sentam no sofá ).

JO- Ela tá muito diferente.

VAL- Isso tá.

JO- Agora me dá razão?

VAL- Como eu não poderia te dar razão. A Telma tá bem diferente.

JO- Isso é um alívio pra mim.

VAL- A Telma cresceu, agora ela está com seios, bumbum grande, tá alta, tem voz de adulta.

JO- Não é isso que estou falando. É do comportamento dela.

        ( Valquíria ri ).

VAL- Em matéria de comportamento a Telma sempre ganhou os pontos. Ela nunca foi mal comportada na escola.

JO- Pó! Não pode.

VAL- No que a Telma tá diferente?

JO- Ela não pede mais a minha benção antes de dormir e logo de manhã.

VAL- Tem explicação.

JO- Tem?

VAL- Tem. Ela pede a benção direto pra Deus. Por que vai pedir benção pra um intermediário?

JO- Escuta aqui Valquíria, a nossa Telma não andou fazendo perguntas estranhas?

VAL- Nem me fale isso. Já basta as perguntas estranhas de escola e as mais estranhas ainda de vestibular. Eu odeio perguntas.

JO- Perguntas sobre aquilo que eu cochichei…

VAL- No meu ouvido?

JO- É.

VAL- Um dia desses ela me perguntou de camisinha.

JO- E daí?

VAL- A Telma me pediu para comprar umas camisinhas.

JO- Por quê camisinhas?

VAL- O número dela é pequeno.

JO- Decerto o Dadá tem aquilo pequeno.

VAL- Telma disse que tava atarefada demais pra comprar.

JO- E você foi? Onde está tua cabeça?

        ( Valquíria aponta pra sua cabeça ).

VAL- Aqui. Que pergunta mais boba.

JO- Você compra as camisinhas pra ela e fica assim?

VAL- Não fica assim, se alguma não servir dá pra trocar.

JO- Que alívio, eu estava pensando que era uma outra camisinha… Ai, estou mais aliviado. Saiu um peso de minhas costas. Que alívio, meu Deus. Deus é pai.

VAL- Mas…

JO- O quê?

VAL- Mas…

JO- Desembucha Valquíria.

VAL- Mas a Telma mandou eu comprar essa camisinha que você tem medo.

JO- Como?

VAL- Mas fique tranqüilo que é pra trabalho de escola.

JO- Ficar tranqüilo por que é trabalho de escola?

VAL- É.

JO- E você esquece que tem matéria sobre sexo em algumas escolas?

VAL- E o que tem isso?

JO- É simples, tem a teoria e a prática onde fica?

VAL- Até que tem uma ponta de verdade, diacho.

JO- Que mais.

VAL- Ela me perguntou sobre coisas… Como se coloca… Eu falei que a gente tem que deixar aquela folguinha pro líquido que engravida.

JO- E você foi ensinando ela?

VAL- Fui, disse até que camisinha é bom pra brincar de bexiga.

JO- Esquece. E daí?

VAL- Fiquei muito feliz quando perguntei se o trabalho deu certo?

JO- E deu?

VAL- Ela disse que deu.

JO- Não tinha outro jeito. Esse Dadá não ia faltar essa prova.

VAL- A telma tirou dez.

JO- E as camisinhas era boas?

VAL- Comprei da Mirian.

JO- Eu não acredito que você comprou as camisinhas da camelô Mirian.

VAL- Ela me garantiu que eram boas.

        ( João põe a mão na cabeça ).

JO- Estou confuso, se ela queria camisinha era pra transar, mesmo.

VAL- Que isso, era pra um trabalho de escola.

JO- Se é a escola que estou pensando daqui a nove meses vem o diploma.

VAL- Diploma?

JO- É, Valquíria. Uma criança.

VAL- Até que seria bom ver uma criança correndo por aqui. Você não ia gostar de um netinho?

JO- Deus me livre, já não bastam as preocupações do dia a dia? Agora você quer me arranjar outras?

VAL- Ia ser maravilhoso.

JO- Você quer ser avó?

        ( faz um tempo de silêncio ).

JO- Não esqueça que ser avó significa estar envelhecendo.

        ( Mais silêncio ).

VAL- Chega. Acho que é bom a Telma esperar um pouco.

JO- Esperar um pouco não. Se for um pouco nove meses serve e você sabe o que são nove meses. A nossa Telma tem que esperar muito.

        ( nesse instante entram Telma e Dadá ).

TEL- Mãe, olha quem eu trouxe.

        ( João dá um salto ).

JO- O quê, Telma?

TEL- Veja quem eu trouxe.

JO- Você devia dizer: veja o que eu trouxe. Você trouxe uma coisa pra casa. E eu sempre disse pra você não pegar coisa da rua.

DAD- O que seu pai ta dizendo, Telma?

TEL- Não liga, não!

JO- É óbvio que esse daí não pode ligar nada. Ele não é da casa. Não pode pegar um rádio, o DVD, a televisão, o micro-ondas e ligar. Não liga mesmo, Dadá.

TEL- Não inventa pai.

VAL- Mas Telminha, seu pai nunca inventou nada. Ele até costuma dizer que tudo que ele pensa em inventar já é inventado.

DAD- É mesmo?

VAL- É sim.

DAD- E o que ele já pensou pra inventar?

VAL- Telefone, carro, televisão, rádio, avião, computador e daí segue.

TEL- Dadá, não encana.

JO- Mais uma vez minha Telma tem razão. É bom você não encanar nada aqui. Pra encanar aqui tem que ser encanador profissional. Eu não vou correr o risco de ter cano estourado e depois vazamento.

        ( Dadá olha pra Telma ).

DAD- Seu pai tem humor.

TEL- Não, ele não tem humor nenhum. Todas as revistas de humor que ele tem é eu que emprestei pra ele. Ele não tem humor nenhum. É tudo emprestado.

DAD- Seu pai parece legal.

TEL- Mas ele é legal.

        ( Telma se aproxima de João, pega o seu braço e dá algumas batidas ).

TEL- Ele é verdadeiro, não é uma cópia. Meu pai é legal mesmo. Bem, vamos então nos cumprimentar?

        ( João nota que Dadá ta suado e comenta com Valquíria ).

JO- Não te disse? Veja como ele ta transpirando. Deve ter acabado de fazer aquilo. Eu não vou cumprimentar ele. Ainda mais sabendo que aquela mão andou pegando naquela parte dele e naquelas partes dela.

TEL- Essa é a minha mãe, Valquíria.

        ( Dadá cumprimenta Valquíria ).

DAD- Muito prazer.

        ( João afasta Dadá de Valquíria ).

JO- Nada disso.

TEL- Nada disso o quê, pai?

JO- Muito prazer com minha filha ainda com muito custo que vá. Mas muito prazer com minha mulher você não vai ter. Prazer com minha esposa não vai ter, não.

DAD- Não entendi.

TEL- É brincadeira do meu pai.

VAL- Ele é um pouco desequilibrado.

DAD- Desequilibrado?

        ( Telma fica num pé só e faz de conta que está sem equilíbrio ).

TEL- Desequilibrado. Entendeu?

VAL- Mas que dia lindo.

TEL- Mãe. Ta um frio danado lá fora. Não tem uma estrela. E o céu ta cheio de nuvens escuras.

VAL- Mas… Mas eu acho bonito dia assim.

DAD- É desses dias que não dá vontade de sair da cama.

        ( João faz círculos ).

JO- Viu Valquíria? E eu vou ter que ouvir detalhes sobre minha filha?

VAL- Diacho! Calma João.

JO- Pó! Eu não sou de ferro.

TEL- Ainda bem, por que se fosse garanto que já estava enferrujado.

JO- Por que diz isso?

TEL- O senhor não se cuida. Veja que quem faz tuas unhas, cabelo, banho, roupa, barba é tudo a mãe.

JO- E daí?

TEL- O senhor não faz nada pra si.

JO- Se eu fosse de ferro a Valquíria ia sempre por um óleo no meu corpo. Aposto que eu nunca ia enferrujar.

        ( João anda pesado como um homem de ferro ).

JO- Eu não ia enferrujar.

TEL- Bem, eu quero sentar.

        ( João levanta os braços ).

JO- Aqui não.

TEL- Aqui não o que pai?

JO- Você não vai sentar na minha casa. Isso não.

TEL- Mas o que tem demais?

JO- Vá fazer sexo em outro lugar. E muito menos nesse sofá.

TEL- O que tem esse sofá?

VAL- É que o gato fez caca no sofá.

DAD- Mas isso é normal.

TEL- Mãe! A gente não tem gato.

VAL- É uma gata.

TEL- Mas a gente também não tem uma gata.

VAL- É do vizinho.

        ( Valquíria bate com o pé na Telma ).

VAL- Entendeu?

TEL- Entendi.

        ( Valquíria dá uns tapas no sofá pra limpar ).

VAL- Pronto! É só sentar.

        ( Telma e Dadá se sentam, fazem mímica que estão falando ).

JO- Você já viu como é feio esse Dadá?

VAL- Você nunca foi de achar homem bonito.

        ( João faz pose de gay exagerado ).

JO- Saiba que eu não virei gay.

VAL- Não brinca.

JO- Eu não virei mesmo.

VAL- Vem alguma coisa aí. Continua.

JO- Eu nunca virei gay por que nunca fiquei rodando um gay. Gira pra esquerda, gira pra direita.

VAL- Engraçadinho.

JO- Não tem nada de engraçado. O que ela viu nele?

VAL- O que a Telma viu nele pode estar escondido.

JO- Lá vem você acabando com a brincadeira.

VAL- Telma gosta dele e isso é que importa.

JO- Mas e os nossos netos?

VAL- Nós não temos neto nenhum.

JO- Os que vão nascer.

VAL- O que tem eles? Se bem que eles não devem ter nada. Não nasceram ainda.

JO- Eles vão vir feios.

VAL- Vai que eles puxam a Telma. Daí eles vem bonitinhos.

JO- Mas ela arrumasse um cara mais bonito nossos netos podiam vir mais bonitos ainda.

VAL- Esse é o cara que ela gosta.

JO- E eu vou ter que engolir ele.

VAL- De jeito nenhum. E não vai dar pra engolir ele. Ele não passa na tua boca.

JO- Mas passa na porta de saída. Bem que ele devia sair daqui pra sempre.

VAL- Vamos até eles.

        ( Valquíria puxa João para ir até Telma e Dadà ).

JO- Está confortável, Dadá?

        ( Dadá tem um ligeiro mal estar no estômago e leva a mão até a sua barriga ).

DAD- Ai, está incomodando. Alguma coisa que eu comi me fez mal.

JO- O quê?

DAD- Alguma coisa que eu comi me fez mal.

        (  João se volta pra Valquíria ).

JO-  Pó! Ta vendo Valquíria? Viu o que ela disse?

        ( João fala mais alto ).

JO-  Que comeu algo que fez mal.

VAL- Calma João.

JO- Eu não consigo ter calma depois do que ele falou. Que comeu algo que fez mal.

TEL- O que o pai tem?

VAL- Nada minha filha. Ele só ta preocupado com o que o Dadá comeu.

TEL- Isso é bom. É sinal que o pai já gosta do Dadá.

        ( João fica batendo no peito ).

JO- Já não agüento segurar.

VAL- Segurar o quê? Você não ta segurando nada. Não to vendo nada nas tuas mãos.

JO- Ele ta dizendo que minha Telma fez mal pra ele.

DAD- Na certa o que comi estava estragado.

JO- Eu tenho vontade de bater nele.

        ( Valquíria segura João ).

VAL- Não vai fazer isso.

JO- Mas ele ta chamando agora nossa filha de estragada.

VAL- Não é a Telma, é o que ele comeu.

JO- É a Telma.

TEL- Mãe, por que o pai ta tão nervoso?

VAL- Ele tá preocupado com o seu Dadá.

DAD- Acho que comi algo com o prazo de validade vencido.

        ( João bate uma mão na outra ).

JO- Valquíria, essa Dadá está me irritando. Olha o que ele fala da nossa filha. Ele diz que nossa filha passou do prazo de validade. Como isso é possível. Nossa Telma só tem 16 anos. Ela é nova.

VAL- Você tá exagerando.

JO- Eu não estou suportando essa situação.

        ( João fica imóvel e fala atrapalhado ).

JO- Vê-já os do… Dois.

        ( Dadá belisca e passa a mão pelo braço, ombro, rosto, cabelo, costas  de Telma ).

JO- Veja só o que aquele desgraçado está fazendo.

VAL- Ele não tem nada de desgraçado.

JO- O quê?

VAL- Você acha uma desgraça namorar a Telma?

JO- Evidente que não. Ela é linda e…

VAL- E o que?

JO- E….

VAL- Vai diz. A Telma é linda e…

JO- E… E linda também.

VAL- Ele teve foi uma baita graça celestial para namorar a Telma.

JO- Observe que ele não tira a mão da Telma.

VAL- E o que tem isso?

JO- Tudo, pó! Você se lembra do que ela fazia só de eu encostar nela?

VAL- Faz tanto tempo que não vejo você fazendo carinho nela.

JO- Por que ela só me xingava. Teve vez que ela disse por que eu não ia agarrar minha avó. E eu podia agarrar minha avó. Ela já morreu há um tempão. Dizia também não amola. E olha que eu não tava com mola nenhuma. E daí ainda falava que queria paz. Queria paz me dizendo todas essas coisas? Eu ficava com uma vontade de mandar ela pra um país que tá guerreando. Agora ela tá ali feito um cordeirinho. O meu carinho não, mas o desse miserável.

VAL- Ele não é um miserável.

JO- Não?

VAL- Lógico que não. Ele tem a fortuna que é a Telma. A Telma é uma fortuna.

JO- Eu me lembro que já chacoalhei a nossa Telma e nunca caiu um dinheiro sequer. 

VAL- Prefere que eu diga que a Telma não vale nada?

JO- Não, não, não diga isso Valquíria.

VAL- Nada não.

VAL- Assim está melhor.

JO- Alguma coisa ela vale. Até lixo agora vale alguma coisa.

VAL- Diacho de língua que você tem.

JO- É só o jeito de falar.

VAL- Eu já penso o contrário.

JO- O quê?

VAL- Que você não tem jeito pra falar. Fica aí ofendendo as pessoas.

        ( João aponta o próprio peito ).

JO- Eu não estou ofendendo a nossa filha.

VAL- Como não?

JO- Eu não estou, disso tenha certeza.

VAL- Mas acabou de ofender.

JO- Eu já disse e repito que não to ofendendo a nossa filha.

VAL- Diacho. Vá entender, ta sim.

JO- Não to.

VAL- Ta sim.

JO- Não to.

VAL- Ta sim.

JO- Não to.

VAL- Ta sim.

JO- Não to.

VAL- Ta sim.

        ( Valquíria faz sinal de quem joga tênis ao responder e depois o João também responde ).

JO- Não to.

VAL- Ta sim.

JO- Não to.

VAL- Ta sim.

JO- Não to.

VAL- Ta sim.

TEL- Vocês vão fazer o favor de parar com essa cena. O que o meu Dada vai pensar?

JO- Que bom que o teu namorado pensa.

VAL- Vamos parar.

        ( João fala pra Valquíria ).

JO- Além de burro é feio.

VAL- Pare com isso. Ele é um bom rapaz pra nossa filha.

JO- Só pode ser bom e deve. É feio pra burro. Onde ele vai arrumar uma moça tão bonita como a Telma? E além de tudo zero quilômetro.

VAL- mas ela me contou que até ele é zero quilômetro.

JO- Pó! Piorou. Onde é que ele ia arrumar uma máquina dessa disponível pra alguém que não sabe dirigir?

        ( João brinca com uma chave ).

VAL- Sabe essa chave?

JO- O que tem ela?

VAL- Preste atenção.

JO- Estou prestando, foi a chave que a Telma me deu.

VAL- Foi não. Foi o Dada que mandou te dar. Veja, ele já te deu alguma coisa.

        ( João se exalta ).

JO- Essa chave? Você quer insinuar que eu estou devendo obrigação pra ele? Igual esta chave eu poderia fazer milhares. Dá impressão que você quer que eu me sinta obrigado a aceitar ele dentro de nossa casa.

DAD- Tô com sede?

TEL- Eu vou pegar um refrigerante pra você.

        ( Telma se levanta do sofá ).

TEL- Pensando bem, venha comigo Dada.

        ( Telma e Dada saem de cena ).

JO- Ta vendo? Ele nem ofereceu um refrigerante pra mim.

VAL- A Telma ta certa de não te oferecer refrigerante.

JO- Certa de me ignorar.

VAL- Não é isso.

JO- Certa de me afrontar.

VAL- Não é isso.

JO- Então o que é?

VAL- Ela sabe que você gosta só de cerveja.

JO- Mas podia ter oferecido.

VAL- Pra que? Se refrigerante você não toma.

JO- Pra eu me sentir importante.

VAL- João, você ta com ciúme de sua filha. É algo muito comum. Acontece em todas as famílias.

JO- É isso que você se engana. Não é ciúme. Eu fico muito constrangido dela nunca ter me dado tanta atenção e agora estar toda mansa com esse estrangeiro. Custa ser imparcial? Custa? Me diga, custa a nossa Telma ser imparcial? É difícil a gente aceitar que criamos uma filha com tanto carinho, desprendimento, dedicação, afeto pra depois que passar o tempo ver ela te tratando como um estranho. Isso não acontece nem com alguns animais. Tem bicho que sempre reconhece sua família ao longo de toda a vida.

VAL- João, ela cresceu e tem que seguir o caminho dela.

JO- Que caminho?

VAL- O caminho.

JO- Mas que caminho é esse?

VAL- É o caminho.

JO- E ele sabe escolher caminho?

VAL- Não sabe?

JO- Lembra que ele preferia quando agente tava no campo ir pela caminho da casa pra piscina? Pois é, esse ela fosse pelo meio do mato ela chegava meia hora antes.

VAL- Você queria que ela andasse no meio do mato?

JO- Mas era o melhor caminho. Ela ia economizar meia hora. 

VAL- Você não se emenda.

JO- Não venha dizendo que eu não emendo.

VAL- Por que, você emenda?

JO- Com uma fita isolante ou durepox não tem quem emende melhor que eu.

VAL- Estou falando de minha filha.

JO- Ela não dá pra emendar.

VAL- Emendar o quê?

JO- Eu aposto que ela vai quebrar a cara no caso com esse cara aí. E não vai dar pra emendar. A foto dá, mas a cara dela vai ficar quebrada.

VAL- Você não tem jeito, mesmo.

JO- Você viu o jeito desse Dada?

VAL- Que jeito?

JO- Ele tem uma entrada grande na testa. Ele vai ficar careca.

VAL- Bom sinal, você já viu mendigo careca? Não vai gastar com xampu. A gente não vai ficar pegando cabelo caído pela casa deles, dele pelo menos não. Ele vai usar menos tinta quando precisar pintar o cabelo. Viu, só tem vantagens em ser careca.

JO- Não dá pra falar sério com você.

VAL- Eu tenho que levar na brincadeira senão eu fico doida.

JO- O cara é esquelético, baixinho, usa óculos, tem dentes de coelho e ainda amarelados. Nossa filha bem que podia ter arranjado algo melhor. Isso podia… Sem falar no jeito arcado dele andar. Parece um homem daqueles primitivos, do tempo das cavernas. É, esse Dada não passou pela evolução das espécies. Ele deve ser um homem de Neandertal.

VAL- Ele tem problema de coluna. E é desde criança.

JO- Pra mim ele é um aprendiz do Corcunda de Notre Dame. Parece que ele ta carregando saco nas costas.

        ( Valquíria ri ).

VAL- Isso você sabe que não.

JO- Que não o que?

VAL- Que ele não ta carregando saco nas costas.

JO- Por que não? Ele anda arcado.

VAL- O saco dele ta na frente.

JO- Pó! A situação é séria e você vem com brincadeira?

VAL- É o único jeito pra eu não pirar, diacho.

JO- É só olhar pra ele que a gente pensa que ele perdeu alguma coisa e ta procurando no chão. Do jeito que ele é magro dá impressão que ta ventando muito e ele ta todo envergado.

        ( Telma entra com Dada trazendo refrigerante e um prato com sanduíche ).

TEL- Senta meu bem.

JO- Era isso mesmo que eu queria que acontecesse. Eu queria que esse Dada sentasse bem direitinho. Sentar na boneca eu não queria por que ia estragar a boneca. O que a boneca tem a ver com isso? Mas que eu queria que ele sentasse, eu queria.

VAL- Para de falar se noção.

JO- Ela nunca me tratou com tanto chamego. Me dá uma vontade de quebrar a cara desse monstro.

VAL- Ele não é monstro.

JO- É sim, ele destruiu nossa família. Ele é um monstro. Ele acabou com minha família. Ele é um monstro. Ele seqüestrou nossa Telma. Eu vou quebrar a cara desse cínico.

        ( João fecha as mãos e vai ao encontro do Dada, mas Valquíria o segura ).

VAL- Você não pode fazer isso.

TEL- O que o pai ia fazer?

VAL- Bem, bem, bem… Ele ia abraçar o Dada, mas é melhor deixar pra depois.

        ( João tenta avançar, mas Valquíria segura ele ).

VAL- Não faça isso, não bata no rapaz.

JO- Por quê?

VAL- Deixa eu ver…

JO- Por que não devo bater nele?

VAL- Deixa eu ver…

JO- Vamos, fala.

VAL- Tô pensando.

JO- Então pensa rápido.

VAL- Hã!

JO- Pensa rápido.

VAL- Já sei… Se você bater nele ele vai ficar mais feio, ainda. Então é melhor não bater.

JO- É, você tem razão.

TEL- Dadá, o sanduíche tá legal?

DAD- Tá sim.

TEL- Dadá, gostou da minha casa?

DAD- Gostei sim.

TEL- Dadá, gostou dos móveis?

DAD- Gostei sim.

TEL- Dadá, gostou da pintura?

        ( João fala pra Valquíria ).

JO- Isso ele vai falar que não. Onde já se viu homem gostar de uma pintura a não ser que seja desbotado.

VAL- Ela tá falando da tinta.

TEL- Gostou da minha roupa?

DAD- Gostei sim.

JO- Por que ela não põe umas alternativas embaixo da pergunta. Letras a, b, c, d, e?

VAL- Não atrapalha.

TEL- Dadá, gostou de meus pais.

DAD- Do seu pais e da sua mães também.

TEL- Tá ficando tarde.

DAD- É, tá ficando tarde.

TEL- Pensando bem não tão tarde.

DAD- Pensando bem não tão tarde

TEL- Não é meia noite ainda.

DAD- Não é meia noite ainda.

TEL- Então é cedo.

DAD- Então é cedo.

        ( João mostra indignação ).

JO- Tá vendo Valquíria, aqui tem eco. Ele repete tudo que a nossa Telma fala.

VAL- Cala a boca. Isso é bom. Ele vai seguir nossa filha o tempo todo.

JO- E isso é bom?

VAL- É sim.

JO- ter um homem que segue a mulher todo tempo é bom?

VAL- Eu já falei que é.

JO- E não vai dar pra dar um pulinho de cerca sequer. E isso é bom?

VAL- Você não existe.

JO- Quer que eu mostre minha certidão de nascimento?

VAL- Ele é uma boa pessoa.

JO- Esse Dadá só repete o que a Telma fala. Não tem vontade própria, não argumenta, como um relacionamento vai dar certo assim? Você acha certo isso?

VAL- Hã!

JO- Você acha certo ele só seguir a Telma?

VAL- É melhor o marido seguir a Telma que a polícia seguir ela.

JO- É, vendo por esse lado você tem toda razão.

        ( Telma e Dadá ensaiam pra dizer algo ).

TEL- Diz você.

DAD-  Diz você.

TEL- Diz você.

DAD- Diz você.

TEL- Diz você.

DAD- Diz você.

TEL- Diz você.

DAD- Diz você.

        ( João fica assustado e prevê o pior ).

JO- Por que não dizem dois juntos, afinal fizeram a besteira juntos.

        ( Dadá e Telma se falam ).

DAD- Fizemos besteira?

TEL- É o que o pai disse.

DAD- Mas o nome dela vai ser Valéria, não é? Eu acho feio dar o nome de Besteira pra uma menina.

TEL- O pai tá pirando.

VAL- Se acalma João.

        ( Telma dá um empurrão no Dadá ).

TEL- Fala Dadá.

DAD- Seu João, dona Valquíria…

JO- Por que eu sou seu e você é dona. Tinha que ser sua.

VAL- Deixa ele falar, diacho.

DAD- A gente tem uma coisa importante pra falar.

TEL- Eu não, é ele.

        ( Dadá engasga e se esconde atrás de Telma ).

TEL- Pai, mãe, a gente… Vou no embalo… A gente fez coisa errada.

VAL- Minha filha, não precisa de cerimônia. Todo mundo erra.

JO- Já estou vendo tudo. Errou ao andar e virou o pé, minha filha?

TEL- Não.

JO- Não tinha pão francês e comprou errado. Comprou pão de água?

TEL- Não.

JO- Você errou e atravessou a rua fora da faixa de pedestre?

TEL- Não.

JO- Você errou muitas questões de prova da escola?

TEL- Não.

JO- Você tá errando o caminho da nossa casa, por isso tá chegando mais tarde?

TEL- Não.

JO- Você errou na quantidade de pó de café e o café ficou forte demais?

TEL- Não.

        ( João rói as unhas ).

TEL- Tem a ver com minha barriga.

JO- Errou no regime e engordou um pouco?

TEL- Não.

JO- Errou na comida. Comeu porcaria e tá com dor de barriga?

TEL- Também não. A gente não usou camisinha.

JO- E pegaram uma gripe? É isso que dá. Não dá pra ficar sem camisinha nos dias que faz frio.

TEL- Não é essa camisinha.

        ( Valquíria se aproxima de João e fala no seu ouvido ).

JO- É aquilo que eu cochichei no seu ouvido?

        ( João fica tonto e começa a andar fazendo curvas ).

JO- Eu não agüento. Toda vez que eu acertei algo eu fiquei tonto. Mas agora é pior. Eu devia estar comemorando que acertei. Devia comemorar que estava certo. Por que não acerto assim na loteria?

        ( João cai no chão ).

JO- Tá faltando ar.

VAL- Telma, traga um copo de água.

JO- Prefiro cerveja.

DAD- Não é melhor tirar a roupa dele?

        ( João tenta levantar ).

JO- Comigo não. Não é por que minha filha tirou a roupa pra você que eu vou tirar também. Isso não é de família. Ela tirou a roupa. Foi ela e não tem nada a ver comigo.

VAL- Não ligue Dadá.

JO- Não vá ligar nada. Eu tenho paixão pelos meu aparelhos. Deixa a TV, o rádio, o DVD. Deixa que só eu posso ligar.

VAL- É pressão.

        ( Dadá senta no peito de João de penas abertas pra desabotoar a camisa ).

JO- É pressão mesmo. Manda esse Dadá sair de cima de mim.

        ( João se recobra do susto ).

JO- O que foi mesmo que você disse Telma?

        ( Telma fala apontando a barriga ).

TEL- Nós fizemos coisa errada. E essa coisa errada vai levar uns 9 meses par nascer. É isso.

DAD- É.

JO- E o que eu tenho a ver com isso?

VAL- Não seja grosso.

TEL- O Dadá quer casar comigo.

        ( Valquíria senta no sofá aos prantos ).

VAL- Eu não posso permitir, minha filha é tão nova. Como vou suportar a perda dela? Isso é uma coisa que tem de ser muito pensada par não haver engano.

        ( João levanta e anda de um lado pro outro meio tonto ).

JO- Nada disso Valquíria.

        ( João cochicha no ouvido de Valquíria ).

JO- Agora que sua filha já fez isso…

VAL- Agora é minha filha? Antes era sua ou nossa.

JO- Tá na hora de reconhecer que você também é mãe dela.

VAL- Continua…

JO- Se a Telma não casar vai ficar na boca do povo.

TEL- Na boca do povo não.

JO- Como não?

TEL- de jeito nenhum.

JO- Telma, depois que a moça engravida tão nova e ainda solteira ela para na boca do povo.

TEL- Não, de jeito nenhum. Eu só beijo o meu Dadá. Não beijo mais ninguém.

VAL- Parece que a herança dos genes paternos estão aparecendo agora.

JO- O que disse Valquíria?

VAL- Nada.

JO- Nós temos que aceitar que agora o único jeito é permitir o casamento deles e que cada um siga seu rumo.

VAL- Não, eles tem que seguir o mesmo rumo.

JO- Tá, foi só um jeito de falar. Eles vão morar longe daqui, vão cuidar e sustentar a coisa errada, vão trabalhar e nós…

        ( João abraça a Valquíria ).

JO- E nós vamos viver como solteiros de novo.

VAL- Essa é nova mesmo. Sabe, não é tão ruim a idéia de casamento.

JO- Nós concordamos com o casamento, mas me digam uma coisa, onde pretendem morar depois de casados?

        ( Dadá abraça a Telma ).

TEL- Aqui pai.

JO- Onde minha filha?

TEL- Aqui pai. Na sua casa.

        ( João cai no chão e todo ficam ao redor dele abanando com as mãos, Dadá tenta levantar João, Telma dá uns tapinhas na cara de João e Valquíria fica de joelhos rezando ).

 

 

 

 

 

FIM

CASA BEM ASSOMBRADA…

4 04UTC junho 04UTC 2009

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

PEÇA TEATRAL

 

 

                                  “ A CASA BEM ASSOMBRADA “

 

 

                              AUTOR: SAMUEL R. KROSCHINSKI

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                      DADOS BIOGRÁFICOS

 

 

 

 

 

                          Samuel R. Kroschinski é escritor, autor do livro “ BARRIGA: UM MUNDO FEMININO, o qual está a venda nas livrarias Curitiba.

                          Samuel R. Kroschinski já teve “ ESTÓRIAS EM QUADRINHOS “ e “ CONTOS INFANTIS “ publicados no jornal O Estado do Paraná. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                         Tel.: ( 041 )  3286- 9285

 

                                 End: Rua Dês. Antonio de Paula, 92

                                       Boqueirão- Curitiba- Paraná

                                               CEP: 81730- 380

 

 

CENÁRIO: Uma casa onde aparece um cômodo, a sala, com janela ( podendo ser painel ).

 

 

 

Sofá

Janela com cortina

bolinhas de tênis

rouge

batom

mosca cenográfica ( comida )

boneca com pescoço cortado e costurado com sangue ( cenográfico )

2 carrinhos amassados

dedo cenográfico

velas coloridas

isqueiro

portas velas

mesa

cordinha

martelo

canivete cenográfico

 

 

 

 

 

PERSONAGENS: PAULINA ( esposa ) – PA

                               ALBERTO ( esposo ) – AL

                               VOZ 1 e 2

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

PA- Grrrr! Arrrrg!

AL- Pudera! Caraca!

 

        ( entra Paulina em cena ).

PA- Essa casa não é mal assombrada de jeito nenhum. Não é mesmo. Não suporto em viver numa casa mal assombrada. Tenho até vergonha de morar em um lugar assim. Grrrr! Casa mal assombrada é a mãe. Essa casa é de respeito. Eu honro o lugar que moro. Como é que eu vou suportar que falem mal de minha própria casa. É a casa onde eu tenho paz. É aqui que eu durmo, é aqui que eu como, é aqui que eu me escondo da chuva e do frio. É aqui que eu vejo quem amo. É aqui que eu tomo banho, é aqui que eu respiro…

        ( entra Alberto ).

AL- Para aí! Isso já ta demais. Desde quando você respira?

PA- Eu não te contei ainda?

AL- Não, ainda não.

PA- Eu aprendi a fazer de conta que tô respirando. Veja.

        ( Paulina levanta a blusa e mostra sua barriga ).

PA- É fácil, é só esticar e encolher a barriga assim. Viu, estica e encolhe. Pronto. Quem ver vai achar que a gente ta respirando.

AL- Que maravilha. Nós respiramos agora. Adorei tua demonstração.

PA- Obrigada.

AL- Mas e se agente esquece de mexer a barriga?

PA- Eu pensei numa coisa. Dá pra gente ficar um pouquinho gordo. Daí a barriga já é grande mesma.

AL- Mas me diga uma coisa. Por que você estava tão brava?

PA- Nem me faça lembrar.

        ( Paulina anda até a janela, afasta a cortina bem pouco e espia ).

PA- Já foram embora.

AL- Quem?

PA- Uns desordeiros que estavam na frente de minha casa.

AL- E o que eles fizeram?

PA- Você imagina que eles tiveram a insensatez de dizer que nossa casa é mal assombrada?

AL- E não é?

PA- É não, essa casa eu amo. Ninguém vai dizer que é mal assombrada.

AL- Então o que ela é?

PA- Bem assombrada.

AL- Bem assombrada?

PA- Lógico. Nós somos o quê?

AL- Somos alguma coisa?

PA- Cadê aquela auto estima que você tinha tanto?

AL- Ficou no acidente.

PA- Eu falei pra você cuidar muito bem da sua auto estima. Deu no que deu. Esqueceu ela no acidente. Em outras palavras não cuidou e perdeu ela. Veja que eu cuido muito bem de minha auto estima.

AL- Pudera! Só o tempo que você gasta na frente do espelho.

PA- E cuido mesmo.

AL- Termina o que estava falando dos meninos da rua.

PA- Eles chamaram nossa casa de mal assombrada. E eu não engulo uma coisa dessa. Como uma casa pode ser mal assombrada se tem morando nela dois mortos?

AL- Como?

PA- Mal assombrada soa como se a assombração fosse mal feita. É uma casa mal assombrada. É uma casa onde tem pouca assombração. É uma casa onde todos que estão ali dentro são incompetentes. A casa ta cheia de gente sem noção. É uma casa que não vale nada. A gente que mora nela é tudo fantasma…

AL- Mas bem, nós somos fantasma agora.

PA- Não somos não. Pegue meu braço.

        ( Alberto só fica olhando Paulina ).

PA- Vamos, pegue meu braço.

        ( Paulina cruza os braços ).

PA- Vai ficar esperando muito tempo?

AL- Não dá pra pegar.

PA- Por que não, eu deixo.

AL- Ele ainda tá grudado no seu ombro.

PA- Grrrr! Só você mesmo pra brincar numa hora dessa.

AL- E agora, o que vai fazer?

PA- Vou acabar de pintar um quadro.

AL- O que tá pintando?

PA- Natureza morta.

AL- Calma aí! Não é isso que eu queria saber.

PA- Foi o quê me perguntou Alberto. Você queria que eu respondesse algo que não tinha a ver com a pergunta?

AL- Não!

        ( Alberto aperta a cabeça com as duas mãos por um instante ).

AL- Não é isso! Eu queria saber o quê você vai fazer com relação ao comentário sobre a nossa casa?

PA- Você não fez essa pergunta. Agora ela está tão grande. A primeira é: o que você vai fazer. A segunda pergunta é: o quê você vai fazer com relação ao comentário sobre a nossa casa?

AL- Foi o jeito.

PA- Você quis economizar nas palavras e se deu mal. Eu nem entendi a sua pergunta. Foi o que você fez antes do acidente. Quis economizar na manutenção do carro, não levou ele pra revisão, deu no que deu. Faltou freio e a gente morreu.

AL- Não é bem assim. Veja bem, a gente tá aqui. Não foi uma morte.

PA- Não é? E a gente respira? E a gente come? E a gente bebe?

AL- Não seja pessimista. A gente pode comer sim.

PA- Não. A gente não pode comer. O que a gente faz é colocar a comida na boca pra sentir o gosto, ficar com ela um pouquinho e depois tirar da boca. Com a bebida é a mesma coisa. Esqueceu que a única coisa que podemos tomar é sangue?

AL- sabe que eu até esqueci.

PA- esqueceu por que não suporta ver sangue.

AL- desde criança eu sou assim. É só eu ver sangue que desmaio.

PA- E veja só no que deu. Não suportava ver sangue e agora tem que beber sangue.

AL- Eu faço de conta que é suco de tomate.

PA- E como você consegue achar isso.

        ( Alberto fica empolgado ).

AL- Veja bem. É um espetáculo. Eu que descobri isso ontem e ia te contar mesmo. Você vai amar.

PA- Então me dia logo.

AL- Sabe o que faço?

        ( Alberto fica assobiando e assim passa o tempo ).

AL- Vamos, sabe o que faço?

PA- Grrrr! Vê se melhora da cabeça, você não me falou ainda, como eu vou saber o que você descobriu?

AL- Tá, eu descobri que o nosso corpo tolera um a pitadinha de alguma coisa qualquer. O que eu fiz? 

        ( Alberto fica assobiando mais uma vez e assim passa o tempo ).

PA- Grrrr! Que ódio. Eu já não agüento esse teu assobio. Fala logo.

AL- Eu coloquei uma pitada de catchup no sangue que eu ia tomar. E não aconteceu nenhuma revira-volta no meu estômago. Não é o máximo isso?

PA- Não.

        ( Alberto desmorona ).

AL- Por quê?

PA- Você acabou de dizer que é uma pitadinha. E depois vem dizendo que é o máximo. Não, a gente não pode exagerar numa coisa dessa. Temos que ficar na pitadinha. Nada de por o máximo. Quer morrer?

AL- Isso eu queria saber, a gente passa mal se comer ou beber algo que não seja sangue, mas e se a gente comer o máximo a gente vai morrer?

PA- Eu não vou procurar essa resposta.

AL- Não?

PA- Eu vou ficar na pitadinha de alguma coisa. Você não sabe como isso me alegrou. Agora basta por uma pitada de alguma coisa que a gente gosta e o sangue vai ter um gosto diferente a cada vez que a gente toma. Eu vou começar por chocolate. Vou tomar sangue sabor chocolate só pra tomar um sangue doce. Depois vou tomar sangue sabor de menta só pra ficar amarrada minha garganta. Depois vou tomar sangue com um pouquinho  de refrigerante só pra refrigerar meu corpo. Não vejo a hora disso começar.

AL- É só não olhar o relógio.

PA- O quê disse?

AL- Você disse que não queria ver as horas. Então é só não olhar o relógio.

PA- Grrrr! Mais uma piadinha sem graça pra minha coleção. Que bom, nós estamos evoluindo. Isso é evolução. Sabe lá onde vamos chegar.

AL- Paulina, onde você pensa ir?

PA- Eu?

AL- Você acabou de dizer que não sabe onde vai chegar.

PA- fala mais.

AL- E tem o pior que você nem sabe onde vai. Você disse que não sabe onde vai chegar. Não é aconselhável ir pra um lugar que não se sabe o que é.

PA- Eu estou falando da evolução. Primeiro é uma pitada de alimento no sangue, depois é mais um pouquinho, mais um pouquinho e logo a gente tá comendo uma colher…

AL- Sabe, eu nunca imaginei isso de você, Paulina.

PA- Imaginou o quê?

AL- Que você tem vontade de comer colher. Tem tanta comida por aí e você  vai ter vontade logo de comer uma colher?

PA- Grrrr! É uma colher da comida. Uma colher com a comida e cima. Agora deu pra entender?

AL- Pudera! Agora deu.

PA- Eu acho que morreu muitos neurônios teus. Por isso você demora a pegar as coisas.

        ( Alberto sai correndo pelo palco pegando bolinhas de tênis pelos cantos ).

AL- Viu como eu pego rápido?

PA- Eu merco.

AL- O que você merece?

PA- Uma outra vida. Pronto. Eu merco uma outra vida.

AL- Mas o que você vai fazer agora com relação aos comentários que nossa casa é mal assombrada.

PA- Ainda bem que me lembrou. Eu já tenho a solução.

AL- Já tem?

PA- Já.

AL- Então o que tá esperando? Fala logo qual é a solução.

        ( Paulina dá uma soluço alto ).

PA- Arrrrg!

AL- Tem razão, isso é um solução.

PA- A gente precisa fazer dessa casa uma casa bem assombrada.

AL- Explique isso.

PA- Nós temos que assombrar mesmo. Por responsa no nosso ofício. Temos que assustar as pessoas pra elas não difamarem nosso tão querido lar. E ninguém mais vai dizer que é uma casa mal assombrada, mas uma casa bem assombrada. Eu já me animei com o gosto de chocolate no sangue. Isso é o que chamo de transfusão na veia. Na veia não, na boca.

AL- Então nós vamos ser assombradores profissionais?

PA- Vai ser difícil a gente ser profissional.

AL- Por quê?

PA- Não tem essa profissão. E eles não vão dar carteira de trabalho com a profissão de assombrador.

AL- Então vamos viver na ilegalidade. É um negócio informal.

PA- Grrrr! Não fale essa palavra.

AL- Que palavra?

PA- Informal.

AL- Por quê?

PA- Ela me lembra formol.

AL- E o que tem isso?

PA- Como você tá desligado.

AL- Você tem razão, eu tô desligado mesmo.

PA- Ainda bem que me dá razão.

AL- Hoje eu não liguei a TV nem o rádio pra saber de notícias, ouvir música, ver uma novela, um filme…

PA- Pode!?

AL- Formol não é aquele líquido que preserva morto?

PA- Por que quer saber?

AL- Sei lá, nem imagino por que eu quero saber de formol. Por que será?

        ( Alberto chega bem perto de Paulina ).

AL- Será por que estamos mortos?

PA- O formol não é pro nosso caso. Lembra que a gente já testou? Pra gente é usar muito hidratante. É isso que mantém nossa pele melhor.

        ( Alberto desliza sua mão pelo braço de Paulina ).

AL- Sua pele fica tão macia.

PA- Acho que se não fosse o hidratante a gente tava tudo duro. É aquela história horrenda de Rigor Mortis.

        ( Alberto cheira o braço de Paulina ).

Al- Sua pele fica tão cheirosa.

PA- Acho que se não fosse o hidratante a gente tava cheirando igual corpo em decomposição.

        ( Alberto olha bem o braço de Paulina ).

AL- Sua pele fica tão brilhosa.

PA- Acho que se não fosse o hidratante a gente tava tudo branca e pálida.

AL- Amém hidratante, amém!

PA- Amém hidratante, amém!

        ( ambos fazem o sinal da cruz ).

Al- Então é por isso que você fica trancada no quarto de visitas?

PA- O quê?

AL- Que você se tranca no quarto de visitas?

PA- Do quê?

AL- Dos quadros que você está pintando.

PA- É isso? Eu me trancava por tanta coisa. Me lembro que costumava me trancar pra me depilar. Agora não nasce nenhum pelo mais. Parece que fiz depilação definitiva. Antes eu me trancava pra cortar as unhas. Agora elas não crescem mais. E agora eu estou me trancando pra pintar.

AL- Natureza morta.

PA- Exatamente.

AL- E o que você tá pintando?

PA- Tela.

AL- Como?

PA- Grrrr! Tela, elas vem branquinhas, sem nada, e daí eu pinto.

AL- Eu falo do motivo.

        ( Paulina anda de uma lado pro outro ).

PA- Motivo? Tem tantos. Pra me sentir bem, pra fazer alguma coisa, pra ser útil, par enfeitar nosso lar…

AL- Eu tô falando da imagem que você pinta.

PA- Eu pinto natureza morta. Eu tô pintando agora uma rosa morta. Ela está secando, suas pétalas estão caindo, seu caule tá escurecido, ela está curva…

AL- É diferente.

PA- Já pintei árvore morta, peixe morto, pássaro morto, até uma moça morta já pintei.

Al- E como ficou?

PA- A moça tá linda de morrer no meu quadro.

AL- Eu tenho que ver sua nova ocupação.

PA- Agora não. Deixa eu ganhar confiança.

AL- Confiança de quem?

PA- De ninguém. É minha confiança mesmo.

AL- Isso me deixa sem ter o que falar. Você não tem confiança nem por você mesma? E como quer que eu confie em você? Depois reclama.

PA- É adquirir mais experiência com a pintura. Eu tenho que treinar mais. Eu tenho que pintar mais.

AL- Agora entendi.

        ( Alberto olha bem fixo a Paulina ).

AL- Você tá com os lábios bem rosados.

        ( Paulina tira da bolsa um batom e mostra pra Alberto e depois devolve  ).

PA- Eu coloquei batom. Não gosto daquela cor branca feito cera.

AL- E tua bochecha tá vermelha.

         ( Paulina tira da bolsa um rouge e mostra pra Alberto e depois devolve  ).

PA- Eu coloquei rouge. Não quero ficar com uma cara sem vida.

        (  Alberto se aproxima e examina Paulina ).

AL- Você é a cara sem vida mais linda que eu já vi.

        ( Paulina ri ).

PA- Você já viu uma morta viva antes?

AL- Não.

PA- Então não dá muita alegria ouvir que sou a mais linda. Eu sou a única.

Al- Mas eu poderia não dizer nada.

PA- Arrrg! Tá bom.

Al- Ainda bem que existe essas empresas de cosméticos. O que seria de nós se não fossem elas.

PA- É são essas empresas que mantém a mulher mais viva.

AL- Mais viva?

PA- É força de expressão. Mas de um jeito é isso que acontece. Eu me sinto mais viva pondo um creme, uma maquiagem.

Al- Já pensou na propaganda: a maquiagem que te deixa viva.

PA- Ficou boa, gostei: a maquiagem que te deixa viva. Ficou super bonita a frase.

        ( Paulina fica pensativa ).

PA- Eu tô pensando em uma coisa.

AL- E você pensa?

PA- Mas que piadinha sem graça, hein?

Al- É pra não perder o costume.

PA- De fazer piada ruim?

AL- Mas pelo menos já é alguma coisa.

PA- Já sei dessa história. Antes uma piadinha meia boca que nada.

AL- É isso mesmo.

PA- Daí a gente dá uma risadinha sem graça pra não perder o amigo.

Al- Mas que falta de consideração Paulina.

PA- Por que?

AL- Você vem dizendo depois de todo esse tempo que a gente tá junto que eu sou um amigo seu?

PA- Grrrr! Não é isso, foi só jeito de falar. Se bem que…. Se bem….

AL- Fala. Apertou o gatilho atira.

PA- Tá dizendo isso só por que a gente não morre.

Al- É, mas a bala fica lá dentro.

PA- E o que tem isso de mal?

AL- Como o que tem de mal?

PA- A bala ficar lá dentro da gente.

AL- Tem tudo. Eu acho.

PA- Veja uma coisa. A gente não chupa bala. A bala vai pra dentro. Então o que é essa bala também ficar lá dentro?

Al- Caraca! Você tem cada uma.

PA- Mas eu tô pensando.

AL- Tá pensando em quê?

        ( Paulina toca a face de Alberto ).

PA- Nessa frieza sua.

AL- Eu frio?

PA- É.

AL- Paulina, eu nunca fui frio. Sempre me incomodei com animais, plantas. Gente e tudo mais.

PA- Eu não tô falando dessa frieza. Eu falo que a gente é frio.

        ( Paulina encosta a mão na face de Alberto ).

PA- É disso que eu tô falando. É fria né?

AL- Eu não acho.

PA- Isso é por que você também tá frio. Se você fosse quente ia sentir.

Al- Lá vem você de novo. Eu estou estranhando

PA- Estranhando o quê?

AL- Antes você fala que eu sou frio. Tá, já explicou. Mas agora vem dizendo que se eu fosse quente. Tá querendo dizer que eu não sou quente?

PA- E nós somos quentes?

AL- Não, mas isso em outras palavras quer dizer que o cara não é bom de cama.

PA- E posso te adiantar que você é muito bom de cama. 

AL- Obrigado minha querida.

PA- É sim, você arruma a cama como ninguém. Troca o lençol, põe fronha nova, coloca colcha. Faz uma arrumação nova a cada dia. Eu adoro tua arrumação da cama.

AL- Estou falando de ser bom de cama.

PA- Grrrr! Já sei, eu lembro…

AL- Não me arrasa.

PA- O quê foi querido?

AL- É tão pouco caso de eu ser bom de cama que você precisa fazer força pra se lembrar?

PA- Não me leve a mal.

AL- Te levar a mal?

PA- É.

AL- Eu não quero te levar pra lugar nenhum. Eu gosto de você. Quero que você fique aqui comigo.

PA- Mas eu me lembro de quando você arrumou a cama, sabe aquela vez que ela tava precisando de uma arrumação?

 Ficou tão boa.

AL- É, não dá pra dizer que eu não sou bom de cama.

PA- E tem mais.

AL- Vai, me arrasa.

PA- Eu também me lembro daquela vez que você lavou os trens…

        ( Alberto dá um pulo ).

AL- Lavou trens? Menina eu não sabia disso. Você nunca me contou. Deve ter sido muito duro pra você. Eu imagino ter que lavar trens…

        ( Paulina fica de cócoras olhando Alberto ).

AL- E não é pouco. Cada vagão é muito grande. Deve ser um trabalhão danado. Eu respeito você demais por isso.

        ( Paulina se levanta ).

PA- Já terminou?

AL- Eu adoro você, Paulina.

PA- Sinto te desapontar, mas eu nunca lavei trem. Eu ia dizer e você me cortou…

        ( Alberto dá um pulo ).

AL- Eu não te cortei Paulina. Eu raspei a unha em você? Por quê com faca eu não estou. Pudera! Eu tenho que cortar as unhas. Deve ser isso, eu passei a unha e te peguei. Me desculpa. Me mostra onde foi. Tá doendo muito?

        ( Alberto vai até Paulina e procura o ferimento ).

PA- Arrrg! Não é isso.

        ( Paulina bate em Alberto ).

PA- Vai, sai de perto.

AL- O que é então?

PA- Eu ia falar que você me interrompeu, entendeu?

AL- É isso, então continua…

PA- Eu lembro quando você lavou a roupa de cama. E ficou bem lavada. Eu amei.

AL- Mas que tititi. Eu pensei tudo errado, então.

        ( Paulina ri bastante ).

AL- de que está rindo?

PA- Estou me lembrando de uma coisa.

AL- E o que é?

PA- Eu lembro de mais uma prova que você é bom de cama.

AL- Que mico, eu nunca pensei que seria ruim ser bom de cama.

PA- Lembra quando você quebrou a cama?

Al- Aleluia, até que enfim. Você já me achou bom de cama de verdade. Até que enfim. Valeu esperar.

PA- Eu lembro demais que você tava pulando na cama e ela não agüentou e quebrou.

AL- É isso então?

PA- Queria mais o quê?

AL- Eu queria uma outra prova de que sou bom na cama. Mas se essas são as únicas que você tem, vou fazer o quê? Mas lá atrás…

PA- O que tem atrás? Você andou escondendo alguma coisa? É muito feio esconder, sabia?

AL- Eu tava falando do assunto sobre frio que você falava.

PA- Isso me faz lembra de uma coisa horrível.

AL- O que é?

PA- Eu nem gosto de falar.

AL- Não gosta de falar?

PA- Não, eu me sinto mal falando nisso.

AL- tem um jeito.

PA- Quê jeito?

AL- Escreva. É só escrever. Quer que eu pegue um papel e caneta?

PA- Arrrrg! Que piadinha de quinta.

AL- Não diga isso. Essa piadinha não é de quinta, não. Isso eu garanto.

PA- É de quinta sim.

AL- E eu digo que não é de quinta.

PA- Dizer que se eu não consigo falar então é melhor escrever é uma piadinha de quinta, mesmo.

AL- E eu garanto que não é, e provo pra você.

PA- Então prove que eu quero ver. Vai…

AL- Hoje é sábado. Essa piadinha é de sábado.

PA- Grrrr! Tá, essa tá meia boca.

AL- Mas o que é que você não gosta de falar?

PA- De morrer…

        ( Paulina fala mais baixo ).

PA- De morrer. Morte. Que morri…

AL- Tem um jeito.

PA- E qual é?

AL- É fácil. Diga então que você bateu as botas…

PA- Bati as botas? Você acha que eu sou louca de bater minhas botas. Elas custaram caro. Eu não vou bater nelas. Não vou estragar a pintura. Não vou deixar elas riscadas… Eu sempre uso. Fica lindo uma bota com um vestido.

AL- Minha querida, bater as botas as pessoas dizem pra quem morre. Ele ou ela bateu as botas.  Então eu vou dizer outra coisa que você pode usar pra na dizer que morreu.

PA- Vai, tô esperando.

AL- Que tal dizer que você abotoou o paletó?

        ( Paulina pensa um pouco ).

PA- É, eu já abotoei o paletó.

AL- Viu, eu sabia que você ia gostar.
PA- Eu lembro de ter abotoado teu paletó várias vezes. Você tem o costume de deixar ele aberto. Eu acho que fica mais chique abotoado e com gravata.

AL- Mas não é isso que eu falava. Abotoar o paletó se diz de quem morreu.

PA- É isso? Então eu posso dizer que abotoei o paletó.

AL- Mas não para aí, eu tenho mais opção pra você.

PA- Fala.

AL- Você pode dizer que foi desta pra melhor.

        ( Paulina ergue os braços ).

PA- Como isso?

AL- Como o quê?

PA- Você vem dizendo que eu fui desta pra melhor. Até agora não surgiu nada melhor que essa casa pra gente morar. Eu me apeguei a ela.

        ( Paulina acaricia as paredes ).

PA- Eu gosto tanto dessa casa. A gente passou tanta coisa aqui…

AL- Caraca! Quem passou foi você.

PA- Como você é mal agradecido.

AL- Veja que eu só estou dizendo que quem passou foi você. Eu não passei.

PA- Por que não?

AL- Você já me viu passando roupa?

PA- Arrrrg! Tá bem, quem passou fui eu. Eu passei muita coisa nesta casa. Ela me dá muitas lembranças.

AL- Pra mim não me deu nada.

PA- Mal agradecido. Como é que essa casa não te deu nenhuma lembrança?

AL- Eu nunca ganhei nada dela: uma carteira, um chaveiro, um cartão postal, um porta níquel, etc. Nunca ganhei uma lembrança dessa casa.

PA- Grrrr! Eu mereço. Essa casa me dá muitas lembranças. Eu recordo de muita coisa que passei nela.

AL- Não se lembra de ter morrido nela?

PA- A gente não… Abotoou o paletó nela. Foi na estrada. Agora eu me lembrei de algo que dá pra eu dizer. Eu posso dizer que fiz a viagem.

        ( Alberto dá um pulo ).

AL- Isso não, nunca que vou deixar você viajar. Nunca.

PA- Calma.

AL- O que vai ser de mim sem você. Eu vou morrer…

        ( Paulina põe a cabeça de Alberto em seu ombro ).

PA- Não vai não. Você não vai morrer não, fique calminho. Eu só tô dizendo uma coisa que essa gente fala por aí. Eles dizem que aquele que morre fez a viagem, que viajou…

AL- Você em deu um susto.

PA- Eu não quis isso.

AL- Quase que eu morro de susto.

PA- Será possível! Fique calminho que você não vai morrer de susto.

AL- Não!

PA- Tá mais fácil a gente matar de susto alguém do que morrer de susto.

        ( Alberto se afasta de Paulina ).

AL- E você tem alguma idéia pra ficar quente?

        ( Paulina ri ).

PA- Eu tenho.

AL- Vai, fala.

PA- Eu penso em ficar um pouco no sol.

AL- No sol?

PA- É, por que o espanto?

AL- A gente até pode ter algum poder e não sabemos disso, mas ir até o sol já é demais. E como a gente vai chegar lá? O sol é longe da Terra. E pra pousar nele? Ele é super quente. Você quer ficar quente, mas vai acabar torrando. Nós não estamos com essa bola toda.

PA- Mas quem está dizendo em ir pro sol? Eu falo de ficar deitado no nosso quintal. E é melhor eu terminar pra você entender. A gente fica deitado no cão e o sol bate na gente.

        ( Alberto dá um pulo ).

AL- Você falou bate?

PA- Falei.

AL- Eu não vou querer que alguém me bata. Já chega as surras que meu pai me deu.

PA- Não é nada disso. Grrrr! A luz do sol toca na gente.

AL- Ta com vontade de tocar alguma música?

PA- Arrrrg!  Não pode ser. É demais pra mim.

        ( Paulina pega Alberto pelo braço e leva ele até a janela, afasta a cortina e entra luz na cara dele ).

PA- Ta vendo, é isso.

        ( Paulina e Alberto ficam um tempo na janela ).

AL- Tô sentindo um calor no corpo. Isso é bom. Faz tempo que eu não sinto esse calor correndo pelo meu corpo.

PA- Grrrr! Também, faz um tempo que você não corre. Não vá abusar. Vá devagar. Veja que assim você pode ter uma distensão muscular. Daí vai ficar reclamando de dor… Se bem que morto não tem dor. Mas vá lá, não é bom abusar. E olha o risco de câncer de pele… Se bem… Se bem que morto não tem câncer de pele. E veja que você pode pegar uma insolação… Se bem que morto não tem insolação.

AL- Paulina, é mais fácil falar pra eu sair.

        ( Alberto sai da janela ).

AL- Já saí. Tem mais algum jeito de ficar quente?

PA- Tenho.

AL- E qual é?

PA- Tomar banho quente.

AL- Banho quente?

        ( Paulina sai da janela ).

PA- É, banho frio que não ia ser pra gente ficar quente.

AL- É uma boa idéia. A gente já tira as células mortas do corpo e ainda fica quentinho. É muito bom.

PA- De onde tirou essa de tirar as células mortas?

AL- Eu li por aí.

PA- Que horror!

AL- por quê?

PA- se a gente for tirar todas as nossas células mortas a gente tira tudo de nós. Não fica nada.

AL- Não pensei nisso.

PA- Agora pode pensar.

AL- te outro jeito de ficar quente?

PA- tenho.

AL- fala.

PA- É a gente tomar umas bebidas com álcool. Bebida esquenta a gente.

AL- A gente pode fazer os dois. Tomar uma bebida e ficar exposto ao sol ou tomar um banho.

PA- É isso mesmo.

AL- Daí a gente vai lembrar de quando éramos vivos.

PA- Não fala isso.

AL- Por que, querida?

PA- me lembra que a gente…

        ( Paulina aponta o céu ).

AL- Por que ta apontando pra cima?

PA- É por que a gente foi pro céu.

AL- A gente foi pro céu?

PA- É.

AL- Não é não.

PA- Por que não?

AL- Veja, a gente ta aqui, eu não estou lá em cima.
PA- Grrrr! Eu não gosto que me lembre que morri.

AL- Eu até acho que você tá melhor agora.

PA- Não diga.

AL- Digo sim, digo sim, digo sim…

PA- Não diga, não diga, não diga…

AL- Você esta melhor mesmo.

PA- No quê?

        ( Alberto anda de lá pra cá ).

AL- Antes você era tão quietinha.

PA- De que adianta dizer que eu era? Agora passou. O que passou, passou. E passou. Temos que aceitar a nossa condição.

AL- Mas eu falei eu você está melhor.

PA- Esqueci disso. Até que você tem razão em um ponto.

AL- Que ponto? Eu não vou a nenhum lugar.

PA- Grrrr! De novamente.

AL- Eu vou ficar aqui.

PA- de que ponto você acha que eu estou alando?

AL- Só pode ser ponto de ônibus ou de táxi.

PA- Não é isso. Eu acho que tem o lado bom.

AL- Lado bom?

PA- É?

AL- Agora música não tem dois lado. Não dá mais pra dizer lado bom e lado ruim. É tudo do mesmo lado no CD.

PA- Grrrr! Eu ia dizer que a gente não precisa mais se preocupar com aonde vamos e a que horas vamos voltar.

AL- Por que não?

PA- Não pode acontecer nada de pior pra gente além de morrer. Morto a gente já está mesmo. Então a gente pode sair tranqüilo e aproveitar o passeio. 

        ( Paulina anda com os braços abertos como planando ).

PA- Encontramos a paz eterna.

        ( Voz de mulher ).

VOZ 1- AAAAAiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!

        ( Paulina parou de imediato ).

VOZ 1- AAAAAiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!

PA- Que VOZ é essa?

AL- Deve ter gente no portão.

PA- Então vá ver.

        ( Alberto vai até a janela e espia ).

AL- Não tem ninguém.

PA- Viu, você demorou e quem tava aí foi embora.

VOZ 1- AAAAAiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!

AL- Não foi não.

PA- Deve ter voltado.

        (  Alberto foi de novo até a janela e espiou ).

AL- Não tem ninguém.

PA- É trote.

AL- Quer dizer que tão querendo assustar a gente?

PA- Grrrr! Pode?

VOZ 1- AAAAAiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!

AL- de novo.

PA- O que vamos fazer?

AL- É melhor olhar a casa.

PA- Pra olhar a casa a gente precisa sair dela e ir um pouco longe. Daí a gente tem uma visão de toda ela.

PA- Não é isso. Nós temos que procurar essa VOZ aqui dentro. Se não tá lá fora ela está aqui entro.

        ( Paulina e Alberto começam a procurar de onde vem a VOZ e saem por um instante de cena ).

VOZ 1- AAAAAiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!

        ( Paulina e Alberto voltam correndo para o palco ).

PA- Já procurei por tudo. Não tem ninguém.

AL- Eu também. Não vi ninguém.

VOZ 1- AAAAAiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!

        ( Ambos falam junto ).

AL e PA- Se não é de gente essa VOZ pode ser de…

VOZ 1- AAAAAiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!

AL e PA- Fantasma.

        ( Alberto e Paulina começam a correr, mas Paulina segura Alberto e eles param ).

PA- A gente vai correr de um fantasma?

AL- É o que todo mundo faz.

PA- Mas a gente é um fantasma.

Al- E o que tem isso?

PA- Temos que ver de quem é essa VOZ e o que ele ou ela quer?

AL- Será que não é um parente nosso que morreu e agora veio nos visitar?

PA- A gente tem que perguntar.

VOZ 1- AAAAAiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!

PA- Fala você com ela.

AL- Eu não. Fala você.

PA- O que eu vou falar?

AL- Caraca! Sei lá, antes eu achava que era loucura falar com morto em cemitério, mas agora…

PA- Grrrr! Ajudou muito.

AL- Vai lá…

        ( Paulina procura a VOZ  olhando bem o teto ).

PA- VOZ! Você da VOZ. O que quer?

AL- Isso.

PA- Fala pra mim.

VOZ 1- AAAAAiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!

PA- Eu falei pra falar, hããããããããããããã.

VOZ 1- AAAAAiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!

PA- Eu não disse pra gritar.

VOZ 1- AAAAAiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!

PA- Tadinha! Ela deve estar com dor, só pode ser isso.

        ( Paulina põe a mão na cabeça ).

PA- Pensa Paulina, pensa.

AL- O que você quer pensar?

PA- Já pensei numa coisa. VOZ! Quer um analgésico?

AL- Analgésico?

PA- É, se essa VOZ tá com dor é melhor dar um analgésico pra ela. Vai ver ela não fala por que tá com dor.

VOZ 1- AAAAAiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!

AL- Parece que ela não quer falar.

PA- E agora?

AL- deve ser uma alma penada.

PA- Então é por isso que ela está gritando.

AL- Por quê, Paulina?

PA- Veja o calor que tá fazendo. Essa alma deve tá com um calor miserável e ainda mais com pena no corpo.

AL- Caraca!  É só um jeito de falar, Paulina. É uma alma que sofre.

PA- Então ele é uma alma penada. Ela não para de gritar de dor.

AL- Desisto. O que você vai fazer com essa alma penada?

PA- Nem tô com ela,  vou fazer o quê?

AL- Pra ela falar.

PA- Fala comigo VOZ. Fala.

VOZ 1- AAAAAiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!

AL- Será que ela tá gritando de dor ou falando Aí. Tem alguma coisa que você quer mostrar pra nós? Você fica dizendo aí. O que tem aí? Fala o que você quer mostrar.

VOZ 1- AAAAAiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!

PA- Ela só quer… Quer… espera, veio mais uma idéia… Ela tá gemendo.

AL- Gemendo?

PA- Fala baixo ela pode estar fazendo sexo. Por isso tá gemendo.

VOZ 1- AAAAAiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!

AL- de onde você tirou isso?

PA- Eu não tirei nada.

        ( Paulina mostra as mãos ).

PA- Eu não tenho nada nas mãos.

AL- Por que você acha que ela não fala?

PA- Grrrr! Se ela tá fazendo sexo ela tá ocupada demais pra falar.

AL- Tem lógica.

        ( Paulina abaixa a voz ).

PA- Então é melhor não atrapalhar.

        ( Paulina e Alberto ficam parados e em silêncio por um tempo ).

PA- A VOZ sumiu. Acho que já fez sexo.

AL- Então podemos falar.

PA- Podemos.

AL- Outra coisa que veio com a nossa transformação.       

PA- O quê?

AL- Nós estamos ouvindo vozes.

PA- Isso não é nada.

AL- Como não? Nós estamos ouvindo vozes.

PA- E daí?

AL- Você acha isso normal?

PA- Acho, eu ouvia vozes desde pequena. Ouvia as voz de meu pai, minha mãe, tias, tios, avó , vovô e depois as vozes das outras pessoas.

AL- Pudera! Por que falei?

PA- Eu sempre ouvi vozes.

AL- Eu sei, eu sei.

        ( Paulina sai correndo e pega uns dardos e começa a atirar na direção de Alberto e ele vai se esquivando ).

AL- O que tá fazendo, Paulina?

PA- Não sabe ainda?

AL- Tá, eu sei.

PA- Então por que perguntou?

AL- Mas o que você está querendo?

PA- Preciso falar?

AL- Se estou perguntando.

PA- Eu quero te acertar.

        ( Paulina continuava mirando o Alberto e jogando os dardos e ele correndo pela sala se esquivando ).

PA- Eu vou te acertar.

AL- Não vai não.

PA- Você devia deixar eu te acertar.

AL- Por quê?

PA- Espera aí, fica quieto aí, agora você é um alvo fixo.

        ( Alberto corre ).

PA- Agora você é um alvo móvel.

Al- Por que eu devo deixar você me acertar?

        ( Paulina para e mostra os dardos ).

PA- Viu, não tem a ponta pra fincar.

        ( Alberto para ).

AL- Por que não me falou antes?

        ( Paulina joga mais dardo em Alberto e acerta de bem perto ).

AL- Também assim de bem perto, até eu.

PA- Acertei.

AL- Por que você tirou a ponta?

PA- Pra não machucar. Sabe aquelas mensagens que aparecem pra criança não fazer que pode se machucar. Pois é, eu fui mais longe… ( Alberto dá um pulo ).

AL- Onde você foi?

PA- Foi?

AL- É, onde você foi? Me diga.

PA- Foi jeito de falar. Eu não saí daqui.

        ( Paulina bate na cara de Alberto ).

PA- Eu estou aqui, tá me vendo?

AL- E como não ia ver você quase em cima de mim?

PA- Tirei as pontas, assim ninguém se machuca. É isso.

        ( Paulina e Alberto ficam em silêncio por um instante ).

PA- O quê é isso?

AL- O quê?

        ( Paulina começa a andar mirando algo no ar ).

PA- Não pode ser.

AL- Não pode ser o quê?

        ( Paulina começa a dar braçadas com os dois braços no ar ).

AL- Tá querendo nadar?

PA- Grrrr! Não me atrapalhe.

        ( Paulina dá braçadas com um só braço ).

AL- Se é pra nadar fica melhor com os dois braços.

PA- Arrrrg! Eu não posso falar.

AL- Eu sei disso.

PA- Sabe?

AL- Sei sim, se você falar entra água na tua garganta.

PA- Grrrr! Veja só, não é isso.

AL- Então por que não pode falar?

        ( Paulina não responde, mas continua com o movimento ).

AL- De braçadas com os dois braços.

PA- Silêncio!

AL- Movimenta a cabeça para o alto, senão você não respira.

        ( Paulina se abaixa atrás do sofá e fica por um momento, daí ela dá um tapa no chão – mosca – se ergue com a mosca na mão e fixa o olhar nela ).

AL- O que você tem?

        ( Paulina mostra pra Alberto ).

PA- Veja.

AL- O quê?

PA- Veja.

AL- O quê?

PA- Você tem que chegar mais perto.

        ( Alberto se aproxima bem de Paulina e se curva pra ver sua mão que ela estende ).

PA- Veja.

AL- Caraça! É uma mosca.

PA- Passarinho que não é.

AL- mas cheguei perto.

PA- Perto?

AL- Pássaro voa e mosca também voa. São bem parecidos.

PA- Hááááááááááá!

AL- Por que matou ela?

PA- É uma mosca.

AL- Antes ele estava viva.

PA- Antes, disse tudo.

AL- Justamente você, antes eu dizia pra todo mundo que você era incapaz de matar até uma mosca. Veja só a nova da hora. É o maior tititi mano. Agora não posso mais dizer isso. Você é capaz de matar uma mosca.

PA- Eu nem sei por que matei.

AL- parece réu no tribunal. Não sei por que fiz isso ou aquilo.

PA- Mas não sei mesmo.

AL- O que vai fazer com ele?

PA- Não sei.

AL- Não vai ficar aí olhando pra ela o tempo todo, vai?

        ( de repente Paulina põe a mosca na boca, mastiga e engole ).

AL- Não!

        ( Alberto dá um pulo ).

AL- Meu Deus!

        ( Paulina fica estática ).

AL- O que você fez? Vamos, responda.

        ( Paulina não responde nada ).

AL- Me responda.

        ( Alberto dá uns tapas na Paulina ).

AL- Acorda, vai. Em que planeta você tá?

        ( Alberto abana Paulina ).

AL- Deve ser o calor. Cozinhou o cérebro dela. Eu falei pra ela não tomar sol.

AL- Acorda.

        ( Alberto solta um grito ).

AL- ACORDA Paulina!

        ( Paulina balança a cabeça ).

PA- O que aconteceu?

AL- E você ainda pergunta?

PA- mas eu não sei o que aconteceu.

AL- Não sabe, uma vírgula. Sabe sim.

PA- Juro que não sei.

AL- tem que saber.

PA- Então me conta o que foi.

AL- Eu contar?

PA- É, me conta.

AL- Você comeu uma mosca.

PA- Arrrrg! Que nojo.

AL- Não veja por esse lado. Era uma mosca bem asseada. Era limpinha, devia de ter tomado banho antes.

PA- Mosca? Por que eu fiz isso?

AL- É só o que quero saber.

PA- mas eu não sei.

AL- E o que a gente faz agora?

PA- Eu tenho que comer algo bom pra memória.

AL- Más nós só podemos tomar a essência. Não podemos sair por aí comendo de tudo.

PA- Eu sei disso. Mas eu fui puxada até ele.

AL- Não!

        ( Alberto dá um pulo ).

AL- Você foi puxada?

PA- Já disse que fui.

AL- Deve ser a mosca que te puxou….

PA- É sério isso.

AL- E é pra ser. Onde já viu uma mosquinha te puxar.

PA- O quê?

AL- E eu não sei como ela te puxou. Aqui não tem corda nenhuma. Como ela fez isso?

PA- Grrrr! Para, eu tô  P. Tô de saco cheio.

AL- Isso é impossível.

PA- Por quê?

AL- Você não tem saco. Saco é pra homem.

PA- Isso é momento pra brincar?

        ( Alberto começa a pular num pé só ).

PA- O que faz?

        ( Alberto não responde e continua pulando ).

PA- Tá fazendo exercício?

        ( Alberto continua pulando ).

PA- Quer emagrecer? Mas você nem gordo tá.

        ( Paulina vai atrás de Alberto ).

PA- Se tá pulando amarelinha  não tem graça nenhuma. Veja só o chão. Não tem os quadradinhos pintados. Se quiser eu pinto par você pular.

        ( Alberto continua pulando ).

PA- Se tinha alguma poça de água no chão já secou, pode andar normal que não vai molhar o pé.

        ( Alberto continua pulando ).

PA- Arrrrg! Como não pensei nisso. Você machucou o pé. Por isso tá pulando. Não consegue encostar o pé machucado no chão. Tadinho. Quer que eu faça um curativo?

        ( Alberto continua pulando ).

PA- É melhor pular também com o outro pé. É pra exercitar as duas pernas. Não é legal pisar só numa perna. Depois você vai ter problema com uma delas.

        ( Alberto continua pulando numa única perna ).

PA- Já pulou bastante com essa, agora troque. Não esqueça de trocar as pernas, querido. Já pulou com a esquerda, agora experimente a direita.

        ( depois de um tempo Alberto para de pular ).

PA- Até enfim parou. Eu tava com medo que você tivesse um problema muscular. Eu nunca te vi fazendo exercício.

        ( Alberto chacoalha a cabeça ).

AL- Paulina, parece que tô  atordoado. O que eu fiz?

PA- Você não sabe?

AL- Sei o quê?

PA- O que estava fazendo?

AL- Não!

PA- Como pode não saber o que está fazendo?

AL- Do mesmo jeito que eu casei com você.

PA- Essa tem volta. Você estava pulando.

AL- Eu, pulando?

PA- É.

AL- Não me lembro de nada. O que será que está acontecendo?

PA- Não sei, mas tenho minha desconfiança.

        ( Alberto senta no sofá e põe a mão na cabeça ).

AL- Então fala logo.

PA- Eu acho que tem a ver com a nossa morte.

AL- Nós não estamos mortos…

PA- Eu sei, eu sei, eu sei, mas não é por aí.

AL- Eu não estou indo a lugar nenhum.

PA- Por que tá me dizendo isso?

AL- Você disse que não é por aí. Eu tô parado, não estou indo pra lugar nenhum. Não tem por aqui, por ali ou por lá.

PA- Eu quero dizer que essa morte não fez a gente deitar… A verdade é que a gente tá morta, mas esqueceu de deitar.

AL- Eu não esqueci. Deito assim que posso pra descansar.

PA- Não é isso.

AL- Então fala logo.

PA- Eu acho que algumas partes bem pequenininhas morreram dentro da nossa cabeça.

AL- Não diga.

PA- Eu já disse, agora é tarde, por que não me pediu pra não dizer antes de eu falar?

AL- Quer dizer que algumas partes morreram dentro de nós?

PA- É isso.

PA- Como essas minúsculas partes de nosso cérebro se perderam…

        ( Alberto fica procurando no chão ).

PA- O que está procurando?

AL- As partes de nosso cérebro.

PA- Não adianta procurar. Elas estão queimadas lá dentro.

        ( Paulina toca sua cabeça ).

AL- Mas eu não me lembro do carro ter pego fogo.

PA- O que tem isso?

AL- Você disse que nossa cabeça tá com parte queimada.

PA- É o jeito de falar. Tem algumas partes em nosso cérebro que não funcionam, ou melhor, estão com defeito.

AL- E o que a gente faz? Mandar para uma loja pra arrumar não dá. Comprar uma peça nova também não tem. O que a gente faz?

PA- Temos que aprender a lidar com isso. Temos que estar preparados quando isso acontecer. É isso, esse comportamento bizarro não vai nos pegar de surpresa. A gente tá mudando muito. Tá mudando mesmo.

AL- Estou com você Paulina.

PA- E eu que sempre gostei de festa surpresa.

AL- Eu também.

        ( Paulina caminha para sair de cena ).

AL- Onde vai?

PA- Vou ao quarto.

        ( passa um tempo e Paulina volta com uma boneca no colo com a cabeça cortada e costurada e com sangue ).

AL- Paulina, você disse que a gente tava mudando. Não é tanto assim. Veja você com a sua boneca mais querida.

AL- Vamos brincar de boneca?

PA- Não.

AL- Mas a gente sempre brincou junto. O que está acontecendo? Eu adoro brincar de boneca. Eu sou o pai e você é a mãe.

        ( Alberto se levanta e se aproxima de Paulina ).

AL- Vem com o papai, bonequinha linda.

        ( Alberto pega a boneca no colo ).

AL- AAAAAAAAAAAiiiii!

        ( Alberto sai correndo de cena e deixa a boneca cair ).

PA- Alberto, volta.

        ( Paulina apanha a boneca do chão ).

PA- Volta Alberto, não tem nada demais.

        ( Alberto responde fora de cena ).

AL- Eu não vi uma conta de matemática pra ter mais ou menos.

PA- Venha.

AL- Que boneca é essa?

PA- É a minha melhor amiga.

AL- Se é sua melhor amiga não quero ver uma inimiga sua.

PA- Venha.

AL- Estou muito assustado. Você estava dizendo que nossa casa é mal assombrada, por isso a gente precisava assustar pra fazer dela uma casa bem assombrada. Mas eu não pensei que você ia me assustar. Eu não.

PA- Não estou te assustando. Só quis te mostrar minha boneca.

AL- Já mostrou.

PA- Venha, querido. Se você não vir eu vou atrás de você.

AL- Está bem, eu vou. Mas não me assuste mais.

        ( Alberto entra devagar em cena ).

AL- Por que fez isso na boneca?

        ( Paulina mexe na cabeça da boneca ).

PA- Veja Alberto. Agora ela responde sim e não pras minhas perguntas. Antes ela ficava quietinha e não respondia nada.

        ( Paulina pega na cabeça da boneca e faz sim e não ).

PA- Não é um amor? Agora ela me responde. Reponde sim e não.

AL- Responde mesmo.

PA- Antes só eu perguntava e eu mesma respondia. Agora ela diz sim ou não. É uma maravilha. Até que enfim tenho uma companhia à minha altura.

AL- Eu tenho…

PA- O quê?

AL- Eu tenho…

PA- Alberto, você não tem nada, isso tudo aqui foi herdado de meus pais.

AL- Eu tenho que te avisar que eu te respondo Paulina. Não precisa fazer isso comigo. Eu faço companhia pra você.

PA- Eu nunca iria fazer algo assim com você.

AL- Ah! Isso me dá um alívio.

        ( Alberto sai de cena e volta um tempo depois com uns carrinhos amassados ).

PA- Onde ela foi?

        ( Alberto entra em cana ).

AL- Veja meus carrinhos.

PA- Eu já vi eles.

AL- Mas pega eles um pouquinho.

        ( Paulina se aproxima para pegar ).

PA- Está bem, que bonitinhos. AAAAAAAAAAAAAiiiiii!

        ( Paulina deixa os carrinhos caírem no chão e sai correndo para fora da cena ).

AL- O que foi Paulina?

PA- O que foi digo eu.

AL- Por que correu.

PA- Por não quis andar.

AL- Venha aqui.

PA- O que é isso dentro do carrinho?

AL- Caraca! Isso é só um dedo.

PA- Você diz só um dedo. É um horror.

AL- Não é não.

        ( Alberto tira o dedo e fica observando ).

PA- Como você teve coragem de cortar um dedo?

AL- A pessoa nem vai sentir sua falta.

PA- Já experimentou ficar sem um dedo.

AL- Eu já falei que o dono do dedo não vai sentir a falta dele.

PA- Como não?

AL- Eu cortei o dedo de um morto.

        ( demora um tempo e Paulina entra devagar ).

PA- Ele estava bem morto mesmo? Bem caído no chão? Não tava de olho aberto? Não abria a boca? Ele não se mexia?

AL- Estava bem morto. Até enterrado estava.

PA- Isso me dá um descanso. Se você fala que foi isso eu fico mais em paz.

AL- Eu não tenho certeza, mas acho que foi isso.

PA- Como?

AL- Eu não me lembro.

PA- Igual eu. Eu não me lembro de ter cortado e depois ter costurado o pescoço da boneca. Só me lembro que me dei por conta com ela já mudada no meu colo.

AL- Quando eu me lembro eu já estava com os carrinhos amassados e o dedo dentro. Mas até que não é tão terrível. Esse dedo deu uma veracidade ao acidente.

PA- É, mas pode ser o dedo de um mentiroso, daí não tem veracidade nenhuma.

        ( Paulina anda de uma lado para o outro ).

PA- Nós estamos fazendo coisa que não sabemos. Cada um de nós tem que ficar de olho no outro.

AL- Por que você acha que cortou o pescoço da boneca?

PA- Acho que pra ela ficar igual a mim.

AL- Igual a você?

PA- Justamente.

AL- Não me diga isso. Que pavor.

PA- O que é meu amor?

AL- Caraca! Quer dizer que você pretende cortar teu pescoço?

PA- Não.

AL- Mas você acabou de dizer que cortou o pescoço dela pra ficar igual a você. E você não tem pescoço cortado. Eu pensei que quisesse cortar o seu também.

PA- Grrrr! Evidente que não. Mas… E você?

AL- O que tem eu?

PA- Você diz que eu não pareço real quando me pinto?

AL- E não parece mesmo.

PA- Você não tá pensando em cortar um dedo meu pra eu ficar real, tá?

AL- Não, é lógico que não, abra sua cabeça.

PA- Não vem que não tem. Eu não vou abrir minha cabeça. Tenho horror a serra, martelo, furadeira, etc.

AL- De que está falando?

PA- Você não está querendo que eu abra minha cabeça pra curar os pedaços que estão danificados?

AL- Até que não é uma má idéia. Mas eu me refiro a pensar.

PA- Mas nós temos que um vigiar o outro.

Al- Eu tenho medo do que está por vir. Essas mudanças estão vindo rápidas demais.

PA- E eu não quero mudar.

AL- Nem eu.

PA- Eu gosto tanto dessa casa. Quero ficar aqui por muito tempo.

AL- Pudera! Agüente. Não é essa mudança Paulina. Estou falando de mudança interna.

PA- Está precisando de um transplante de órgãos e não me falou nada? Se for isso, eu posso ser o doador. Pra mim eles não tem nenhuma utilidade agora.

AL- Não fale besteira Paulina. Nós não sabemos direito como é viver sendo morto.

PA- É uma mortaria. Isso está me fazendo passar…

        ( Paulina fica tonta ).

AL- Deita no sofá, querida.

        ( Paulina deita ).

PA- Estou tendo um ataque.

        ( Alberto abana paulina com as mãos ).

PA- Estou com medo de morrer.

AL- Paulina, deixa disso. Você não pode ter ataque e muito menos morrer.

PA- Eu me esqueci disso.

        ( Alberto senta no chão ao lado de Paulina ).

AL- sabe, eu vou te falar uma coisa que eu tenho ficado meio intrigado nos últimos dias.

PA- O que foi, é mais horror?

AL- Calma, querida. Não é horror, não.

PA- Então pode falar.

AL- Eu tava vendo as nossas fotos.

PA- Eu não disse que era horror? Eu não gosto de ver nossas fotos. A gente era tão mais bonito antigamente.

AL- Obrigado por me chamar de feio, mas não é isso. Daí eu encontrei a nossa certidão de casamento.

PA- O que tem ela? Tá suja? Tá rasgada?

AL- Não, não e não, eu reparei numa coisa que está escrito nela.

PA- Fala homem.

AL- Está escrito que nós somos casados até que a morte nos separe.

        ( Paulina se levanta ).

PA- Caiu a ficha. Quer dizer que não somos mais casados?

AL- parece que não.

PA- Mamãe dizia que sem estar casados é pecado dormir junto. Então a gente vai ter que dormir separado? Acabou nosso casamento?

AL- Não pode ter acabado.

PA- Arrrg! E isso tá te deixando triste?

AL- Tá sim. Nós somos acima de tudo uma família normal.

PA- Vamos ter que casar de novo?

AL- E o problema não termina aí.

PA- Não.

AL- Eu sou viúvo de você e você é viúva de mim.

PA- Não tinha pensado nisso.

AL- Se pensar bem é.

PA- Prefiro pensar mal. Então eu tenho que usar duas alianças.

        ( Paulina mostra a aliança para Alberto ).

PA- Está vendo, eu preciso de mais uma. Me dá a sua.

AL- E como eu fico?

PA- Então a gente tem que comprar mais alianças.

AL- Esse assunto tem que ficar só entre nós. Você não pode falar pra ninguém. Tem que morrer aqui.

PA- Como que a gente morreu aqui? Não foi aqui. Esqueceu que a gente morreu na estrada?

AL- Estou dizendo que você não pode falar o que a gente conversa pra ninguém.

PA- Eu já falei.

AL- Pra quem?

PA- Pra Luzia.

AL- Meu Deus. E quem é essa Luzia?

PA- É minha boneca. Eu amo tanto ela.

AL- Por que deu o nome de Luzia pra ela?

PA- Toda vez que eu coloco ela na luz da lanterna ela tem muita luz, daí eu coloquei o nome dela de  Luzia.

AL- Mas só conte pra ela então.

        ( Paulina bate palmas ).

PA- Que bom, pra Luzia eu posso contar?

AL- Pode.

        ( Paulina fica brincando com a Luzia ).

PA- O quer você disse, Luzia?

        (  Paulina encosta o ouvido na boca da Luzia ).

PA- Veja só o que a Luzia disse a nosso respeito.

AL- O quê?

PA- Que nosso amor morreu.

AL- E a gente vai ter que enterrar ele?

PA- Onde vai ser o enterro? 

AL- Por aí.

PA- Eu penso em ir pro nosso casamento com uma coisa bastante nova em conceitos de moda.

AL- E o que é isso?

PA- Um vestido branco com véu e grinalda. Vou usar ainda flor de laranjeira.

AL- Querida! Eu prefiro um vestido preto. Ia cair bem em você.

PA- Tá querendo que o vestido caia?

AL- Não foi isso, é só o jeito de falar.

PA- De preto nós vamos parecer estar num velório.

AL- Não é de todo mau.

PA- Como não?

AL- Em velório a gente revê os amigos, põe a conversa em dia, se distrai,  e aínda tem o melhor que é quando servem a comida e a bebida.

PA- Nem sei o que falar para as amigas: vou encomendar a alma de um amigo ou meu namorado. E como fica o casamento?

AL- Tenho que pensar. É casamento,  logo depois separação, viuvez… É melhor prever tudo isso e já fazer um acordo matrimonial.

PA- Lembra Alberto que você tava achando falta de algo pra cima. Você achava tudo que nos cercava monótono. 

AL- E como vou esquecer? Agora não tá mais monótono, mas minha vida está mono. Eu queria uma vida stério ( escuta  por dois autos- falantes ). Agora é uma surpresa atrás da outra.

PA- E não é bom assim?

AL- Eu não acho.

PA- Pensa comigo. Agora não tem mais aquela de pedir a mão pra casar.

AL- Não?

PA- Isso é passado. Agora tem eu vou encomendar tua alma. Já pensou que romântico.

        (  Paulina começa a dançar pelo palco ).

PA- Eu vou encomendar tua alma.  Eu vou encomendar tua alma para sempre. Veja que lindo. Isso abriu minha cabeça.

        ( Paulina continua dançando e de repente apanha Alberto e ambos dançam ).

PA- Eu vou encomendar tua alma. Eu vou encomendar tua alma para sempre. Daí eu digo: minha alma tá encomendada, é sua meu amor.

        ( Ambos param de dançar e Alberto fica de joelhos diante de Paulina ).

AL- Eu encomendo tua alma Paulina!

PA- Eu aceito.

        ( ambos se abraçam ).

PA- E eu que pensava que depois de um tempo nosso casamento ia esfriar.

        ( ambos se soltam e ficam em silêncio ).

PA- No sentido figurado não esfriou. Tá cada vez mais quente.

        ( Um toca o outro ).

AL e PA- Entramos numa fria.

AL- Foi só acontecer essa mudança que acendeu uma chama…

PA- Meu Deus! Eu tinha esquecido disso.

AL- O que foi paulina?

PA- Eu esqueci de falar pra você comprar.

AL- O que você quer que eu compre?

PA- Velas…

AL- Velas?

PA- Um monte delas. Eu quero brancas, verdes, vermelhas, amarelas, pretas, azuis, rosas, marrons e o que tiver.

AL- Por que você quer vela?

PA- Eu quero velas por que todo mundo acende velas para os mortos. Então deve ser bom para a pessoa que acende e para o morto que recebe a vela acesa. Veja só o raciocínio, sendo assim vela vai fazer muito bem pra nós. A gente pode enfeitar nossa casa com velas coloridas acesas. Garanto que vai ficar cult.  Eu já comprei algumas, mas é bom a gente ter um verdadeiro estoque de velas.

AL- E eu… E… E eu não posso dizer nada. Você tem razão. Isso é um hábito antigo. Quase todo mundo acende vela pra morto. É só seguir a lógica. Claro! Se faz bem pra morto vai fazer bem pra nós.

PA- Espera um pouco.

        ( Paulina corre para fora de cena, apanha velas coloridas, isqueiro e porta velas, dá um tempo e volta para cena ).

AL- Paulina, onde você foi?

PA- Não está vendo?

AL- Estou vendo velas.

PA- Grrrr!  Eu fui buscar velas.

AL- Pra quê?

PA- Pra gente testar.

AL- Testar o quê? Você quer que eu coloque elas na testa.

        ( Alberto paga algumas velas e coloca na sua testa ).

PA- Não, é pra acender e ver o que acontece.

        ( Paulina arruma as velas sobre a mesa ).

AL- Se a gente não tomar conta delas pode pegar fogo em nossa casa.

PA- Não é isso, estou falando do plano espiritual.

AL- Se é assim, você que sabe.

PA- Eu não sei aínda, desconfio.

        ( Paulina vai acendendo uma por uma ).

AL- Está sentindo alguma coisa?

PA- Meu deus, parece que sim.

AL- O quê?

PA- É uma vibração que tá dando em todo o meu corpo.

AL- E como é essa vibração?

PA- Parece muito com a vibração que eu tive antes de ir com você na primeira vez.

AL- Eu tava pegando fogo naquele dia.

PA- E me encheu de cera quente.

AL- Não fala assim que eu me derreto.

PA- Mas que sensação gostosa.

AL- Espera aí, eu estou sentindo também.

PA- Não disse.

        ( ambos ficam brincando um com o outro, fazendo cócegas ou dando tapinhas ).

PA- Isso é muito bom. Não pode faltar velas em nossa casa.

AL- Isso você não pode contar pra ninguém.

PA- Pode deixar, minha boca é um túmulo.

        ( Um corre atrás do outro e daí trocam quem corre atrás ).

PA- E veja como fica com uma nova aparência nossa casa. Ela fica mais bonita.

AL- Eu também gostei.

        ( ambos param e ficam se requebrando ).

AL e PA- Isso é gostoso demais.

        ( ficam um tempo se remexendo demonstrando prazer ).

PA- Agora nós não temos adrenalina, temos vela. Eu pensei em outra coisa.

AL- Qual é o tititi?

PA- É só seguir o mesmo raciocínio. Se flores fazem bem pra morto também vão fazer pra gente. Da próxima vez que você sair traga um montão de flor também.

AL- Você não tem aí?

PA- Não, eu acabei de ter idéia.

AL- Pode deixar que eu compro.

PA- Então está bem. Você é vivo.

        ( ambos dão gargalhada ).

AL e PA- Nós somos vivos.

AL- Eu faço isso com a maior alegria.

PA- Aonde você vai?

        ( Alberto deixa a cena, apanha duas facas cenográficas ).

PA- O que ele foi fazer? Da um pânico quando ele não tá perto de mim. Da um frio na alma.

        ( Alberto entra em cena ).

PA- Até que enfim você voltou. Estava ansiosa.

        ( Alberto levanta e mostra duas facas em suas mãos ).

PA- Que horror! Vai cortar o quê? Aqui não tem nada pra cortar.

        ( Alberto se aproxima ).

PA- Essa sua cara não me é estranha.

        ( Alberto começa a golpear o ar com as facas e indo na direção de Paulina ).

PA- Arrrrg! Meu Deus. SOCOOOOORROOO!

        ( Paulina sai de cena correndo e aparece só a VOZ 1 dela ).

PA- Que casa bem assombrada é a nossa. Eu pensei que a gente ia assombrar os outros, mas somos nós mesmos nos assombrando. É um assombrando o outro. Isso não tem cabimento. Eu juro que não entendo.

        ( Paulina bota a cabeça em cena para espiar Alberto ).

PA- Será que ele quer matar mosca ou pernilongo?

        ( Alberto continua golpeando o ar com as facas ).

PA- Ou será que ele está com muito calor e está fazendo vento? O que eu faço, meu Deus?

        ( Paulina se aproxima de Alberto pé por pé ).

PA- O que você tem Alberto.

        ( Alberto aponta as duas facas pra Paulina ).

PA- Isso eu já sei, você tem duas facas. Eu quero saber o que você está sentindo.

        ( Alberto avança na Paulina tentando acertar ela ).

PA- Corta a cena, corta…  SOCOOOOORROOO!

        ( Paulina sai de cena correndo e aparece só a VOZ 1 dela ).

PA- Meu Deus! O que é isso? Ele ta querendo me matar. Mas não pode ser isso. A gente se ama. Será que ele quer se livrar de mim pra arrumar uma viva alma? Será que o nosso amor morreu? O que faço? Eu não vivo sem esse homem. Mas acho que ele vive sem mim. Como é horrível se sentir descartável.

        ( Paulina bota a cabeça em cena para espiar Alberto ).

PA- Alberto! Fica calmo, joga essas facas no chão. E se eu cantar uma música pra ele se acalmar? Tem uma que ele gosta muito. Lá vai. Atirei o pau no ga-to, to, mas o ga-to, to, não mor-reu, reu, reu…

        ( Alberto deixa as facas caírem no chão ).

PA- Arrrrg! Benza Deus, funcionou. Ele largou as facas. Veja só a força da psicologia. Isso abriu a mente dele. E não precisou de faca pra abrir.

        ( Paulina vai até Alberto ).

PA- Ta melhor?

        ( Alberto chacoalha a cabeça ).

AL- O que aconteceu?

PA- Não sabe de nada? Eu já desconfiava. É mais uma seqüela da nossa morte.

AL- O que aconteceu?

PA- Você acredita que estava querendo me matar?

AL- Eu?

PA- Você mesmo.

AL- Estou com medo de mim mesmo.

PA- Não é pra tanto. Isso tem solução.

AL- Eu disse que to com medo de mim mesmo e você diz que tem solução.

PA- Tem e é muito simples.

AL- Qual é?

PA- Basta você não olhar no espelho.

AL- Não é isso, eu não sei do que sou capaz de fazer.

PA- Isso eu ainda não sei. Eu pedia tanto pra ter novidade no nosso relacionamento, mas não achava que seria isso. 

AL- Eu estou sem saber o que falar. O que foi que me fez voltar ao normal?

PA- Normal, normal você nunca foi, mas eu cantei uma música do atirei o pau no gato.

AL- Eu sempre adorei quando você me chamava de gato. Faz tanto tempo que você não me chama assim.

PA- Eu cantei a música.

AL- Eu falei só pra dar uma animada. Então foi essa música que me acordou? Que bom.

PA- Eu cai dura quando te vi com as facas.

        ( Alberto dá um pulo ).

AL- Você morreu?

PA- Morri?

AL- Você disse que caiu dura. Nós não estamos duros.

        ( Alberto belisca Paulina ).

PA- AAAAAiiiiii!

AL- Você é mole.

PA- Veja só esses xingamentos. Não vem dizendo que eu sou mole. Eu sou do trabalho.

AL- Eu pensei que você estivesse dura.

PA- Não estou não.

AL- Ainda bem, ainda bem.

PA- Eu ainda tenho um dinheirinho guardado.

AL- Eu estava falando do corpo duro. Que bom que você não está.

PA- Também não diga assim que ofende uma mulher.

AL- Ofende o quê?

        ( Paulina faz pose ).

PA- Não se pode sair por aí dizendo que uma mulher não tem o corpo durinho.

AL- Por que não?

PA- Por que nenhuma mulher gosta de não ter um corpo duro.

AL- Ainda não entendi.

PA- Veja Alberto. Nenhuma mulher quer ter o corpo cheio de gordura, flácido, celulite e barriga de avental. Toda mulher quer ter o corpo durinho, sarado.

VOZ 1- Hahahahahahahahahahahaha!

PA- Ouviu isso?

AL- É uma risada.

PA- Deve estar rindo da nossa desgraça. Desgraça no fiofó dos outros é refresco.

AL- Não fale assim, é aquela voz que a gente ouviu há pouco.

PA- Agora ta rindo. Rindo de quê?

VOZ 1- Hahahahahahahahahahahaha!

PA- Eu não gosto que ninguém ria de mim.

AL- Ela só está feliz paulina.

PA- Feliz com nossa desgraça, não.

VOZ 1- Hahahahahahahahahahahaha!

PA- Eu não to dizendo piada. Se… Bem… Se bem que eu nunca contei piada e alguém riu. Essa voz1 estranha é a primeira a rir do que falo. Sabe o que o nariz falou pra boca?

        ( Faz-se silêncio ).

PA- Olá você aí embaixo.

VOZ 1- Hahahahahahahahahahahaha!

PA- Alberto, ela gostou da piada.

AL- Conta outra aproveita.

PA- Sabe o que o umbigo falou pra parte embaixo?

        ( Faz-se silêncio ).

PA- Eu sou uma rua sem saída.

VOZ 1- Hahahahahahahahahahahaha!

PA- Alberto, eu tenho alguém que gosta de minhas piadas.

AL- Ela deve estar rindo pra não perder a amiga.

PA- Não, e não. Voz, tenho outra piada pra te contar. Sabe o que os dedos falaram pra mão?

        ( Faz-se silêncio ).

PA- Você é cheia de dedos.

VOZ 1- Hahahahahahahahahahahaha!

PA- Eu tenho uma fã. Como é bom a gente contar uma piada e ter alguém pra rir.

AL- Chega de contar piada, não deve ser isso que essa voz está rindo, chega agora.

VOZ 1- Aaaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhhhh!

PA- Está vendo Alberto, essa voz gosta de minhas piadas. Ta bem, eu vou contar outra. O que os pés disseram pra mãos?

        ( Faz-se silêncio ).

PA- Nós metemos pos pés pelas mãos.

VOZ 1- Hahahahahahahahahahahaha!

PA- Diga seu nome. Apareça, vamos conversar.

        ( Faz-se silêncio ).

AL- Pelo jeito ela só quer saber de suas piadas.

PA- Sempre que eu puder eu conto umas piadinhas pra você. E se quiser pode ficar morando aqui.

AL- Por que ta dizendo isso?

PA- Isso o quê?

AL- Pra ela morar aqui.

PA- Eu não quero que ela seja uma alma perdida. Viu, você tem um lar pra morar. Se quiser pode morar aqui. Gostei de você.

AL- Só por que ela gosta de suas piadas.

PA- Já é o começo.

AL- Ela já foi embora.

PA- Também, se matou de dar risada. Deixa que me deu vontade de ir até…. Eu já volto…

        ( Paulina sai de cena, pega um martelo e volta logo depois ).

AL- Até que enfim paz… Caraca! O que é isso?

        ( Paulina entra dando marteladas no ar ).

AL- Ta querendo matar mosca ou pernilongo? Já sei, tá querendo comprimir o oxigênio. Vai pregar alguma parede solta.

        ( Paulina chega bem perto de Alberto ).

AL- AAAAAiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii! Deixa eu me mandar.

        ( Alberto sai de cena correndo ).

AL- Não entre em pânico! Eu odeio essa casa. Ela está bem assombrada demais. Minha mulher tá querendo me matar. O que faço? E eu que queria uma mulher que me matasse na cama. A Paulina quer me matar na sala. Não é bem esse tipo de matar que eu queria. Eu lembro que queria uma mulher que matasse meus desejos. Mas não que matasse eu. O que faço?

        ( Alberto bota a cabeça em cena para espiar Paulina ).

AL- Paulina, joga esse martelo no chão. O que eu posso fazer pra ela despertar?

        ( Paulina continua dando marteladas no ar ).

AL- E se eu cantar a música que a Paulina cantou pra mim? Vai lá. Atirei o pau no ga-to, to, mas o ga-to, to, não mor-reu, reu, reu…

        ( Paulina deixa o martelo cair no chão ).

AL- Funcionou! Agora eu posso ir até ela.

        ( Alberto chega perto de Paulina que chacoalha a cabeça ).

PA- O que foi?

AL- Você queria me matar.

PA- Eu?

AL- Sim, você mesma.

PA- Com o quê?

AL- Com esse martelo.

PA- Martelo? Deve ser por que eu sempre disse que você tem a cabeça dura.

AL- Eu preferia ter um outro lugar duro.

PA- Mas é a cabeça.

AL- O que vamos fazer agora que um tá querendo matar o outro?

PA- E eu é que sei?

        ( Voz de homem ).

VOZ 2- Boas almas!

PA- Ouviu isso?

AL- Não é com a gente.

PA- Como não? Ele falou Boas Almas.

AL- E nós estamos querendo um matar o outro.  Somos boas almas? Na verdade estamos bem longe de ser boas almas.

VOZ 2- Boas almas!

PA- Vamos entender que é com a gente. Vai ver esse daí não sabe que a gente tá querendo matar um o outro. É só a gente não contar.

AL- O que você acha que é?

PA- Pode ser um prêmio para almas.

AL- De bom comportamento que não é.

VOZ 2- Boas almas!

AL- Ele só sabe dizer isso. Boas almas!

VOZ 2- Boas almas! Eu vim buscar vocês.

AL e PA- Buscar a gente?

VOZ 2- Boas almas! Eu vim buscar vocês.

PA- Você já disse, mas vai levar a gente aonde?

VOZ 2- Para o céu.

PA- Eu tenho um medo de avião.

VOZ 2- Estão prontos?

PA- Eu nem arrumei as malas. Preciso de tempo.

AL- Onde nós vamos ficar?

VOZ 2- Vocês vão ficar em lugares diferentes por que já começaram a se desentender.

PA- Nós estamos nos desentendendo?

AL- Eu não sei disso.

VOZ 2- Vocês estão prontos?

        ( Paulina ergue um braço bem alto ).

PA- Eu não, eu não vou me separar do Alberto.

        ( Alberto ergue um braço bem alto ).

AL- Eu também não vou me separar da Paulina. 

VOZ 2- Então vocês vão ficar aqui na terra.

PA- Na terra não, a gente fica dentro da casa com assoalho, paredes, teto. Na terra ninguém merece.

VOZ 2- Então eu não vou levar vocês.

AL e PA- Queremos ficar juntos.

VOZ 2- Então eu só volto no outro ano. Até lá.

AL- O que fez você não querer ir com ele?

PA- Eu jurei pra mim mesma que não ia com homem nenhum que não fosse você.

AL- Obrigado, obrigado. Eu quero saber se você me ama tanto assim?

PA- Eu me lembro que naquele acidente que a gente morreu você pegou na minha mão enquanto a gente estava caído no meio do carro. Eu me senti tão viva.

        ( Alberto pega na mão de Paulina ).

AL- Te amo.

PA- Mas o que vamos fazer com o fato de um querer matar o outro?

AL- Temos que pensar em algo de imediato enquanto não encontramos a cura. Como vamos dormir?

        ( Paulina corre para fora da cena, apanha uma cordinha e volta ).

AL- O que tem aí?

PA- Uma cordinha.

AL- Pra quê?

PA- A gente amarra os braços e se um tentar se levantar o outro vai saber, pois a cordinha vai puxar.

AL- É melhor a gente dormir de um olho fechado e outro aberto.

PA- Vamos tentar pra ver se dá certo?

        ( ambos amarraram seus braços um no outro e deitaram lado a lado no sofá e ficaram cada um de um olho aberto e outro fechado, mas o tempo passou e eles acabaram fechando o outro olho. De repente Alberto arregala os olhos e apanha um canivete do bolso. Levanta o canivete e aproxima a arma no pescoço de Paulina. Ele faz mímica de passar o canivete algumas vezes pelo pescoço dela. Depois de um tempo ele encosta o canivete no pescoço de Paulina ).

VOZ 1- Atirei o pau no ga-to, to, mas o ga-to, to, não mor-reu, reu, reu… Dona chi-ca, ca…

        ( Paulina e Alberto se acordaram rapidamente e Paulina vê o canivete em seu pescoço ).

PA- Meu Deus! Você ia… E essa música? É a voz que acordou a gente. Mas você tinha um canivete.

AL- Esqueci meu amor.

PA- A gente tem que fazer revista par não deixar nada de perigoso por perto. Mas essa voz! Ela é nossa amiga, Alberto.

AL- É uma parte de amiga, não é uma amiga inteira, só aparece a voz, mas é uma amiga.

PA- Que amigona. Sabe o que os dedos falaram para o pé?

        ( Faz-se silêncio ).

PA- Pise com a sola.

VOZ 1- Hahahahahahahahahahahaha!

PA- Nós precisamos arranjar um nome par ela. Veja se esse você gosta? Ana Paula.

VOZ 1- Hahahahahahahahahahahaha!

AL e PA- Ela gostou.

        ( Alberto e Paulina deitam no sofá, procuram algum objeto, mas não encontram nada ).

PA- Boa noite Alberto.

AL- Boa note Paulina.

        ( Alberto e Paulina estão de um olho aberto e outro fechado, mas com o tempo eles fecham o outro olho e dizem meio com sono ).

AL e PA- Boa noite Ana Paula.

VOZ 1- Bo-a no-no-no-i-te…

 

 

 

 

FIM

A CASA BEM ASSOMBRADA…

4 04UTC junho 04UTC 2009

A CASA BEM ASSOMBRADA

A SUICIDA ATRAPAHADA…

4 04UTC junho 04UTC 2009

MONÓLOGO

“ A SUICIDA ATRAPALHADA “

AUTOR: SAMUEL R. KROSCHINSKI

DADOS BIOGRÁFICOS

Samuel R. Kroschinski é escritor, autor do livro “ BARRIGA: UM MUNDO FEMININO, o qual está a venda nas livrarias Curitiba.
Samuel R. Kroschinski já teve “ ESTÓRIAS EM QUADRINHOS “ e “ CONTOS INFANTIS “ publicados no jornal O Estado do Paraná.

Tel.: ( 041 ) 3286- 9285

End: Rua Dês. Antonio de Paula, 92
Boqueirão- Curitiba- Paraná
CEP: 81730- 380

CENÁRIO: Um apartamento onde aparece um cômodo com janela ( podendo ser painel ).

Sofá
Tapete
Escrivaninha ou mesa com gaveta
Revólver grande e pequeno ( brinquedo )
Facas cenográficas
Vidro de comprimidos
Corda
Geladeira e fogão
Meias, calcinhas, folhas de papel, jornal, pacote com algumas bolachas e caixa de leite, telefone, carteira de cigarros, cinzeiro, isqueiro, garrafa de álcool, saco plástico, barbante.

( Adriana entra em seu apartamento apressada )
Droga! Essa vida é miserável, já não agüento tanta pressão e olha que eu nem tenho pressão alta nem baixa ainda.
Esse fardo que Deus me deu está pesado demais pra carregá-lo. Estou precisando de um carregador. E ainda dizem que ele ( aponta o dedo para o alto ) distribui os fardos igualmente.
( Dá um soco na cabeça ).
Ai! Da próxima vez tenho que moderar nas minhas reações.
Mas tem algo errado, pois deve ter um monte de gente sem fardo nenhum. Eu só devo estar carregando por uns vinte pecadores e…
( abre os braços indicando tamanho ).
Com uns baita pecados, diga-se de passagem. Por falar nisso ele…
( fala mais baixo e apontando o dedo para cima novamente ).
Distribui fardos de quê? Bem, de coisa gostosa não deve ser por que sempre seria menor. Claro, a gente ia comer tudo.
( ri ).
Imagine você carregando um fardo de chocolate, garanto que não ia deixar por menos. Logo não existiria fardo nenhum para carregar.
( pensa um pouco ).
É, deve ser fardo de coisa ruim. E deve ter uns por aí que não foram avisados para pegar o seu fardo. Vivem no paraíso. Acontece que os meus fardos são entregues em domicílio e ainda registrados. Além de tudo tenho que assinar…
( faz movimento de assinatura no ar ).
Para garantir o recebimento. Claro! Pra eles terem a certeza que vou cumprir a minha sina. E se não cumprir? Será que serei cadastrada no serviço de proteção ao crédito?
Dizem que desgraça nunca vem sozinha.
( faz tom irônico ).
Essa tal da desgraça vive em bando, tem um monte de coleguinhas. No meu caso elas podem encher um campo de futebol em dia de clássico. Por falar em futebol, já torci por vários times e nunca nenhum ganhou título algum, mas era só deixar de torcer que eles ganhavam. Hoje sou mais esperta, deixo para torcer no final do campeonato, o time que vencer é do meu coração. Daí compro a camiseta do time e saio por aí só pra me sentir vencedora.
( senta no sofá e tira os sapatos ).
É, a minha vida não é um mar de rosas ( prende o nariz com os dedos da mão esquerda e com a outra joga os sapatos para longe ).
Disso tenho certeza. Confesso uma coisa, eu sempre tive o dom de perceber quando uma coisa não estava cheirando bem. Foi assim que eu percebi que podia ser mandada embora do trabalho. Perdi o emprego por um motivo banal. Fui pra rua por que não batia o ponto. Tem cabimento?
( deita no sofá e estica as pernas ).
Não fui trabalhar alguns dias e não seria tonta de ir ao escritório só pra bater o ponto e daí voltar. Como eles queriam que eu batesse o ponto se eu não estava lá?
( senta no sofá ).
Logo em seguida meu marido me largou, me trocou por uma mulher rica. Por coincidência, mas só por coincidência o amor acabou quando meu dinheiro acabou.
Fui trocada por uma mulher feia que dói. E deve doer mesmo, haja analgésico e viagra pra agüentar aquela feiosa.
Lembro até hoje o que ele me falou quando estava indo embora. Quem vê cara não vê carteira.
Pelo menos ( ri ) tem o lado bom, ele disse que sou bonita.
E se não bastasse ainda tem toda essa onda de azar. Afinal que toda onda é de azar pra mim. ( fala mais baixo ) Eu não sei nadar.
Pois é, meus pais morreram. Estavam correndo, não respeitaram o sinal e ao cruzarem a rua foram atropelados por um caminhão de lixo. ( ergue a voz ) Que jeito mais pobre de morrer e sem propósito. Claro, meus pais não podem ser reciclados. Adorava eles e não consigo esquecê-los por um instante sequer. Ficaram tantas saudades. Também, foi só o que eles me deixaram, saudades, por que em matéria de herança não me deixaram nada.
Lembro até hoje da cartinha deles, que chegava todo mês, sem falta. No começo aquele blá-blá-blá, como vai você, nós te amamos muito, espero que essa cartinha te encontre com saúde e felicidade e assim vai. Mas sempre trazia algo maravilhoso, um sentimento profundo, uma poesia eterna e pura, tudo traduzido numa única mensagem.
A sua mesada está no banco.
O dinheiro era mais que suficiente para passar o mês.
Agora estou perdida, confusa e sem rumo, cheia de dívidas e sem nenhuma perspectiva para o futuro.
A certeza que fica é a cadeia, caso não pague as contas. Mas isso eu não agüentaria. Será que juiz leva essa alegação em consideração? Senhor juiz eu não vou agüentar a cadeia, daí ele diz ( ergue a voz ) você é inocente.
Tenho que arrumar um jeito de escapar dessa confusão.
( conta nos dedos )
Uma volta ao mundo? Não.
Acertar na mega sena? Não.
Casar com um homem rico? Não.
Ah! Tudo isso é um sonho. Preciso tomar uma atitude mais realista, uma medida drástica que seja definitiva.
( dá um estalo com os dedos ).
Definitivo quer dizer por fim de uma vez. E isso é morte.

( declama )
A morte é doce,
Um verdadeiro licor,
Ida sem volta,
Para um lugar melhor.

Fuga dos problemas,
Distância das cobranças,
Viagem de turismo,
Na mala só lembranças.

Não deixaria saudades,
Levaria somente tristeza,
Presente em todas minhas idades.

Minha geração morreria,
Não teria filho nenhum,
E descendente alguma sofreria.

É isso, morrendo, não tenho nada a perder. Claro, morta vou perder o quê? Pelo contrário, só tenho a ganhar. Me livro de todas as preocupações. Uma vez morta estarei tranqüila, serena e em paz, tão em paz que será até chato. Dá pra por um radinho no caixão, pelo menos tem uma musiquinha. Creio que não terá uma viva alma pra acender uma vela ou me levar uma flor.
( faz cara de felicidade ).
Pronto! É uma idéia, tenho que levar adiante. Não posso deixar esfriar. Como é mesmo o nome de quem se mata?
( pensa um pouco )
Latrocínio, não, não, parece quem mata um cachorro. Latro deve vir de late. Será homicídio? Ah, homicídio deve ser quando se mata um homem, e quando se mata uma
mulher? Será mulhercídio. E quando se mata um que ainda não se decidiu pelo sexo?
Há, Lembrei, é suicídio. Então é isso, vou cometer um suicídio.
( anda de um lado para o outro resmungando ).
Na verdade queria morrer dormindo. Eu não queria me ver morrer. Eu não sentiria coisa alguma. Seria formidável sonhar, sonhar um belo sonho, que fome, ( se distrái mas volta ao assunto ) sonhar um belo sonho, que estava andando a cavalo no meu sítio, com carro importado na garagem e de repente acordar no paraíso. Acho que o termo certo não seria acordar. Bem, sempre adorei dormir, mas isso é pura imaginação. Ora, morrer dormindo? Como diz o ditado: quem sabe faz a hora. Mas como vou fazer o tal suicídio? Preciso de alguma coisa que mate.
Ei! Tem aqueles revólveres da escrivaninha.
( corre até a escrivaninha ).
Hum! Aqui estão eles. Um é de calibre 22 e o outro é de calibre 38. Bem que eu podia ter um 48, ah, mas esse é só de uso do exército. É proibido seu uso por pessoas como eu.
( admira um por um, apalpa e acaricia as armas ).
Dizem que o calibre 22 faz com que a pessoa demore a morrer. A bala vai correndo pelo corpo, batendo aqui e ali, num e outro osso. A morte vem por hemorragia interna.
( faz careta ).
Deve ser uma dor miserável. Já o calibre 38 nesse aspecto é melhor, mata mais rápido. Então tem que ser esse mesmo.
( guarda o calibre 22 e separa o 38 ).
Com você não vou sofrer.
( apanha as balas e começa a coloca-las no tambor ).
Uma, duas, três… De pensar que ( ergue uma bala ) isso logo estará dentro de mim. Chega a dar um calafrio.
Quantos tiros serão necessários para morrer? Não quero desperdiçar bala nenhuma.
( volta a contar as balas )
Quatro, cinco… Mas também, não preciso colocar tantas balas, pois só darei um tiro. Não me imagino dando o segundo, o terceiro, o quarto.
( aponta o revólver para si próprio e se comporta como quem estivesse levando os tiros, se arrasta, cai no chão e rola um pouco ).
Pum, pum, pum ( faz som de tiro ) e o quarto e o quinto tiro. Tenho receio que falte lugar para atirar ( ri ).
( levanta do chão ).
Por falar em lugar, qual o mais indicado do corpo pra morrer mais rápido?
( faz pose da famosa estátua do pensador ).
Que dúvida cruel. Onde vou mirar este trabuco?
( coloca o cano na testa ).
Aqui não!
( faz ar de desânimo ).
Nunca gostei de ter uma arma apontada pra mim, mesmo que de brincadeira. Quando era criança sempre fiquei fora das brincadeiras de bandido e polícia, justamente por não gostar de armas.
( faz silêncio e logo mira o ouvido ).
Há, Aqui é um bom lugar, mas e se a bala entrar por aqui e sair pelo outro ouvido? Sempre falaram que eu não ouvia direito. Vão achar que eu quis ouvir bem alguma coisa.
( coloca o cano do revólver dentro do nariz ).
Aqui deve ser fatal, mas ai! Não é bom enfiar tanto que dói. Também, se fosse o revólver pequeno não ia doer tanto assim.
Agora está bom, vamos lá, vai ser pra já.
Ah, não vai dar. Se eu atirar no meu nariz vou por água baixo toda a operação plástica. Ele era aquilino e sofri tanto para arrumar a grana da cirurgia de correção. Agora que está perfeito ( acaricia o nariz ) não vou estoura-lo, não sou doida.
O que diria meu cirurgião?
Tanto trabalho pra nada.
( anda um pouco com as mãos para trás ).
Já sei!
( coloca o cano na boca ).
Vai ser aqui mesmo.
Um, dois e… Não dá!
( corre até a escrivaninha e retira um papel ).
Esqueci que tinha hora marcada no dentista para amanhã. Se eu me matar com um tiro na boca vão pensar que foi por que não agüentei a dor de dente ou não tinha dinheiro para o tratamento. E agora eu me lembro… Minha mãe dizia que a primeira coisa que as pessoas olham são os dentes. Se eu dou o tiro na boca arrebento tudo e se alguém olhar meus dentes o que vai pensar? Aposto que vão dizer olhando para meu caixão. Ela não está rindo por vergonha de mostrar os dentes.
Não, na boca não!
( num gesto rápido aponta para a cabeça ).
Será aqui mesmo, não tem outro lugar melhor.
( engatilha a arma e faz suspense ).
Também não dá. Me lembro do tempo de escola que os colegas diziam que eu não tinha nada na cabeça. E se eu atirar na minha cabeça eles vão dizer que foi uma tentativa desesperada de colocar alguma coisa dentro dela. Há, eu não suporto a idéia de ser motivo de piada após minha morte. Agindo desse jeito vou assinar embaixo e reconhecer que não tinha nada na cabeça mesmo. Será uma forma de concordar com as piadas que faziam.
( larga a arma ).
Ah, não agüento essa incerteza. Pensei que cometer um suicídio fosse mais simples.
Se eu morasse em algum país árabe seria mais fácil cometer suicídio. Era bem fácil, era só eu me apresentar para ser mulher bomba. Daí eu receberia treinamento… Espera aí, por que treinamento? É só ir até um lugar com bombas pelo corpo e apertar um botão. Ah, mas tem um porém, eu não ia querer matar uma multidão de gente.
( pensa ).
Matar um vai lá. Eu chegaria perto de um homem bem bonito e diria: você é lindo de morrer e logo depois apertaria o botão. E Bum…
( faz Bum )
Tem que ser um homem que goste de barulho, daí a gente vai para o outro mundo juntinhos. Nunca gostei de andar sozinha. Acompanhada eu vou mais segura. E lá a gente pode formar uma dupla explosiva. Ah, e se a bomba falhar? Não dá para chamar alguém que está perto para ajudar. E nem dá também pra ir até uma loja que arruma material elétrico. Ei, mas se dá certo acontece uma coisa horrível com o corpo. A gente vira carne moída.
( faz careta )
Argh! Não quero que falem de mim como Adriana Ralada. Não isso não.
( apanha um livro qualquer sobre a escrivaninha ).
Deveria ter um manual , uma cartilha, apostila ou sei lá, escrito por alguém entendido na arte do suicídio. Serviria, para os leitores interessados, pouparem tempo e sofrimento. Ali, no livro, viria a receita tim-tim por tim-tim. Poderia ter a descrição de vários métodos com o grau de dificuldade estipulado por caveirinhas. Esse é fácil, uma caveirinha; esse é difícil, três caveirinhas; esse tem que comprar muito material, cinco caveirinhas.
É! Seria muito bom, mas espera aí… Não daria certo, não que eu seja pessimista, por não gosto de pessimismo, sempre vejo o lado bom das coisas, mas para o livro ter coerência e credibilidade, o autor precisaria ser um suicida sacramentado na arte e que nunca tivesse cometido um fracasso durante o suicídio. Agora vem o pensamento: se ele fosse bom na coisa, já estaria morto e consequentemente não escreveria o livro.
E não teria graça ler um livro escrito por um suicida fracassado, pelo menos para quem quer levar a sério o suicídio.
( coloca a mão na boca ).
Nossa! Que palavra forte. Morrer é esquisito. É melhor trocar por fazer a viagem, partir, passar desta para melhor para não ficar tão brutal.
( mira o coração, mas com dúvida de sua localização no peito ).
Estava esquecendo do coração. Aqui o tiro é certeiro, não aqui. Espera aí! O coração fica do lado esquerdo ( aponta o direito ) ou do lado direito ( aponta o esquerdo )? Droga! O coração não pode estar nos dois lados, vai que erro e fico por aí penando, sofrendo dores horríveis. Não, isso não, eu teria a maior vergonha de sair correndo do apartamento pedindo ajuda.
( começa a correr ).
Ei! Me ajuda, tentei me matar e errei o alvo.
Ei! Eu quis me matar, por favor me salve, me leva pra um hospital.
Depois de todo esse sofrimento ainda ia parar no hospital com a chance de pegar uma infecção hospitalar?
Ei! Se fosse um acidente, tudo bem, mas uma tentativa de suicídio e ainda mal sucedida.
O que os outros iriam falar?
( fala mais alto ).
Sem falar que pelas esquinas, cada pessoa teria sua receitinha certeira. Para se matar de verdade ela teria que se jogar num precipício com um lago repleto de piranhas ou se jogar na frente de um trem, e por aí vai.
Ainda tenho amor próprio, ficaria aqui me esvaindo em sangue até morrer, mas não pediria ajuda pra ninguém. Detesto ficar devendo favor para alguém. Se eu acertar em cheio meu coração pode acontecer algo terrível. As pessoas podem dizer que alguém machucou meu coração e eu decidi me matar. Acho abominável se matar por causa de homem ou mulher. Isso só enche a bola dele ou dela. É como se ele ou ela tivesse no currículo: Uma mulher ou homem se matou por minha casa. Eu não vou dar esse gosto para meu ex marido. Não mesmo.
Ah, tem mais uma coisa que estava me esquecendo. Se eu acertar o tiro e morrer e ainda por cima ninguém escutar o tiro?
( pega um giz e faz o desenho do seu corpo no chão ).
Quem vai me achar?
Depois de quantos dias?
Só de pensar que vou entrar em processo de decomposição já perco o apetite. Vou apodrecer e feder, será que um banho antes e bastante perfume ameniza o cheiro?
Quem vai achar meu corpo?
Claro! Por que o cheiro vai se espalhar pelo apartamento.
O vizinho da esquerda é difícil, pois é dono de uma peixaria.
Agora a vizinha da direita, também não levo fé.
( fala mais baixo )..
Ela vende perfume falsificado. Ela não vai notar nada de mais no cheiro, já está acostumada.
( anda e pensa ).
Ah! Só pode ser através de um cobrador. Ele sentirá demais a minha falta, deitará, vai chorar, gritar e espernear.
( Adriana deita, grita e esperneia ).
O cobrador não suportará tal fatalidade. Ficará completamente desolado por não receber o dinheiro que devo. Mas sabe de uma coisa, já me sinto feliz de fazer falta pra alguém. O motivo não importa, claro, depois de morta não preciso pagar mesmo.
( faz movimento de lavar as mãos ).
Por falar nisso muita gente vai sentir minha ausência. O Natanael, dono do apartamento, não vai arrumar outro trouxa tão fácil que pague tanto por esta espelunca. Tem o Pedro da farmácia, sou a cliente preferencial dele. Acabou uma doença já tenho três na sala de espera. Tem também o Manuel da padaria, para quem ele vai vender aqueles pães amanhecidos?
Nossa! Acho que no meu enterro vai ter bastante gente, nem que seja para rogar praga.
( faz vozes diferentes para cada praga )
Apodreça no inferno.
Tua alma não vai ter paz.
Na outra encarnação vai ser mendiga.
Espera aí! O assunto é outro, estou desviando do objetivo vital, a minha morte. Uma coisa tenho certeza, com o revólver vai ser difícil, acabei de lembrar que não tenho porte de arma. Isso quer dizer que essa arma é ilegal. Se eu me matar com este revólver estarei cometendo uma infração.
( larga a arma e apanha a carteira de cigarros, retira um cigarro e o acende, admira a fumaça que se esvai e senta no sofá ).
Dizem que o cigarro mata, seria até gostoso morrer fumando, mas demora muito, teria que esperar quantos anos?
Ei!
( apaga o cigarro no cinzeiro ).
E se eu mudar de método? Que tal cortar os pulsos?
( vai até a gaveta e retira algumas facas ).
É difícil escolher entre pequenas e grandes. Ah! Elas precisam estar afiadas, pois eu não vou ficar cortando os pulsos por várias vezes, igual quando a gente está ( faz mímica de estar cortando algo duro ) cortando um bife duro com uma faca cega. O certo é dar uma passada e pronto ( faz movimento rápido com a faca ).
Escolho grande ou pequena? Ei! Tamanho não é documento, todas cortam.
( pega várias facas ).
Esta aqui de cabo de madeira, é muito antiga. Ih! Ela não serve. Imaginem que está enferrujada. ( põe a mão na cabeça ) Deus me livre cortar os pulsos com ela, ainda arrisco pegar uma infecção, um tétano. Teria que tomar várias injeções antitetânicas, e tenho pavor de injeção.
Olha esta aqui, tem o cabo de plástico e é colorida, é a mais bonita.
( ela passa o dedo no fio da faca para verificar se está afiada ).
Ai! Me cortei.
( balança o dedo e leva á boca ).
Ai! Minha mãe sempre disse para não brincar com faca. É de uma irresponsabilidade o fabricante vender uma faca afiada desse jeito. Coloca em risco a saúde dos usuários. Onde já se viu?
Mas no meu caso ela deve servir, tá-tá-tá-ram, está chegando a hora de ir.
( encosta a faca no pulso ).
Adeus mundo ingrato! Logo mais estarei com minha mãe… ( se assusta ) Espera aí, eu disse mãe? Não, não, não. Se eu for para o mesmo lugar de minha mãe já estou vendo a bronca que ela vai me dar.
( engrossa a voz )
Por que se matou?
E daí a pegação no pé. Tem que acordar cedo minha filha. Você tem que ter cuidado com quem anda e aonde vai. Volte cedo, etc. Não vai adiantar eu dizer que estou morta. Minha mãe dizia, se você sair de casa está morta pra mim e eu sai.
( encosta de novo a faca no pulso ).
Adeus mundo, adeus…. Adeus, adeus cidade querida, adeus, adeus país amado, adeus, adeus… É melhor fazer rápido, pois não vai aparecer um príncipe encantado pra me salvar. Não adianta ganhar tempo.
Lá vai, é agora.
( faz uma pausa ).
Ei! Não posso cortar meus pulsos, vai sair muito sangue. O corpo humano tem mais ou menos cinco litros de sangue. Aonde vai tudo isso?
( dá um grito ).
Vai escorrer pelo chão e manchar o tapete. Enfim, vai emporcalhar todo o apartamento. E o que vão dizer? Que eu dei meu sangue por este apartamento. Eu sempre tive mania de limpeza. Sempre exigi que Júlio, meu marido, lavasse as roupas dele, lavasse a louça, limpasse o apartamento e agora vou sujar todo ele? Isso não, não mesmo. Não é agora que vou fazer um ato mundano desses. E tem mais, vai sair muito sangue de mim e eu vou ficar bem pálida, branca igual cera. Não, esse método não dá por que eu sempre peguei sol pra ficar com uma corzinha manera. Espera um pouco.
( corre e apanha um copo de água e bebe afoita ).
Hum! Estava com uma sede. Meu Deus, eu não pensei nisso, como não pensei? Eu posso morrer por afogamento.
Ei! Mas onde vou me afogar aqui dentro? Vou ter que sair. Essa é uma ótima idéia.
Calma ( faz calma com as mãos ), calma, estava esquecendo que não sei nadar. Nem boiar eu sei. Entrar nhá água sem saber nadar é completamente perigoso. E onde eu iria me afogar? Há, tem um rio aqui perto. É só eu ir até lá.
( se prepara para sair ).
Não, não adianta ir até lá, é um rio de esgoto, não tem um peixe vivo ma água. Imagine eu que só tomo água filtrada me afogar numa água de esgoto. Não me vejo tomando aquela água ( faz careta ) com urina, fezes, latas, garrafas, roupas, bichos mortos. Tomar água suja faz mal, dá um monte de doenças. Preciso arrumar outro meio. Espera aí! Acabo de me lembrar dos filmes de bang-bang. O meio mais comum era: Não era flecha. Onde eu iria arrumar um índio?
( faz mímica de atirar uma flecha ).
Seria interessante.
Mas estava falando da forca. Esse é um método simples, barato e limpo.
( corre até a gaveta e retira uma corda, mexe nela, estica, observa ).
Isso me traz recordações de quando era criança. Adorava brincar de pular corda.
( Ela pula corda, por alguns segundos cantarolando algo alegre ).
É bom parar com a brincadeira. O que preciso fazer é sério.
( tenta fazer o nó de forca ).
Esse nó de forca é mais difícil de fazer do que pensei.
( tenta fazer o nó, mas sempre dá errado, mostra desânimo ).
Sempre acreditei em rituais. Se a gente vai tomar vinho tem que apreciar a coloração, cheirar, sentir o vinho para depois tomar. É um ritual que aguça todos os sentidos para que seu sabor seja enaltecido. É isso que dá um toque especial para as coisas. Lembro que Júlio sempre se zangava quando eu fazia esse ritual ante de beber o vinho. Só por que eu comprava o vinho no boteco da esquina. Eu comprava vinho barato para economizar o dinheiro e gastar num salão de beleza ou roupas par mim. E lá tem diferença? É um vinho como qualquer outro. O nome é vinho, não é?
Mas ser enforcada com um nó fajuto é demais. Vão dizer que eu nem sabia dar o nó de forca. Por falar nisso eu sempre adorei fazer aquele joguinho de advinhar as palavras. É o jogo da forca. Sabia que eu tinha tirado de algum lugar essa idéia. E se eu faço um outro nó? Já imaginaram se me encontram enforcada com um nó de porco? Vão dizer pra levar o presunto pra geladeira. E com o nó direito? Vão dizer que essa morreu direitinho.
Além de tudo ficarei conhecida como a enforcada de primeira viagem.
( coloca a mão na cabeça ).
Isso é vergonhoso demais. Ei! Tem uma coisa que eu não pensei. Já vi fotos de pessoas enforcadas e elas ficam com uma aparência horrível.
( faz careta ).
Ficam com os olhos arregalados, a língua para fora e ainda aquele sinal medonho no pescoço.
( faz o sinal da cruz ).
Cruz credo! Não posso ficar com sinal nenhum no meu pescoço. Sempre brigava com o Júlio quando ele ameaçava dar um chupão ou mordida no meu pescoço. Pra esconder é difícil. E não quero ficar com a aparência que está escondendo alguma coisa. Agora seria muito triste ter que levar a marca da forca pela vida inteira… Ou melhor, pela morte inteira.
Não, não posso escolher a forca.
Preciso de um outro meio.
( anda pelo apartamento e se bate em algum objeto ).
É isso! Como não pensei antes, atropelamento. É, mas vou ter que sair de casa. Aqui dentro não passa nenhum carro, muito menos ônibus ou caminhão.
( fica alegre ).
Até que enfim uma luz no fim do túnel, mas ser atropelada por bicicleta não dá e nem por moto. Eu tenho que ser atropelada por um carro. É fácil, é só me jogar na frente quando o carro estiver passando. Minha mãe sempre disse pra eu me jogar quando tivesse uma oportunidade. É isso, vou seguir o conselho da mamãe. E quanto ao carro? De que carro eu me jogo na frente? Não, por que não pode ser um ferro velho. Precisa ser um carro moderno, estiloso. O que as pessoas vão falar se eu morrer atropelada por um calhambeque. Vão dizer que não sabem quem é a lata velha. Se eu vou morrer atropelada tem que ser um carrão.
( pensa ).
Tem que ser um carro de luxo ou esporte pra dizerem que eu tenho bom gosto.
Mas um carro desses não fica passando toda hora pelas ruas. Hi! Quer dizer que eu vou ter que ficar esperando um carrão passar pela rua. Isso é uma loteria. Sabe lá quantas horas ou até dias vai levar pra isso acontecer. E tem mais uma coisa, o carrão não pode estar devagar. Se eu me jogar na frente dele e ele estiver devagar dá tempo para frear e eu fico com a cara no chão.
( faz ar de cansada ).
Ufa! Vou ter que esperar vir um carrão em alta velocidade, e olha que isso é difícil. Dizem que homem cuida mais de carro do que de mulher. Eu acompanho noticiário e não é muito freqüente acidente de carro envolvendo carrão. É até compreensível. Os donos de carrão andam na ponta dos pés. Eles cuidam de seus carrões. Já a maioria dos acidentes acontece com carros velhos e populares onde o dono não tem nenhum amor por seu meio de locomoção. Quando teve que comprar comprou por que era o único que o dinheiro cabia. Já os donos de carrão compram por que é justamente o carro que eles gostam e sempre quiseram ter. Acidente é coisa de amor. Um ama o carro que tem e o outro, em muitos casos, odeia o carro que tem. Até a rua eu tenho que escolher, pois carrão não anda em qualquer uma. A rua ter que ser chique. Já o carro popular o dono enfia em qualquer lugar. É, parece fácil, mas não é. Ai, e a roupa? Com que roupa que eu vou?
( senta no chão ).
A roupa é muito importante. Traduz a personalidade da pessoa. Olhando a roupa a gente tem idéia de como a pessoa é. Por isso é importante a escolha da roupa que eu vou ser atropelada. Pode ser um agasalho esportivo? Não, se matar não é um esporte, é uma coisa séria. E um terninho? Não, se matar não é um trabalho. Um biquíni? Não, não, se matar não é praia nem piscina. Um vestido de noite? Não, se matar não é uma festa. Já sei, uma bermuda e um chinelinho? Não, também não, se matar não algo tão informal. Ah, e chinelinho é ruim de eu ir, pois ainda não fui no salão fazer os pés. E de salto alto? Também não dá, já sei que vão fazer muitas piadas a respeito. Com certeza vão dizer que eu cai do salto e fui atropelada. E se eu for só com uma capa e pelada por dentro? Sempre tive curiosidade de saber como é sair pelada numa revista e essa pode ser minha chance. Antes de me jogar na frente do carro eu tiro a capa e me jogo. Mas como eu não pensei nisso, eu não vou sair na coluna social e sim na policial.
( levanta ).
Confesso que perde a graça. Ei! Isso me faz pensar que carro é pequeno e se a batida não me matar? Não, não pode ser carro, eu já tive uma idéia, aliás, uma grande idéia. Vou me jogar na frente de um ônibus. Não, não, não dá, vai ter muita gente me olhando. Vão dizer que eu errei a porta para entrar no ônibus. E ainda tem gente que costuma dizer: vai pegar o ônibus? Nesse caso vão dizer que o ônibus me pegou mesmo. Não, eu tenho que ser atropelada por outra coisa. Mas o quê?
( senta, cruza as pernas e meditas um pouco ).
Já sei, como não pensei antes, um caminhão, uma carreta. E eles costumam correr. Claro, a maioria desses caminhões grandes não é de quem está dirigindo, mas de uma empresa. Espera aí.
( levanta ).
Não pensei nesse porém. A carga do caminhão que me atropelar é importante. Já pensou ser atropelada por um caminhão de banana? Vão dizer que eu era uma banana. E se for um caminhão de bebida? Vão dizer que a bebida me matou. De cigarro vai ser a mesma coisa, o cigarro matou ela. E se for um caminhão de televisão vão dizer que eu não saía da frente da televisão e que foi uma pegadinha. Se for de carne vão dizer que chegou carne fresca. Epa! Mas tem uma coisa, caminhão é muito grande e pesado. E se o caminhão me esmagar? Não, isso não pode acontecer. Eu não posso ser esmagada. Daí vão me por num caixão sem janelinha. E eu que sempre que entro num ônibus vou logo sentando na janela. Não é depois de morta que vou deixar de gostar da janelinha Sem falar que vou ficar irreconhecível. Pudera! Vão dizer que o caminhão esmagou meus sentimentos. E se alguns começarem a perguntar se eu era carne moída de primeira ou de segunda ou ainda raspa de serra? Não, eu não quero ser motivo de piadas por aí.
Preciso de um outro meio.
( faz um bocejo e se espreguiça ).
Ah, mas me sinto cansada. Ei, uma revista.
Deixa eu dar uma olhada.
( deita no sofá ).
Aqui tem uma piada, adoro piadas.
O menino está brincando, e por descuido, deixa cair uma caixa em cima do pé da irmã. Ela se vira para o irmão e diz:
Ai! Filho da puta.
O pai indignado entra e diz que é feio dizer palavrões e ainda mais mentirosos.
Disse o pai:
Pelo menos diga: neto da puta.
( dá belas gargalhadas ).
Há, há, há, há, há, há, essa é boa, vou morrer de rir se continuar rindo assim. Ei, é melhor aproveitar o embalo. Quem sabe eu morra de rir.
( ri e se joga no chão ).
Ué! Ainda estou viva?
( levanta desolada ).
Pensando bem seria uma piada morrer de rir.
( toca o telefone ).
TRIM, TRIM, TRIM.
Quem será?
Alô! Quem? Ah, é o Sr. Roberto do armazém.
Eu sei, estou devendo, mas olha, sem falta pago amanhã.
( olha para o público ).
Amanhã estarei num outro mundo mesmo.
Sr. Roberto! Amanhã eu pago, está bem assim? Fique tranqüilo, pra mim é uma questão de vida e de morte.
Ah! Está certo, até amanhã, adeus.
( coloca o telefone no gancho ).
Queria ser uma mosca pra ver a cara dele quando souber que não vai mais receber o seu dinheiro. Ih, mas e se eu estou lá e ele espalha inseticida?
( faz cara de receio ).
Xiiiii! Ele vai querer me matar.
Bem, mas daí não importa.
( balança os ombros ).
Deus, todo esse papo me deu fome eu não pretendo morrer de fome.
( vasculha as gavetas, abre portas ).
Pó! Estou mal de comida. Deixe ver aqui, nada, nada aqui também. Desse jeito vou morrer de fome mesmo.
Hum! Aqui tem uns restos de bolacha e um pão dormido.
Ah! Um pouco de leite, isso dá para enganar o estômago.
( come as poucas bolachas e bebe o leite ).
Hum! Até que estava gostoso.
( passa a mão na boca e lambe os dedos ).
É! Quando se está com fome não existe tempero, qualquer coisa fica gostosa.
Bem, tenho que voltar para o meu objetivo principal.
( mexe o corpo rapidamente ).
Ai! Senti uma picada no corpo.
Ei! Mas uma idéia. Picada lembra o quê? Pode ser agulha, já cansei de picar o dedo com agulha de costura. Outra coisa que picada lembra é injeção, sempre fugi de injeção. Tem mais? Picada lembra abelha, também já fui picada por abelha, acho que ela morreu atoa. Lembra também beliscão, o Júlio tinha a mania de me beliscar. Bem, mas picada lembra mesmo o que me interessa, cobra.
( treme ).
Sempre tive um medo enorme de cobra. Mas onde vou arrumar uma? É o método da Cleópatra. Essa sim era mulher, decidida, determinada, valente, inteligente. Escolheu um meio para se matar e nem titubeou, pegou a cobra e se deixou picar. A única coisa que mancha um pouco essa história é que a Cleópatra nem quis ver seu suicídio. Tinha uma cobra numa cesta tampada e Cleópatra colocou a mão lá dentro. Pois é, ela perdeu o momento que a cobra pica sua mão. E se ela precisasse falar como foi ser picada ela não ia saber dizer. Ora! Logo depois podiam aparecer alguns repórteres e fazer essa pergunta. Como você vê a picada? Daí a Cleópatra ia fazer uma cara de paisagem e não ia poder responder nada. Ela é um exemplo para quem quer cometer suicídio.
Mas onde vou arrumar uma? E tem mais eu não conheço se é cobra venenosa ou não. Procurar uma no mato eu tenho medo. É perigoso andar no mato por que tem muitos bichos. Sabe lá o que pode acontecer. E s eu roubar do zôo? Não, eu nunca roubei e não é agora que eu vou roubar.
( ri ).
Será que serve aquelas cobras dentro de vidro com água? É só pegar um vidro, abrir e pronto. Mas onde vou arrumar um vidro de cobra?
É, mas detesto a idéia de ser piada. Vão dizer que eu morri com meu próprio veneno e que eu era uma cobra. Ah, e tem mais, o condomínio não permite animais aqui nesse prédio. E eu não sou de desobedecer leis. Não, isso não dá.
( baixa a cabeça ).
Puxa! Estou deprimida.
Epa! Deprimido me lembra comprimido.
( vai até a gaveta e revira na esperança de encontrar um vidro de remédio ).
Esse não dá, acho que engolir supositório não adianta. E vão dizer que eu não sabia onde era minha boca. Ei, aqui tem mais um vidro, deixa eu ver, deixa eu ver, é de laxante. Não, não, vão dizer que eu fiz uma grande cagada. Ei, mais um vidro, e esse é, deixa eu ler, é de comprimido pra dor de cabeça. Ah, mas também não dá, vão dizer que eu consegui tirar a dor de cabeça. Claro, eu morri e não vou sentir nada. Ei, aqui tem mais um vidro.
( levanta o vidro de comprimidos e fica olhando por um tempo ).
É! Tomo o vidro inteiro e logo estou dormindo. Quando me der conta já estou no mundo de cima.
Ah! Mas tem um porém, acabei de comer, e se eu tiver uma indigestão? Também tem a hipótese de não morrer rápido e alguém, por ironia do destino, me encontrar e me levar até um hospital. Se for público tudo bem, morro de qualquer jeito, mas se for particular não tenho dinheiro, então morro do mesmo jeito.
Vai que algum médico queira me tratar. E a tal lavagem estomacal? Imaginem um cabo ( pega uma vassoura ) entrando pela retaguarda e mexendo e mexendo e mexendo.
Aaaai! É a dança da vassoura. Aaaai! É a dança da vassoura.
Me dá vontade de morrer de vergonha só de pensar no assunto. A vassoura tem uma esponja na ponta, mas não adianta por que dói na alma. E a quantidade de água que jogam lá dentro? Eu que modero na água pela boca vou liberar lá embaixo?
E a conta? Já estou devendo as saias, não suportaria mais uma dívida.
( anda de um lado para o outro ).
Deixa eu ver o que falta? Preciso encontrar um outro meio, nunca pensei que fosse tão desgastante escolher um meio para morrer. Até parece questão de vestibular. Qual a forma mais cômoda de cometer um suicídio? Ei! Isso me chamou a atenção. Um suicídio. Claro que tem que ser um suicídio. Já pensou falhar uma vez e ter que fazer outra vez? Não, esse método não se enquadrou comigo, por isso estou procurando um que tenha a ver com o meu jeito. E não é motivo de orgulho dizer: esse já é meu quinto suicídio. Mas eu tenho força e com fé em Deus vou até o fim. Não está em meus planos testar todas as maneiras de se matar.
Há! E a pergunta? Qual a forma mais fácil e cômoda de cometer um suicídio?

a) Tiro
b) Forca
c) Faca
d) Envenenamento
e) Atropelamento

Depois poderia vir embaixo.

1) Se a e c forem corretas
2) Se b e d forem corretas
3) Se d e e forem corretas
4) Se todas forem corretas
5) Se nenhuma das alternativas for correta

Até que iria ficar legal. A nota sairia no certificado de óbito.
Ei! Acabei de ter uma idéia fenomenal. Como não pensei antes?
( corre até o fogão e gira o botão sem acender a boca ).
Dizem que o cheiro do gás mata. Deixa eu ver se funciona.
( Tem um barulhinho de chiado ).
Puxa! Que cheirinho horrível, mas não existe sucesso sem sacrifício. Logo estarei entrando no reino do céu. Espera aí! Será que quem comete suicídio vai para o céu? Eles podiam interpretar que a pessoa gosta tanto do céu que antecipou sua morte. Depois do que passei aqui não me vejo no inferno. Prefiro morrer do que ir para o inferno.
( fecha o nariz com a mão ).
Mas é um fedor desgraçado, não estou agüentando.
( deita no sofá e fica se virando de um lado para o outro ).
Ah! Chega desse cheiro, não matei meu pai a soco.
( corre até a janela, mas para de repente ).
Ué! Eu quero morrer com o gás e vou abrir a janela? Isso está errado.
( volta para o sofá ).
O jeito é esperar que dentro de alguns minutos estarei dormindo. Por falar nisso estou sem meu pijama, nunca durmo sem ele.
( canta e tosse ).
Epa! Tem algo errado.
( cheira o ar ).
Ih! Parece que o cheiro está melhorando. Será que já me acostumei. Acho que não vai ser tão mal essa viagem. Agora vou dormir tranqüila e não mais acordarei. Adeus.
Ué! Mas está tão bom que é difícil de ser verdade.
( corre para o fogão e mexe no botão, cheira a boca, vai até o botijão, desses pequenos, e chacoalha várias vezes ).
Não pode ser verdade.
Por que foi acontecer justo comigo? O que eu fiz pra Deus?
Isso é hora de faltar gás?
Desse jeito não vou morrer nunca.
( toca o telefone ).
TRIM, TRIM, TRIM.
Outra vez esse telefone.
( atende com raiva ).
Alô! Quem fala? Ah! É o Damasceno, olha, eu não tenho o dinheiro para te pagar ainda.
O quê? Se eu não pagar você me mata?
( afasta o telefone e põe a mão no fone ).
Benza Deus, eu sabia que o Senhor não me abandonaria.
( volta a falar no fone ).
E quando vai ser Damasceno?
Como o quê?
Quando você vai me matar? Olha tem condição par você de ser hoje? Pra mim seria ótimo.
O quê?
Repete o que você falou que não estou acreditando. Era só força de expressão?
( vira para o público ).
Propaganda enganosa é crime, você sai por aí dizendo que quem não paga morre e na hora H desiste. O que é isso? Não se faz mais bandido como antigamente. Ah! Não me mata por que daí não recebe a grana?
( faz um silêncio ).
É! Por um lado ele tem razão.
E o que você faz?
O quê? Quebra braço por braço, perna por perna, chega! Não devia ter perguntado. Xiiiii! Desligou.
( coloca o fone no gancho ).
Estou completamente perdida, no mato sem cachorro.
( olha para um ponto qualquer ).
Agora tenho que fazer esse suicídio mais do que nunca.
( encara a janela ).
Como não pensei nisso antes?
( aproxima pé por pé ).
Eureca!
( acaricia as laterais da janela ).
Tinha esquecido desse método. Moro no décimo andar. É só me atirar e pronto. E ainda ganho de brinde saber qual é a sensação de voar. Claro! Por alguns segundos. Até bater no chão.
( faz careta ).
E que tal que eu saio voando por aí?
( corre com os braços abertos ).
Eu posso ser uma super mulher e não sei disso. Ah! Isso é bobagem, vamos voltar a realidade.
( chega com cuidado na janela, abre e coloca a àbeça pra fora ).
Puxa! Mas é alto mesmo.
Lembro que brigava com o Júlio toda vez que ele ficava na janela, tinha medo que ele passasse mal e caísse. Cansei de brigar com ele.
Se tivesse dinheiro sobrando teria mandado colocar uma grade nela, assim ninguém poderia se machucar.
É! Mas daí eu não poderia pular.
Caramba! Isso aqui é alto mesmo. Imaginem como eu vou ficar no chão depois de cair. Não quero ficar arrebentada, com o corpo todo quebrado. Quero ser uma morta inteira, bonita. Sabem quando as pessoas vão até um velório e dizem: Nossa! Aquela moça está tão bonita, parece um anjo. Por isso quero ficar bem depois de morta para não dizerem que fiquei um monstro.
( se balança na janela ).
Ai, me acudam. Estou com vertigem só de olhar pra baixo, já estou com tonturas.
( senta com dificuldade ao lado da janela ).
Quando era pequena nunca subi em árvore por medo de altura. Tinha um medo de cair que me pelava e tem mais uma coisa. Lá embaixo tem uma cerca de grade pontuda. Se eu cair vou parecer frango no espeto. Não, morrer está certo, mas com respeito, com moderação, mas enfiada numa estaca já é um abuso.
É, deve ter uma maneira mais fácil e morrer.
( levanta e corre, pula, faz polichinelo, abdominal ).
Estou tentando morrer de cansada, só mais um pouco e chego lá. Já estou esgotada.
( vai parando aos poucos, põe a mão nas costas e respira ofegante ).
Esse jeito é muito cansativo de morrer.
( deita no sofá e se abana ).
Lembro que costumava brigar muito com o Júlio por que ele fazia ginástica todos os dias. Brigava pela conta da academia. Sim, ele fazia cada sessão com uma roupa limpa. Era um desperdício. Bem que podia fazer a semana inteira com a mesma roupa. Quem sofria era eu para lavar. E o pior é que ele ficava bravo quando eu dizia isso.
( pega um jornal ).
Nossa! Tive sorte de pegar bem na foto de um morto.
Hum! Aqui diz que foi para o Instituto Médico Legal. Ei!
( dá um sobressalto ).
Outro detalhe que eu ia esquecendo.
( levanta do sofá ).
Depois de morta o que acontece? Pra onde eu vou? Ah! Vem aqueles caras da polícia e vão mexer em tudo, vão revirar as gavetas, vasculhar as fotos, penetrar na minha intimidade.
( fica com raiva ).
Detesto e sempre detestei que mexam nas minhas coisas, mesmo que não tenha muitas.
Lembro das intermináveis brigas com o Júlio. A gente brigava, mas eu o amava.
( fala com voz suava ).
As vezes a gente dá bronca para que a pessoa melhore. Lembro quando ele saía arrumando tudo, nos dias de faxina. Minhas coisas podem estar desarrumadas, mas eu sei exatamente o lugar de cada uma. E vinha o Júlio e guardava onde ele achava que devia guardar.
( aumenta a voz ).
Eu chegava em casa e precisava de um papel, adeus. Precisava revirar tudo pra achar o dito papel. Brigava com ele, mas todo dia era a mesma coisa… até….
( fica triste ).
Que ele foi embora, agora está como eu gosto,s ei onde estão meus papeis.
( mostra-os espalhados pela escrivaninha ).
Sei onde estão minhas meias.
( mostra-as dentro do fogão ).
Sei onde estão minhas calcinhas.
( mostra-as embaixo do sofá ).
Sei onde está tudo… Mas…
( grita com desespero ).
Não sei onde está meu Júlio.
( chora ).
Ai! Que vontade de morrer.
( assoa o nariz e esfrega os olhos ).
Deixa eu voltar para o assunto mais importante. Onde estava? Ah! Morta e estatelada no chão. Pois bem, aí viriam os repórteres e tirariam fotos de mim de todo jeito, para serem publicadas no jornal. Decerto seria um fotógrafo de natureza morta. Ah! Iriam querer saber alguma coisa de mim pra por no jornal. Ei! Eu tenho que deixar algo escrito.
( corre e pega uma caneta e papel ).
Toda garota que se suicida deixa uma cartinha, bem, bem, é que, é que não fica bem se matar se deixar uma cartinha. Nela a gente se despede dos parentes, dos amigos e manda os inimigos pra aquele lugar, não, isso não, quem vai para aquele lugar sou eu. É uma gentileza fazer uma cartinha, senão é a mesma coisa que ir viajar sem se despedir. É sempre aquela choradeira, daí a gente fala: Eu volto logo, ah! Nessa cartinha não dá pra dizer isso, eu não vou voltar, a não ser que eu apareça como fantasma ou no sonho dos meus amigos. Ei! Pode ser que esse papo de encarnação seja verdade daí eu posso reencarnar em alguma pessoa próxima de amigos.
( põe a mão na cabeça ).
Espera aí! Eu estou querendo me matar e já estou pensando em voltar como fantasma ou em sonho ou como reencarnação? Isso é demais. Eu tenho que ficar quieta no meu canto por um bom tempo depois de morta. Eu serei um túmulo. E a cartinha como tem que ser?
( anda de um lado para o outro ).
Colo bichinhos nela, faço desenhos, coloco letra de música, coloco poesias, coloco meu endereço de orkut, o papel tem que ser colorido, espalho perfume no papel, colo uma foto minha, a melhor. Eles sempre mostram fotos nos jornais, revistas e televisão. Mas tem uma coisa, eu não me lembro muito de notícias sobre suicídio, senão eu… Ia lembrar.
( pensa um pouco ).
Já sei, é lamentável que aconteça uma coisa dessa, lembro que uma vez eu ouvi dizer que os meios de comunicação não cobriam suicídio para não incentivar ou dar idéia para suicidas em potencial. Ora essa, vivemos numa democracia e temos direito a saber sobre suicídio. Temos direito a ter nossos ídolos. Os suicidas com sucesso ou que já morreram na primeira tentativa. Temos direito a saber quais são as histórias que devem terminar com um suicídio. Há! E temos direito também a ter fotos de nossos ídolos para colar na parede do quarto. Temos direito também a saber onde foram enterrados para levar flores e acender velas. Hum! Hum! Numa dessa pode surgir a santa dos suicidas ou santo. Eles estão negando informação. Bem, isso devia ser assunto para um político. Sim, ele devia fazer algo pelos suicidas.
( abaixa a cabeça ).
Não, um político não ia abraçar a causa dos suicidas. Claro que não. Eles ajudam o povo para receber o voto como recompensa. Morta eu ia votar como nele? É, é, é, mas tem um porém: a mídia mostra gente matando por que foi rejeitado pela companheira. Isso não é incentivar quem foi deixado pela namorada a matar ela? E os roubos e os abusos sexuais? Isso eu não entendo, juro que não entendo a diferença. Por que o suicida tem que pagar? Nós não estamos fazendo mal pra ninguém? Essa é pra não entender mesmo. Ah! A carta. Ei! Deve ser uma carta ou uma cartinha ou uma cartona? Bem, o que devo colocar nessa carta? Como começo? Espera aí! Que tal assim.
( senta no chão ).
Estou muito feliz… Não, estou muito feliz pra uma carta de quem vai morrer não soa bem. Poderia ser estou morrendo de felicidade. Vamos ver esse começo: quero que todos estejam bem… Não, também não, desejar que todos estejam bem, vindo de quem cometeu suicídio soa meio falso. Bem, na carta eu posso dizer que não quero ser cremada. Odeio fogo, tenho muito medo. Sempre me queimaram e agora vou dar razão pra toda essa gente sendo cremada? E a gente virar uma caixinha de cinzas? Não, minha vida não pode terminar em cinzas. Isso não. Guardar as cinzas ou jogar estou fora. Quem vai querer guardar minhas cinzas. Ninguém me queria por perto e jogar é como não dar valor a mim. É como dizer: vamos jogar ele fora. Se bem que eu sempre vivi jogada no mundo, mas ter minhas cinzas jogadas na água se misturando com lixo, cocô e pipi. Não, não mesmo. Ou ter minhas cinzas jogadas num campo onde todo mundo vai pisar em cima. Também não. Prefiria ficar guardadinha numa caixinha em algum lugar da casa pra estar bem viva na lembrança das pessoas.
Bem, eu estava esquecendo que assim que encontram a gente morta eles colocam algo em cima. Serve um lençol, um jornal ou um plástico geralmente aquele sem gosto. Estou falando do plástico preto. Podia ser um plástico colorido. E quanto ao jornal ninguém deve fazer uma seleção de que parte que vão por em cima do corpo. Eu particularmente gosto do caderno cultural, adoro quadrinhos e horóscopo e também o que vai passar na tv. Podiam me cobrir com esse caderno. É, eles cobrem até a cabeça, deve ser pra ninguém ficar babando e querer tirar uma lasca. Ora! Se um cara me vê morta, pode quer chegar perto e fingir que está em profunda comoção, pegar minha mão, passar a mão pelo meu rosto e eu não vou poder dizer.
( aumenta a voz ).
Tira essa mão boba daí.
Depois vai ver se não tem ninguém olhando e vai tentar me dar um beijo. E eu ali, sendo violentada sem poder dizer nada. É, por uma lado é bom cobrirem todo o corpo. Quando eu era bem pequena eu pensava que eles cobriam as pessoas mortas pra elas não sentirem frio. É, e tem algumas pessoas que acendem velas ao redor do corpo. Dizem que é pra iluminar o caminho de quem morreu. Mas eu nunca vi alguém pondo lanterna. Isso é curioso. O começo da carta é difícil, é melhor eu pular direto para a mensagem. O que vou deixar como mensagem? Há! Eu posso dizer nunca desistam de seus sonhos ou nunca percam a esperança ou tenham sempre fé em Deus. São belas mensagens. E pra terminar: amo vocês… Soa estranho também, amo tanto que vou me matar.
( levanta ).
Escrever uma carta não é fácil, mesmo que não precise gastar com correio.
Deixa pra lá, depois de pegarem meu corpo eles levam para o necrotério. E lá tem a câmaras frias.
( treme ).
Detesto frio, a gente fica com as partes do corpo congeladas, não tem vontade de fazer nada, se bem que eu nunca tive vontade de fazer nada.
Lembro do Júlio quando eu estava deitada bem quentinha e ele chegava com aquele pé gelado me encostando.
E eu gritava.
( grita ).
Tira esse pé daqui.
Pó! Ele não podia fazer uma escalda pé? Tinha que vir com pé de defunto?
Eu não exagerava, não é?
( medita ).
Mas acontece que o resto dele era tão quente. Hoje em dia até suportaria um pé gelado, mas no meu casso eu vou ficar inteira gelada.
Depois vão querer me colocar naquelas gavetas. Tenho horror a lugares fechados, frios e escuros.
Ah! E depois ainda vão me retalhar inteira para ver se eu estava sob efeito de droga ou álcool, se quebrou alguma coisa e que órgãos faleceram antes. É, vão querer saber a causa da morte. Eu já soube que tem caso que eles passam a serra no morto. É, eles ficam bem a vontade na mesa de cirurgia por que não tem medo de erro médico. Vão errar o que se eu estou morta? Então eles cortam a vontade.
Mas não acaba aí, eu posso ser enterrada como indigente, não tenho imóvel no cemitério ou ser levada para alguma faculdade onde permaneceria num tanque de formol. E ficaria ali peladona. Os estudantes iam me ver completamente nua sem eu receber nada por isso. Quem tira foto para revistas ganha uma grana, mas eu ali ia posar sem parar e não ganhar nada por isso. E assim ficarei sendo picada e repicada até não dar mais, daí confesso que não sei qual é a próxima etapa. Eu, eu… Eu não sei pra onde eles mandam o corpo. Será que se eu fazer uma boa maquiagem, arrumar o cabelo quem me levar me dispensa dos cortes e me enterram inteirinha? É, quem me ver pode me achar tão bonita que nem vai querer mexer. Vai ter dó de me cortar. Confesso que todos aqueles cortes e aquelas costuras não ficam bem no corpo.
( pensa ).
Uma maquiagem pesada ou leve? Uma maquiagem discreta é difícil de perceber. Eu posso colocar só um brilho nos lábios, mas é pouco. É, eu podia ter ido a um salão pra me arrumar, assim não ia fazer feio. Arrumava o cabelo, as unhas e fazia uma bela maquiagem. Dizia que era pra festa. Podia mandar encaracolar meus cabelos. É assim que as anjas aparecem, sempre de cabelos cacheados. Hum! Podia até fazer um aplique para meus cabelos ficarem bem compridos. É, assim eles podiam me enterrar com dignidade.
( abre os braços ).
E se alguém se apaixona por mim?
( ri ).
É, mas não vai dar romance não, eu estou morta e não vou poder corresponder. Ah! O pior é pensar que esse corpinho…
( passa a mão pelo corpo ).
Vai desaparecer aos poucos dentro do caixão, só ficam os ossos, mas é bom não falar nisso, deixa pra lá.
( faz silêncio ).
( toca a campainha ).
DIM, DOM, DIM, DOM.
Droga, Queria tanto morrer. Por um fim nas minhas obrigações. Estou cansada dessa vida paranóica.
( toca mais uma vez a campainha ).
DIM, DOM, DIM, DOM.
Já vou.
( sai de cena ).
Pois não.
( uma voz masculina ).
Me passa o dinheiro ou morre!
( faz uma pausa ).
Senhor ladrão… Por favor, por favor, não me mate…
( a voz repete ).
Me passa o dinheiro ou morre!
Tenho pouco dinheiro, mas pode levar tudo.
( passa um tempo e Adriana volta para a cena ).
Como pode isso, aonde vamos parar? Acabei de ser assaltada em meu próprio apartamento. Olha só o perigo que passei. E lá se foi o dinheiro que eu tinha. Mas minha mãe ia dizer que pelo menos eu estou viva… Ei, o quê?
O ladrão disse passa o dinheiro ou morre.
( põe a mão na cabeça ).
Acabei de desperdiçar a chance da minha vida… Ou melhor, a chance da minha morte. Era só eu ficar na minha e não passar nada pra ele ou até reagir, dar uns tapas nele. Podia também dar a maior gritaria. Isso ia provocar ele. É! Daí ele ia me dar um tiro. Espera aí. Ele pode estar por perto ainda.
( sai de cena gritando ).
Você aí, vem cá, me entregue tudo por que eu prefiro a morte.
( depois de um tempo volta ofegante com a mão no peito ).
Não adianta, ele foi embora, pelo menos devia deixar um cartão com telefone, e-mail, orkut, youtube. O que vai fazer quem precisa se comunicar com ele?
Ele perdeu uma grande chance de fazer propaganda de seu trabalho, olha que no nosso meio podia espalhar que ele suicidava as pessoas e não ia faltar cliente.
Agora não adianta chorar o leite derramado e o bandido desperdiçado.
Droga! Droga!
Ei! O que estou dizendo?
( pensa ).
O que eu falei mesmo?
Ah! Droga. É isso, eu não pensei em droga. Já ouvi muito dizer que este ou aquela morreu de over dose. O que é over dose? Não importa, eu sei que é da droga. É, mas eu nunca tomei ou comi ou cherei ou fumei ou enfiei no sangue isso. Sei lá como põe pra dentro essa tal de droga. Mas eu vou precisar sair. Claro, aqui dentro eu não vou encontrar droga nenhuma. Bem, não é tanto assim. Aqui dentro eu encontro droga, é a minha vida. A minha vida é uma d-r-o-g-a.
Bem, a roupa para procurar droga é diferente, eu tenho que ir com uma roupa escura com capuz, algo que ninguém note minha presença. Ah, e eu devo sair a noite, mas onde vou encontrar. Não posso ir perguntando pra todo mundo onde fica uma boca de fumo. Esse nome eu sei por que a gente ouve falar por aí. Deve ser propaganda boca a boca deles. Uns saem falando por aí pra gente ouvir. Nem sei de onde ouvi isso. Mas onde vou encontrar?
( pensa ).
Ir na casa de um não dá, eu não sei o endereço de nenhum traficante. O jeito é procurar numa rua. Mas que rua? Ah! Tem que ser uma rua mais ou menos escura e sem muito movimento. Ih! Isso me faz lembrar da mamãe. Ela dizia pra eu evitar sair de noite e se precisasse eu deveria dar preferência para andar em ruas bem iluminadas e com grande movimento de gente indo e vindo. Hum! Vou ter que desobedecer ela. É, mas não vou ficar de castigo e nem vou levar bronca. É, mas dá um medo de ser reconhecida por algum amigo ou amiga. Se pudesse ia com uma meia na cara, mas não dá, pois podem pensar que estou fazendo algo errado. Será que no GPS tem indicação de boca de fumo? Não, não deve ter. Ei! Eles devem dar algum sinal que vender droga. Deve ter gente fumando ali mesmo. O jeito é sair e procurar. Sempre que eu tenho dúvida de algum lugar que preciso ir eu pergunto logo para um guarda, mas nesse caso não dá. E como eu chego no traficante? Oi, tudo bem? Quanto tempo! A família vai bem? Você tem alvará da prefeitura para vender droga? Você dá nota fiscal? A droga é boa? Qual é a data de fabricação dela? E qual é o prazo de validade? É preciso receita ou não?
( pensa ).
Todas as cenas que vi pela TV de gente comprando droga notei que eles nem se falam, é só chegar o traficante dá a droga e o usuário, viciado, ligadão, doidão, sei lá o nome, dá o dinheiro. Tem uma coisa que sempre admirei nos traficantes. Eles são muito bonzinhos e fazem o que nenhuma empresa faz. Eles aceitam de tudo em troca da droga. Aceitam roupas, jóias, aparelhos elétricos da sua mãe. Aceitam o vídeo game, a televisão, o som do teu irmão. Aceitam as bonecas, o celular, o computador da sua irmã. Aceitam o carro, o barbeador elétrico, os ternos do seu pai. É, eles não são exigentes quanto ao pagamento. Cada um dá o que tem ou… Ou… Ou o que os outros tem. Isso mostra que eles pensam nos clientes. Que eles se preocupam com os clientes. Eles não querem decepcionar seus clientes. Que empresa faz isso? Ei! Será que eles trocam a droga se ela não é boa? O cliente chega e diz que aquela droga não fez ele viajar. Pois é, ele nem saiu da rodoviária ou do aeroporto. Ficou lá esperando embarcar e a droga não tirou ele do lugar. Outro cliente chega e diz que não ficou doidão.
( ri ).
Sorte dele, pois senão estaria num manicômio. Outro chega e diz que a droga que tomou não deixou ele ligadão. Hum! Será que ele quer por o dedo na tomada? É, mas e se eu fico viciada e quero mais, daí eu vou querer voltar lá e pra voltar lá eu não posso morrer. Não, achei um problema na droga. E que droga eu ia comprar? Eu chego lá e digo, me dê a melhor? Posso também dizer pra me dar a mais barata. Ei, você tem alguma droga em oferta? Leve três e pague duas. Eu sei de alguns nomes. Sei que tem Crak, maconha e cocaína. Sei também que a mais barata é o Crak. Será que é bom?
( pensa ).
De tomar ou aquela de aplicar injeção?
( faz careta ).
Sempre tive medo de injeção.
Não, isso não. Acabei de pensar uma coisa. E se eu estou lá numa boa e a polícia chega? É para se pensar. Eu nunca fui de muita sorte, pra falar a verdade nem de pouca sorte eu fui. É bem capaz de eu estar lá e aparecer os homens.
( aumenta a voz ).
Eu seria capaz de me matar de vergonha se isso acontecer.
Não, de droga eu não posso morrer. Garanto que fui a viciada mais rápida que já existiu. Viu! Eu consegui largar o vício. Isso é possível. Larguei antes de começar. Também não suporto a idéia de fazer algo errado. Tem um ponto positivo em droga. A mídia mostra quando alguém morre de consumir droga. É, a pessoa tem seus 15 minutos de fama. Mas não dá, isso não é pra mim.
( acende um cigarro ).
Ei!
( observa o fogo do isqueiro ).
Como não pensei nisso antes, tem o fogo. Eu posso morrer queimada. É uma morte comum. Muita gente já morreu assim. Na idade média queimavam as mulheres acusadas de bruxaria. Por isso que não tem mais bruxas. Devem ter queimado todas.
( pega a vassoura e sobe nela e corre como quem estivesse voando numa vassoura ).
Eu sempre gostei de estória de bruxa. Já tentei fazer algumas bruxarias, mas nunca deu certo. Deve ser fácil e eu tenho o principal.
( corre e pega a garrafa de álcool ).
É só jogar pelo corpo e por fogo. Preciso por a garrafa inteira. Ponho álcool onde?
( abre a garrafa e cheira , faz careta ).
Que cheiro forte.
Nos meus seios, não, não posso por o álcool nos meus seios. Eu sempre gostei deles. Sei lá, acho eles bonitos, não posso queimar eles. Não posso estragar uma parte de meu corpo que gosto. No seio não, então vou jogar álcool onde? Nas pernas? Espera aí, também não dá. Eu lembro que sempre ouvi que tinha pernas bonitas, não posso destruir elas. Na cara? Na cara… Na cara… Não, não dá, é pra onde a pessoas olham de primeira. E vou por fogo na cara? Justo no lugar que eu gastei tanto com cremes? Não, eu não posso me imaginar pegando fogo. E de pensar que é bonito olhar quando estão estourando fogos. Mas é bonito lá em cima e não na gente. Nunca gostei nem de ficar perto de fogão por causa daquele calorzinho.
( tampa a garrafa de álcool e põe no chão ).
Não, queimada não dá. E eu não ia gostar de virar carvão. Eu iria ficar muito feia. E as piadas. Muitos amigos gostam de dizer que eu me queimo a toa. Que eu perco a calma fácil. É, eles iam dizer que dessa vez eu me queimei mesmo. Preciso descartar o fogo.
( pensa ).
Será que tem mais métodos? Eu já pensei em tantos. E se terminou a lista? O que vou fazer? Vou ter que agüentar viver?
( anda de um lado para o outro ).
Acabei de encontrar outro meio. E esse eu já vi na televisão. Lembro de ver algumas vezes uns motoristas entrarem numa estrada na contra mão e ir embora, sem dar importância para o resto. É claro que são colegas. São colegas por pensamos na mesma coisa, o suicídio. É claro que eles querem morrer. Alguém acredita que uma pessoa pega o carro e entra na contra mão e vai indo até uma hora bater num caminhão por descuido? Sempre que eu vi uma reportagem dessa a batida foi num caminhão. É evidente que é mais uma maneira de fazer suicídio. Deve ser como jogar um vídeo game ou brincar naqueles carrinhos de parque de diversão que se batem.
( brinca de correr com os braços para a frente como quem está dirigindo um carro ).
BRUM, BRUM, BRUM, BRUUUUUMMMM!
( bate nos móveis, na parede e volta ).
BRUM, BRUM, BRUM, BRUUUUUMMMM!
Deve ser assim, bem simples como uma brincadeira. Tem que desviar dos carros pequenos até encontrar um caminhão. É uma morte divertida.
BRUM, BRUM, BRUM, BRUUUUUMMMM!
( bate nos móveis, na parede e volta ).
BRUM, BRUM, BRUM, BRUUUUUMMMM!
Mas tem uma coisa importante, eu não tenho carro.
( para de brincar ).
O que faço? Como vou conseguir um carro? Só existe um meio, roubar um. Pegar um táxi não dá. O motorista não ia aceitar esse destino. Já vejo o motorista perguntando qual o destino senhora? Eu diria que era o céu. Ele ia achar que era brincadeira. E se ele perguntasse qual o caminho eu diria que era uma estrada rápida na contra mão. É muito improvável que o motorista faça essa corrida pra mim. Só se… Se… Se… Se ele quiser cometer suicídio também, mas isso é como acertar na loteria. Eu nunca acertei um jogo se quer e não é agora, na hora da morte, que vou acertar. Encontrar um motorista suicida é muito difícil. Ei! Quando a gente pede táxi pelo telefone a moça faz algumas perguntas e se eu pedir um motorista suicida, será que vem? Eles deviam de ter, não, eles não devem ter motorista suicida por um motivo muito simples. Eles perderiam o carro e carro não é barato. E se eu comprar um carro? Não, não posso fazer isso, seria um desperdício comprar um carro para destruir ele numa batida. Nem carro novo nem usado. Eu sempre dei muito valor ao que comprei. E o que ia adiantar comprar um carro se eu não ia ter coragem de bater ele.
( pensa ).
Não é bem assim. Se fosse uma batidinha de leve, um arranhão, um risco, mas não, a batida tem que ser forte pra eu morrer. Assim vai destruir todo o carro. E o pior de tudo é que o carro não vai ter utilidade nenhuma. Vai acabar num ferro velho. E olha que quando eu compro alguma coisa, pode ser até objeto, eu pego amor. Não, eu não suportaria saber que meu carrinho foi parar num ferro velho, exposto ao frio, ao calor, a chuva. Lá ficaria ele, completamente abandonado. Eu não ia ter paz. E se eu roubar um? Mas como vou fazer isso? Eu nunca roubei nada, muito menos carro. Sei que tem ligação direta, mas nem sei o que é isso e nem como faz. Ninguém costuma deixar o carro aberto e com a chave. È uma falta de confiança na raça humana. É triste ver isso. E tem mais, roubar um carro não tá certo. Eu vou ser uma ladra. Se eu morrer vou manchar minha vida inteira. Ninguém vai achar que é o único carro que eu roubei. Vão dizer que sou a maior ladra do pedaço e que bati o carro quando fugia da polícia. Dá pra imaginar a história toda. Tudo que fiz na vida vai ser manchado. Meu nome vai pra lama. Todos vão querer esquecer de mim. Se sumiu alguma coisa na casa de um amigo meu vão dizer que fui eu. Eu vou levar a culpa e não poderei dizer nada. Nem vou poder me defender. Roubar, nunca roubei nada.
( põe a mão no coração ).
Pra ter uma idéia nunca roubei nem coração de homem. Acho que não, pois se roubei o coração de alguém ele não me falou nada. Ficou calado, nem pensou em dar parte ou registrar queixa pra mim. Não, mais uma tentativa que valeu, mas não dá. Tenho que pensar em outro meio, mas qual? Já estou um tempão concentrada num meio de morrer.
Me ocorreu um pensamento. Se eu vou morrer eu poderia aproveitar e fazer o bem para alguém. Exatamente! Eu posso fazer o bem. É uma maneira de morrer e deixar alguém feliz. Bem, gente pra ficar feliz com minha morte não vai faltar. Já briguei muito com muita gente. Eles vão dar graças a Deus. O que Deus tem a ver com isso? A não ser que eu nasci, eu não gostaria de ter nascido, maldito espermatozóide que ganhou a corrida e furou o óvulo de minha mãe. Foi a única vez que eu ganhei alguma coisa. Esse espermatozóide devia ter ficado na sua, lá atrás. Agora eu penso que posso ajudar alguém, eu sempre gostei de ajudar, nunca fui egoísta. Eu posso doar meus órgãos para alguém que precise de um transplante. É, daí uma parte minha vai ficar viva em alguém. Espera aí! Parece estranho eu querer me matar e ao mesmo tempo querer deixar uma parte viva minha. Não, é normal. Não tem nada de estranho nisso. Assim alguém vai lembrar bem de mim. Aposto que a pessoa que recebe órgão de alguém não fica difamando o doador.
( ri ).
Mesmo que o doador seja ruim. Ele não fala mal do doador por que daí vão dizer que ele tem uma parte ruim dentro do corpo. Pra isso eu preciso deixar uma cartinha que quero doar meus órgãos. Nunca servi pra nada, agora pode ser que eu sirva pra algo. Meus órgãos podem ser úteis para alguém. É melhor parar. Não dá. Eles não pegam órgão de quem morreu. É, eles pegam os órgãos de quem está morto no cérebro, mas o corpo continua vivo. Como eu vou conseguir cometer um suicídio que só mate meu cérebro. Bem, pra matar meu cérebro basta eu ficar de frente com algumas equações de primeiro e segundo grau de matemática. Essa matéria sempre matava meu cérebro. Odeio matemática. A única matemática que gosto é o dinheiro entrando na minha conta. Mas é bom dizer que sempre foi o contrário. Eu sempre vi o dinheiro saindo de minha conta. E se eu for no hospital? Não, eles não vão querer matar meu cérebro para pegar meus órgãos.
( anda de um lado para o outro ).
Tenho que pensar em outra coisa. Mas o quê. Será que todos esses métodos já foram testados? É duro não saber sobre suicídio. A gente fica perdida.
( conta nos dedos ).
Esse já foi, esse também, mais esse, já tentei, mais um…
Foram muitos métodos, até não imaginava que existiam tantos. Podemos dizer que tem um método de suicídio para cada gosto. Sem opções a pessoa não fica.
( estala os dedos ).
Tem mais um, jóia, minha cabeça ainda funciona. Tem a tal da intoxicação alimentar. E como vou conseguir isso? Como vou conseguir uma comida estragada? Não existe a oferta de comida estragada em nenhum supermercado. Eles têm de tudo menos comida estragada. Eu não cozinho, nunca fui de cozinhar, minha mãe tentava me ensinar. Ela dizia que a comida prendia um homem. E eu pensava, como pode o homem viver livre com tanto lugar que vende comida: Bares, lanchonetes, restaurantes? Se esse ditado fosse a verdade os homens não saíam desses lugares. Pois é, eu vejo os homens por aí, livres da silva. Bem, lembro que tentei cozinhar algumas vezes, mas o Júlio dizia que eu estragava a comida, então ele trazia da rua… Não da rua em si… Ele trazia de algum bar ou lanchonete ou restaurante. Tive uma idéia! Eu compro a comida e deixo ela bastante tempo até estragar e daí…
( faz careta ).
Como? Não, eu sempre fui tão enjoada com o que colocava na boca, não, comer comida estragada não dá mesmo. Se eu comer garanto que não vai descer. É, mas eu vou ter que esperar quanto tempo para ela estragar? Não dá nem pra ter uma idéia do tempo. Também dá um remorso na gente. Só de pensar que vou comprar comida e deixar estragar já me vira o estômago. Não posso imaginar uma comida estragando e tanta gente passando fome. É, eu não posso morrer assim por que vou de consciência pesada. E sabe lá o que vai acontecer. Vai que como a comida estragada e só me dá uma diarréia? E vai que vou pra um hospital? Vão dizer que eu não aprendi nem a comer, que eu não sei o que como, que eu como só porcaria. É, não vou escapar das piadas. E tem mais, eu não vou agüentar o cheiro de uma comida que eu goste sem comer ela. É, eu tinha que ser inteligente, eu tinha que comprar uma comida que não gosto, daí eu ia deixar ele estragar sem dar uma beliscada sequer. Não, definitivamente não, comer comida estragada e ainda que não gosto já é demais. Nem com minha mãe fazendo aviãozinho ou trenzinho eu comia quando não queria. Eu batia na colher e dizia: BATEU! Agora que em ocorreu como conseguir comida estragada. Basta ficar esperando sair num jornal um lugar que vendia produto estragado. Daí era só telefonar e pedir para o dono entregar em minha casa. É, parece mais fácil agora. E a espera? Quanto tempo vou ter que esperar por uma lugar que venda produto estragado? Não, não dá mesmo. E doença? Também é um jeito de morrer?
( pensa ).
Mas esse jeito é mais difícil. Onde eu vou conseguir uma doença? Teria que ser uma doença fatal. Eu… Eu poderia entrar num hospital e chegar perto de alguém com uma doença terminal.
( faz careta ).
É difícil encarar. Nunca quis chegar perto nem de gente com doença leve, imagine doença fatal. Não suporto ver alguém que está para morrer.
( ri ).
Então não vou olhar no espelho.
Não, isso é sério. Eu nunca suportei ficar perto nem de bichinho que estava para morrer. Eu tenho apego a vida. Ficar doente é difícil. Uma gripe, uma febre, uma dor de cabeça, uma diarréia a gente pega, mas doença pra matar é mais difícil. E eu tomei muitas vacinas, tem um montão de doenças que eu não pego. Estou i-m-u-n-i-z-a-d-a. Se eu entrar num hospital podem me pegar e perguntar o que estou fazendo lá. Não vai colar que eu estou lá para morrer. Ninguém procura um hospital para morrer. Eles não vão acreditar, mesmo. Ei! Tem outra chance. É só eu pegar o lixo hospitalar. Levo pra casa e coloco a mão nele, coloco na boca, passo pelo corpo… Não… Não… Chega… Eu não sou um lixo.
( aumenta a voz ).
Eu não sou um lixo.
( faz silêncio ).
Se bem que quando Júlio estava indo embora ele disse que eu era um lixo.
( faz sinal de pare com as mãos ).
Está certo, ele não falou que tipo de lixo eu era. Se era lixo pra jogar em aterro ou lixo reciclável. Lixo reciclável é bem melhor, é outra coisa. A gente se sente importante ao ouvir. É um baita elogio. Não, eu não posso terminar assim, revirando lixo. O que meus inimigos iriam dizer? Que eu terminei no lugar que merecia, no lixo.
( senta no sofá ).
Esqueça esse método, não dá, vou pular pra outro. Mas o quê? Não me vem nada na cabeça. Vamos lá, pensa um pouco, calma, respire, concentra, é só livrar a mente de tudo e deixar vir a nova idéia. Deve ter mais jeito de fazer suicídio. Não pode ter se esgotado todas as maneiras.
( bate palmas ).
Vamos lá, pensa, pensa, vamos lá, venha novo método, venha, eu estou esperando, estou aqui… Aqui… Sentada pra não cansar. Espera aí, acho que está vindo uma idéia, acho sim, mais uma, quem sabe é essa.
( ri ).
Já sei, uma bomba, é, como não pensei antes? É só apertar o botão e pronto, eu não vou sentir nada. É um meio bastante rápido. Ei! Mas as pessoas vizinhas podem ouvir o barulho. Tem que ser um barulhão, pois se for um barulhinho é uma bombinha de nada. Aonde vou comprar uma bomba? Espera aí, eu lembro que há algum tempo tinha por aí receita para fazer bomba. Será que ainda tem? É, estou cheia de esperança. Isso pode dar certo. Agora lembrei, eu sempre fui muito ruim para seguir receita. Lembro quando ia fazer uma comida. Olha que mesmo com a receita do lado e todos os ingredientes eu não acertava. Alguma coisa dava errado. O erro era pequeno, mas já era o suficiente pra comida ficar ruim. Bem, se eu não consigo seguir uma receita de comida vou conseguir fazer uma receita de bomba? Acho pouco provável. E onde vou comprar os ingredientes? Não deve ter em loja de festa. É, seria bom comprar uma bomba pronta para o uso. E acho que uma fábrica não ia vender pra mim. A primeira coisa que eles iam fazer é perguntar pra que eu queria a bomba. Eu podia responder… O quê?… Já sei… Pra acabar com um formigueiro. Não, aposto que não ia colar. Ei! Mas eu acabei de lembrar de uma coisa, bomba não dá, se for muito forte vai me deixar que nem carne moída e se for mais fraca pode arrancar uma parte de mim. Isso é horrível. Não posso nem imaginar meu corpo sem um pedaço. Não, vão dizer olha lá, ela esqueceu um pedaço dela. Pode ser uma mão, alguns dedos, o braço, sei lá. Vão dizer isso por que sou muito esquecida e todo mundo sabe disso. Não, isso é demais pra mim. Nunca gostei de perder nada e não é agora que vou perder um pedaço de meu corpo. Sempre que esquecia alguma coisa eu voltava e ia a todos os lugares que fui até encontrar o que esqueci. Definitivamente, bomba não dá. E agora o que faço, o que vai ser de minha vida?
( põe as mãos na cabeça ).
Ei! E eu não fui me confessar. Gente eu não me confessei. Eu não me livrei dos pecados. É muito importante tirar todos os pecados. Assim eu vou para o céu… Céu… Céu… Tem que ser o céu. Eu não acho que vá para o inferno. Assim eu vou para o céu sem pecado algum. Mas pra isso eu teria que esperar até amanhã pra daí ir até uma igreja.
( aponta com a mão ).
Tem uma igreja aqui perto. Até fiz a comunhão lá. Lembro que sempre rezava pedindo uma vida longa e feliz. É, eu pedia uma vida longa e feliz. Rezava bastante.
( se espreguiça ).
Acho que é o fim. Não deve ter mais meio pra se matar.
( coloca a mão na boca para tampar um bocejo ).
E não é que tem. Meu Deus! É isso, eu achei outro meio, sim, asfixia. É só não deixar entrar ar nos meus pulmões que em alguns minutos eu morro.
( corre para a escrivaninha ).
Aqui está.
( retira um saco plástico ).
Isso aqui é a minha salvação. É só por na cabeça até o pescoço e já está feito. Hum! Eu posso amarrar o plástico no pescoço pra morrer com mais segurança.
( veste o saco plástico ).
Estou parecendo uma astronauta… E olha que eu vou decolar para o céu.
( faz careta ).
Ai! Mas isso é desconfortável mesmo. Não aconselho ninguém fazer isso. Dá uma sensação ruim. Daí a gente vê como é importante a respiração. Não… Não… Não estou sentindo nada… Será que vou morrer logo? Parece que não é dolorido morrer assim, eu estou bem. Puxa! Até que enfim achei um método bom pra morrer. Viu, quem não desiste sempre consegue o que quer. Eu não desisti e encontrei um método para morrer da hora. Esse eu recomendo. Devia de ter pensado nele por primeiro. Assim eu já estaria morta.
( grita ).
Não!
Não pode ser. O ar está entrando, o que faço? O ar não pode entrar. Eu preciso ficar sem ar. Por falar em ficar sem ar eu fiquei desse jeito quando vi o Júlio pela primeira vez. Fiquei completamente sem ar.
( suspira ).
Completamente sem ar.
Hora de acordar! O que faço?
( corre até a escrivaninha e pega um barbante ).
Isso está bom. É só amarrar o saco no meu pescoço e pronto. Daí não entra ar e eu vou morrer.
( começa a amarrar o barbante no saco do pescoço ).
Ei! Tá começando a faltar ar. O que faço? Tá me dando um calorão, minha cara tá pinicando toda. É, esse método é dos bons.
( tosse ).
Ei! Mas que cheiro é esse? Hum! Que cheiro ruim. Não…
( tira o saco rapidamente ).
É um saco de carne que comprei. Meu Deus, eu ia me matar com um saco de carne? Já faz tempo que comprei essa carne. Estava tão distraída que nem percebi o cheiro… Ai… E… Olha aqui…
( chacoalha a mão ).
Ainda tem gordura do assado nele. Eu estou toda lambuzada de gordura. Essa não. É um dos motivos por que não cozinho. Eu detesto ficar com cheiro de gordura e a própria gordura no corpo, na roupa, no cabelo.
( espana o corpo ).
Sai gordura, sai.
( levanta o saco plástico ).
Como eu não vi antes? Olha, não tem marca nenhuma, é um saco qualquer. Como eu pude pensar em me matar com um saco assim?
( ri ).
Tem que ser uma sacola plástica de butique de grife. Tem que ser uma sacola que represente luxo. Eu não posso morrer com uma coisa tão brega.
( joga o saco no chão ).
Eu sempre dei valor pra marca e não é agora que vou entregar minha vida num saco anônimo. Não mesmo.
( vai até a escrivaninha ).
É! Não tem nenhuma sacola aqui, muito menos chique. Faz tempo que não faço compra. Nem é bom lembrar disso. É bom esquecer. Nem os folhetos de promoção as lojas que eu comprava me mandam mais. Parece que sentem o cheiro de quem está sem grana. Também, o que ia fazer com os folhetos? Mas é bom receber correspondência. É ruim ir lá na caixa do correio e não ter nada todo dia, um dia depois do outro. A gente se sente completamente abandonada. É ali na caixa do correio que a gente vê se alguém gosta de nós. Bem… E agora? Qual meu próximo passo?
( anda e tropeça ).
Fenomenal, acabei de pensar em outro método. Meu Deus! É melhor para de falar em Deus. É melhor falar com ele mesmo. Logo estarei com ele. Esse é fácil, é só eu me jogar na escada. Isso aparece bastante em filme. Não que seja suicídio. Nos filmes ou a pessoa cai por cair mesmo ou é empurrada. Ei! Eu não quero que pensem que alguém me empurrou. Espera aí! É só eu escrever uma carta dizendo que ninguém me empurrou. Não, não posso fazer isso. Daí eles vão saber que é suicídio. Se ficar como um acidente eu saio em noticiário de televisão, rádio, jornal e revista. Vão pensar que eu tropecei ou me desequilibrei ou fiquei tonta e perdi os sentidos na escada. Daí eu rolei abaixo e morri.
( levanta os braços ).
Morri de quê? Do que eu vou morrer? Parece que eu já ouvi que a morte mais comum quando se cai em uma escada é de pescoço quebrado.
( gira o pescoço ).
Quebrar o pescoço? Daí eu não vou conseguir mexer ele? Ele vai ficar mole, balançando de um lado para o outro?
( cai no chão, rola levanta e repete ).
Parece fácil, é só eu ir até a escada do prédio e me jogar escada abaixo. E logo estarei com o pescoço quebrado. Não, o que eu estou dizendo? Como eu posso saber se vou quebrar o pescoço? Eu posso quebrar o braço, a pena, a mão, o pé, pode até não acontecer nada e depois da queda eu sair andando. Bem, daí é só eu me jogar de novo até conseguir o que quero. É, mas se eu quebrar alguma coisa não vai dar nem pra me levantar. Daí vou ter que ir para um hospital e ser engessado.
( chacoalha a cabeça ).
Não, eu não posso acreditar que ficarei engessado por alguns meses. Dever ser horrível andar com gesso. A gente perde a liberdade de movimento. E pra tomar banho com aquele gesso? A única parte boa do gesso é que os amigos assinam nele e deixam mensagem. Mas no meu caso que vai escrever no meu gesso. Só se eu pedir para o médico que me engessar, para o porteiro do meu prédio, para o motorista do táxi que eu usar. Minha assinatura não vale. Eu podia encher de mensagens minhas. Não tem graça nenhuma. É! Me jogar em uma escada não está com nada.
( boceja ).
Confesso que estou cansada de tanto pensar.
( deita no sofá ).
( toca o telefone ).
TRIM, TRIM, TRIM.
Não pode ser. De novo?
TRIM, TRIM, TRIM.
Não vou atender.
( cruza os braços ).
TRIM, TRIM, TRIM.
Ei! Talvez seja o bandido querendo saber se eu estou bem ou se eu estou precisando de alguma coisa.
( atende o telefone ).
Alô! Marcelo. Quanto tempo.
O quê? Como estou indo? Ainda não consegui ir…
( aponta para cima ).
O que disse?
Tem uma notícia boa? E depois vem a ruim…
Há! Só boa? Não tem ruim, então diga…
Conseguiu um emprego pra mim?
Cara! Muito obrigada, do fundo do coração. Mas o que vou fazer? O emprego é de quê?
O quê? Vou animar festa infantil?
Mas nunca fiz isso. O que precisa?
Hum! Ter amor a vida pois vou lidar com crianças.
Cara! Veja uma coisa, amor a vida é o que mais tenho. Ora, eu tenho, não tenho?
Então esse emprego é meu, Marcelo? E quando começo?
Amanhã, sendo assim está ótimo. Então está certo, a gente se vê.
Tchau!
( desliga o telefone ).
Todo esse tempo que pensei na morte nada mais fiz que exaltar a vida. De um certo modo sempre estamos morrendo e nascendo. São as transformações da vida. Hoje morreu uma Adriana sem rumo e nasce outra Adriana repleta de esperança, tal qual morre a noite para nascer o dia.
Viva, eu consegui morrer.
( cai no chão ).
Viva!
( fica em posição fetal ).
Estou nascendo para uma outra vida.
( ri bastante, canta e dança ).
Lá, lá, lá, rá, rá, rá, Lá, lá, lá, rá, rá, rá…
( vai até a escrivaninha e pega o revólver ).
Bem, preciso arrumar toda essa bagunça, deixa eu começar pelo revólver…
( o revólver escapa de sua mão e cai no chão, produzindo um barulho, sai um tiro e acerta Adriana ).
Adriana cai morta.

FIM

MONÓLOGO

“ A SUICIDA ATRAPALHADA “

AUTOR: SAMUEL R. KROSCHINSKI

DADOS BIOGRÁFICOS

Samuel R. Kroschinski é escritor, autor do livro “ BARRIGA: UM MUNDO FEMININO, o qual está a venda nas livrarias Curitiba.
Samuel R. Kroschinski já teve “ ESTÓRIAS EM QUADRINHOS “ e “ CONTOS INFANTIS “ publicados no jornal O Estado do Paraná.

Tel.: ( 041 ) 3286- 9285

End: Rua Dês. Antonio de Paula, 92
Boqueirão- Curitiba- Paraná
CEP: 81730- 380

CENÁRIO: Um apartamento onde aparece um cômodo com janela ( podendo ser painel ).

Sofá
Tapete
Escrivaninha ou mesa com gaveta
Revólver grande e pequeno ( brinquedo )
Facas cenográficas
Vidro de comprimidos
Corda
Geladeira e fogão
Meias, calcinhas, folhas de papel, jornal, pacote com algumas bolachas e caixa de leite, telefone, carteira de cigarros, cinzeiro, isqueiro, garrafa de álcool, saco plástico, barbante.

( Adriana entra em seu apartamento apressada )
Droga! Essa vida é miserável, já não agüento tanta pressão e olha que eu nem tenho pressão alta nem baixa ainda.
Esse fardo que Deus me deu está pesado demais pra carregá-lo. Estou precisando de um carregador. E ainda dizem que ele ( aponta o dedo para o alto ) distribui os fardos igualmente.
( Dá um soco na cabeça ).
Ai! Da próxima vez tenho que moderar nas minhas reações.
Mas tem algo errado, pois deve ter um monte de gente sem fardo nenhum. Eu só devo estar carregando por uns vinte pecadores e…
( abre os braços indicando tamanho ).
Com uns baita pecados, diga-se de passagem. Por falar nisso ele…
( fala mais baixo e apontando o dedo para cima novamente ).
Distribui fardos de quê? Bem, de coisa gostosa não deve ser por que sempre seria menor. Claro, a gente ia comer tudo.
( ri ).
Imagine você carregando um fardo de chocolate, garanto que não ia deixar por menos. Logo não existiria fardo nenhum para carregar.
( pensa um pouco ).
É, deve ser fardo de coisa ruim. E deve ter uns por aí que não foram avisados para pegar o seu fardo. Vivem no paraíso. Acontece que os meus fardos são entregues em domicílio e ainda registrados. Além de tudo tenho que assinar…
( faz movimento de assinatura no ar ).
Para garantir o recebimento. Claro! Pra eles terem a certeza que vou cumprir a minha sina. E se não cumprir? Será que serei cadastrada no serviço de proteção ao crédito?
Dizem que desgraça nunca vem sozinha.
( faz tom irônico ).
Essa tal da desgraça vive em bando, tem um monte de coleguinhas. No meu caso elas podem encher um campo de futebol em dia de clássico. Por falar em futebol, já torci por vários times e nunca nenhum ganhou título algum, mas era só deixar de torcer que eles ganhavam. Hoje sou mais esperta, deixo para torcer no final do campeonato, o time que vencer é do meu coração. Daí compro a camiseta do time e saio por aí só pra me sentir vencedora.
( senta no sofá e tira os sapatos ).
É, a minha vida não é um mar de rosas ( prende o nariz com os dedos da mão esquerda e com a outra joga os sapatos para longe ).
Disso tenho certeza. Confesso uma coisa, eu sempre tive o dom de perceber quando uma coisa não estava cheirando bem. Foi assim que eu percebi que podia ser mandada embora do trabalho. Perdi o emprego por um motivo banal. Fui pra rua por que não batia o ponto. Tem cabimento?
( deita no sofá e estica as pernas ).
Não fui trabalhar alguns dias e não seria tonta de ir ao escritório só pra bater o ponto e daí voltar. Como eles queriam que eu batesse o ponto se eu não estava lá?
( senta no sofá ).
Logo em seguida meu marido me largou, me trocou por uma mulher rica. Por coincidência, mas só por coincidência o amor acabou quando meu dinheiro acabou.
Fui trocada por uma mulher feia que dói. E deve doer mesmo, haja analgésico e viagra pra agüentar aquela feiosa.
Lembro até hoje o que ele me falou quando estava indo embora. Quem vê cara não vê carteira.
Pelo menos ( ri ) tem o lado bom, ele disse que sou bonita.
E se não bastasse ainda tem toda essa onda de azar. Afinal que toda onda é de azar pra mim. ( fala mais baixo ) Eu não sei nadar.
Pois é, meus pais morreram. Estavam correndo, não respeitaram o sinal e ao cruzarem a rua foram atropelados por um caminhão de lixo. ( ergue a voz ) Que jeito mais pobre de morrer e sem propósito. Claro, meus pais não podem ser reciclados. Adorava eles e não consigo esquecê-los por um instante sequer. Ficaram tantas saudades. Também, foi só o que eles me deixaram, saudades, por que em matéria de herança não me deixaram nada.
Lembro até hoje da cartinha deles, que chegava todo mês, sem falta. No começo aquele blá-blá-blá, como vai você, nós te amamos muito, espero que essa cartinha te encontre com saúde e felicidade e assim vai. Mas sempre trazia algo maravilhoso, um sentimento profundo, uma poesia eterna e pura, tudo traduzido numa única mensagem.
A sua mesada está no banco.
O dinheiro era mais que suficiente para passar o mês.
Agora estou perdida, confusa e sem rumo, cheia de dívidas e sem nenhuma perspectiva para o futuro.
A certeza que fica é a cadeia, caso não pague as contas. Mas isso eu não agüentaria. Será que juiz leva essa alegação em consideração? Senhor juiz eu não vou agüentar a cadeia, daí ele diz ( ergue a voz ) você é inocente.
Tenho que arrumar um jeito de escapar dessa confusão.
( conta nos dedos )
Uma volta ao mundo? Não.
Acertar na mega sena? Não.
Casar com um homem rico? Não.
Ah! Tudo isso é um sonho. Preciso tomar uma atitude mais realista, uma medida drástica que seja definitiva.
( dá um estalo com os dedos ).
Definitivo quer dizer por fim de uma vez. E isso é morte.

( declama )
A morte é doce,
Um verdadeiro licor,
Ida sem volta,
Para um lugar melhor.

Fuga dos problemas,
Distância das cobranças,
Viagem de turismo,
Na mala só lembranças.

Não deixaria saudades,
Levaria somente tristeza,
Presente em todas minhas idades.

Minha geração morreria,
Não teria filho nenhum,
E descendente alguma sofreria.

É isso, morrendo, não tenho nada a perder. Claro, morta vou perder o quê? Pelo contrário, só tenho a ganhar. Me livro de todas as preocupações. Uma vez morta estarei tranqüila, serena e em paz, tão em paz que será até chato. Dá pra por um radinho no caixão, pelo menos tem uma musiquinha. Creio que não terá uma viva alma pra acender uma vela ou me levar uma flor.
( faz cara de felicidade ).
Pronto! É uma idéia, tenho que levar adiante. Não posso deixar esfriar. Como é mesmo o nome de quem se mata?
( pensa um pouco )
Latrocínio, não, não, parece quem mata um cachorro. Latro deve vir de late. Será homicídio? Ah, homicídio deve ser quando se mata um homem, e quando se mata uma
mulher? Será mulhercídio. E quando se mata um que ainda não se decidiu pelo sexo?
Há, Lembrei, é suicídio. Então é isso, vou cometer um suicídio.
( anda de um lado para o outro resmungando ).
Na verdade queria morrer dormindo. Eu não queria me ver morrer. Eu não sentiria coisa alguma. Seria formidável sonhar, sonhar um belo sonho, que fome, ( se distrái mas volta ao assunto ) sonhar um belo sonho, que estava andando a cavalo no meu sítio, com carro importado na garagem e de repente acordar no paraíso. Acho que o termo certo não seria acordar. Bem, sempre adorei dormir, mas isso é pura imaginação. Ora, morrer dormindo? Como diz o ditado: quem sabe faz a hora. Mas como vou fazer o tal suicídio? Preciso de alguma coisa que mate.
Ei! Tem aqueles revólveres da escrivaninha.
( corre até a escrivaninha ).
Hum! Aqui estão eles. Um é de calibre 22 e o outro é de calibre 38. Bem que eu podia ter um 48, ah, mas esse é só de uso do exército. É proibido seu uso por pessoas como eu.
( admira um por um, apalpa e acaricia as armas ).
Dizem que o calibre 22 faz com que a pessoa demore a morrer. A bala vai correndo pelo corpo, batendo aqui e ali, num e outro osso. A morte vem por hemorragia interna.
( faz careta ).
Deve ser uma dor miserável. Já o calibre 38 nesse aspecto é melhor, mata mais rápido. Então tem que ser esse mesmo.
( guarda o calibre 22 e separa o 38 ).
Com você não vou sofrer.
( apanha as balas e começa a coloca-las no tambor ).
Uma, duas, três… De pensar que ( ergue uma bala ) isso logo estará dentro de mim. Chega a dar um calafrio.
Quantos tiros serão necessários para morrer? Não quero desperdiçar bala nenhuma.
( volta a contar as balas )
Quatro, cinco… Mas também, não preciso colocar tantas balas, pois só darei um tiro. Não me imagino dando o segundo, o terceiro, o quarto.
( aponta o revólver para si próprio e se comporta como quem estivesse levando os tiros, se arrasta, cai no chão e rola um pouco ).
Pum, pum, pum ( faz som de tiro ) e o quarto e o quinto tiro. Tenho receio que falte lugar para atirar ( ri ).
( levanta do chão ).
Por falar em lugar, qual o mais indicado do corpo pra morrer mais rápido?
( faz pose da famosa estátua do pensador ).
Que dúvida cruel. Onde vou mirar este trabuco?
( coloca o cano na testa ).
Aqui não!
( faz ar de desânimo ).
Nunca gostei de ter uma arma apontada pra mim, mesmo que de brincadeira. Quando era criança sempre fiquei fora das brincadeiras de bandido e polícia, justamente por não gostar de armas.
( faz silêncio e logo mira o ouvido ).
Há, Aqui é um bom lugar, mas e se a bala entrar por aqui e sair pelo outro ouvido? Sempre falaram que eu não ouvia direito. Vão achar que eu quis ouvir bem alguma coisa.
( coloca o cano do revólver dentro do nariz ).
Aqui deve ser fatal, mas ai! Não é bom enfiar tanto que dói. Também, se fosse o revólver pequeno não ia doer tanto assim.
Agora está bom, vamos lá, vai ser pra já.
Ah, não vai dar. Se eu atirar no meu nariz vou por água baixo toda a operação plástica. Ele era aquilino e sofri tanto para arrumar a grana da cirurgia de correção. Agora que está perfeito ( acaricia o nariz ) não vou estoura-lo, não sou doida.
O que diria meu cirurgião?
Tanto trabalho pra nada.
( anda um pouco com as mãos para trás ).
Já sei!
( coloca o cano na boca ).
Vai ser aqui mesmo.
Um, dois e… Não dá!
( corre até a escrivaninha e retira um papel ).
Esqueci que tinha hora marcada no dentista para amanhã. Se eu me matar com um tiro na boca vão pensar que foi por que não agüentei a dor de dente ou não tinha dinheiro para o tratamento. E agora eu me lembro… Minha mãe dizia que a primeira coisa que as pessoas olham são os dentes. Se eu dou o tiro na boca arrebento tudo e se alguém olhar meus dentes o que vai pensar? Aposto que vão dizer olhando para meu caixão. Ela não está rindo por vergonha de mostrar os dentes.
Não, na boca não!
( num gesto rápido aponta para a cabeça ).
Será aqui mesmo, não tem outro lugar melhor.
( engatilha a arma e faz suspense ).
Também não dá. Me lembro do tempo de escola que os colegas diziam que eu não tinha nada na cabeça. E se eu atirar na minha cabeça eles vão dizer que foi uma tentativa desesperada de colocar alguma coisa dentro dela. Há, eu não suporto a idéia de ser motivo de piada após minha morte. Agindo desse jeito vou assinar embaixo e reconhecer que não tinha nada na cabeça mesmo. Será uma forma de concordar com as piadas que faziam.
( larga a arma ).
Ah, não agüento essa incerteza. Pensei que cometer um suicídio fosse mais simples.
Se eu morasse em algum país árabe seria mais fácil cometer suicídio. Era bem fácil, era só eu me apresentar para ser mulher bomba. Daí eu receberia treinamento… Espera aí, por que treinamento? É só ir até um lugar com bombas pelo corpo e apertar um botão. Ah, mas tem um porém, eu não ia querer matar uma multidão de gente.
( pensa ).
Matar um vai lá. Eu chegaria perto de um homem bem bonito e diria: você é lindo de morrer e logo depois apertaria o botão. E Bum…
( faz Bum )
Tem que ser um homem que goste de barulho, daí a gente vai para o outro mundo juntinhos. Nunca gostei de andar sozinha. Acompanhada eu vou mais segura. E lá a gente pode formar uma dupla explosiva. Ah, e se a bomba falhar? Não dá para chamar alguém que está perto para ajudar. E nem dá também pra ir até uma loja que arruma material elétrico. Ei, mas se dá certo acontece uma coisa horrível com o corpo. A gente vira carne moída.
( faz careta )
Argh! Não quero que falem de mim como Adriana Ralada. Não isso não.
( apanha um livro qualquer sobre a escrivaninha ).
Deveria ter um manual , uma cartilha, apostila ou sei lá, escrito por alguém entendido na arte do suicídio. Serviria, para os leitores interessados, pouparem tempo e sofrimento. Ali, no livro, viria a receita tim-tim por tim-tim. Poderia ter a descrição de vários métodos com o grau de dificuldade estipulado por caveirinhas. Esse é fácil, uma caveirinha; esse é difícil, três caveirinhas; esse tem que comprar muito material, cinco caveirinhas.
É! Seria muito bom, mas espera aí… Não daria certo, não que eu seja pessimista, por não gosto de pessimismo, sempre vejo o lado bom das coisas, mas para o livro ter coerência e credibilidade, o autor precisaria ser um suicida sacramentado na arte e que nunca tivesse cometido um fracasso durante o suicídio. Agora vem o pensamento: se ele fosse bom na coisa, já estaria morto e consequentemente não escreveria o livro.
E não teria graça ler um livro escrito por um suicida fracassado, pelo menos para quem quer levar a sério o suicídio.
( coloca a mão na boca ).
Nossa! Que palavra forte. Morrer é esquisito. É melhor trocar por fazer a viagem, partir, passar desta para melhor para não ficar tão brutal.
( mira o coração, mas com dúvida de sua localização no peito ).
Estava esquecendo do coração. Aqui o tiro é certeiro, não aqui. Espera aí! O coração fica do lado esquerdo ( aponta o direito ) ou do lado direito ( aponta o esquerdo )? Droga! O coração não pode estar nos dois lados, vai que erro e fico por aí penando, sofrendo dores horríveis. Não, isso não, eu teria a maior vergonha de sair correndo do apartamento pedindo ajuda.
( começa a correr ).
Ei! Me ajuda, tentei me matar e errei o alvo.
Ei! Eu quis me matar, por favor me salve, me leva pra um hospital.
Depois de todo esse sofrimento ainda ia parar no hospital com a chance de pegar uma infecção hospitalar?
Ei! Se fosse um acidente, tudo bem, mas uma tentativa de suicídio e ainda mal sucedida.
O que os outros iriam falar?
( fala mais alto ).
Sem falar que pelas esquinas, cada pessoa teria sua receitinha certeira. Para se matar de verdade ela teria que se jogar num precipício com um lago repleto de piranhas ou se jogar na frente de um trem, e por aí vai.
Ainda tenho amor próprio, ficaria aqui me esvaindo em sangue até morrer, mas não pediria ajuda pra ninguém. Detesto ficar devendo favor para alguém. Se eu acertar em cheio meu coração pode acontecer algo terrível. As pessoas podem dizer que alguém machucou meu coração e eu decidi me matar. Acho abominável se matar por causa de homem ou mulher. Isso só enche a bola dele ou dela. É como se ele ou ela tivesse no currículo: Uma mulher ou homem se matou por minha casa. Eu não vou dar esse gosto para meu ex marido. Não mesmo.
Ah, tem mais uma coisa que estava me esquecendo. Se eu acertar o tiro e morrer e ainda por cima ninguém escutar o tiro?
( pega um giz e faz o desenho do seu corpo no chão ).
Quem vai me achar?
Depois de quantos dias?
Só de pensar que vou entrar em processo de decomposição já perco o apetite. Vou apodrecer e feder, será que um banho antes e bastante perfume ameniza o cheiro?
Quem vai achar meu corpo?
Claro! Por que o cheiro vai se espalhar pelo apartamento.
O vizinho da esquerda é difícil, pois é dono de uma peixaria.
Agora a vizinha da direita, também não levo fé.
( fala mais baixo )..
Ela vende perfume falsificado. Ela não vai notar nada de mais no cheiro, já está acostumada.
( anda e pensa ).
Ah! Só pode ser através de um cobrador. Ele sentirá demais a minha falta, deitará, vai chorar, gritar e espernear.
( Adriana deita, grita e esperneia ).
O cobrador não suportará tal fatalidade. Ficará completamente desolado por não receber o dinheiro que devo. Mas sabe de uma coisa, já me sinto feliz de fazer falta pra alguém. O motivo não importa, claro, depois de morta não preciso pagar mesmo.
( faz movimento de lavar as mãos ).
Por falar nisso muita gente vai sentir minha ausência. O Natanael, dono do apartamento, não vai arrumar outro trouxa tão fácil que pague tanto por esta espelunca. Tem o Pedro da farmácia, sou a cliente preferencial dele. Acabou uma doença já tenho três na sala de espera. Tem também o Manuel da padaria, para quem ele vai vender aqueles pães amanhecidos?
Nossa! Acho que no meu enterro vai ter bastante gente, nem que seja para rogar praga.
( faz vozes diferentes para cada praga )
Apodreça no inferno.
Tua alma não vai ter paz.
Na outra encarnação vai ser mendiga.
Espera aí! O assunto é outro, estou desviando do objetivo vital, a minha morte. Uma coisa tenho certeza, com o revólver vai ser difícil, acabei de lembrar que não tenho porte de arma. Isso quer dizer que essa arma é ilegal. Se eu me matar com este revólver estarei cometendo uma infração.
( larga a arma e apanha a carteira de cigarros, retira um cigarro e o acende, admira a fumaça que se esvai e senta no sofá ).
Dizem que o cigarro mata, seria até gostoso morrer fumando, mas demora muito, teria que esperar quantos anos?
Ei!
( apaga o cigarro no cinzeiro ).
E se eu mudar de método? Que tal cortar os pulsos?
( vai até a gaveta e retira algumas facas ).
É difícil escolher entre pequenas e grandes. Ah! Elas precisam estar afiadas, pois eu não vou ficar cortando os pulsos por várias vezes, igual quando a gente está ( faz mímica de estar cortando algo duro ) cortando um bife duro com uma faca cega. O certo é dar uma passada e pronto ( faz movimento rápido com a faca ).
Escolho grande ou pequena? Ei! Tamanho não é documento, todas cortam.
( pega várias facas ).
Esta aqui de cabo de madeira, é muito antiga. Ih! Ela não serve. Imaginem que está enferrujada. ( põe a mão na cabeça ) Deus me livre cortar os pulsos com ela, ainda arrisco pegar uma infecção, um tétano. Teria que tomar várias injeções antitetânicas, e tenho pavor de injeção.
Olha esta aqui, tem o cabo de plástico e é colorida, é a mais bonita.
( ela passa o dedo no fio da faca para verificar se está afiada ).
Ai! Me cortei.
( balança o dedo e leva á boca ).
Ai! Minha mãe sempre disse para não brincar com faca. É de uma irresponsabilidade o fabricante vender uma faca afiada desse jeito. Coloca em risco a saúde dos usuários. Onde já se viu?
Mas no meu caso ela deve servir, tá-tá-tá-ram, está chegando a hora de ir.
( encosta a faca no pulso ).
Adeus mundo ingrato! Logo mais estarei com minha mãe… ( se assusta ) Espera aí, eu disse mãe? Não, não, não. Se eu for para o mesmo lugar de minha mãe já estou vendo a bronca que ela vai me dar.
( engrossa a voz )
Por que se matou?
E daí a pegação no pé. Tem que acordar cedo minha filha. Você tem que ter cuidado com quem anda e aonde vai. Volte cedo, etc. Não vai adiantar eu dizer que estou morta. Minha mãe dizia, se você sair de casa está morta pra mim e eu sai.
( encosta de novo a faca no pulso ).
Adeus mundo, adeus…. Adeus, adeus cidade querida, adeus, adeus país amado, adeus, adeus… É melhor fazer rápido, pois não vai aparecer um príncipe encantado pra me salvar. Não adianta ganhar tempo.
Lá vai, é agora.
( faz uma pausa ).
Ei! Não posso cortar meus pulsos, vai sair muito sangue. O corpo humano tem mais ou menos cinco litros de sangue. Aonde vai tudo isso?
( dá um grito ).
Vai escorrer pelo chão e manchar o tapete. Enfim, vai emporcalhar todo o apartamento. E o que vão dizer? Que eu dei meu sangue por este apartamento. Eu sempre tive mania de limpeza. Sempre exigi que Júlio, meu marido, lavasse as roupas dele, lavasse a louça, limpasse o apartamento e agora vou sujar todo ele? Isso não, não mesmo. Não é agora que vou fazer um ato mundano desses. E tem mais, vai sair muito sangue de mim e eu vou ficar bem pálida, branca igual cera. Não, esse método não dá por que eu sempre peguei sol pra ficar com uma corzinha manera. Espera um pouco.
( corre e apanha um copo de água e bebe afoita ).
Hum! Estava com uma sede. Meu Deus, eu não pensei nisso, como não pensei? Eu posso morrer por afogamento.
Ei! Mas onde vou me afogar aqui dentro? Vou ter que sair. Essa é uma ótima idéia.
Calma ( faz calma com as mãos ), calma, estava esquecendo que não sei nadar. Nem boiar eu sei. Entrar nhá água sem saber nadar é completamente perigoso. E onde eu iria me afogar? Há, tem um rio aqui perto. É só eu ir até lá.
( se prepara para sair ).
Não, não adianta ir até lá, é um rio de esgoto, não tem um peixe vivo ma água. Imagine eu que só tomo água filtrada me afogar numa água de esgoto. Não me vejo tomando aquela água ( faz careta ) com urina, fezes, latas, garrafas, roupas, bichos mortos. Tomar água suja faz mal, dá um monte de doenças. Preciso arrumar outro meio. Espera aí! Acabo de me lembrar dos filmes de bang-bang. O meio mais comum era: Não era flecha. Onde eu iria arrumar um índio?
( faz mímica de atirar uma flecha ).
Seria interessante.
Mas estava falando da forca. Esse é um método simples, barato e limpo.
( corre até a gaveta e retira uma corda, mexe nela, estica, observa ).
Isso me traz recordações de quando era criança. Adorava brincar de pular corda.
( Ela pula corda, por alguns segundos cantarolando algo alegre ).
É bom parar com a brincadeira. O que preciso fazer é sério.
( tenta fazer o nó de forca ).
Esse nó de forca é mais difícil de fazer do que pensei.
( tenta fazer o nó, mas sempre dá errado, mostra desânimo ).
Sempre acreditei em rituais. Se a gente vai tomar vinho tem que apreciar a coloração, cheirar, sentir o vinho para depois tomar. É um ritual que aguça todos os sentidos para que seu sabor seja enaltecido. É isso que dá um toque especial para as coisas. Lembro que Júlio sempre se zangava quando eu fazia esse ritual ante de beber o vinho. Só por que eu comprava o vinho no boteco da esquina. Eu comprava vinho barato para economizar o dinheiro e gastar num salão de beleza ou roupas par mim. E lá tem diferença? É um vinho como qualquer outro. O nome é vinho, não é?
Mas ser enforcada com um nó fajuto é demais. Vão dizer que eu nem sabia dar o nó de forca. Por falar nisso eu sempre adorei fazer aquele joguinho de advinhar as palavras. É o jogo da forca. Sabia que eu tinha tirado de algum lugar essa idéia. E se eu faço um outro nó? Já imaginaram se me encontram enforcada com um nó de porco? Vão dizer pra levar o presunto pra geladeira. E com o nó direito? Vão dizer que essa morreu direitinho.
Além de tudo ficarei conhecida como a enforcada de primeira viagem.
( coloca a mão na cabeça ).
Isso é vergonhoso demais. Ei! Tem uma coisa que eu não pensei. Já vi fotos de pessoas enforcadas e elas ficam com uma aparência horrível.
( faz careta ).
Ficam com os olhos arregalados, a língua para fora e ainda aquele sinal medonho no pescoço.
( faz o sinal da cruz ).
Cruz credo! Não posso ficar com sinal nenhum no meu pescoço. Sempre brigava com o Júlio quando ele ameaçava dar um chupão ou mordida no meu pescoço. Pra esconder é difícil. E não quero ficar com a aparência que está escondendo alguma coisa. Agora seria muito triste ter que levar a marca da forca pela vida inteira… Ou melhor, pela morte inteira.
Não, não posso escolher a forca.
Preciso de um outro meio.
( anda pelo apartamento e se bate em algum objeto ).
É isso! Como não pensei antes, atropelamento. É, mas vou ter que sair de casa. Aqui dentro não passa nenhum carro, muito menos ônibus ou caminhão.
( fica alegre ).
Até que enfim uma luz no fim do túnel, mas ser atropelada por bicicleta não dá e nem por moto. Eu tenho que ser atropelada por um carro. É fácil, é só me jogar na frente quando o carro estiver passando. Minha mãe sempre disse pra eu me jogar quando tivesse uma oportunidade. É isso, vou seguir o conselho da mamãe. E quanto ao carro? De que carro eu me jogo na frente? Não, por que não pode ser um ferro velho. Precisa ser um carro moderno, estiloso. O que as pessoas vão falar se eu morrer atropelada por um calhambeque. Vão dizer que não sabem quem é a lata velha. Se eu vou morrer atropelada tem que ser um carrão.
( pensa ).
Tem que ser um carro de luxo ou esporte pra dizerem que eu tenho bom gosto.
Mas um carro desses não fica passando toda hora pelas ruas. Hi! Quer dizer que eu vou ter que ficar esperando um carrão passar pela rua. Isso é uma loteria. Sabe lá quantas horas ou até dias vai levar pra isso acontecer. E tem mais uma coisa, o carrão não pode estar devagar. Se eu me jogar na frente dele e ele estiver devagar dá tempo para frear e eu fico com a cara no chão.
( faz ar de cansada ).
Ufa! Vou ter que esperar vir um carrão em alta velocidade, e olha que isso é difícil. Dizem que homem cuida mais de carro do que de mulher. Eu acompanho noticiário e não é muito freqüente acidente de carro envolvendo carrão. É até compreensível. Os donos de carrão andam na ponta dos pés. Eles cuidam de seus carrões. Já a maioria dos acidentes acontece com carros velhos e populares onde o dono não tem nenhum amor por seu meio de locomoção. Quando teve que comprar comprou por que era o único que o dinheiro cabia. Já os donos de carrão compram por que é justamente o carro que eles gostam e sempre quiseram ter. Acidente é coisa de amor. Um ama o carro que tem e o outro, em muitos casos, odeia o carro que tem. Até a rua eu tenho que escolher, pois carrão não anda em qualquer uma. A rua ter que ser chique. Já o carro popular o dono enfia em qualquer lugar. É, parece fácil, mas não é. Ai, e a roupa? Com que roupa que eu vou?
( senta no chão ).
A roupa é muito importante. Traduz a personalidade da pessoa. Olhando a roupa a gente tem idéia de como a pessoa é. Por isso é importante a escolha da roupa que eu vou ser atropelada. Pode ser um agasalho esportivo? Não, se matar não é um esporte, é uma coisa séria. E um terninho? Não, se matar não é um trabalho. Um biquíni? Não, não, se matar não é praia nem piscina. Um vestido de noite? Não, se matar não é uma festa. Já sei, uma bermuda e um chinelinho? Não, também não, se matar não algo tão informal. Ah, e chinelinho é ruim de eu ir, pois ainda não fui no salão fazer os pés. E de salto alto? Também não dá, já sei que vão fazer muitas piadas a respeito. Com certeza vão dizer que eu cai do salto e fui atropelada. E se eu for só com uma capa e pelada por dentro? Sempre tive curiosidade de saber como é sair pelada numa revista e essa pode ser minha chance. Antes de me jogar na frente do carro eu tiro a capa e me jogo. Mas como eu não pensei nisso, eu não vou sair na coluna social e sim na policial.
( levanta ).
Confesso que perde a graça. Ei! Isso me faz pensar que carro é pequeno e se a batida não me matar? Não, não pode ser carro, eu já tive uma idéia, aliás, uma grande idéia. Vou me jogar na frente de um ônibus. Não, não, não dá, vai ter muita gente me olhando. Vão dizer que eu errei a porta para entrar no ônibus. E ainda tem gente que costuma dizer: vai pegar o ônibus? Nesse caso vão dizer que o ônibus me pegou mesmo. Não, eu tenho que ser atropelada por outra coisa. Mas o quê?
( senta, cruza as pernas e meditas um pouco ).
Já sei, como não pensei antes, um caminhão, uma carreta. E eles costumam correr. Claro, a maioria desses caminhões grandes não é de quem está dirigindo, mas de uma empresa. Espera aí.
( levanta ).
Não pensei nesse porém. A carga do caminhão que me atropelar é importante. Já pensou ser atropelada por um caminhão de banana? Vão dizer que eu era uma banana. E se for um caminhão de bebida? Vão dizer que a bebida me matou. De cigarro vai ser a mesma coisa, o cigarro matou ela. E se for um caminhão de televisão vão dizer que eu não saía da frente da televisão e que foi uma pegadinha. Se for de carne vão dizer que chegou carne fresca. Epa! Mas tem uma coisa, caminhão é muito grande e pesado. E se o caminhão me esmagar? Não, isso não pode acontecer. Eu não posso ser esmagada. Daí vão me por num caixão sem janelinha. E eu que sempre que entro num ônibus vou logo sentando na janela. Não é depois de morta que vou deixar de gostar da janelinha Sem falar que vou ficar irreconhecível. Pudera! Vão dizer que o caminhão esmagou meus sentimentos. E se alguns começarem a perguntar se eu era carne moída de primeira ou de segunda ou ainda raspa de serra? Não, eu não quero ser motivo de piadas por aí.
Preciso de um outro meio.
( faz um bocejo e se espreguiça ).
Ah, mas me sinto cansada. Ei, uma revista.
Deixa eu dar uma olhada.
( deita no sofá ).
Aqui tem uma piada, adoro piadas.
O menino está brincando, e por descuido, deixa cair uma caixa em cima do pé da irmã. Ela se vira para o irmão e diz:
Ai! Filho da puta.
O pai indignado entra e diz que é feio dizer palavrões e ainda mais mentirosos.
Disse o pai:
Pelo menos diga: neto da puta.
( dá belas gargalhadas ).
Há, há, há, há, há, há, essa é boa, vou morrer de rir se continuar rindo assim. Ei, é melhor aproveitar o embalo. Quem sabe eu morra de rir.
( ri e se joga no chão ).
Ué! Ainda estou viva?
( levanta desolada ).
Pensando bem seria uma piada morrer de rir.
( toca o telefone ).
TRIM, TRIM, TRIM.
Quem será?
Alô! Quem? Ah, é o Sr. Roberto do armazém.
Eu sei, estou devendo, mas olha, sem falta pago amanhã.
( olha para o público ).
Amanhã estarei num outro mundo mesmo.
Sr. Roberto! Amanhã eu pago, está bem assim? Fique tranqüilo, pra mim é uma questão de vida e de morte.
Ah! Está certo, até amanhã, adeus.
( coloca o telefone no gancho ).
Queria ser uma mosca pra ver a cara dele quando souber que não vai mais receber o seu dinheiro. Ih, mas e se eu estou lá e ele espalha inseticida?
( faz cara de receio ).
Xiiiii! Ele vai querer me matar.
Bem, mas daí não importa.
( balança os ombros ).
Deus, todo esse papo me deu fome eu não pretendo morrer de fome.
( vasculha as gavetas, abre portas ).
Pó! Estou mal de comida. Deixe ver aqui, nada, nada aqui também. Desse jeito vou morrer de fome mesmo.
Hum! Aqui tem uns restos de bolacha e um pão dormido.
Ah! Um pouco de leite, isso dá para enganar o estômago.
( come as poucas bolachas e bebe o leite ).
Hum! Até que estava gostoso.
( passa a mão na boca e lambe os dedos ).
É! Quando se está com fome não existe tempero, qualquer coisa fica gostosa.
Bem, tenho que voltar para o meu objetivo principal.
( mexe o corpo rapidamente ).
Ai! Senti uma picada no corpo.
Ei! Mas uma idéia. Picada lembra o quê? Pode ser agulha, já cansei de picar o dedo com agulha de costura. Outra coisa que picada lembra é injeção, sempre fugi de injeção. Tem mais? Picada lembra abelha, também já fui picada por abelha, acho que ela morreu atoa. Lembra também beliscão, o Júlio tinha a mania de me beliscar. Bem, mas picada lembra mesmo o que me interessa, cobra.
( treme ).
Sempre tive um medo enorme de cobra. Mas onde vou arrumar uma? É o método da Cleópatra. Essa sim era mulher, decidida, determinada, valente, inteligente. Escolheu um meio para se matar e nem titubeou, pegou a cobra e se deixou picar. A única coisa que mancha um pouco essa história é que a Cleópatra nem quis ver seu suicídio. Tinha uma cobra numa cesta tampada e Cleópatra colocou a mão lá dentro. Pois é, ela perdeu o momento que a cobra pica sua mão. E se ela precisasse falar como foi ser picada ela não ia saber dizer. Ora! Logo depois podiam aparecer alguns repórteres e fazer essa pergunta. Como você vê a picada? Daí a Cleópatra ia fazer uma cara de paisagem e não ia poder responder nada. Ela é um exemplo para quem quer cometer suicídio.
Mas onde vou arrumar uma? E tem mais eu não conheço se é cobra venenosa ou não. Procurar uma no mato eu tenho medo. É perigoso andar no mato por que tem muitos bichos. Sabe lá o que pode acontecer. E s eu roubar do zôo? Não, eu nunca roubei e não é agora que eu vou roubar.
( ri ).
Será que serve aquelas cobras dentro de vidro com água? É só pegar um vidro, abrir e pronto. Mas onde vou arrumar um vidro de cobra?
É, mas detesto a idéia de ser piada. Vão dizer que eu morri com meu próprio veneno e que eu era uma cobra. Ah, e tem mais, o condomínio não permite animais aqui nesse prédio. E eu não sou de desobedecer leis. Não, isso não dá.
( baixa a cabeça ).
Puxa! Estou deprimida.
Epa! Deprimido me lembra comprimido.
( vai até a gaveta e revira na esperança de encontrar um vidro de remédio ).
Esse não dá, acho que engolir supositório não adianta. E vão dizer que eu não sabia onde era minha boca. Ei, aqui tem mais um vidro, deixa eu ver, deixa eu ver, é de laxante. Não, não, vão dizer que eu fiz uma grande cagada. Ei, mais um vidro, e esse é, deixa eu ler, é de comprimido pra dor de cabeça. Ah, mas também não dá, vão dizer que eu consegui tirar a dor de cabeça. Claro, eu morri e não vou sentir nada. Ei, aqui tem mais um vidro.
( levanta o vidro de comprimidos e fica olhando por um tempo ).
É! Tomo o vidro inteiro e logo estou dormindo. Quando me der conta já estou no mundo de cima.
Ah! Mas tem um porém, acabei de comer, e se eu tiver uma indigestão? Também tem a hipótese de não morrer rápido e alguém, por ironia do destino, me encontrar e me levar até um hospital. Se for público tudo bem, morro de qualquer jeito, mas se for particular não tenho dinheiro, então morro do mesmo jeito.
Vai que algum médico queira me tratar. E a tal lavagem estomacal? Imaginem um cabo ( pega uma vassoura ) entrando pela retaguarda e mexendo e mexendo e mexendo.
Aaaai! É a dança da vassoura. Aaaai! É a dança da vassoura.
Me dá vontade de morrer de vergonha só de pensar no assunto. A vassoura tem uma esponja na ponta, mas não adianta por que dói na alma. E a quantidade de água que jogam lá dentro? Eu que modero na água pela boca vou liberar lá embaixo?
E a conta? Já estou devendo as saias, não suportaria mais uma dívida.
( anda de um lado para o outro ).
Deixa eu ver o que falta? Preciso encontrar um outro meio, nunca pensei que fosse tão desgastante escolher um meio para morrer. Até parece questão de vestibular. Qual a forma mais cômoda de cometer um suicídio? Ei! Isso me chamou a atenção. Um suicídio. Claro que tem que ser um suicídio. Já pensou falhar uma vez e ter que fazer outra vez? Não, esse método não se enquadrou comigo, por isso estou procurando um que tenha a ver com o meu jeito. E não é motivo de orgulho dizer: esse já é meu quinto suicídio. Mas eu tenho força e com fé em Deus vou até o fim. Não está em meus planos testar todas as maneiras de se matar.
Há! E a pergunta? Qual a forma mais fácil e cômoda de cometer um suicídio?

a) Tiro
b) Forca
c) Faca
d) Envenenamento
e) Atropelamento

Depois poderia vir embaixo.

1) Se a e c forem corretas
2) Se b e d forem corretas
3) Se d e e forem corretas
4) Se todas forem corretas
5) Se nenhuma das alternativas for correta

Até que iria ficar legal. A nota sairia no certificado de óbito.
Ei! Acabei de ter uma idéia fenomenal. Como não pensei antes?
( corre até o fogão e gira o botão sem acender a boca ).
Dizem que o cheiro do gás mata. Deixa eu ver se funciona.
( Tem um barulhinho de chiado ).
Puxa! Que cheirinho horrível, mas não existe sucesso sem sacrifício. Logo estarei entrando no reino do céu. Espera aí! Será que quem comete suicídio vai para o céu? Eles podiam interpretar que a pessoa gosta tanto do céu que antecipou sua morte. Depois do que passei aqui não me vejo no inferno. Prefiro morrer do que ir para o inferno.
( fecha o nariz com a mão ).
Mas é um fedor desgraçado, não estou agüentando.
( deita no sofá e fica se virando de um lado para o outro ).
Ah! Chega desse cheiro, não matei meu pai a soco.
( corre até a janela, mas para de repente ).
Ué! Eu quero morrer com o gás e vou abrir a janela? Isso está errado.
( volta para o sofá ).
O jeito é esperar que dentro de alguns minutos estarei dormindo. Por falar nisso estou sem meu pijama, nunca durmo sem ele.
( canta e tosse ).
Epa! Tem algo errado.
( cheira o ar ).
Ih! Parece que o cheiro está melhorando. Será que já me acostumei. Acho que não vai ser tão mal essa viagem. Agora vou dormir tranqüila e não mais acordarei. Adeus.
Ué! Mas está tão bom que é difícil de ser verdade.
( corre para o fogão e mexe no botão, cheira a boca, vai até o botijão, desses pequenos, e chacoalha várias vezes ).
Não pode ser verdade.
Por que foi acontecer justo comigo? O que eu fiz pra Deus?
Isso é hora de faltar gás?
Desse jeito não vou morrer nunca.
( toca o telefone ).
TRIM, TRIM, TRIM.
Outra vez esse telefone.
( atende com raiva ).
Alô! Quem fala? Ah! É o Damasceno, olha, eu não tenho o dinheiro para te pagar ainda.
O quê? Se eu não pagar você me mata?
( afasta o telefone e põe a mão no fone ).
Benza Deus, eu sabia que o Senhor não me abandonaria.
( volta a falar no fone ).
E quando vai ser Damasceno?
Como o quê?
Quando você vai me matar? Olha tem condição par você de ser hoje? Pra mim seria ótimo.
O quê?
Repete o que você falou que não estou acreditando. Era só força de expressão?
( vira para o público ).
Propaganda enganosa é crime, você sai por aí dizendo que quem não paga morre e na hora H desiste. O que é isso? Não se faz mais bandido como antigamente. Ah! Não me mata por que daí não recebe a grana?
( faz um silêncio ).
É! Por um lado ele tem razão.
E o que você faz?
O quê? Quebra braço por braço, perna por perna, chega! Não devia ter perguntado. Xiiiii! Desligou.
( coloca o fone no gancho ).
Estou completamente perdida, no mato sem cachorro.
( olha para um ponto qualquer ).
Agora tenho que fazer esse suicídio mais do que nunca.
( encara a janela ).
Como não pensei nisso antes?
( aproxima pé por pé ).
Eureca!
( acaricia as laterais da janela ).
Tinha esquecido desse método. Moro no décimo andar. É só me atirar e pronto. E ainda ganho de brinde saber qual é a sensação de voar. Claro! Por alguns segundos. Até bater no chão.
( faz careta ).
E que tal que eu saio voando por aí?
( corre com os braços abertos ).
Eu posso ser uma super mulher e não sei disso. Ah! Isso é bobagem, vamos voltar a realidade.
( chega com cuidado na janela, abre e coloca a àbeça pra fora ).
Puxa! Mas é alto mesmo.
Lembro que brigava com o Júlio toda vez que ele ficava na janela, tinha medo que ele passasse mal e caísse. Cansei de brigar com ele.
Se tivesse dinheiro sobrando teria mandado colocar uma grade nela, assim ninguém poderia se machucar.
É! Mas daí eu não poderia pular.
Caramba! Isso aqui é alto mesmo. Imaginem como eu vou ficar no chão depois de cair. Não quero ficar arrebentada, com o corpo todo quebrado. Quero ser uma morta inteira, bonita. Sabem quando as pessoas vão até um velório e dizem: Nossa! Aquela moça está tão bonita, parece um anjo. Por isso quero ficar bem depois de morta para não dizerem que fiquei um monstro.
( se balança na janela ).
Ai, me acudam. Estou com vertigem só de olhar pra baixo, já estou com tonturas.
( senta com dificuldade ao lado da janela ).
Quando era pequena nunca subi em árvore por medo de altura. Tinha um medo de cair que me pelava e tem mais uma coisa. Lá embaixo tem uma cerca de grade pontuda. Se eu cair vou parecer frango no espeto. Não, morrer está certo, mas com respeito, com moderação, mas enfiada numa estaca já é um abuso.
É, deve ter uma maneira mais fácil e morrer.
( levanta e corre, pula, faz polichinelo, abdominal ).
Estou tentando morrer de cansada, só mais um pouco e chego lá. Já estou esgotada.
( vai parando aos poucos, põe a mão nas costas e respira ofegante ).
Esse jeito é muito cansativo de morrer.
( deita no sofá e se abana ).
Lembro que costumava brigar muito com o Júlio por que ele fazia ginástica todos os dias. Brigava pela conta da academia. Sim, ele fazia cada sessão com uma roupa limpa. Era um desperdício. Bem que podia fazer a semana inteira com a mesma roupa. Quem sofria era eu para lavar. E o pior é que ele ficava bravo quando eu dizia isso.
( pega um jornal ).
Nossa! Tive sorte de pegar bem na foto de um morto.
Hum! Aqui diz que foi para o Instituto Médico Legal. Ei!
( dá um sobressalto ).
Outro detalhe que eu ia esquecendo.
( levanta do sofá ).
Depois de morta o que acontece? Pra onde eu vou? Ah! Vem aqueles caras da polícia e vão mexer em tudo, vão revirar as gavetas, vasculhar as fotos, penetrar na minha intimidade.
( fica com raiva ).
Detesto e sempre detestei que mexam nas minhas coisas, mesmo que não tenha muitas.
Lembro das intermináveis brigas com o Júlio. A gente brigava, mas eu o amava.
( fala com voz suava ).
As vezes a gente dá bronca para que a pessoa melhore. Lembro quando ele saía arrumando tudo, nos dias de faxina. Minhas coisas podem estar desarrumadas, mas eu sei exatamente o lugar de cada uma. E vinha o Júlio e guardava onde ele achava que devia guardar.
( aumenta a voz ).
Eu chegava em casa e precisava de um papel, adeus. Precisava revirar tudo pra achar o dito papel. Brigava com ele, mas todo dia era a mesma coisa… até….
( fica triste ).
Que ele foi embora, agora está como eu gosto,s ei onde estão meus papeis.
( mostra-os espalhados pela escrivaninha ).
Sei onde estão minhas meias.
( mostra-as dentro do fogão ).
Sei onde estão minhas calcinhas.
( mostra-as embaixo do sofá ).
Sei onde está tudo… Mas…
( grita com desespero ).
Não sei onde está meu Júlio.
( chora ).
Ai! Que vontade de morrer.
( assoa o nariz e esfrega os olhos ).
Deixa eu voltar para o assunto mais importante. Onde estava? Ah! Morta e estatelada no chão. Pois bem, aí viriam os repórteres e tirariam fotos de mim de todo jeito, para serem publicadas no jornal. Decerto seria um fotógrafo de natureza morta. Ah! Iriam querer saber alguma coisa de mim pra por no jornal. Ei! Eu tenho que deixar algo escrito.
( corre e pega uma caneta e papel ).
Toda garota que se suicida deixa uma cartinha, bem, bem, é que, é que não fica bem se matar se deixar uma cartinha. Nela a gente se despede dos parentes, dos amigos e manda os inimigos pra aquele lugar, não, isso não, quem vai para aquele lugar sou eu. É uma gentileza fazer uma cartinha, senão é a mesma coisa que ir viajar sem se despedir. É sempre aquela choradeira, daí a gente fala: Eu volto logo, ah! Nessa cartinha não dá pra dizer isso, eu não vou voltar, a não ser que eu apareça como fantasma ou no sonho dos meus amigos. Ei! Pode ser que esse papo de encarnação seja verdade daí eu posso reencarnar em alguma pessoa próxima de amigos.
( põe a mão na cabeça ).
Espera aí! Eu estou querendo me matar e já estou pensando em voltar como fantasma ou em sonho ou como reencarnação? Isso é demais. Eu tenho que ficar quieta no meu canto por um bom tempo depois de morta. Eu serei um túmulo. E a cartinha como tem que ser?
( anda de um lado para o outro ).
Colo bichinhos nela, faço desenhos, coloco letra de música, coloco poesias, coloco meu endereço de orkut, o papel tem que ser colorido, espalho perfume no papel, colo uma foto minha, a melhor. Eles sempre mostram fotos nos jornais, revistas e televisão. Mas tem uma coisa, eu não me lembro muito de notícias sobre suicídio, senão eu… Ia lembrar.
( pensa um pouco ).
Já sei, é lamentável que aconteça uma coisa dessa, lembro que uma vez eu ouvi dizer que os meios de comunicação não cobriam suicídio para não incentivar ou dar idéia para suicidas em potencial. Ora essa, vivemos numa democracia e temos direito a saber sobre suicídio. Temos direito a ter nossos ídolos. Os suicidas com sucesso ou que já morreram na primeira tentativa. Temos direito a saber quais são as histórias que devem terminar com um suicídio. Há! E temos direito também a ter fotos de nossos ídolos para colar na parede do quarto. Temos direito também a saber onde foram enterrados para levar flores e acender velas. Hum! Hum! Numa dessa pode surgir a santa dos suicidas ou santo. Eles estão negando informação. Bem, isso devia ser assunto para um político. Sim, ele devia fazer algo pelos suicidas.
( abaixa a cabeça ).
Não, um político não ia abraçar a causa dos suicidas. Claro que não. Eles ajudam o povo para receber o voto como recompensa. Morta eu ia votar como nele? É, é, é, mas tem um porém: a mídia mostra gente matando por que foi rejeitado pela companheira. Isso não é incentivar quem foi deixado pela namorada a matar ela? E os roubos e os abusos sexuais? Isso eu não entendo, juro que não entendo a diferença. Por que o suicida tem que pagar? Nós não estamos fazendo mal pra ninguém? Essa é pra não entender mesmo. Ah! A carta. Ei! Deve ser uma carta ou uma cartinha ou uma cartona? Bem, o que devo colocar nessa carta? Como começo? Espera aí! Que tal assim.
( senta no chão ).
Estou muito feliz… Não, estou muito feliz pra uma carta de quem vai morrer não soa bem. Poderia ser estou morrendo de felicidade. Vamos ver esse começo: quero que todos estejam bem… Não, também não, desejar que todos estejam bem, vindo de quem cometeu suicídio soa meio falso. Bem, na carta eu posso dizer que não quero ser cremada. Odeio fogo, tenho muito medo. Sempre me queimaram e agora vou dar razão pra toda essa gente sendo cremada? E a gente virar uma caixinha de cinzas? Não, minha vida não pode terminar em cinzas. Isso não. Guardar as cinzas ou jogar estou fora. Quem vai querer guardar minhas cinzas. Ninguém me queria por perto e jogar é como não dar valor a mim. É como dizer: vamos jogar ele fora. Se bem que eu sempre vivi jogada no mundo, mas ter minhas cinzas jogadas na água se misturando com lixo, cocô e pipi. Não, não mesmo. Ou ter minhas cinzas jogadas num campo onde todo mundo vai pisar em cima. Também não. Prefiria ficar guardadinha numa caixinha em algum lugar da casa pra estar bem viva na lembrança das pessoas.
Bem, eu estava esquecendo que assim que encontram a gente morta eles colocam algo em cima. Serve um lençol, um jornal ou um plástico geralmente aquele sem gosto. Estou falando do plástico preto. Podia ser um plástico colorido. E quanto ao jornal ninguém deve fazer uma seleção de que parte que vão por em cima do corpo. Eu particularmente gosto do caderno cultural, adoro quadrinhos e horóscopo e também o que vai passar na tv. Podiam me cobrir com esse caderno. É, eles cobrem até a cabeça, deve ser pra ninguém ficar babando e querer tirar uma lasca. Ora! Se um cara me vê morta, pode quer chegar perto e fingir que está em profunda comoção, pegar minha mão, passar a mão pelo meu rosto e eu não vou poder dizer.
( aumenta a voz ).
Tira essa mão boba daí.
Depois vai ver se não tem ninguém olhando e vai tentar me dar um beijo. E eu ali, sendo violentada sem poder dizer nada. É, por uma lado é bom cobrirem todo o corpo. Quando eu era bem pequena eu pensava que eles cobriam as pessoas mortas pra elas não sentirem frio. É, e tem algumas pessoas que acendem velas ao redor do corpo. Dizem que é pra iluminar o caminho de quem morreu. Mas eu nunca vi alguém pondo lanterna. Isso é curioso. O começo da carta é difícil, é melhor eu pular direto para a mensagem. O que vou deixar como mensagem? Há! Eu posso dizer nunca desistam de seus sonhos ou nunca percam a esperança ou tenham sempre fé em Deus. São belas mensagens. E pra terminar: amo vocês… Soa estranho também, amo tanto que vou me matar.
( levanta ).
Escrever uma carta não é fácil, mesmo que não precise gastar com correio.
Deixa pra lá, depois de pegarem meu corpo eles levam para o necrotério. E lá tem a câmaras frias.
( treme ).
Detesto frio, a gente fica com as partes do corpo congeladas, não tem vontade de fazer nada, se bem que eu nunca tive vontade de fazer nada.
Lembro do Júlio quando eu estava deitada bem quentinha e ele chegava com aquele pé gelado me encostando.
E eu gritava.
( grita ).
Tira esse pé daqui.
Pó! Ele não podia fazer uma escalda pé? Tinha que vir com pé de defunto?
Eu não exagerava, não é?
( medita ).
Mas acontece que o resto dele era tão quente. Hoje em dia até suportaria um pé gelado, mas no meu casso eu vou ficar inteira gelada.
Depois vão querer me colocar naquelas gavetas. Tenho horror a lugares fechados, frios e escuros.
Ah! E depois ainda vão me retalhar inteira para ver se eu estava sob efeito de droga ou álcool, se quebrou alguma coisa e que órgãos faleceram antes. É, vão querer saber a causa da morte. Eu já soube que tem caso que eles passam a serra no morto. É, eles ficam bem a vontade na mesa de cirurgia por que não tem medo de erro médico. Vão errar o que se eu estou morta? Então eles cortam a vontade.
Mas não acaba aí, eu posso ser enterrada como indigente, não tenho imóvel no cemitério ou ser levada para alguma faculdade onde permaneceria num tanque de formol. E ficaria ali peladona. Os estudantes iam me ver completamente nua sem eu receber nada por isso. Quem tira foto para revistas ganha uma grana, mas eu ali ia posar sem parar e não ganhar nada por isso. E assim ficarei sendo picada e repicada até não dar mais, daí confesso que não sei qual é a próxima etapa. Eu, eu… Eu não sei pra onde eles mandam o corpo. Será que se eu fazer uma boa maquiagem, arrumar o cabelo quem me levar me dispensa dos cortes e me enterram inteirinha? É, quem me ver pode me achar tão bonita que nem vai querer mexer. Vai ter dó de me cortar. Confesso que todos aqueles cortes e aquelas costuras não ficam bem no corpo.
( pensa ).
Uma maquiagem pesada ou leve? Uma maquiagem discreta é difícil de perceber. Eu posso colocar só um brilho nos lábios, mas é pouco. É, eu podia ter ido a um salão pra me arrumar, assim não ia fazer feio. Arrumava o cabelo, as unhas e fazia uma bela maquiagem. Dizia que era pra festa. Podia mandar encaracolar meus cabelos. É assim que as anjas aparecem, sempre de cabelos cacheados. Hum! Podia até fazer um aplique para meus cabelos ficarem bem compridos. É, assim eles podiam me enterrar com dignidade.
( abre os braços ).
E se alguém se apaixona por mim?
( ri ).
É, mas não vai dar romance não, eu estou morta e não vou poder corresponder. Ah! O pior é pensar que esse corpinho…
( passa a mão pelo corpo ).
Vai desaparecer aos poucos dentro do caixão, só ficam os ossos, mas é bom não falar nisso, deixa pra lá.
( faz silêncio ).
( toca a campainha ).
DIM, DOM, DIM, DOM.
Droga, Queria tanto morrer. Por um fim nas minhas obrigações. Estou cansada dessa vida paranóica.
( toca mais uma vez a campainha ).
DIM, DOM, DIM, DOM.
Já vou.
( sai de cena ).
Pois não.
( uma voz masculina ).
Me passa o dinheiro ou morre!
( faz uma pausa ).
Senhor ladrão… Por favor, por favor, não me mate…
( a voz repete ).
Me passa o dinheiro ou morre!
Tenho pouco dinheiro, mas pode levar tudo.
( passa um tempo e Adriana volta para a cena ).
Como pode isso, aonde vamos parar? Acabei de ser assaltada em meu próprio apartamento. Olha só o perigo que passei. E lá se foi o dinheiro que eu tinha. Mas minha mãe ia dizer que pelo menos eu estou viva… Ei, o quê?
O ladrão disse passa o dinheiro ou morre.
( põe a mão na cabeça ).
Acabei de desperdiçar a chance da minha vida… Ou melhor, a chance da minha morte. Era só eu ficar na minha e não passar nada pra ele ou até reagir, dar uns tapas nele. Podia também dar a maior gritaria. Isso ia provocar ele. É! Daí ele ia me dar um tiro. Espera aí. Ele pode estar por perto ainda.
( sai de cena gritando ).
Você aí, vem cá, me entregue tudo por que eu prefiro a morte.
( depois de um tempo volta ofegante com a mão no peito ).
Não adianta, ele foi embora, pelo menos devia deixar um cartão com telefone, e-mail, orkut, youtube. O que vai fazer quem precisa se comunicar com ele?
Ele perdeu uma grande chance de fazer propaganda de seu trabalho, olha que no nosso meio podia espalhar que ele suicidava as pessoas e não ia faltar cliente.
Agora não adianta chorar o leite derramado e o bandido desperdiçado.
Droga! Droga!
Ei! O que estou dizendo?
( pensa ).
O que eu falei mesmo?
Ah! Droga. É isso, eu não pensei em droga. Já ouvi muito dizer que este ou aquela morreu de over dose. O que é over dose? Não importa, eu sei que é da droga. É, mas eu nunca tomei ou comi ou cherei ou fumei ou enfiei no sangue isso. Sei lá como põe pra dentro essa tal de droga. Mas eu vou precisar sair. Claro, aqui dentro eu não vou encontrar droga nenhuma. Bem, não é tanto assim. Aqui dentro eu encontro droga, é a minha vida. A minha vida é uma d-r-o-g-a.
Bem, a roupa para procurar droga é diferente, eu tenho que ir com uma roupa escura com capuz, algo que ninguém note minha presença. Ah, e eu devo sair a noite, mas onde vou encontrar. Não posso ir perguntando pra todo mundo onde fica uma boca de fumo. Esse nome eu sei por que a gente ouve falar por aí. Deve ser propaganda boca a boca deles. Uns saem falando por aí pra gente ouvir. Nem sei de onde ouvi isso. Mas onde vou encontrar?
( pensa ).
Ir na casa de um não dá, eu não sei o endereço de nenhum traficante. O jeito é procurar numa rua. Mas que rua? Ah! Tem que ser uma rua mais ou menos escura e sem muito movimento. Ih! Isso me faz lembrar da mamãe. Ela dizia pra eu evitar sair de noite e se precisasse eu deveria dar preferência para andar em ruas bem iluminadas e com grande movimento de gente indo e vindo. Hum! Vou ter que desobedecer ela. É, mas não vou ficar de castigo e nem vou levar bronca. É, mas dá um medo de ser reconhecida por algum amigo ou amiga. Se pudesse ia com uma meia na cara, mas não dá, pois podem pensar que estou fazendo algo errado. Será que no GPS tem indicação de boca de fumo? Não, não deve ter. Ei! Eles devem dar algum sinal que vender droga. Deve ter gente fumando ali mesmo. O jeito é sair e procurar. Sempre que eu tenho dúvida de algum lugar que preciso ir eu pergunto logo para um guarda, mas nesse caso não dá. E como eu chego no traficante? Oi, tudo bem? Quanto tempo! A família vai bem? Você tem alvará da prefeitura para vender droga? Você dá nota fiscal? A droga é boa? Qual é a data de fabricação dela? E qual é o prazo de validade? É preciso receita ou não?
( pensa ).
Todas as cenas que vi pela TV de gente comprando droga notei que eles nem se falam, é só chegar o traficante dá a droga e o usuário, viciado, ligadão, doidão, sei lá o nome, dá o dinheiro. Tem uma coisa que sempre admirei nos traficantes. Eles são muito bonzinhos e fazem o que nenhuma empresa faz. Eles aceitam de tudo em troca da droga. Aceitam roupas, jóias, aparelhos elétricos da sua mãe. Aceitam o vídeo game, a televisão, o som do teu irmão. Aceitam as bonecas, o celular, o computador da sua irmã. Aceitam o carro, o barbeador elétrico, os ternos do seu pai. É, eles não são exigentes quanto ao pagamento. Cada um dá o que tem ou… Ou… Ou o que os outros tem. Isso mostra que eles pensam nos clientes. Que eles se preocupam com os clientes. Eles não querem decepcionar seus clientes. Que empresa faz isso? Ei! Será que eles trocam a droga se ela não é boa? O cliente chega e diz que aquela droga não fez ele viajar. Pois é, ele nem saiu da rodoviária ou do aeroporto. Ficou lá esperando embarcar e a droga não tirou ele do lugar. Outro cliente chega e diz que não ficou doidão.
( ri ).
Sorte dele, pois senão estaria num manicômio. Outro chega e diz que a droga que tomou não deixou ele ligadão. Hum! Será que ele quer por o dedo na tomada? É, mas e se eu fico viciada e quero mais, daí eu vou querer voltar lá e pra voltar lá eu não posso morrer. Não, achei um problema na droga. E que droga eu ia comprar? Eu chego lá e digo, me dê a melhor? Posso também dizer pra me dar a mais barata. Ei, você tem alguma droga em oferta? Leve três e pague duas. Eu sei de alguns nomes. Sei que tem Crak, maconha e cocaína. Sei também que a mais barata é o Crak. Será que é bom?
( pensa ).
De tomar ou aquela de aplicar injeção?
( faz careta ).
Sempre tive medo de injeção.
Não, isso não. Acabei de pensar uma coisa. E se eu estou lá numa boa e a polícia chega? É para se pensar. Eu nunca fui de muita sorte, pra falar a verdade nem de pouca sorte eu fui. É bem capaz de eu estar lá e aparecer os homens.
( aumenta a voz ).
Eu seria capaz de me matar de vergonha se isso acontecer.
Não, de droga eu não posso morrer. Garanto que fui a viciada mais rápida que já existiu. Viu! Eu consegui largar o vício. Isso é possível. Larguei antes de começar. Também não suporto a idéia de fazer algo errado. Tem um ponto positivo em droga. A mídia mostra quando alguém morre de consumir droga. É, a pessoa tem seus 15 minutos de fama. Mas não dá, isso não é pra mim.
( acende um cigarro ).
Ei!
( observa o fogo do isqueiro ).
Como não pensei nisso antes, tem o fogo. Eu posso morrer queimada. É uma morte comum. Muita gente já morreu assim. Na idade média queimavam as mulheres acusadas de bruxaria. Por isso que não tem mais bruxas. Devem ter queimado todas.
( pega a vassoura e sobe nela e corre como quem estivesse voando numa vassoura ).
Eu sempre gostei de estória de bruxa. Já tentei fazer algumas bruxarias, mas nunca deu certo. Deve ser fácil e eu tenho o principal.
( corre e pega a garrafa de álcool ).
É só jogar pelo corpo e por fogo. Preciso por a garrafa inteira. Ponho álcool onde?
( abre a garrafa e cheira , faz careta ).
Que cheiro forte.
Nos meus seios, não, não posso por o álcool nos meus seios. Eu sempre gostei deles. Sei lá, acho eles bonitos, não posso queimar eles. Não posso estragar uma parte de meu corpo que gosto. No seio não, então vou jogar álcool onde? Nas pernas? Espera aí, também não dá. Eu lembro que sempre ouvi que tinha pernas bonitas, não posso destruir elas. Na cara? Na cara… Na cara… Não, não dá, é pra onde a pessoas olham de primeira. E vou por fogo na cara? Justo no lugar que eu gastei tanto com cremes? Não, eu não posso me imaginar pegando fogo. E de pensar que é bonito olhar quando estão estourando fogos. Mas é bonito lá em cima e não na gente. Nunca gostei nem de ficar perto de fogão por causa daquele calorzinho.
( tampa a garrafa de álcool e põe no chão ).
Não, queimada não dá. E eu não ia gostar de virar carvão. Eu iria ficar muito feia. E as piadas. Muitos amigos gostam de dizer que eu me queimo a toa. Que eu perco a calma fácil. É, eles iam dizer que dessa vez eu me queimei mesmo. Preciso descartar o fogo.
( pensa ).
Será que tem mais métodos? Eu já pensei em tantos. E se terminou a lista? O que vou fazer? Vou ter que agüentar viver?
( anda de um lado para o outro ).
Acabei de encontrar outro meio. E esse eu já vi na televisão. Lembro de ver algumas vezes uns motoristas entrarem numa estrada na contra mão e ir embora, sem dar importância para o resto. É claro que são colegas. São colegas por pensamos na mesma coisa, o suicídio. É claro que eles querem morrer. Alguém acredita que uma pessoa pega o carro e entra na contra mão e vai indo até uma hora bater num caminhão por descuido? Sempre que eu vi uma reportagem dessa a batida foi num caminhão. É evidente que é mais uma maneira de fazer suicídio. Deve ser como jogar um vídeo game ou brincar naqueles carrinhos de parque de diversão que se batem.
( brinca de correr com os braços para a frente como quem está dirigindo um carro ).
BRUM, BRUM, BRUM, BRUUUUUMMMM!
( bate nos móveis, na parede e volta ).
BRUM, BRUM, BRUM, BRUUUUUMMMM!
Deve ser assim, bem simples como uma brincadeira. Tem que desviar dos carros pequenos até encontrar um caminhão. É uma morte divertida.
BRUM, BRUM, BRUM, BRUUUUUMMMM!
( bate nos móveis, na parede e volta ).
BRUM, BRUM, BRUM, BRUUUUUMMMM!
Mas tem uma coisa importante, eu não tenho carro.
( para de brincar ).
O que faço? Como vou conseguir um carro? Só existe um meio, roubar um. Pegar um táxi não dá. O motorista não ia aceitar esse destino. Já vejo o motorista perguntando qual o destino senhora? Eu diria que era o céu. Ele ia achar que era brincadeira. E se ele perguntasse qual o caminho eu diria que era uma estrada rápida na contra mão. É muito improvável que o motorista faça essa corrida pra mim. Só se… Se… Se… Se ele quiser cometer suicídio também, mas isso é como acertar na loteria. Eu nunca acertei um jogo se quer e não é agora, na hora da morte, que vou acertar. Encontrar um motorista suicida é muito difícil. Ei! Quando a gente pede táxi pelo telefone a moça faz algumas perguntas e se eu pedir um motorista suicida, será que vem? Eles deviam de ter, não, eles não devem ter motorista suicida por um motivo muito simples. Eles perderiam o carro e carro não é barato. E se eu comprar um carro? Não, não posso fazer isso, seria um desperdício comprar um carro para destruir ele numa batida. Nem carro novo nem usado. Eu sempre dei muito valor ao que comprei. E o que ia adiantar comprar um carro se eu não ia ter coragem de bater ele.
( pensa ).
Não é bem assim. Se fosse uma batidinha de leve, um arranhão, um risco, mas não, a batida tem que ser forte pra eu morrer. Assim vai destruir todo o carro. E o pior de tudo é que o carro não vai ter utilidade nenhuma. Vai acabar num ferro velho. E olha que quando eu compro alguma coisa, pode ser até objeto, eu pego amor. Não, eu não suportaria saber que meu carrinho foi parar num ferro velho, exposto ao frio, ao calor, a chuva. Lá ficaria ele, completamente abandonado. Eu não ia ter paz. E se eu roubar um? Mas como vou fazer isso? Eu nunca roubei nada, muito menos carro. Sei que tem ligação direta, mas nem sei o que é isso e nem como faz. Ninguém costuma deixar o carro aberto e com a chave. È uma falta de confiança na raça humana. É triste ver isso. E tem mais, roubar um carro não tá certo. Eu vou ser uma ladra. Se eu morrer vou manchar minha vida inteira. Ninguém vai achar que é o único carro que eu roubei. Vão dizer que sou a maior ladra do pedaço e que bati o carro quando fugia da polícia. Dá pra imaginar a história toda. Tudo que fiz na vida vai ser manchado. Meu nome vai pra lama. Todos vão querer esquecer de mim. Se sumiu alguma coisa na casa de um amigo meu vão dizer que fui eu. Eu vou levar a culpa e não poderei dizer nada. Nem vou poder me defender. Roubar, nunca roubei nada.
( põe a mão no coração ).
Pra ter uma idéia nunca roubei nem coração de homem. Acho que não, pois se roubei o coração de alguém ele não me falou nada. Ficou calado, nem pensou em dar parte ou registrar queixa pra mim. Não, mais uma tentativa que valeu, mas não dá. Tenho que pensar em outro meio, mas qual? Já estou um tempão concentrada num meio de morrer.
Me ocorreu um pensamento. Se eu vou morrer eu poderia aproveitar e fazer o bem para alguém. Exatamente! Eu posso fazer o bem. É uma maneira de morrer e deixar alguém feliz. Bem, gente pra ficar feliz com minha morte não vai faltar. Já briguei muito com muita gente. Eles vão dar graças a Deus. O que Deus tem a ver com isso? A não ser que eu nasci, eu não gostaria de ter nascido, maldito espermatozóide que ganhou a corrida e furou o óvulo de minha mãe. Foi a única vez que eu ganhei alguma coisa. Esse espermatozóide devia ter ficado na sua, lá atrás. Agora eu penso que posso ajudar alguém, eu sempre gostei de ajudar, nunca fui egoísta. Eu posso doar meus órgãos para alguém que precise de um transplante. É, daí uma parte minha vai ficar viva em alguém. Espera aí! Parece estranho eu querer me matar e ao mesmo tempo querer deixar uma parte viva minha. Não, é normal. Não tem nada de estranho nisso. Assim alguém vai lembrar bem de mim. Aposto que a pessoa que recebe órgão de alguém não fica difamando o doador.
( ri ).
Mesmo que o doador seja ruim. Ele não fala mal do doador por que daí vão dizer que ele tem uma parte ruim dentro do corpo. Pra isso eu preciso deixar uma cartinha que quero doar meus órgãos. Nunca servi pra nada, agora pode ser que eu sirva pra algo. Meus órgãos podem ser úteis para alguém. É melhor parar. Não dá. Eles não pegam órgão de quem morreu. É, eles pegam os órgãos de quem está morto no cérebro, mas o corpo continua vivo. Como eu vou conseguir cometer um suicídio que só mate meu cérebro. Bem, pra matar meu cérebro basta eu ficar de frente com algumas equações de primeiro e segundo grau de matemática. Essa matéria sempre matava meu cérebro. Odeio matemática. A única matemática que gosto é o dinheiro entrando na minha conta. Mas é bom dizer que sempre foi o contrário. Eu sempre vi o dinheiro saindo de minha conta. E se eu for no hospital? Não, eles não vão querer matar meu cérebro para pegar meus órgãos.
( anda de um lado para o outro ).
Tenho que pensar em outra coisa. Mas o quê. Será que todos esses métodos já foram testados? É duro não saber sobre suicídio. A gente fica perdida.
( conta nos dedos ).
Esse já foi, esse também, mais esse, já tentei, mais um…
Foram muitos métodos, até não imaginava que existiam tantos. Podemos dizer que tem um método de suicídio para cada gosto. Sem opções a pessoa não fica.
( estala os dedos ).
Tem mais um, jóia, minha cabeça ainda funciona. Tem a tal da intoxicação alimentar. E como vou conseguir isso? Como vou conseguir uma comida estragada? Não existe a oferta de comida estragada em nenhum supermercado. Eles têm de tudo menos comida estragada. Eu não cozinho, nunca fui de cozinhar, minha mãe tentava me ensinar. Ela dizia que a comida prendia um homem. E eu pensava, como pode o homem viver livre com tanto lugar que vende comida: Bares, lanchonetes, restaurantes? Se esse ditado fosse a verdade os homens não saíam desses lugares. Pois é, eu vejo os homens por aí, livres da silva. Bem, lembro que tentei cozinhar algumas vezes, mas o Júlio dizia que eu estragava a comida, então ele trazia da rua… Não da rua em si… Ele trazia de algum bar ou lanchonete ou restaurante. Tive uma idéia! Eu compro a comida e deixo ela bastante tempo até estragar e daí…
( faz careta ).
Como? Não, eu sempre fui tão enjoada com o que colocava na boca, não, comer comida estragada não dá mesmo. Se eu comer garanto que não vai descer. É, mas eu vou ter que esperar quanto tempo para ela estragar? Não dá nem pra ter uma idéia do tempo. Também dá um remorso na gente. Só de pensar que vou comprar comida e deixar estragar já me vira o estômago. Não posso imaginar uma comida estragando e tanta gente passando fome. É, eu não posso morrer assim por que vou de consciência pesada. E sabe lá o que vai acontecer. Vai que como a comida estragada e só me dá uma diarréia? E vai que vou pra um hospital? Vão dizer que eu não aprendi nem a comer, que eu não sei o que como, que eu como só porcaria. É, não vou escapar das piadas. E tem mais, eu não vou agüentar o cheiro de uma comida que eu goste sem comer ela. É, eu tinha que ser inteligente, eu tinha que comprar uma comida que não gosto, daí eu ia deixar ele estragar sem dar uma beliscada sequer. Não, definitivamente não, comer comida estragada e ainda que não gosto já é demais. Nem com minha mãe fazendo aviãozinho ou trenzinho eu comia quando não queria. Eu batia na colher e dizia: BATEU! Agora que em ocorreu como conseguir comida estragada. Basta ficar esperando sair num jornal um lugar que vendia produto estragado. Daí era só telefonar e pedir para o dono entregar em minha casa. É, parece mais fácil agora. E a espera? Quanto tempo vou ter que esperar por uma lugar que venda produto estragado? Não, não dá mesmo. E doença? Também é um jeito de morrer?
( pensa ).
Mas esse jeito é mais difícil. Onde eu vou conseguir uma doença? Teria que ser uma doença fatal. Eu… Eu poderia entrar num hospital e chegar perto de alguém com uma doença terminal.
( faz careta ).
É difícil encarar. Nunca quis chegar perto nem de gente com doença leve, imagine doença fatal. Não suporto ver alguém que está para morrer.
( ri ).
Então não vou olhar no espelho.
Não, isso é sério. Eu nunca suportei ficar perto nem de bichinho que estava para morrer. Eu tenho apego a vida. Ficar doente é difícil. Uma gripe, uma febre, uma dor de cabeça, uma diarréia a gente pega, mas doença pra matar é mais difícil. E eu tomei muitas vacinas, tem um montão de doenças que eu não pego. Estou i-m-u-n-i-z-a-d-a. Se eu entrar num hospital podem me pegar e perguntar o que estou fazendo lá. Não vai colar que eu estou lá para morrer. Ninguém procura um hospital para morrer. Eles não vão acreditar, mesmo. Ei! Tem outra chance. É só eu pegar o lixo hospitalar. Levo pra casa e coloco a mão nele, coloco na boca, passo pelo corpo… Não… Não… Chega… Eu não sou um lixo.
( aumenta a voz ).
Eu não sou um lixo.
( faz silêncio ).
Se bem que quando Júlio estava indo embora ele disse que eu era um lixo.
( faz sinal de pare com as mãos ).
Está certo, ele não falou que tipo de lixo eu era. Se era lixo pra jogar em aterro ou lixo reciclável. Lixo reciclável é bem melhor, é outra coisa. A gente se sente importante ao ouvir. É um baita elogio. Não, eu não posso terminar assim, revirando lixo. O que meus inimigos iriam dizer? Que eu terminei no lugar que merecia, no lixo.
( senta no sofá ).
Esqueça esse método, não dá, vou pular pra outro. Mas o quê? Não me vem nada na cabeça. Vamos lá, pensa um pouco, calma, respire, concentra, é só livrar a mente de tudo e deixar vir a nova idéia. Deve ter mais jeito de fazer suicídio. Não pode ter se esgotado todas as maneiras.
( bate palmas ).
Vamos lá, pensa, pensa, vamos lá, venha novo método, venha, eu estou esperando, estou aqui… Aqui… Sentada pra não cansar. Espera aí, acho que está vindo uma idéia, acho sim, mais uma, quem sabe é essa.
( ri ).
Já sei, uma bomba, é, como não pensei antes? É só apertar o botão e pronto, eu não vou sentir nada. É um meio bastante rápido. Ei! Mas as pessoas vizinhas podem ouvir o barulho. Tem que ser um barulhão, pois se for um barulhinho é uma bombinha de nada. Aonde vou comprar uma bomba? Espera aí, eu lembro que há algum tempo tinha por aí receita para fazer bomba. Será que ainda tem? É, estou cheia de esperança. Isso pode dar certo. Agora lembrei, eu sempre fui muito ruim para seguir receita. Lembro quando ia fazer uma comida. Olha que mesmo com a receita do lado e todos os ingredientes eu não acertava. Alguma coisa dava errado. O erro era pequeno, mas já era o suficiente pra comida ficar ruim. Bem, se eu não consigo seguir uma receita de comida vou conseguir fazer uma receita de bomba? Acho pouco provável. E onde vou comprar os ingredientes? Não deve ter em loja de festa. É, seria bom comprar uma bomba pronta para o uso. E acho que uma fábrica não ia vender pra mim. A primeira coisa que eles iam fazer é perguntar pra que eu queria a bomba. Eu podia responder… O quê?… Já sei… Pra acabar com um formigueiro. Não, aposto que não ia colar. Ei! Mas eu acabei de lembrar de uma coisa, bomba não dá, se for muito forte vai me deixar que nem carne moída e se for mais fraca pode arrancar uma parte de mim. Isso é horrível. Não posso nem imaginar meu corpo sem um pedaço. Não, vão dizer olha lá, ela esqueceu um pedaço dela. Pode ser uma mão, alguns dedos, o braço, sei lá. Vão dizer isso por que sou muito esquecida e todo mundo sabe disso. Não, isso é demais pra mim. Nunca gostei de perder nada e não é agora que vou perder um pedaço de meu corpo. Sempre que esquecia alguma coisa eu voltava e ia a todos os lugares que fui até encontrar o que esqueci. Definitivamente, bomba não dá. E agora o que faço, o que vai ser de minha vida?
( põe as mãos na cabeça ).
Ei! E eu não fui me confessar. Gente eu não me confessei. Eu não me livrei dos pecados. É muito importante tirar todos os pecados. Assim eu vou para o céu… Céu… Céu… Tem que ser o céu. Eu não acho que vá para o inferno. Assim eu vou para o céu sem pecado algum. Mas pra isso eu teria que esperar até amanhã pra daí ir até uma igreja.
( aponta com a mão ).
Tem uma igreja aqui perto. Até fiz a comunhão lá. Lembro que sempre rezava pedindo uma vida longa e feliz. É, eu pedia uma vida longa e feliz. Rezava bastante.
( se espreguiça ).
Acho que é o fim. Não deve ter mais meio pra se matar.
( coloca a mão na boca para tampar um bocejo ).
E não é que tem. Meu Deus! É isso, eu achei outro meio, sim, asfixia. É só não deixar entrar ar nos meus pulmões que em alguns minutos eu morro.
( corre para a escrivaninha ).
Aqui está.
( retira um saco plástico ).
Isso aqui é a minha salvação. É só por na cabeça até o pescoço e já está feito. Hum! Eu posso amarrar o plástico no pescoço pra morrer com mais segurança.
( veste o saco plástico ).
Estou parecendo uma astronauta… E olha que eu vou decolar para o céu.
( faz careta ).
Ai! Mas isso é desconfortável mesmo. Não aconselho ninguém fazer isso. Dá uma sensação ruim. Daí a gente vê como é importante a respiração. Não… Não… Não estou sentindo nada… Será que vou morrer logo? Parece que não é dolorido morrer assim, eu estou bem. Puxa! Até que enfim achei um método bom pra morrer. Viu, quem não desiste sempre consegue o que quer. Eu não desisti e encontrei um método para morrer da hora. Esse eu recomendo. Devia de ter pensado nele por primeiro. Assim eu já estaria morta.
( grita ).
Não!
Não pode ser. O ar está entrando, o que faço? O ar não pode entrar. Eu preciso ficar sem ar. Por falar em ficar sem ar eu fiquei desse jeito quando vi o Júlio pela primeira vez. Fiquei completamente sem ar.
( suspira ).
Completamente sem ar.
Hora de acordar! O que faço?
( corre até a escrivaninha e pega um barbante ).
Isso está bom. É só amarrar o saco no meu pescoço e pronto. Daí não entra ar e eu vou morrer.
( começa a amarrar o barbante no saco do pescoço ).
Ei! Tá começando a faltar ar. O que faço? Tá me dando um calorão, minha cara tá pinicando toda. É, esse método é dos bons.
( tosse ).
Ei! Mas que cheiro é esse? Hum! Que cheiro ruim. Não…
( tira o saco rapidamente ).
É um saco de carne que comprei. Meu Deus, eu ia me matar com um saco de carne? Já faz tempo que comprei essa carne. Estava tão distraída que nem percebi o cheiro… Ai… E… Olha aqui…
( chacoalha a mão ).
Ainda tem gordura do assado nele. Eu estou toda lambuzada de gordura. Essa não. É um dos motivos por que não cozinho. Eu detesto ficar com cheiro de gordura e a própria gordura no corpo, na roupa, no cabelo.
( espana o corpo ).
Sai gordura, sai.
( levanta o saco plástico ).
Como eu não vi antes? Olha, não tem marca nenhuma, é um saco qualquer. Como eu pude pensar em me matar com um saco assim?
( ri ).
Tem que ser uma sacola plástica de butique de grife. Tem que ser uma sacola que represente luxo. Eu não posso morrer com uma coisa tão brega.
( joga o saco no chão ).
Eu sempre dei valor pra marca e não é agora que vou entregar minha vida num saco anônimo. Não mesmo.
( vai até a escrivaninha ).
É! Não tem nenhuma sacola aqui, muito menos chique. Faz tempo que não faço compra. Nem é bom lembrar disso. É bom esquecer. Nem os folhetos de promoção as lojas que eu comprava me mandam mais. Parece que sentem o cheiro de quem está sem grana. Também, o que ia fazer com os folhetos? Mas é bom receber correspondência. É ruim ir lá na caixa do correio e não ter nada todo dia, um dia depois do outro. A gente se sente completamente abandonada. É ali na caixa do correio que a gente vê se alguém gosta de nós. Bem… E agora? Qual meu próximo passo?
( anda e tropeça ).
Fenomenal, acabei de pensar em outro método. Meu Deus! É melhor para de falar em Deus. É melhor falar com ele mesmo. Logo estarei com ele. Esse é fácil, é só eu me jogar na escada. Isso aparece bastante em filme. Não que seja suicídio. Nos filmes ou a pessoa cai por cair mesmo ou é empurrada. Ei! Eu não quero que pensem que alguém me empurrou. Espera aí! É só eu escrever uma carta dizendo que ninguém me empurrou. Não, não posso fazer isso. Daí eles vão saber que é suicídio. Se ficar como um acidente eu saio em noticiário de televisão, rádio, jornal e revista. Vão pensar que eu tropecei ou me desequilibrei ou fiquei tonta e perdi os sentidos na escada. Daí eu rolei abaixo e morri.
( levanta os braços ).
Morri de quê? Do que eu vou morrer? Parece que eu já ouvi que a morte mais comum quando se cai em uma escada é de pescoço quebrado.
( gira o pescoço ).
Quebrar o pescoço? Daí eu não vou conseguir mexer ele? Ele vai ficar mole, balançando de um lado para o outro?
( cai no chão, rola levanta e repete ).
Parece fácil, é só eu ir até a escada do prédio e me jogar escada abaixo. E logo estarei com o pescoço quebrado. Não, o que eu estou dizendo? Como eu posso saber se vou quebrar o pescoço? Eu posso quebrar o braço, a pena, a mão, o pé, pode até não acontecer nada e depois da queda eu sair andando. Bem, daí é só eu me jogar de novo até conseguir o que quero. É, mas se eu quebrar alguma coisa não vai dar nem pra me levantar. Daí vou ter que ir para um hospital e ser engessado.
( chacoalha a cabeça ).
Não, eu não posso acreditar que ficarei engessado por alguns meses. Dever ser horrível andar com gesso. A gente perde a liberdade de movimento. E pra tomar banho com aquele gesso? A única parte boa do gesso é que os amigos assinam nele e deixam mensagem. Mas no meu caso que vai escrever no meu gesso. Só se eu pedir para o médico que me engessar, para o porteiro do meu prédio, para o motorista do táxi que eu usar. Minha assinatura não vale. Eu podia encher de mensagens minhas. Não tem graça nenhuma. É! Me jogar em uma escada não está com nada.
( boceja ).
Confesso que estou cansada de tanto pensar.
( deita no sofá ).
( toca o telefone ).
TRIM, TRIM, TRIM.
Não pode ser. De novo?
TRIM, TRIM, TRIM.
Não vou atender.
( cruza os braços ).
TRIM, TRIM, TRIM.
Ei! Talvez seja o bandido querendo saber se eu estou bem ou se eu estou precisando de alguma coisa.
( atende o telefone ).
Alô! Marcelo. Quanto tempo.
O quê? Como estou indo? Ainda não consegui ir…
( aponta para cima ).
O que disse?
Tem uma notícia boa? E depois vem a ruim…
Há! Só boa? Não tem ruim, então diga…
Conseguiu um emprego pra mim?
Cara! Muito obrigada, do fundo do coração. Mas o que vou fazer? O emprego é de quê?
O quê? Vou animar festa infantil?
Mas nunca fiz isso. O que precisa?
Hum! Ter amor a vida pois vou lidar com crianças.
Cara! Veja uma coisa, amor a vida é o que mais tenho. Ora, eu tenho, não tenho?
Então esse emprego é meu, Marcelo? E quando começo?
Amanhã, sendo assim está ótimo. Então está certo, a gente se vê.
Tchau!
( desliga o telefone ).
Todo esse tempo que pensei na morte nada mais fiz que exaltar a vida. De um certo modo sempre estamos morrendo e nascendo. São as transformações da vida. Hoje morreu uma Adriana sem rumo e nasce outra Adriana repleta de esperança, tal qual morre a noite para nascer o dia.
Viva, eu consegui morrer.
( cai no chão ).
Viva!
( fica em posição fetal ).
Estou nascendo para uma outra vida.
( ri bastante, canta e dança ).
Lá, lá, lá, rá, rá, rá, Lá, lá, lá, rá, rá, rá…
( vai até a escrivaninha e pega o revólver ).
Bem, preciso arrumar toda essa bagunça, deixa eu começar pelo revólver…
( o revólver escapa de sua mão e cai no chão, produzindo um barulho, sai um tiro e acerta Adriana ).
Adriana cai morta.

FIM

A SUICIDA ATRAPALHADA 1

obrigado…

3 03UTC junho 03UTC 2009

ola á, obrigado wordpress…

http://br.geocities.com/amolhe/lista

SAMUEL R. KROSCHINSKI { OFICIAL } 16*

Olá, mundo!

3 03UTC junho 03UTC 2009

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